É nítida no dia a dia a volúpia chantageadora do Congresso Nacional. Sempre alinhado com os poderosos lobistas que o frequentam, o Legislativo empareda o Executivo em suas tentativas de promover justiça social, pouco dela que seja, alegando a falsa preocupação com as contas públicas e fazendo genuflexão à Faria Lima. Emendas têm de ser liberadas sem freio ou critério, caso contrário o fantasma do impeachment assombrará o presidente da República. Algo nesse sentido não seria surpresa sendo os parlamentares quem são.
Na presente legislatura, além do surto com o IOF, não foram poucos os momentos em que o Congresso avançou sobre a parcela mais pobre da população brasileira. No fim de 2024, a PEC 54, o PLP 210 e o PL 4.614, modificando BPC, o Bolsa Família, o abono salarial e limitando o aumento do salário mínimo foram aprovados na Câmara e no Senado. Lula fez vetos ao PL 4.614, derrubando a exigência de comprovação de deficiência moderada ou grave para recebimento do BPC e revogando a regra sobre reingresso no Bolsa Família.
Já o salário mínimo, graças aos nobres congressistas, só terá aumento real – acima da inflação – se o PIB de dois anos antes for positivo. Caso contrário, será corrigido pelo INPC seco.
O Brasil também deve ao Congresso Nacional a derrubada de propostas progressivas que beneficiavam diretamente os mais pobres no texto da Reforma Tributária. Ficaram garantidas apenas isenções na Cesta Básica.
Ao aprovar a PEC 54 e o PLP 210, o Parlamento congelou salários de servidores e instituiu o contingenciamento automático de gastos, afetando programas sociais, de saúde e educação. No caso do segundo, Lula vetou apenas o trecho que proibia o bloqueio de emendas parlamentares impositivas, incluindo emendas individuais e de bancada. O governo argumentou que impedir o bloqueio dessas emendas violaria uma decisão do STF (ADPF 854), que exige tratamento igual entre emendas e despesas discricionárias.
Fresca na memória está a criação de 18 novas cadeiras na Câmara, de 513 para 531, o que eleva os gastos dos “fiscalistas” daquela casa em cerca de 65 milhões de reais.
O leitor e a leitora sabiam que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, é médico? Sim, é médico. Não se sabe se algum dia exerceu a profissão com a mesma desenvoltura com que comanda o corpo parlamentar mais fisiológico e reacionário de que se tem notícia. Deputado federal desde 2011, então com 21 anos, vem sendo reeleito pela sua Paraíba, primeiro pelo MDB, ex-PMDB, depois pelo PRB, atual Republicanos.
Motta vende a imagem do liberal sempre aberto do diálogo, educado, bem penteado. Essa gente é um perigo, tanto mais quando segura nas mãos um belo naco do poder. A aparência janota e o discurso conciliador costumam camuflar potenciais tiranos, especialmente os formados na escola de Eduardo Cunha e Arthur Lira.
Não se pode abdicar da psicologia para analisar o comportamento daqueles que detêm poder, algo muito mais relevante do que vazar futricas de “bastidores”, palavrinha que faz jornalistas superficiais se acharem os tais, quando não passam de serviçais das fontes.
O psiquiatra Jerrold M. Post realizou estudos importantes sobre indivíduos obscuros alçados ao poder. Não que Hugo Motta se encaixe nas descrições abaixo, mas é uma possibilidade. Atirar pelas costas, afinal, não é conduta abonadora.
Post fundou o Centro de Análise de Personalidade Política da CIA. É autor de obras como “Dangerous Charisma: The Political Psychology of Donald Trump and His Followers” (2019) e “Leaders and Their Followers in a Dangerous World” (2004). Em sua avaliação, indivíduos que ascendem ao poder a partir da obscuridade e se tornam tiranos geralmente compartilham um tal de “narcisismo maligno”, distúrbio severo que beira a paranoia.
Esse narcisista combina senso inflado de importância com necessidade obsessiva de admiração. Quando contrariado, reage mediante humilhação ou vingança, nem sempre com atitudes toscas como as que marcaram Jair Bolsonaro no Executivo, mas frias e calculadas – um tirano parlamentar, sentindo-se ludibriado, age como Eduardo Cunha no processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
O caso de Hugo Motta enquadra-se na patologia denominada Síndrome do Conciliador Cativo, que caracteriza moderados que, para sobreviverem politicamente, se submetem à lógica autoritária de seus aliados.
Um exemplo acabado de conciliador cativo, além de Motta, é o ex-presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos Kevin McCarthy, que se apresentava como moderado e “homem do diálogo” dentro do Partido Republicano, tendo sido eleito com promessas de governabilidade bipartidária.
No exercício da presidência da casa legislativa, entretanto, fez repetidas concessões à extrema-direita trumpista para se manter no cargo, incluindo abertura de processo de impeachment sem provas concretas contra o presidente Joe Biden. McCarthy também permitiu que parlamentares extremistas ditassem a pauta e usassem o Congresso como palco de desinformação. Acabou destituído por seu próprio partido ao perder o controle de sua ala mais radical.
Desnecessário buscar explicações profundas, tampouco “bastidores”, para justificar o golpe no governo e nos pobres que o Congresso Nacional acaba de aplicar ao derrubar o decreto que aumentava a alíquota do IOF. A elite brasileira predomina no Parlamento, e o Parlamento brasileiro incorpora os princípios históricos dela. Empareda o Executivo, chantageia-o. E busca muito mais que emendas que lhe garantam a reeleição: objetiva manter o Brasil no topo do ranking da desigualdade.
Quem afirmar que não existe luta de classes estará mentindo, e nessa luta a classe alta mostra-se cada vez mais forte, já que constitui o Congresso Nacional.
É bem fácil constatar as razões que levam deputados e senadores a trabalhar em prol dos endinheirados e contra os pobres: 60% dos deputados federais e 70% dos senadores declararam patrimônio superior a 1 milhão de reais ao Tribunal Superior Eleitoral nas eleições de 2022.
Boa parte dos congressistas possui renda adicional ao salário (39,3 mil) entre 20 mil e 100 mil. Vinte e cinco por cento deles declaram-se donos de fazendas, construtoras, transportadoras, clínicas, escolas privadas, rede de lojas e outros. O restante são profissionais liberais bem-sucedidos, pastores, bispos, apresentadores de rádio e TV.
Uma análise combinada de patrimônio, profissão e nível de instrução revela que a absoluta maioria dos parlamentares pertence à classe alta ou à classe média alta. Os representantes da faixa mais vulnerável da sociedade são numericamente irrelevantes.
As casas legislativas, por conseguinte, não refletem a disparidade de renda – e de oportunidades – da sociedade brasileira, portanto não estão aptas a representá-la. A sub-representação dos pobres no Parlamento mata a luta pela igualdade. A única solução é que o nosso sistema político e eleitoral deixe de constituir uma barreira à ascensão política de representantes da classe baixa.
Lula comemora, com razão, o aumento do movimento de passageiros nos aeroportos brasileiros nos primeiros meses de 2025. Foram 51 milhões de viajantes de janeiro a maio, um crescimento de 10% em relação ao mesmo período em 2024. Os dados constam do Relatório de Demanda e Oferta, da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Contagem regressiva para a gritaria da elite do atraso.
Os ricos que desde sempre viajaram de avião não toleram gente de classe média – ou ex-média baixa, digamos – lotando voos e aeroportos. São queixosos aqueles que, por exemplo, se manifestam contra coisas como isentar do Imposto de Renda quem ganha até 5 mil reais mensais por mês. “Patriotas” que reclamam de pagar imposto enquanto adotam sofisticadas técnicas de sonegação.
Pobre incomoda rico, apesar de fortunas serem construídas com a exploração do seu trabalho.
Recordar é viver. Lembremos Danuza Leão, irmã de Nara, colunista de jornalão, modelo de sucesso nos anos 1960 e que faleceu em 2022. Quando do primeiro boom nos aeroportos brasileiros, em 2012, ela sentenciou em O Globo: “Ir a Nova York perdeu a graça. Agora até empregada doméstica pode ir”.
Naquela época a imprensa mainstream, com um tom de desdém de fazer inveja a Odete Roitman, noticiava que “Classe C descobre os aeroportos”. Sim, para incômodo da elite do atraso, muitos trabalhadores trocavam os pisos engordurados das rodoviárias pelas superfícies marmóreas dos aeroportos.
Danuza não estava sozinha. Arnaldo Jabor era outro usuário frequente da ironia dirigida à chamada “nova classe média” e seus hábitos de consumo. O inefável Diogo Mainardi, então numa Veja em sua pior época, via o aumento do consumo popular como “vulgarização”.
E, claro, os economistas neoliberais ainda hoje presentes na mídia tratavam o aumento do consumo como “fruto de um populismo irresponsável”, decorrente de “um endividamento excessivo”. Quase nada mudou: Lula segue melhorando a vida do povo e a elite do atraso protestando contra qualquer sintoma de que o país avança, pouco que seja, na direção de mais igualdade.
Ricardo Faria, dono da Global Eggs, sediada em Luxemburgo, alcunhado Rei do Ovo, é o retrato perfeito daquilo que o sociólogo Jessé Souza chamou de “elite do atraso”. Personifica o sujeito habilidoso em ganhar dinheiro, mas desprovido de inteligência e sensibilidade para quaisquer outros aspectos da vida em sociedade, incapaz de olhar além do próprio êxito financeiro.
O Rei do Ovo remunera mal seus empregados – um operador de produção de suas granjas ganha em média R$ 1.670,00 mensais. Como legítimo membro da elite do atraso, não gosta de pagar impostos no Brasil e transferiu seu domicílio fiscal para o Uruguai. Como seus pares, acha que o Estado brasileiro interfere demais nos negócios, especialmente no campo trabalhista. Obviamente, deve detestar pagar coisas como 13º salário e férias. O FGTS deve lhe causar arrepios.
Faria é um dos empresários mais ricos do Brasil, dá-nos conta a repórter Isabela Jordão, da direitista revista Oeste. À Folha de S. Paulo, o Rei do Ovo disse que compra uma empresa por mês. É, lógico, um defensor da informalidade no trabalho e nunca a relacionou com a precariedade.
Eis uma de suas frases sobre o ambiente de negócios no Brasil: “Operar no Brasil é comprar uma canoa, pegar o remo e começar a remar rio acima. Aí surge uma árvore caída, e dali a pouco você uma cobra, um jacaré”. Brilhante.
É um idólatra da meritocracia – bidu! -, considerando-se ele próprio um modelo de sucesso pelo esforço pessoal. Claro, esforço impulsionado pelo pai médico e a mãe engenheira, que lhe proporcionaram um intercâmbio nos Estados Unidos aos 15 anos e outros empurrõezinhos.
O Rei do Ovo, na verdade, talvez não passe de um baba-ovo. Baba-ovo de um país hoje xenófobo, como os Estados Unidos de Donald Trump, para ele modelo em termos de relações de trabalho, cuja economia foi construída pelos imigrantes ora expulsos.
Financiador de candidaturas parlamentares como as de Kim Kataguiri (União/SP) e Marcel Van Hattem (Novo/RS), o Rei do Ovo causaria surpresa se visse com bons olhos o Bolsa Família, que para ele financia vagabundos. De fato, a elite do atraso, da qual Faria é prócer, age como se desconhecesse os resultados do programa inclusivo, aplaudido e copiado mundo afora.
Certamente, Ricardo Faria não se comove – é provável que se incomode – com as recentes mudanças morfológicas na estrutura da sociedade brasileira, em parte desfeitas após o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, em parte retomadas com o terceiro mandado de Lula.
O Rei do Ovo, a fazer jus à elite da qual é prócer, a elite do atraso, jamais reconhecerá a importância de se construir um país de oportunidades àqueles que não podem vestir a fantasia da meritocracia. Nunca foi tão verdadeiro o diagnóstico de Jessé Souza, extraído do livro “A Tolice da Inteligência Brasileira – Ou Como o País se Deixa Manipular pela Elite”:
“Na realidade essa classe (chamada de ‘nova classe média’) não possui quaisquer dos privilégios de nascimento das classes médias e altas. Ao contrário, seus membros típicos têm que trabalhar desde cedo, frequentemente já aos onze ou doze anos, e conciliar escola e trabalho. Muitos são também superexplorados com jornadas de trabalho de até catorze ou quinze horas por dia, acumulando mais de um emprego e fazendo bicos de fim de semana, e, quando têm acesso ao ensino superior, o fazem em universidades privadas, cuja qualidade é muito inferior às universidades públicas, estudando à noite ou fazendo cursos à distância”.
São as pessoas descritas no parágrafo acima que, para o Rei do Ovo, deveriam se deixadas à própria sorte pelo Estado, livres para “empreender”.
Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes não acabaram com a Cracolândia, porque não se resolve a complexa questão do tráfico-consumo de drogas mandando a polícia baixar o pau nos usuários e espalhando-os pela cidade. Já é farto o noticiário sobre mini-Cracolândias distribuídas por São Paulo, bem como os relatos sobre o tipo de abordagem que vem sendo praticado pelos policiais para dispersar as aglomerações.
É notório que a polícia não possui capacidade – talvez nem vontade – para prender traficantes, não os chefes, de modo a ferir de morte o crime organizado que abastece as Cracolândias grandes ou pequenas. O PCC é mais poderoso e articulado que as polícias civil e militar, seus membros são melhor remunerados. A polícia prende meia dúzia de pequenos traficantes por mês, o que não representa nada. Nem se fale dos policiais cooptados pelo tráfico, os quais garantem a intocabilidade de certas biqueiras.
Nunca houve um conjunto de ações coordenadas de saúde e segurança envolvendo a questão das Cracolândias. Todos os prefeitos e governadores recentes prometeram acabar com ela. João Doria, em determinado momento, afirmou de modo pomposo: “a Cracolândia acabou”. Ele fizera uma intervenção no então reduto e dispersara os usuários por uma semana.
O governador Tarcísio, candidato da mídia mainstream a presidente da República, de mãos dadas com o prefeito Nunes, aprofunda uma catástrofe social, higieniza com violência guetos de dependentes químicos no centro da cidade para desenhar seu cartão postal. Pouco lhe importa se essa população adoecida e vulnerável vai praticar seu vício em alguma quebrada da periferia.
Além de um projeto audacioso e complexo de saúde e apoio social para salvar os dependentes, é preciso desmontar as células do crime organizado que os escravizam. Claro, se a intenção for resolver de fato o problema.
São Paulo tem mais de 90 mil moradores de rua, segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais. Entre essa população encontram-se tanto o sujeito que empobreceu e ficou sem ter para onde ir quanto aquele que sofre de transtornos mentais e perdeu a família. E há os usuários de drogas. Não se pode adotar o mesmo procedimento para cada uma dessas pessoas, é necessária uma política social flexível para ajudar seres humanos com necessidades diferentes.
A droga segue o dinheiro, por isso não há muita droga na África e uma quantidade enorme nos Estados Unidos. A droga, em várias formas, começou a abundar há cerca de 50 anos na Capital e no Interior paulistas, onde o dinheiro se fez presente. Em São Paulo, como no mundo, quem tem mais dinheiro usa mais droga, só que o filhinho de papai dos Jardins não é incomodado pela polícia.
Se o leitor for a favelas ou regiões mais pobres da cidade de São Paulo, verá um consumo de droga muito grande, mas nesses locais a pessoa usuária participa da distribuição da droga, do crime organizado, como forma de sustentar o seu próprio consumo. Vira criminosa.
A convivência humana enriquecedora anda rara. O movimento falsamente antipolítica – que na verdade tem servido à extrema direita – há bastante tempo mostrou-se anti-inteligência, inimigo da cultura. As redes sociais são o palco ideal para exposição do conhecimento superficial ou mesmo da burrice orgulhosa. Os intelectuais viraram alvos de ataques por serem intelectuais. Vive-se da louvação da ignorância ou do coaching, ao gosto o freguês.
Antigamente, os desinformados preocupavam-se em aparentar algum grau de conhecimento por meio da pejorativa “cultura de almanaque”, decorrente de conteúdos primários e anedóticos dos almanaques populares. Alguns revelavam até certa erudição discursiva, ainda que baseada em lugares-comuns, dados descontextualizados e generalizações. Talvez a Wikipedia seja o almanaque dos tempos atuais, a despeito de possuir certa utilidade prática.
Ocorre que algo bem pior que a cultura de almanaque toma conta destes tempos sombrios. É a “cultura da orelhada”. O sujeito escuta uma bobagem dita num vídeo qualquer em uma rede social qualquer e a compra pelo valor de face. Sai replicando-a doidamente. O cara-pálida assiste a cinco minutos de um podcast com Alexandre Schwartsman e vira pregador contra a “gastança” do governo. Parece, o cara-pálida, não compreender que Schwartsman levou anos e anos de estudo para se tornar um neoliberal ultrapassado, não o conseguiu a golpe de orelha.
Dia destes, o colunista foi vítima de um orelhudo jurídico, com ímpetos de estremecer consensos. A certa altura da explanação patética, nosso interlocutor bradou: “Pode-se dizer o que quiser dele, mas ninguém entente tanto da Constituição brasileira quanto Michel Temer”.
Sabe-se lá de que boca o incauto ouviu tamanho elogio ao ex-presidente golpista, hoje consultor de Jair Bolsonaro. Certamente, escutou a baboseira de algum admirador da desintegração constitucional promovida por Michel Temer. Na verdade, não se sabe o quanto Temer “entende” da Constituição, mas sua capacidade de destruí-la é notória. Seu legado “constitucional” perdurará, destacando-se o retrocesso social provocado pelo teto de gastos e os horrores da reforma trabalhista, responsável por notável precarização do trabalho.
Com sua reforma trabalhista, o “constitucionalista” Michel Temer ameaçou destroçar a CLT – não o fez por completo, mas quase. Agradou, como sempre, a elite que considera os custos da contratação formal um entrave à produção e à ampliação dos negócios.
A reforma da Previdência que Bolsonaro impingiu ao país, com ajuda do Congresso mais obtuso da História da República, foi concebida pelo governo Temer, como se sabe. Só não emplacou naquele mandato porque o mandatário perdeu qualquer condição de negociar com os parlamentares, denunciado que fora por corrupção após o vazamento da famigerada conversa com Joesley “Friboi” Batista.
Orelhudos têm extrema dificuldade em separar atos perpetrados por pretensos ditadores de ações desencadeadas por oprimidos. Os ouvidos do colunista foram mais uma vez torturados, na semana passada, por um amigo (sim, um amigo) “conhecedor da História”, que disparou a seguinte e infeliz comparação: “Vocês prendem os cidadãos que participaram do 8 de Janeiro mas defendem os índios que fizeram quase a mesma coisa no Congresso e no Supremo”.
Aos fatos, amigo orelhudo.
Em 5 de agosto de 2024, um grupo de lideranças indígenas tentou entrar no STF para acompanhar uma reunião de conciliação sobre o marco temporal. Foram impedidos pela segurança do tribunal e, depois, o presidente Luís Riberto Barroso se desculpou pelo incidente, admitindo que foi “um erro grave da segurança”. Em 10 de abril de 2025, cerca de 8 mil indígenas, participantes do Acampamento Terra Livre (ATL), marcharam em direção ao Congresso Nacional. Ao se aproximarem do gramado onde estão os prédios, removeram grades de segurança e adentraram o espaço. As polícias legislativas – da Câmara, do Senado e a PM-DF) – reagiram com bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta Houve feridos, inclusive a deputada Célia Xakriabá, que precisou de atendimento. O MP-DF abriu investigação sobre uso “excessivo de força”.
Em ambos os casos, os representantes dos povos originários, donos naturais de sua terra, manifestavam-se contra a instituição do Marco Temporal, que afeta claramente seu direito constitucional. Não foram invasões violentas ou ataque aos Poderes da República, muito menos tentativas de usurpar o Estado Democrático de Direito, mas sim de protestos simbólicos voltados à causa territorial da gente mais verdadeiramente brasileira.
Os advogados de Jair Bolsonaro e dos militares que prestaram depoimento a Alexandre de Moraes nesta semana não primam pela criatividade – não até agora. De carreira consagrada, hábeis estrategistas e supostamente conhecedores da lei, optaram pelo reconhecimento de tramoias e pela incapacidade de levá-las a cabo. É quase como pedir a condenação acrescida de uma dose de piedade pela incompetência dos réus em concluir seus crimes.
De todos os depoentes, mesmo aquele que ficou em silêncio parcial, pode-se extrair a seguinte postura-síntese: sim, tramamos usurpar o resultado do pleito que levou Lula à Presidência da República, mas não conseguimos adesão e força suficientes para que nosso plano se concretizasse. Portanto, olhem com olhos condescendentes para estes golpistas incapazes.
Se assim agem por orientação dos seus advogados, resta-nos imaginar que projetem ações pós-condenações que amenizem as dores do encarceramento. Existe a hipótese de revisão criminal, a qual pode ser tentada para rever a condenação total ou parcialmente, objetivando redução de pena, reconhecimento de nulidades ou até anulação da condenação, se provar-se erro judiciário.
Intriga, de todo modo, como os argumentos dos réus em tela, certamente orientados por seus advogados, revelam desconhecimento legal ou mostram que eles almejam tão somente uma sentença menos dolorosa. Não deixa de ser um atestado de culpa.
O artigo 14 do Código Penal diz que quando os atos preparatóriosultrapassam o mero planejamento e se iniciam atos de execução, mas o crime não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente,configura-se a tentativa, que é punível. Já a Lei 14.197 / 2021, a dos crimes contra o Estado Democrático de Direito, estabelece claramente que conspiração ou incitação a golpe de Estado, por exemplo, são puníveis mesmo sem execução concreta.
Ocorre que mesmo o argumento da idealização sem consequência cai por terra quando se tem o ataque violento às sedes do três Poderes da República, o malfadado 8 de Janeiro, com incentivadores, organizadores e patrocinadores.
Jair Bolsonaro passou os quatro anos do seu mandato presidencial dando sinais de que não aceitaria a derrota eleitoral na sua tentativa de reeleição. Tais sinais foram claros, dados em palanques, diante de câmeras, gravadores e microfones. Arroubos retóricos, quando emanados da boca do presidente da República, não são meras exteriorizações de traços de personalidade. Comovem os incautos e instigam os fanáticos, insuflam multidões. Frequentemente levam a tragédias.
Por obra da democracia brasileira e força de suas instituições, desta vez a tragédia recai sobre os próprios agentes da tentativa de golpe, e não sobre o país. Em tal cenário, seria interessante saber o que estão pensando os golpistas que foram agora chamados de “malucos” pelo réu maior acovardado.
A rendição da mídia aos princípios de “o mercado” é absoluta. Não se questiona a fixação dos rentistas com os “gastos” do governo, tampouco se pergunta se os cortes que propõem não prejudicariam em demasia a vida dos brasileiros de média e baixa rendas. Os donos do dinheiro e da dívida pública exigem que o Estado lhes sirva incondicionalmente, e a mais ninguém.
O empenho do momento é por escandalizar a proposição de aumento do IOF, como se existisse algo de draconiano em cobrar mais imposto de categorias sempre acima das crises. A quota de sacrifício não pode alcançar a turma da bufunfa, mas os aposentados, os usuários do SUS e outros tantos.
Comprometida com os idólatras da austeridade, historicamente a serviço de regimes fascistas ou quase, a mídia trabalha para pintar uma realidade dramática e favorecer Tarcísio de Freitas – sim, ele é o nome de “o mercado” – contra Lula em 2026.
Salvam-nos jornalistas como Pedro Cafardo, do Valor. Seu artigo de 10 de junho, intitulado “Coisas que acontecem num certo país infeliz”, é primoroso. Cafardo alude à ridícula propaganda política, em veiculação, que apregoa: “….e se tudo está caro, que saudade do Bolsonaro!”. Em resposta, como faz Cafardo, bastaria lembrar que a inflação nos últimos dois anos registrou a média de 4,73%, enquanto nos anos Bolsonaro chegou a 6,17% ao ano.
Pedro Cafardo nos alerta também que a taxa de desemprego no Brasil foi de 6,6% no primeiro trimestre de 2025, percentual próximo do mais baixo da série histórica. A desigualdade, medida pelo índice de Gini, foi no ano passado a mais baixa de História. Segundo a ONU, destaca o colunista do Valor, o número de brasileiros que passam fome caiu, em 2023, de 17,2 milhões para 2,5 milhões.
Reproduzamos um pouco de Cafardo: “O PIB desse país (o país infeliz do título) surpreendeu novamente os pessimistas e cresceu 1,4% no primeiro trimestre, índice superior ao dos países da OCDE e do G7 – ambos os grupos avançaram minguado 0,1%. O crescimento se dá a despeito da imposição de uma assombrosa taxa básica de juros, de 14,75% ao ano, nove pontos percentuais acima da inflação, que desincentiva investimentos”.
Pedro Cafardo ainda destaca corajosamente no jornalão mainstream que “nesse país pessimista, atingido há décadas pelo vírus da desindustrialização, a indústria voltou a crescer: 3,1% no ano passado. Em março, avançou 1,2% sobre fevereiro e 3,1% sobre março de 2024”.
Ainda há jornalistas no Brasil. Mas, na imprensa tradicional, são raros os que tenham a honestidade factual de Pedro Cafardo.
Coleguinhas de comédia saíram em solidariedade a Léo Lins, um neofascista sem graça que encarna todos os preconceitos comuns aos bolsonaristas. Sim, o corporativismo também está presente na classe humorística, ainda que chamar Lins de humorista constitua deferência inadequada. A turba da “liberdade de expressão” não tem a mais parca noção do que seja liberdade, tampouco expressão. Enxergar um palco como espaço de inimputáveis é uma distorção primária do conceito de permissividade artística. O artista não está autorizado a cometer crimes no exercício da profissão.
Léo Lins cometeu alguns crimes no show que o levou à Justiça, e a sentença da juíza federal Bárbara de Lima Iseppi os descreve muito bem. Claro está que a condenação a oito anos de prisão parece exagerada – que a defesa encontre os argumentos penais necessários para modificá-la.
Não, contar piada não virou crime, mas não se permite mais o cometimento de crimes sob o escudo da piada. A magistrada enquadrou Léo Lins na Lei n. 7.716 / 89, que define como crime praticar, induzir ou incitar a discriminação e o preconceito racial. O texto da norma não isenta as piadas.
No quesito “impunidade artística”, os neofascistas do humor estão ainda mais lascados depois da promulgação da Lei n. 14.532 / 23 – também considerada pela juíza na sentença de Léo Lins, e que altera a 7.716 / 89 -, a qual contempla o chamado “racismo recreativo” (belo termo). Pela nova lei, a injúria racial passa a ser considerada uma forma de racismo, tornando-se portanto imprescritível e inafiançável, com penas mais severas. Também preveem-se penas para atos de racismo praticados no contexto de atividades esportivas, religiosas, artísticas ou culturais. Nos casos em que o racismo é praticado em ambientes de recreação ou entretenimento, as penas podem ser aumentadas de um terço à metade, a depender das circunstâncias.
Para desespero daqueles que só provocam risos em trogloditas, a ideia do animus jocandi, pela qual o humor possui liberdade ilimitada, está com os dias contados, pois seu argumento destoa do princípio da dignidade humana. Ou seja, os humoristas não possuem um habeas corpus perpétuo para ofender, discriminar, humilhar. Como disse o criminalista Guilherme Carnelós, “a liberdade de expressão é pilar da democracia, mas não pode ser usada como um salvo-conduto para reprodução do preconceito”.
A quantidade e a gravidade dos impropérios que Léo Lins comete no show que motivou sua condenação – e em toda sua carreira, como é notório –, são assustadoras. A imprensa já os reproduziu em número suficiente para nausear multidões, mas fiquemos como um, à guisa de ilustração: “Tem gente que fala: ‘o negro não consegue arrumar emprego’. Mas, na época da escravidão ele já nascia empregado e também achava ruim! Aí é difícil ajudar! Aliás, se o Dia da Consciência Negra é feriado para os negros, Quarta-Feira de Cinzas deveria ser feriado para os judeus”.
Em sua defesa, Léo Lins atribuiu as falas criminosas a “um personagem”, e justificou-as pelo objetivo único de “fazer rir”, atentando contra a inteligência da juíza e de todos nós.
Neofascistas como Léo Lins são figuras que surgiram às pencas na mesma onda que levou Jair Bolsonaro à Presidência da República. Fazem parte do mesmo movimento global reacionário. Retransmitem com seu humor de mau gosto todo o recado violento, medieval, que o bolsonarismo traz à sociedade. Sintomaticamente, são incapazes de cometer uma piada que seja sobre nossas elites tradicionais, ricas, brancas, machistas e endinheiradas.