Autor de livro sobre o PCC lança luz sobre o debate da segurança pública

Por Paulo Henrique Arantes

Todo mundo virou especialista em segurança pública depois da última chacina patrocinada pelo troglodita que governa o Rio de Janeiro, aplaudida por trogloditas que governam outros Estados e por significativa parcela da população, na verdade gente incauta, encurralada entre o crime e a incompetência estatal para combatê-lo. As análises vão desde o repúdio natural pelos defensores de direitos humanos até o enaltecimento pelos idólatras dos esquadrões da morte.

Nesse cenário de muito palpite e pouca racionalidade, sobressai pelos elevados patamares de conhecimento e poder argumentativo o sociólogo brasileiro Gabriel Feltran, autor do livro “Irmãos: Uma História do PCC” (Companhia Das Letras, 2018), professor do Centro Nacional de Pesquisa Científica, na França, e professor do SciencesPo, uma das mais importantes instituições de ensino superior de ciências humanadas da Europa. A entrevista de Feltran à Folha de S. Paulo, publicada na segunda-feira 3, mostra que ainda existem cabeças que produzem bons argumentos.

Logo na resposta à primeira pergunta do repórter André Fontenelle, Feltran vai na ferida. A operação Penha-Alemão foi, para ele, um “evento letal organizado, cuja escala vem aumentando, que termina eliminando operadores baixos do universo criminal: soldados rasos ou pequenos varejistas, cujas posições são prontamente substituídas. Morrem também policiais de baixa patente, igualmente substituídos cinicamente no dia seguinte”.

O sociólogo identifica em governadores e outros políticos, membros do Judiciário e do Ministério Público e parte da imprensa a “cumplicidade política” com a matança como estratégia para dar andamento a uma pauta legislativa de exceção, visando a “garantir na lei o extermínio já praticado, transformando qualquer um que seja qualificado como traficante ou membro do crime organizado em ‘terrorista’”.

Este trecho é crucial:

“Essa retaguarda política, jurídica, institucional, essa cumplicidade dos órgãos de controle como o Ministério Público, que deveriam ser os primeiros a flagrar as ilegalidades evidentes desses eventos, bem como desse novo marketing eleitoral escrito com sangue, é inédita em escala nacional. Ela representa sociologicamente a transição evidente de um movimento totalitário, cuja expansão venho descrevendo há alguns anos em ensaios recentes, para um conjunto de práticas totalitárias de governo.”

Para Feltran, os ideólogos da extrema direita hoje sentem-se fortalecidos para, entre outras coisas, “alimentar o ciclo político de transformação social com mais sangue”.

“Politicamente, esses eventos abrem espaço para a propaganda populista voltada para massas sedentas por paz, que no entanto acreditam na guerra sangrenta como meio. Décadas de operações desse tipo, no Rio de Janeiro, ampliaram a militarização dos mercados ilegais, a corrupção policial sistêmica e a ação faccional, mas quem se lembra do que houve no Carandiru, no Jacarezinho, em Paraisópolis?”, indaga o pesquisador.

Essa forma tirânica e desumana de exercer o poder, segundo Gabriel Feltran, recebe a benção das elites, caso contrário não se viabilizariam:

“Quanto mais falham em entregar segurança, mais os agentes ideológicos da segurança pedem recursos para fazê-la melhor, seja na esfera privada, seja controlando mais e mais fatias do orçamento. Recebem a bênção das elites instaladas, cada vez mais próximas aos policiais, que então cedem esses recursos num ciclo orçamentário sem fim. Produzir sua propaganda e ganhar as massas é fundamental para garantir a legitimidade desse regime de poder, e passam a investir nisso.”

Outro aspecto da nefasta política de segurança pública em vigor no Brasil, cujo ponto mais visível é a favela carioca, é o que se convencionou chamar, entre as esquerdas, de racismo policial. As ações mata-preto são notórias. Porém, perseguir a população negra, e sempre a pobre, não é uma atitude planejada pelas polícias:

“Sobre o racismo e o elitismo, o que ocorre é um efeito social muito perverso, a partir de um choque de mundos cognitivos: a polícia se vê como promotora de mobilidade social de jovens pobres e negros, porque os têm em seus quadros, mas os resultados letais das operações atingem invariavelmente esse mesmo perfil. Pelo fato de serem os jovens negros e pobres os mais recrutados para a operação baixa dos mercados ilegais, das economias criminais. Sociologicamente, isso produz efeitos racistas e elitistas evidentes, demonstrados em qualquer estatística de prisão, letalidade policial ou criminalidade. Mas os policiais ideologizados evidentemente não reconhecem esses dados assim.”

Apesar de o Brasil contar neste momento com um Governo Federal que busca uma política de segurança pública e combate ao crime nacional, que seja contundente mas não desumana, ninguém detém tanto poder nas mãos nessa seara quanto a extrema-direita representada por um punhado de governadores, que são de fato os comandantes das tropas.  

André Lara Resende faz picadinho dos paladinos da austeridade

Foto: Divulgação.

Por Paulo Henrique Arantes

Os jornalões – assim nos referimos à velha mídia neoliberal, sempre a serviço de “o mercado” – noticiam na sexta-feira (31), com estupefação, que a Dívida Bruta do Governo Geral atingiu 78,1% do PIB. Lula, portanto, desde que assumiu responde por um aumento de 6,4 pontos percentuais da famigerada BDGG, que era de 71,7% do PIB em janeiro de 2023.

A intenção, clara como o sol, é transmitir a informação como um dado negativo da economia, afinal, desde quando endividar-se é recomendável? É a velha prática de comparar a gestão econômica de governos com a economia doméstica. Dona de casa valorosa não gasta mais do que o marido lhe disponibiliza.

Fora dos redutos remanescentes do neoliberalismo mais rastaquera, como as editorias de economia dos jornalões brasileiros, sabe-se há algum tempo que o endividamento de governos não é algo obrigatoriamente deletério. Muitas vezes, é bem-vindo. André Lara Resende, formulador do Plano Real e até ontem queridinho de “o mercado”, acordou para esse fato anos atrás, abraçando teses keynesianas e incomodando seus pares.

Deve ser duro para os fanáticos neoliberais receberam aulas de realidade de André, ex-mito para a turba. Na mesma sexta-feira em que se noticiou em tom alarmante o aumento da dívida do governo, o economista publicou um alentado artigo no Valor Econômico intitulado “A fábula da fada da dívida pública”. Ele alude à “fada de Rogoff”, personagem fictícia imaginada pelo economista Kenneth Rogoff cuja varinha teria o condão de reduzir dívidas públicas, e a critica duramente:

“Sabemos que a vara de condão tem poderes mágicos, mas a macroeconomia, ao contrário da fantasia, exige coerência contábil. Como eliminar parte da dívida americana sem reduzir a riqueza dos que a detêm? Para fazer desaparecer parte da dívida, é preciso fazê-la desaparecer tanto para o Tesouro – o devedor – quanto para o público que a detém – o credor. A redução da dívida, como sustenta Rogoff, abriria espaço para uma política fiscal mais expansionista, mas esse é apenas o efeito sobre o devedor. A análise, para ser contábil e logicamente consistente, deve também considerar o efeito sobre o credor. Se o primeiro é inegavelmente positivo – mais espaço para política fiscal -, o segundo é incontestavelmente negativo: redução da riqueza financeira privada”.

Eis uma explicação bastante didática:

“Usemos os números sugeridos por Rogoff: uma redução da relação dívida/PIB para 60%. Como a dívida americana é hoje um pouco superior a 120% do PIB, estamos falando de uma redução equivalente a 60% do PIB na riqueza financeira dos detentores da dívida. O efeito recessivo de uma grande redução da riqueza financeira privada não pode ser subestimado. No caso americano, com cerca de um terço da dívida detida por estrangeiros, o impacto recessivo não se limitaria aos EUA, atingiria toda a economia mundial. Como a economia americana representa aproximadamente um quarto da mundial, uma redução de 60% dos 30% da dívida detida por não americanos significaria uma queda na riqueza financeira global equivalente a 4,5% da renda. O impacto direto seria menor fora dos EUA, mas ainda assim significativo.”

No parágrafo a seguir, André posta-se definitivamente contra um dos princípios neoliberais mais eloquentes, a austeridade cega:

“É sintomático do viés ideológico anti-Estado de muitos economistas que vejam com clareza os ônus do crescimento da dívida pública, mas permaneçam cegos aos seus eventuais benefícios. O aumento dos gastos públicos não é necessariamente negativo, nem positivo: tudo depende da qualidade dos gastos. Investimentos bem planejados e avaliados são muito diferentes de gastos correntes populistas, patrimonialistas ou corporativistas. Ainda assim, todos são estímulos à demanda e, ao menos no curto prazo, ao crescimento da renda. É o ensinamento de Keynes para evitar recessões – mas, se usado apenas para estimular a demanda sem respeitar as restrições da oferta, levará inevitavelmente à inflação.”

Na próxima coluna, publicaremos uma lista de economistas que se sentiram ridículos ginasiais ao lerem o artigo de André Lara Resende.

Mais uma tentativa de ligar Lula ao crime organizado

Ricardo Stuckert / PR.

Por Paulo Henrique Arantes

É de clareza solar a orquestração da extrema-direita para desestabilizar o governo Lula, que se encontra em seus melhores momentos nacional – com desemprego na mínima histórica e inflação declinante – e internacional – com a lição de soberania e capacidade de negociação dada no affair provocado pela insanidade do presidente dos Estados Unidos.

A inacreditável ação da polícia carioca contra o Comando Vermelho não deve ter sido concebida com a finalidade de gerar caos social para que a responsabilidade fosse jogada no colo do Governo Federal, mas a ideia de fazê-lo surgiu assim que constatado o desastre da operação. Não é uma estratégia nova e seu replay ocorre logo após Lula dar uma declaração mal formulada sobre traficantes e usuários de drogas.

Entre as palavras do ministro Ricardo Lewandowski e do governador Cláudio Castro, o leitor e a leitora ficam com qual? Comparações éticas e morais entre ambos são desnecessárias. Sabe-se quem fala a verdade.

Ligar Lula, o PT, a esquerda e qualquer coisa civilizada a criminosos é coisa antiga, até porque a extrema-direita brasileira, voz forte na nossa atrasada elite, gostaria vê-los todos mortos. Esta coluna, felizmente, possui memória e ferramentas de pesquisa, e buscou as mais recentes tentativas, mediante fake news, de imbricar Lula com o crime organizado – todas infrutíferas, por fantasiosas.

Aqui vão nove relatos de tentativas de relacionar Lula com o crime que deram com os burros n’água – só as mais recentes (a presente, originária do fiasco da operação comandada pelo governador Cláudio Castro, é a décima):

  Outubro de 2022 — Vídeos falsos e áudios de presos usados para dizer que “o crime apoia Lula”. Campanhas em WhatsApp/Telegram e redes sociais circularam vídeos e áudios (muitos falsos ou fora de contexto) alegando que presidiários e facções teriam orientado apoio a Lula; eram usados por bolsonaristas para sugerir um “apoio do crime organizado” ao PT.

  Outubro de 2022 — Postagens tentando associar Lula ao PCC e à facção de Marcola.  Publicações e menções em redes e por apoiadores tentaram conectar Lula a Marcola como prova de aliança entre PT e facções; reportagens investigativas e fact-checking mostraram que essa narrativa foi promovida durante o 2º turno da eleição presidencial.

  Outubro-novembro de 2022 — Decisões e checagens do TSE contra desinformação. O TSE e agências de checagem desmentiram fake news que vinculavam Lula a voto ou ordens do PCC; o tribunal e parceiros publicaram compilações de boatos e providências.

  Abril de 2024 — Desmontagem de um “comunicado do PCC” usado como prova.  Checagens identificaram como falsos comunicados atribuídos ao PCC e usados por apoiadores de Bolsonaro  para alegar que a facção teria orientado voto em Lula.

  Janeiro de 2023 (contexto pós-eleição) — Insurreição de apoiadores de Bolsonaro e narrativas sobre “facções”. Após a posse de Lula, o ataque de 8 de janeiro e a retórica de bolsonaristas passaram a incluir acusações recíprocas e insinuações sobre ligações entre governo e grupos ilegais; o episódio também alimentou narrativas sobre conspirações e apoios criminosos.

  Maio de 2023 — Multa do TSE a parlamentares por vincularem Lula a crimes, como o caso Celso Daniel. Parlamentares foram multados por divulgarem informações que vinculavam Lula a episódios criminais (a decisão não é, por si só, sobre facções, mas faz parte do padrão de tentar ligar Lula a práticas criminosas publicamente).

  2023–2024 — Campanhas em Telegram e redes com “top 10” imagens/prints que ligavam o PT a facções. Investigações jornalísticas e monitoramento de desinformação documentaram listas/coleções de imagens mais compartilhadas em grupos de direita que buscavam construir um “dossiê” público de ligação entre Lula/PT e facções — muitas vezes com material fora de contexto.

  2024–2025 — Alegações públicas e entrevistas onde bolsonaristas (ou aliados) insinuaram conivência do governo Lula com criminosos. Declarações públicas de aliados e apoiadores, além de postagens, continuaram a insinuar “relacionamentos” ou “articulações” entre membros do governo/Lula e organizações criminosas, sempre sem prova; cobertura da imprensa registra e contextualiza essas tentativas.

  Julho de 2025 — Testemunho em processo no STF: servidor afirma que, no governo Bolsonaro, houve tentativas de ligar Lula a facções. Em audiência no STF, um analista/servidor afirmou que, já em 2022, houve buscas e pedidos de dados que teriam a finalidade de relacionar Lula a facções criminosas — é uma peça relevante porque vem de um depoimento institucional.

Que a COP 30 sirva ao clima, não aos demagogos climáticos

Stock

Por Paulo Henrique Arantes

O pesquisador Carlos Nobre, maior autoridade do mundo sobre Amazônia e clima, foi ao programa Brasil Sustentável para alertar sobre a necessidade urgente de se descarbonizar a Terra. Há décadas ele adverte sobre a questão, a ciência corrobora o que diz, as catástrofes climáticas também, mas o negacionismo ganha força com a assunção de Donald Trump ao comando do país mais poluidor do planeta.

Vale o parêntesis: explorar petróleo na Bacia da Fox do Amazonas é, sim, um passo atrás no compromisso com a busca de fontes alternativas de energia assumido pelo Brasil.  E o argumento de que, por ora, a Petrobras vai “pesquisar, não explorar” tangencia a discussão premente.

Há um ano e meio, conversamos com Carlos Nobre sobre o efeito estufa e suas consequências, as quais não virão amanhã – já estão aí. De nada adiantará a COP 30 gerar outra dúzia de compromissos e protocolos se as lideranças globais não se condoerem de fato com as vítimas já existentes da destruição da atmosfera, que não são poucas. A reversão dos malefícios da queima de carbono é para ontem, mas o modelito “fim do mundo” veste os mandatários dos países que deveriam se ocupar de reverter a devastação da natureza antes de qualquer outra coisa.

Vejamos o Brasil. Chuvas refrescantes e amenas perdem espaço para temporais como os que causaram a megatragédia do Rio Grande do Sul e que provocam catástrofes quase anuais no litoral norte de São Paulo e na serra fluminense, e tantas outras Brasil afora. O Poder Público não toma iniciativa efetiva para prevenir o caos.

“Nós temos o enorme desafio de salvar o planeta. Já vimos os riscos pelos quais estamos passando pelo aquecimento global no nível a que chegou. As temperaturas globais já atingiram um aquecimento de 1,5 grau em comparação com 1850-1900. É também o momento de mais alta temperatura dos oceanos – o Atlântico está muito quente, partes do Pacífico e do Índico também”, disse o professor Nobre a este jornalista. 

A ciência já demonstrou reiteradamente que o aquecimento é responsável pelo aumento de eventos meteorológicos extremos, chuvas muito intensas ou secas intermináveis. Também por ondas de calor, fenômenos muito graves, extremamente prejudiciais à saúde. “Tudo isso já acontece com muito mais frequência do que antes. As emissões dos gases de efeito estufa, responsáveis por todo esse enorme aquecimento, são quase 70% humanas – queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão, gás natural). Cerca de 23% devem-se à agricultura e aos desmatamentos”, disse-nos Carlos Nobre em entrevista recente.

O alarme soou há muito tempo, mas as lideranças globais têm preocupação apenas retórica. Quem, efetivamente, persegue as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris? As emissões continuam a aumentar, apontou-nos Nobre. “Nós estamos caminhando num cenário muito perigoso, num cenário em que o aumento da temperatura pode passar de 2 graus. A temperatura pode chegar a um aumento de 2,5 graus em 2050 – isso é um risco enorme, uma tragédia climática”, projetou.

Não há saída para o planeta Terra a não ser remover uma grande quantidade de gás carbônico da atmosfera, o que é viável mediante projetos de restauração florestal. Neste momento, o mundo está bem perto do ponto de não-retorno. Já passou da hora de todos aqueles que, de certa forma, gerem orçamentos terem como prioritária a causa climática. O que se tem visto é a questão climática servir de conteúdo a discursos demagógicos.

Editorialista do Estadão não sabe o que é passar fome

The beggars sat wrapped in cloths and eating noodles.

Por Paulo Henrique Arantes

É de conhecimento até do mundo mineral (Mino Carta vive!) que “O Estado de S. Paulo” é escrito para agradar à elite conservadora, a despeito de vir decepcionando, nos últimos tempos, a parcela golpista dessa elite. O problema é quando a defesa do tal “livre mercado”, regalo conservador, descamba para o ataque a iniciativas que pretendem salvar a vida de seres humanos.

“O mercado” é cruel, todos sabem, mas opor-se a coisas como o combate à fome ultrapassa o patamar de maldade até aqui observado pelos pragmáticos da finança, aos quais o Estadão serve.

No editorial de 20 de outubro, o jornalão do bairro do Limão esculachou o discurso de Lula no Fórum Mundial da Alimentação, em Roma, onde o presidente brasileiro foi efusivamente aplaudido. O ponto que mais incomodou o editorialista foi a proposta de criação de um imposto global de 2% sobre a fortuna dos super-ricos, algo como 315 bilhões de dólares.

Para o tabloide, comprar e distribuir comida não resolverá o problema da fome, assim como o incremento do Bolsa Família não o resolveu no Brasil. Confira-se o raciocínio canhestro do editorialista:

“O que Lula não contou à embevecida plateia é que o Brasil já gasta cerca de 15% desse valor (315 bilhões de dólares) por ano em Bolsa Família e em Benefício de Prestação Continuada, e, no entanto, a despeito dessa dinheirama, e mesmo tendo o equivalente a apenas 3% da população total dos países em desenvolvimento, ainda enfrenta insegurança alimentar, como mostrou recentemente o IBGE. Os dados indicam que 24,2% dos domicílios brasileiros conviviam com algum grau de insegurança alimentar em 2024. Houve queda em relação aos 27,6% de 2023, mas mesmo assim segue sendo um número muito alto para um país que investe tanto em assistencialismo”.

Ou seja, a queda dos que passam fome de 27,6% para 24,2% da população, cerca de 7 milhões de pessoas, é pouca para justificar o “assistencialismo petista”.

Numa conclusão inacreditável, o Estadão simplesmente acusa Lula não ter buscado, no Fórum da Alimentação, “lançar propostas concretas e factíveis para enfrentar o problema da fome no mundo, e sim vilanizar os ricos, eleitos pelo presidente como inimigos do povo brasileiro – e mundial”.

“Vilanizar os ricos”, na sinistra compreensão do tabloide do Limão, seria chamá-los a contribuir para a erradicação da fome com 2% da fortuna, boa parte qual multiplica-se no mercado financeiro sem gerar nem um emprego sequer.

O editorialista do Estadão não tem a mais parca ideia do que seja passar fome. Prefere enxergar, apenas, finalidades eleitorais na luta histórica de Lula pela erradicação da insegurança alimentar. A boa notícia é que o mundo pensa diferente, como se viu em Roma.

O terrorismo da CIA volta a assombrar a América Latina

Por Paulo Henrique Arantes

Nutrir antipatia por Nicolas Maduro e seus métodos e duvidar do resultado da eleição venezuelana por ele proclamado não justificam a naturalização de uma ação da CIA dentro da Venezuela, como fazem os jornalões brasileiros. O combate ao tráfico de drogas não cola nem em ginasiais. Além da presente e flagrante violação do Direito Internacional, é a História quem condena o modus operandi do órgão de inteligência americano, na verdade um grupo de espionagem altamente qualificado para sabotar governos, assassinar chefes de Estado e outras maldades.

Os lances da CIA são cinematográficos e não seria exagero classificá-los como terrorismo, termo ora conceituado: uso sistemático da violência (ou de fornecimento de meios para tanto) — ou da ameaça de violência — para fins políticos, com o objetivo de intimidar, coagir ou desestabilizar governos ou populações civis. É que faz o órgão dito “de inteligência”, sem tirar nem por.

Basta ver o que fez a CIA no Brasil do golpe militar de 1964. A agência deu apoio logístico e financeiro à conspiração que derrubou o presidente João Goulart. A Operação Brother Sam previa o fornecimento de combustível, armas e navios aos golpistas. O apoio da CIA aos golpistas militares é indissociável da brutal ditadura que oprimiu o Brasil por 21 anos.

A Operação Condor, outro exemplo, é a cereja do bolo terrorista da CIA na América do Sul. Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai e Bolívia foram vítimas dessa mega-operação coordenada pela central de inteligência americana, mediante apoio logístico, troca de informações e treinamento de agentes para perseguição transnacional de opositores de esquerda. O resultado foram centenas de assassinatos e desaparecimentos, algo que se tornou corriqueiro na Guerra Fria, por obra da dita-cuja.

A perseguição aos Tupamaros, em reforço à ditadura de Alfredo Stroessner no Uruguai, no começo dos anos 1970, deu-se com a decisiva ajuda da CIA, cujo modelo de treinamento de torturadores está perfeitamente descrito em “Estado de Sítio”, filmaço de Constantin Costa-Gavras.

Nem se fale das atividades preliminares que resultaram na morte do presidente chileno Salvador Allende em 1973 e no que tudo aquilo resultou, pelas mãos de um dos seres mais repugnantes da História da humanidade, Augusto Pinochet.

No Chile, a CIA – ou os Estados Unidos, tanto faz  –  financiou a imprensa reacionária contra Allende, em especial o jornal “El Mercurio”, que sabotou a economia de várias formas, em especial incentivando uma greve de caminhoneiros. A ditadura Pinochet, abençoada pela CIA e pelos Estados Unidos, durou 17 anos. De novo Costa-Gavras produziu um filme espetacular a respeito: “Missing”, ou “Desaparecido”, que retrata com fidelidade a contribuição decisiva dos Estados Unidos para aquela triste realidade.

Republicana Dominicana, Bolívia, Argentina (mediante completo apoio de inteligência à junta militar de Jorge Videla), Nicarágua, El Salvador, Honduras, Guatemala, Panamá e Cuba (quanto a esta, vale um artigo exclusivo: só atentados contra Fidel Castro foram mais de 600) também foram palco de atividades ilegais da CIA. Parece que chegou a hora da Venezuela.

Barroso já livrou a cara de Valdemar

AFP

Por Paulo Henrique Arantes

Todos e todas perguntam por que o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, não é réu na ação que julga os golpistas bolsonaristas. Se não sua participação efetiva, sua conivência com as tramoias está absolutamente demonstrada. Como diria um velho procurador, só não denuncia quem não quer.

Talvez o forte de Valdemar seja a simpatia. Se existe um político que conta com os bons olhos da Justiça, chama-se Valdemar da Costa Neto.

O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e sempre iluminista Luís Roberto Barroso deve nutrir grande simpatia pelo político supracitado. Idem o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot. É possível, apesar de improvável, que até a ex-presidente Dilma Rousseff nutra alguma afeição pelo dito-cujo.

Puxemos pela memória.

Valdemar da Costa Neto fora condenado a sete anos e 10 meses na Ação Penal 470, a do Mensalão, em novembro 2012. Pegaram-no por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Prisão semiaberta. Sua defesa pediu progressão de regime e, em novembro de 2014, o ministro Luís Roberto Barroso, que herdara a ação do aposentado Joaquim Barbosa, concedeu-lhe o benefício da prisão domiciliar.

Em 23 de dezembro de 2015, a presidente Dilma Rousseff baixa o Decreto 8.615, concedendo indulto natalino coletivo a condenados no Mensalão, não indiscriminadamente. Em maio de 2016, o ministro Barroso aceita parecer do PGR, Janot, segundo o qual Valdemar preenchia os requisitos para indulto constantes do decreto de Dilma, reconhecendo-lhe o direito ao perdão da pena remanescente. Valdemar da Costa Neto torna-se um cidadão sem contas a pagar à Justiça.

Não se pode chamar Valdemar de ingrato. Em julho de 2023, o presidente do PL se distanciou publicamente de uma crise envolvendo o ministro Barroso e o bolsonarismo. “Nós vencemos o bolsonarismo”, havia dito Barroso, escandalizando alguns por mostrar-se “partidário”.  Oficialmente, Valdemar avaliou que qualquer ação contra Barroso poderia prejudicar investigações em andamento no STF relacionadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Extra-oficialmente, não quis se indispor com o juiz que lhe devolvera a liberdade.

Luís Roberto Barroso já apresentou sua pré-agenda de candidato

Por Paulo Henrique Arantes

Luís Roberto Barroso deixa o Supremo Tribunal Federal com uma imagem de dignidade e mesmo de coragem. Presidente da corte constitucional, respondeu com veemência aos ataques desferidos pelos trogloditas bolsonaristas, mediante ponderações como esta: “Estamos fazendo uma defesa vigorosa da democracia. E nós desempenhamos esse papel de enfrentar um movimento que considero global, radical e de extrema direita, de ataque às instituições, que circula desinformação e — ainda está sendo investigado — talvez tenha até tentado um golpe”.

O presidente Luís Roberto Barroso nunca deixou Alexandre de Moraes falando sozinho contra os golpistas. De outra parte, é o ministro que, no passado recente, disse que o STF era “a reserva iluminista da sociedade brasileira”. Na verdade não é, nunca existiu para tanto, mas certamente lançou algumas lufadas de razão contra obscurantistas.

Este jornalista, em geral, simpatiza com o jurista Barroso, mas por vezes considera seus discursos amontoados de platitudes, de máximas politicamente corretas contra as quais só extremistas e negacionistas se rebelam.  Sua palestra na Conferência Nacional da OAB, em Belo Horizonte, em novembro de 2023, foi uma mistura de voluntarismo com pieguice. E isso num momento em que STF, Congresso e Executivo encontravam-se numa espécie de sinuca institucional.

Seu apelo ao diálogo soou como frouxidão. “A vida é plural. Ninguém tem o monopólio da verdade e do bem. Eu ouço todo mundo e trabalho para a pacificação do país”, embromou. E arrematou: “Quem pensa diferente de mim não é meu inimigo, mas meu parceiro na construção de uma sociedade democrática”.

Singelo e puro demais.

Na mesma ocasião, Barroso expôs algo com focinho, orelhas e odor de plataforma eleitoral – uma tal “agenda de consenso”, material típico de pré-candidatos a alguma coisa. Agora que deixa o Supremo, ele irá se filiar a algum partido e disputar eleição? Um iluminista não deve escamotear suas intenções.

A tal “agenda de consenso” de Luís Roberto Barroso enumerava prioridades de um candidato: erradicar a pobreza, retomar o crescimento econômico, priorizar a educação básica, investir em ciência e tecnologia, criar um projeto nacional de segurança pública, cuidar do saneamento básico, retomar nosso protagonismo ambiental.

Em tempo: Barroso também defendeu aquilo que chamou de “imprensa tradicional” – sabe-se que imprensa é essa – contra “as narrativas que cada um inventa”, como se a “imprensa tradicional”, reduzida a duas ou três corporações, não criasse suas narrativas dia sim, outro também. Afagos de um potencial candidato.

Governador Coca-Cola

Por Paulo Henrique Arantes

Humildemente, reconhecemos que acertamos ao afirmar, em 8 de setembro último, que Tarcísio de Freitas desenvolvera o funcionamento psíquico defensivo chamado “falso self”. O diagnóstico decorria de suas falas ridículas em cima de um carro de som no 7 de Setembro e de outras atitudes típicas dos acometidos pelo transtorno. Assim explicamos há um mês:

Pela teoria do psicanalista britânico Donald Winnicott, Tarcísio de Freitas desenvolveu o chamado “falso self”, mecanismo pelo qual a pessoa constrói uma fachada irreal de sua verdadeira face para agradar a outros, ocultando o verdadeiro self, seu “eu” autêntico e espontâneo. Esse conceito, aplicado inicialmente a bebês, expandiu-se para pessoas de todas as idades e está ligado à sensação de vazio, futilidade e irrealidade.

Os atormentados pelo “falso self”, como Tarcísio de Freitas, usam um tom impositivo para compensar inseguranças. Apesar da postura rígida, duvidam de si e buscam validação externa para reforçar a imagem. Tendem a rejeitar ideias alheias por medo de parecerem fracos e, então, fazem besteira. Alternam momentos de falsa bravura com crises de ansiedade ou raiva.

Odiento no 7 de Setembro para agradar a alguns, “engraçadinho” agora para, num rompante patético, tentar desanuviar a tensão. Esse é Tarcísio, sempre canhestro, sempre inoportuno, sempre pendular.

O governador de São Paulo demonstra, definitivamente, que o “falso self” veste-o à perfeição. Abstêmio, ele simplesmente comemorou o fato de o metanol não ser usado para falsificar a Coca-Cola, mas apenas bebidas alcoólicas. Piada de mal gosto e desrespeitosa para com as vítimas da intoxicação, bem ao gosto de governantes inertes diante de problemas sobre os quais deveriam se debruçar. O mesmo cometeu Jair Bolsonaro ao lembrar não ser coveiro quando a pandemia matava milhares.

Tarcísio de Freitas está a partir de agora rotulado de “governador Coca-Cola”. Para compreender a alcunha, é preciso retroceder aos anos 1980. Em síntese, ganhava o apelido de Coca-Cola aqueles que se revelavam “só pressão”, assim como teor do refrigerante, altamente gasoso mas livre de qualquer valor nutritivo. O termo cabia em pessoas de aparência vistosa, porém superficiais. Apenas espuma, sem substância.

Nos anos 80, ser Coca-Cola significava ter estilo, aparência e discurso de modernidade acompanhado de um enorme vazio conceitual. Também eram chamados de Coca-Cola os produtos da mídia e da publicidade desprovidos de qualquer essência. Nada mais Tarcísio de Freitas.

Para a Folha de S. Paulo, aumento do desemprego seria uma boa arma contra inflação

Por Paulo Henrique Arantes

A Folha de S. Paulo supera-se. O liberalismo debiloide do jornalão chega ao píncaro no editorial de 4 de outubro, ao criticar a menor taxa de desemprego registrada pelo Brasil na série histórica iniciada pelo IBGE em 2012, de 5,6%.

O periódico da Barão de Limeira, que há muito tempo pratica um português infanto-juvenil em suas matérias e há um pouco menos mal disfarça uma dose de simpatia pelo bolsonarismo, questiona os efeitos positivos do alto emprego, aludindo à tal Taxa Neutra de Desemprego e apontando os riscos inflacionários decorrentes.

“O mercado de trabalho brasileiro desafia as expectativas e, segundo o presidente do Banco CentralGabriel Galípolo, vive seu momento mais vigoroso em três décadas. Tal vigor por óbvio é bem-vindo na geração de renda, mas também impacta a política monetária, já que o aumento do poder de compra da população tensiona a inflação. Não à toa, Galípolo afirmou em evento que a taxa de juros, hoje de escorchantes 15% ao ano, continuará elevada por ‘tempo bastante prolongado’” – racionou a Folha, encontrando um viés negativo para o aumento do poder de compra da população e tentando parecer minimamente humana ao se referir aos juros de 15% como “escorchantes”.

Prossegue o editorialista neoliberal:

“No trimestre encerrado em agosto, o total de pessoas ocupadas foi de 102,4 milhões, alta de 1,8% em relação ao mesmo período de 2024. A taxa de desocupação estabilizou-se em 5,6%, menor nível da série histórica iniciada em 2012 pelo IBGE —cálculos da Fundação Getúlio Vargas indicam tratar-se do menor desemprego desde 1996. Tal patamar está abaixo do que se considera como pleno emprego, quando o mercado de trabalho está equilibrado em torno da chamada taxa neutra —a que se mostra compatível com inflação estável, idealmente em torno da meta para o IPCA, que atualmente está fixada em 3% ao ano.”

Como já escrevemos neste espaço, um grupo de economistas neoliberais, cada vez menor, acredita que o desemprego abaixo da tal taxa neutra criaria um ambiente inflacionário insustentável. Claro, para o grupelho não importa se emprego significa sobrevivência para muita gente. A lógica, para eles, é que emprego gera consumo e pressiona a inflação, pouco ou nada importando se famílias passam a se alimentar melhor. A observância da famigerada Taxa Neutra de Desemprego, a impedir de alguma forma a queda do desemprego a partir de certo nível, manteria a inflação controlada. 

Há algum tempo, os “desempreguistas” calcularam a Taxa Neutra de Desemprego brasileira em torno de 9%, portanto os 5,6% atuais seriam inflacionários. Isso significa, para essa turba, que a empregabilidade de hoje deve ser combatida.

Esses economistas desumanos dizem que a TND é determinada pela institucionalidade. Explica-se: se considerarmos um país europeu típico e compará-lo com os Estados Unidos, o país tipicamente europeu tem uma TND de 9% e os Estados Unidos, de 4%. Por quê? Porque nos Estados Unidos as instituições e o mercado de trabalho são mais, digamos, flexíveis.

Esse lero-lero vai desaguar na defesa de coisas como reforma trabalhista e maldades decorrentes, como a precarização do trabalho.