CNBB do lado certo da História

Por Paulo Henrique Arantes

Noticiou-se, mas pouco se repercutiu o posicionamento da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil resultante de sua 59ª Assembleia Geral, encerrada em 2 de setembro.  A “Mensagem da CNBB ao Povo Brasileiro” é um alento àqueles que ainda esperam de religiosos posturas condizentes com as verdadeiras aflições humanas, indissociáveis das injustiças sociais e, no Brasil, decorrentes em boa dose do espectro bolsonarista que paira sobre todos.

Via CNBB, a Igreja Católica assume-se como voz cristã ativa em defesa da parcela mais vulnerável da população, algo muito diferente do que fazem algumas igrejas evangélicas, francamente argentárias. Estas vendem a remissão dos pecados aos fiéis enquanto os inoculam com o ódio bolsonarista.

Houve quem cobrasse da instituição católica declaração de apoio aberto a Lula. Claro que isso jamais acontecerá. Igrejas não devem manifestar-se partidariamente, mas em torno de valores e princípios. Ressalve-se, contudo, que no caso brasileiro e da eleição de outubro é quase a mesma coisa.

Os bispos do Brasil condenaram, sim, Jair Bolsonaro. Não foi necessário nominá-lo, seria pouco institucional fazê-lo.  Bastou dizer: “Constatamos os alarmantes descuidos com a Terra, a violência latente, explícita e crescente, potencializada pela flexibilização da posse e do porte de armas que ameaçam o convívio humano harmonioso e pacífico na sociedade”.

Como nenhuma outra instituição de cunho religioso fez, a CNBB revelou-se afinada com o sentido do tempo, dotada do senso histórico fundamental para que o Brasil venha um dia a se tornar uma nação justa e igualitária, uma nação que terá abandonado para sempre e totalmente os preceitos econômicos neoliberais.

O trecho a seguir é eloquente: “Vítimas de uma economia que mata, celebramos as conquistas desses 200 anos de independência conscientes de que condições de vida digna para todos ainda constituem um grande desafio. É necessário o compromisso autêntico com a verdade, com a promoção de políticas de Estado capazes de contribuir de forma efetiva para a diminuição das desigualdades, a superação da violência e a ampliação do acesso a teto, trabalho e terra. Comprometidos com essas conquistas e inspirados pela cultura do diálogo e do encontro, podemos ser uma nação realmente independente e soberana”.

A confederação de sacerdotes católicos também denunciou o uso de fake news e relacionou-o com “manipulação religiosa”, em clara estocada nos pastores bolsonaristas que povoam o Congresso Nacional. “A manipulação religiosa, protagonizada por políticos e religiosos, desvirtua os valores do Evangelho e tira o foco dos reais problemas que necessitam ser debatidos e enfrentados no Brasil. É fundamental um c0mpromisso autêntico com o Evangelho e com a verdade”.

A CNBB honra as figuras de Dom Hélder Câmara e Dom Cláudio Hummes.

O que esperar de Rosa Weber

Por Paulo Henrique

Rosa Weber é discreta, o que para uma magistrada constitui virtude. Cumpre aquela regra de só falar nos autos, coisa e tal. A nova presidente do Supremo Tribunal Federal tem fama de julgar com apego à letra fria da lei, abrindo mão de “convicções” e simpatias pessoais, mesmo porque ninguém sabe quais são as suas.

À frente do STF, contudo, ela terá de falar um pouco mais. Para defender a corte de ataques, por exemplo, como os que vêm sendo desferidos pelo presidente da República. Ao enfrentar uma ofensiva antidemocrática, Rosa Weber não estará adentrando a seara politica, mas pondo em prática um conceito jurídico denominado contempt of court, pelo qual as cortes devem se defender e às demais instituições quando estas não o fazem.

Trata-se – contempt of court – de um conceito antigo do direito anglo-saxônico, com raízes também no direito europeu continental, explicou à coluna o jurista Pedro Serrano. “Os direitos, para serem realmente garantidos, precisam de uma estrutura de Estado que os garanta – essa é a ideia fundamental de um Supremo Tribunal”, afirma Serrano. E acrescenta: “Se alguém o atinge, está atingindo a própria garantia de direitos, que é a essência da Constituição”.

Não se trata de revidar eventuais críticas a decisões judiciais, mas rechaçar com contundência ataques à corte, instituição incumbida de zelar pela democracia constitucional. Luiz Fux o fez? Sim, pero no mucho.

Estão abertas as apostas: quem será a Rosa Weber presidente do STF?

Para o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do Grupo Prerrogativas, a ministra pode fazer mais que dignificar sua passagem pelo cargo: pode glorificar a passagem das mulheres em geral pelo comando da corte. “Ela tem uma chance histórica de defender o Supremo com firmeza e, ao mesmo tempo, reafirmar seu papel e sua vocação contramajoritária, enfrentando temas sensíveis, polêmicos e, acima de tudo, necessários”, avalia Carvalho. E crava: “A expectativa para a chegada dela não poderia ser melhor”.

Uma das questões prementes que poderão entrar em pauta e marcar a atuação de Weber na presidência do STF diz respeito à descriminalização do aborto, no âmbito da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) proposta pelo PSOL em 2017. A relatoria é dela e pode permanecer assim se ela quiser. Em 2018, a ministra convocou audiência pública da qual participaram cientistas, religiosos, juristas, políticos e ONGs. O julgamento do mérito ainda não começou.

Na opinião do jurista Lenio Streck, “Rosa Weber tem um estilo discreto e isso hoje é commodity”.  Seus modos se assemelhariam aos de alguns ministros da Suprema Corte dos Estados Unidos, enxerga Streck. Já o advogado e ex-procurador da República Roberto Tardelli diz esperar da presidente Rosa Weber “uma gestão como a de uma juíza das antigas, uma juíza discreta, avessa à glamorização”.

Na projeção de Tardelli, Weber conduzirá o Supremo Tribunal Federal com “menos Big Brother e mais judicatura”.

Macho escroto     

Evaristo SA / Getty Imagem

Por Paulo Henrique Arantes

Não é necessário aprofundamento psiquiátrico para identificar o machismo de Jair e de seus seguidores. Uma avaliação profissional desnudaria as razões da doença, que tem origens sociais mas também, talvez principalmente, mentais. Há alguns anos ganhou espaço na língua portuguesa o termo “macho escroto”, via Big Brother, que enfim serviu para alguma coisa. Veste como luvas no dito cujo, que tragicamente ocupa a Presidência do Brasil e envergonha o cargo.

      Jair levou seu machismo escroto para os palanques do 7 de Setembro. A figura de Michele dá pena – submissa, usada como cabo eleitoral, dona de um discurso religioso medieval no conteúdo e infanto-juvenil na forma.

      Autoproclamado “imbrochável”, Jair deveria assistir a “Rede de Intrigas”, filmaço de Sidney Lumet. À certa hora, o personagem de William Holden pergunta o que leva tanta gente a considerar a potência sexual como a mais importante das “virtudes” masculinas.

      A revista Capricho, superficial e bobinha, mas vez ou outra preocupada em abordar questões atuais inerentes à condição feminina, elencou sumariamente as características do macho escroto. Saudemos Capricho nesta hora e confiramos o que fazem os machos escrotos. Digam, leitor e leitura, se este sujeito asqueroso não é Jair:

O macho escroto sempre interrompe a interlocutora , para corrigi-la ou insultá-la (tanto mais se for uma jornalista);

O macho escroto vive a implicar com roupas, modos e comportamentos (com credos e relações afetivas então…);

O macho escroto não se cansa de “diminuir” a mulher (vide Michele, condenada a ser esposa e nada mais);

O macho escroto não conversa, mas grita e humilha, aponta o dedo, ofende;

O macho escroto não conhece limites, por isso desfere tanto cantadas quanto ofensas de cunho moral.

Acrescento à lista de Capricho a característica do morde-e-assopra. O macho escroto pensa que com um buquê de flores todas as suas agressões serão perdoadas. Sabe nada, escroto.

À meia-noite, estatizarei seu delírio privatista

Por Paulo Henrique Arantes

“À meia-noite, privatizarei sua alma”. O hilariante meme que circula nas redes sociais traz a foto de Felipe d’Avila, candidato do partido Novo a presidente da República. Por seu nanismo eleitoral, o cientista político neoliberal não contou com muita atenção da audiência, da imprensa, de ninguém. Autoproclamado novidade, o partido foge do consenso econômico global, que abandonou Milton Friedman já faz algum tempo. O Novo é uma agremiação ultrapassada.

À margem da verdadeira disputa eleitoral, d’Avila talvez não merecesse referências. Por pitoresco, merece-as. O discurso privatista – e nada além disso se ouve do candidato – cairia bem para uma elite hipnotizada por desregulamentações do mercado nos anos 80-90. O estereótipo do moderninho, de todo modo, ainda veste bem nos brasileiros cujo sonho de consumo é Miami. Nada que o faça sair do traço nas intenções de voto.

Não se pode esquecer que a cabeça econômica de um Felipe d’Avila é a mesma de Paulo Guedes, só que este teve seu neoliberalismo abalroado pela realidade e hoje se contorce, de modo ridículo, para justificar sua inflexão, digamos, keynesiana. Os liberais intelectualmente honestos reviram seus conceitos, e André Lara Resende é o melhor exemplo brasileiro.

Vai longe o tempo de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Seus resquícios foram soterrados pela crise de 2008. O trabalhador americano perdeu com Reagan e a classe média naquele país viu regredir seu poder aquisitivo, que tinha alcançado o apogeu no pós-guerra pelas mãos do desenvolvimentismo. No Reino Unido, basta verificar a imagem de que a Dama de Ferro desfruta entre os trabalhadores.

Políticos e economistas em estado de sanidade não propõem que se saia a estatizar tudo que há pela frente – não se trata disso. Porém, em hipótese alguma cogitam colocar em mãos ligeiras setores estratégicos da economia de um país, tampouco dar a empresários que buscam lucro – e só lucro – autonomia para gerir serviços essenciais à população. Fato é que privatizações e concessões mal feitas estão sendo revistas mundo afora, como informou pesquisa de 2021 publicada pelo Transnational Institute (TNI), centro de estudos sediado na Holanda.

Vale destacar os dados auferidos pelo TNI: não menos que 1.048 serviços foram reestatizados ou criados, a cargo do Estado, no mundo desde o ano 2000, 441 dos quais na Alemanha e 230 nos Estados Unidos. Na França, são 156 os casos desse tipo, junto com 119 na Espanha e 110 no Reino Unido.

O candidato do Novo está fora do tempo. Ao que parece, também da disputa eleitoral.

O psicopata de Schneider

Por Paulo Henrique Arantes

Bolsonaro no Jornal Nacional foi mais do mesmo. Bonner e Renata também. O que se esperava, enfim? O presidente que envergonha o Brasil mentiu uma vez a cada três minutos, mantendo sua média. Sua dicção piorou. Caras e bocas de indignação não tornaram os entrevistadores incisivos o suficiente. Não houve tempo para indagar sobre o orçamento secreto e as amizades milicianas, nem para confrontar o entrevistado com o número de 33 milhões, referente aos brasileiros que passam fome. Também não deu para perguntar sobre o sigilo de 100 anos conferido a documentos oficiais acerca de assuntos que deveriam ser tratados com transparência. Não deu para falar do Queiróz ou do armamento da população, assim como não se mencionou a patética atuação do país no campo das relações internacionais desde janeiro de 2019, nem se lembrou que a transposição do São Francisco não é obra deste governo, entre outras coisas.

      A campanha eleitoral segue e este colunista continua empenhado em descobrir por que tanta gente enxerga alguma lógica estratégica em atos e palavras de Jair Bolsonaro. Se algum roteiro é desenvolvido por sua assessoria, a mente juvenil – no mau sentido – do capitão o derruba de pronto. Por isso quem melhor escreveu sobre o dito cujo foi o psiquiatra forense Guido Palomba, em artigo na imprensa publicado em março de 2021. O texto merece ser rememorado.

      Palomba invocou o psiquiatra alemão Kurt Schneider, autor do livro “Personalidades Psicopáticas”, para ir fundo na mente bolsonarista. É científico e impressionante como as características do psicopata de Schneider são Jair Messias cuspido e escarrado.

      Para o “pai dos psicopatas”, como Schneider é chamado, o psicopata caracteriza-se pela falta de compaixão, por ser tosco (belo adjetivo) e anestesiado de senso moral, informou-nos Palomba no esclarecedor artigo. Esse doente não tolera ser contrariado, é mal educado e desprovido de inteligência. Eis um trecho do texto referido: “A inteligência limítrofe ou seletiva leva-os (os psicopatas) a praticar atos bizarros, por turrice e teimosia. Persistem voluntariosos, desde que seja em benefício próprio. Caso voltem atrás (e como voltam!), não é pelo reconhecimento do erro, mas por estratégia momentânea. Em seguida, recidivam, às vezes de forma mais virulenta, por serem rancorosos e vingativos”.

       Os psicopatas de Schneider representam elevada periculosidade social: “Nada os detêm, salvo a reprimenda enérgica, judicial e legal, única forma eficaz de pará-los”.

      Guido Palomba não foi aplaudido tanto quanto merecia pelo texto que escreveu. Ao transpor para Bolsonaro a análise do psicopata feita por Schneider, forneceu-nos o perfeito diagnóstico psiquiátrico do presidente da República, o qual fala mais alto do que qualquer conjetura de cunho político-ideológico a seu respeito.

      O ilustre psiquiatra brasileiro encerra seu artigo ensinando que psicopatas como Bolsonaro costumam ter como raiz de sua patologia lesões provocadas no encéfalo durante o período fetal. Eis o último parágrafo, que pode guardar a explicação definitiva para o que estamos vendo no Brasil: “O segundo nome do presidente, Messias, lhe foi dado pela mãe, Olinda Bonturi Bolsonaro, após gravidez complicada, atribuindo a Deus seu nascimento. Registre-se, por fim, que gravidezes complicadas são das principais causas de sofrimento cerebral e consequentes distúrbios de comportamento na adultícia, para Schneider e todos os que se dedicam à psiquiatria”.

Alexandre de Moraes, uma parada indigesta para Bolsonaro e bolsonaristas

Por Paulo Henrique Arantes

O discurso de Alexandre de Moraes ao tomar posse na Presidência do Tribunal Superior Eleitoral foi corretíssimo, até duro. Não seria nada demais se vivêssemos na plenitude democrática, já que defender o sistema eleitoral, a posse do eleito e a prevalência do desejo popular compõe o beabá do Estado de Direito. Quando o chefe do Executivo conspira contra tudo isso, tais palavras tornam-se brado de guerra.

Moraes é ousado, sempre foi. E tem sido um magistrado a honrar o Poder Judiciário ao não contemporizar com o golpismo em suas diversas faces – sim, o uso de fake news como instrumento de campanha, que ele tanto combate, é uma forma de golpe que se soma às inúmeras tentativas de insuflação de cidadãos contra as instituições da República.

Interessante constatar que o Brasil continua, como sempre na História, a traçar seu caminho a partir de personas, não de ideologias ou projetos. Acima do saber jurídico, o que torna Alexandre de Moraes protagonista da luta pela preservação da democracia brasileira é sua personalidade, seu perfil talhado ao confronto. Fosse um Luiz Fux alçado neste momento o comando do TSE, estaríamos lascados.

A solenidade de posse de Moraes no TSE encontra a leitura da Carta da USP e nos alenta ao mesmo tempo que entristece. É desolador que o Brasil precise voltar a apregoar liberdade, direitos humanos, eleições, Estado laico. É inacreditável que, depois de tantos anos de pesadelo e outros tantos de reconstrução democrática, brasileiros tenham que voltar a repudiar uma visão militarista sobre a administração pública.

Há poucas horas à frente do TSE, Alexandre de Moraes já é um freio à intempestividade bolsonarista, que, registre-se, ainda irá mostrar a cara.  Quando isso acontecer, provavelmente no 7 de Setembro, o troco estará engatilhado.

Moraes foi advogado e promotor de Justiça. É professor de Direito da USP e autor de livros jurídicos. Na administração pública, seu currículo é eclético: foi secretário de Justiça e Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo de 2002 a 2005 e secretário municipal dos Transportes de São Paulo de 2007 a 2010, quando acumulou ao cargo as presidências da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) e da SPTrans (Companhia de Transportes Públicos da Capital). Depois, foi secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo e ministro da Justiça.  Trafegou com desenvoltura ao lado de Geraldo Alckmin, Gilberto Kassab e Michel Temer, pelas mãos de quem chegou ao Supremo Tribunal Federal.

Na Segurança Pública, Moraes adquiriu, de certo modo, a fama de truculento que carregou para o STF, a mesma fama que segue pespegada em Geraldo Alckmin (com razão, frise-se). Porém, os conceitos que defendia sobre segurança, combate às drogas e quejandos podem ser classificados de progressistas, conforme disse ele em entrevista a este jornalista, em 2015, quando ocupava a Pasta da Segurança paulista.

Eis as palavras do Alexandre de Moraes secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo:

“Segurança pública não se faz só com polícia. Nós não vamos, na Secretaria de Segurança Pública, abrir mão das nossas responsabilidades, mas segurança se faz também com o Ministério Público e o Judiciário coordenados com as polícias, com alterações legislativas e, na área social, com incentivo à educação, principalmente. A somatória é que vai permitir que nós alcancemos um nível de segurança de país desenvolvido.”

 A se confirmar Alexandre de Moraes, na corte eleitoral, como bom de princípios e de briga, Bolsonaro e bolsonaristas terão pela frente uma parada indigesta.

Olê, olê, olê, olá!

Por Paulo Henrique Arantes

Respirou democracia quem foi às Arcadas do Largo São Francisco no 11 de Agosto. Juristas de renome sentaram-se diante do público que fez o histórico pátio ficar pequeno. A “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito” foi lida por três mulheres e um homem – bom sinal dos tempos. Miguel Reale Jr. foi chamado de fascista e o coro ensurdecedor, no encerramento do evento, foi “olê, olê, olê, olá! Lula! Lula!”.

Reconfortante sentir a democracia pulsar e trocar algumas palavras com gente que sempre a defendeu com propriedade. Como o Padre Júlio Lancelloti, que nos disse ao pé do ouvido: “Fica claro que o povo está vivo, está alerta, e que os ideais democráticos são maiores que qualquer tentativa de golpe”.

No meio de tantos juristas, intelectuais, artistas, esportistas, empresários, políticos, sindicalistas, jornalistas, professores e estudantes, a coluna pisou nas Arcadas e o primeiro a encontrar foi Pedro Serrano, constitucionalista sempre do lado certo da História. “Isto aqui mostra que a sociedade civil não aceita golpismo”, disse-nos, sem contudo nutrir falsas esperanças: “Vai haver o 7 de Setembro, nós não podemos ter ilusão. Existe uma parte da sociedade que está tomada pelo populismo autocrático de extrema direita e pela violência que ele traz”.

O ato nas Arcadas deste 11 de Agosto merece ser comparado ao movimento das “Diretas Já” pela adesão plural antes de tudo.  Uma das diferenças é que, em 1984, pairava sobre a mobilização a figura de Ulysses Guimarães, alcunhado “Senhor Diretas”. “Os participantes são de muitas orientações filosóficas, políticas, sociais. O que os une é a democracia, é a defesa do Estado de Direito. Isso é muito importante. O Brasil já viveu muitas experiências assim – eu estou comparando às Diretas, de que participei junto com o magnífico político brasileiro Ulysses Guimarães, que faz muita falta aqui por sua visão universalista, ampla”, disse-nos o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, braço direito – quiçá também esquerdo – do ilustre parlamentar para temas econômicos.

Entre tantos juristas defensores da democracia, o fundador da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia, desembargador Marcelo Semer, fez a seguinte ponderação à coluna: “É muito importante um ato apartidário, que defende a democracia, que defende a justiça, que defende a votação, para mostrar que a sociedade está garantindo a lisura nas eleições, não importando quem vença. O que não é possível é tentar jogar do lado de fora, ou seja, perder e virar o jogo depois”.

Não se sabe exatamente por quê os ilustres tanto evitaram citar Jair Bolsonaro. Ou melhor, sabe-se: para tirar eventuais sinais de partidarismo ou preferências eleitorais e blá, blá, blá. A verdade não camuflada, de todo modo, não deixa de ser uma só: a democracia brasileira só está exigindo reforço porque o presidente da República fala o que fala, faz o que faz, é quem é.

O ato das Arcadas foi um grande, forte aviso: atenção, Brasil, mostre sua veia democrática porque presidente da República vai tentar um golpe. Por isso o que nos falou Walter Casagrande Júnior vem a calhar: “Algumas pessoas talvez achassem que só os golpistas saem à rua, para agredir a democracia. Nós mostramos que estamos juntos na defesa da democracia, só que as nossas armas são as urnas e as assinaturas. Não temos outras armas, não somos violentos. Somos da paz e pela democracia”.

Temer no lugar de Tebet é piada de mau gosto

Por Paulo Henrique Arantes

Ricardo Noblat diz que Simone Tebet pode retirar sua candidatura presidencial em favor de Michel Temer. Como diria o Capitão Kurtz de Marlon Brando, “é o horror”, mesmo que ambos sejam despossuídos de votos.  Em março último, publicamos neste espaço um breve memorial dos anos Temer. Diante da cogitação do colega Noblat, vale novo lembrete.

 Jair Bolsonaro tem cadeira cativa no lixo da História. Será lembrado como o presidente de um Brasil pária global, o Brasil da cloroquina e das quase 700 mil mortes por Covid.  O Brasil de Jair será recordado como o país do insulto à razão e à ciência e do louvor ao atraso.  A História, se apegada à verdade factual, citará Jair como aquele que ameaçou a nação com a possibilidade de golpe manu militari uma dúzia de vezes, como o presidente que cometia um crime cada vez que abria a boca, como o estimulador da destruição da Amazônia e da extinção dos povos indígenas.  

Como destacamos recentemente, Michel Temer também terá uma lata de lixo histórica para chamar de sua. Velha raposa política, articulou a derrubada da presidenta da República e surrupiou-lhe o cargo. Na Presidência, foi instrumento perfeito da elite brasileira, conservadora e exploradora.

Os males que Michel Temer causou ao país perdurarão por muito tempo ainda. Mesmo que revogados, terão o efeito de aprofundar a desigualdade nestas terras. Abraçado a Henrique Meirelles, suas iniciativas foram cirúrgicas contra as classes mais vulneráveis –  o teratológico teto de gastos é o melhor exemplo disso, algo inédito mesmo nas piores praças neoliberais do mundo.

O constitucionalista Michel Temer vilipendiou a Constituição ao promover uma reforma trabalhista totalmente descolada da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), apregoando uma “modernização” das relações de trabalho e em nome disso criando uma legião de trabalhadores informais, precarizados, sem direito a nada, bem ao gosto de um tipo de patrão brasileiro, useiro do argumento falso de que os custos da contratação formal lhe quebram as pernas.

A reforma da Previdência que Bolsonaro impingiu ao país, com ajuda do Congresso mais canhestro da História da República, foi concebida pelo governo Temer, como todos sabem. Só não emplacou naquele mandato porque o ocupante do Planalto perdeu qualquer condição de negociar com os parlamentares, denunciado que fora por corrupção após o vazamento do famigerado áudio da conversa macabra com Joesley “Friboi” Batista.

Michel Temer encarna a elite que traçou desde a proclamação da República a tragédia social brasileira. A elite do atraso, como bem definida pelo sociólogo e escritor Jessé Souza. Uma elite envernizada por uma oratória conciliadora, um discurso centrista hipócrita que mal disfarça a volúpia por privilégios, com um pé na academia e outro nos regabofes com doleiros e assemelhados.

Essa elite, personificada pelos Naji Nahas da vida, pode apoiar uma eventual candidatura Temer, mas daí a transformar esse apoio em votos há uma distância intransponível.

Campanhas eleitorais no Brasil ainda não sabem lidar com dados

Por Paulo Henrique Arantes

O político que revolucionou o marketing político não foi Donald Trump pelas mãos da Cambridge Analytica, mas Barack Obama. A campanha que levou Obama à Casa Branca, em 2008, foi a primeira efetivamente tecnológica, baseada em dados da massa de eleitores. Na sua campanha à reeleição, em 2012, aperfeiçoou-se a metodologia revolucionária. Hoje, no Brasil, não se sabe ainda com clareza se os marqueteiros encarregados das campanhas majoritárias praticam – ou praticarão – algo tão evoluído.

Em 2008, pela primeira vez as redes sociais estavam de portas abertas. Foi por meio delas que Obama fez uma arrecadação milionária junto a pessoas físicas. Houve arrecadação por voluntários, pessoas chamadas a trabalhar para o candidato via Facebook e Twitter. Estimularam-se debates entre eleitores nas redes, palco alternativo aos tradicionais debates entre candidatos na televisão. O grupo Black Eyed Peas transformou um discurso de Obama num clipe que rendeu 56 milhões de visualizações. Tudo novo.

Construiu-se um verdadeiro “ecossistema Barack Obama” nas redes sociais. Na mesma época, surgiu o chamado microtargeting: pela primeira vez foi possível captar volume significativo de dados de milhões de pessoas na internet e criar discursos direcionados. Foi uma virada de mesa no marketing político.

A campanha de reeleição de Obama, em 2012, começou em 2008, a partir de um relatório de 5 mil páginas. Um passo em falso, contudo, quase levou o candidato à derrota. As redes sociais começaram a ser invadidas por anúncios pagos da campanha de Obama ao ponto da saturação. Iniciou-se uma discussão sobre invasão de privacidade. De fato, os marqueteiros do presidente superdosaram o uso das redes. Uma página de Obama que tinha em média 30 mil curtidas chegou a 1 milhão num só dia. Era demais, e chegou-se a vislumbrar um efeito reverso na campanha que, de resto, não aconteceu.

Também de forma inédita, Obama estendeu sua ação para redes emergentes como Spotify e Pinterest, e começou a adentrar o universo dos games, um campo à parte. O volume de pesquisa que a equipe do presidente realizou foi imenso: foram promovidas mais de 500 mil conversas com os eleitores.

Os marqueteiros de Barack Obama foram pioneiros, fizeram antes, foram perfeccionistas e ousados. Na campanha de Obama trabalhou-se pela primeira vez com um negro candidato a presidente dos Estados Unidos, outro componente inusitado no mercado americano. Esse fato ofuscou a questão técnica, que ficou restrita aos técnicos, diferentemente do que ocorreria na campanha Trump, em que as questões de marketing político foram transferidas para a sociedade em geral. 

O que se vê hoje no Brasil são as equipes de Lula e Bolsonaro duelando por likes, seguidores e compartilhamentos. Não se vê profissionalismo na captação (legal) de dados dos eleitores, muito menos segmentação de discursos. Enquanto isso, Ciro Gomes embarca na onda do falatório teatral à moda João Santana. Estamos atrasados também no marketing político.

Um juiz canhestro influencia o presidente da República

Por Paulo Henrique Arantes

O professor de Direito Conrado Hübner Mendes, hoje um dos mais lúcidos e ácidos colunistas da imprensa brasileira, cunhou o termo “populisprudência” no auge da Operação Lava Jato. Seria o uso de técnicas retóricas populistas para justificar uma decisão judicial. Ou seja, uma forma de o juiz amealhar apoio popular aos seus posicionamentos. As estrelas da “populisprudência”, por óbvio, eram os ministros do Supremo Tribunal Federal, ávidos por se mostrarem implacáveis contra a corrupção. Deu no que deu.

Por certo este não é o momento de atacar o STF, última trincheira institucional a fazer algum contraponto aos desvarios de Jair Bolsonaro. O legalista, eterno voto vencido Marco Aurélio Mello deixou a corte, restaram os tímidos, os omissos e os ousados. Claro, além do fundamentalista religioso e daquele abertamente bolsonarista.

Nunes Marques foi ao presidente intrometer-se na escolha de um dos novos membros do Superior Tribunal de Justiça e obteve sucesso.  Revelou-se mais influente do que seu colega de corte Gilmar Mendes, mestre do leva-e-traz com políticos.

Nunes Marques desbancou Gilmar, aquele que, monocraticamente, impediu a nomeação de Lula como ministro de Dilma Rousseff. Gilmar, aquele que almoçava com José Serra e jantava com Michel Temer entre um julgamento e outro de petistas, e para quem Aécio Neves ligava dia sim outro também.

 A proximidade de ministros com políticos viola a integridade do Supremo Tribunal Federal. Sim, Nunes Marques derrotou uma expert no jogo, o que não é o suficiente para alçá-lo à condição de mestre desse xadrez pouco republicano.

Tivemos no decurso da carreira jornalística oportunidade de aprender com muitos juristas sérios, alguns brilhantes. Todos eles enalteceram o saber jurídico de Gilmar Mendes e condenaram a falta de cerimônia com que participava de convescotes com políticos. Até certos contorcionismos semânticos na hora de apresentar um voto mereceram aplausos pela originalidade.

 De Nunes Marques não se pode dizer o mesmo – nunca se viu alguém lúcido que louvasse seus conhecimentos de Direito, nem se ouviu da boca dele discursos “populisprudenciais” que possuíssem o mínimo de charme retórico, a despeito de impropriedades hermenêuticas. Sua argumentação ao mandar soltar o deputado Fernando Francisquini, episódio patético, foi uma demonstração de ignorância sobre plataformas, liberdade de expressão e fake news. É esse ministro, cuja toga não lhe confere estofo, que influencia o presidente do Brasil.