EUA e Otan não lutam pela Ucrânia

Por Paulo Henrique Arantes

Há quase um ano, quando a guerra da Ucrânia dava seus primeiros passos, o professor de Direito Internacional da FGV Salem Nasser disse a este colunista que o mundo iria mudar radicalmente depois do conflito.

“A gente não consegue imaginar de antemão todos os traços desse novo mundo, porque há forças que empurram em direção a mudanças e outras que vão tentar opor resistência às mudanças. Há algumas caraterísticas que eu vejo como certas, ainda que não saibamos em que grau. Haverá uma acentuação da decadência do poder americano, apesar de os Estados Unidos darem mostras de sua força com a imposição de sanções – a força americana aparece muito claramente no sistema econômico mundial”, previu Nasser.

O recrudescimento da guerra e as fracassadas propostas de paz ainda não permitem vislumbrar esse novo desenho geopolítico, mas uma coisa é certa: a Otan consolida-se como peça determinante do belicismo. “O Ocidente mostrou ‘desprezo desafiador’ pelas preocupações de Moscou ao continuar a mover a infraestrutura militar da Otan para mais perto das fronteiras da Rússia, disse o representante permanente da Rússia na ONU, Vasily Nebenzia, em uma sessão especial da Assembleia Russa na quarta-feira (22), na véspera da votação de uma resolução que condenou a Operação Militar Especial da Rússia na Ucrânia”, publicou o Brasil 247.

Nebenzia está certo e sua fala corrobora o que nos disse o professor Nasser no limiar do conflito. A Otan está sendo testada e está falhando no teste. A Ucrânia foi pré-inserida na Organização de fato antes de sê-lo de direito. O país vinha sendo armado e recebia ajuda de inteligência. A Otan e os Estados Unidos, na prática, usam a Ucrânia como um território de batalha para enfraquecer os russos – ou para talvez desafiar os chineses. Nunca estiveram efetivamente dispostos a lutar pela Ucrânia.

A tendência geral é enxergar a invasão da Ucrània, ainda hoje, como ilegal. Porém, Nasser observou que haveria razões, em termos jurídicos, para que o país de Putin realizasse a intervenção.  A Rússia pode ter-se sentido ameaçada por um ataque da Ucrânia, mesmo não sendo iminente tal ataque.  

Em termos de relações internacionais, sempre segundo Salem Nasser, há também o argumento razoável de que os russos foram empurrados para a ação invasora, motivados pelo comportamento dos Estados Unidos e da Otan.

“Não se trata de defender a invasão nem os métodos utilizados na invasão, mas de explicar por que aconteceu e por que não poderia ter sido de outro jeito. Acho que não havia alternativa, foi tudo preparado para que acontecesse do modo como aconteceu. É claro que, depois que acontece, os resultados de uma guerra são sempre incertos”, salientava Nasser nos primeiros dias da guerra.

Por que o cashback de Appy é melhor do que desonerar a cesta básica

Por Paulo Henrique Arantes

Secretário de Reforma Tributária do Ministério da Fazenda, Bernard Appy disse na terça-feira (15) que a proposta do governo para tornar mais justa a cobrança de impostos sobre o consumo adotará um cashback  – devoluçãode tributos às famílias de baixa renda.

Ou seja: uma pessoa de baixa renda compra um produto e informa o CPF no momento da transação. O governo verificará o tributo cobrado e devolverá o valor ao comprador até determinado limite.

O modelo é defendido por Appy há bastante tempo, por entender que devolver imposto é melhor do que isentar, no caso dos tributos sobre o consumo. Em novembro, ele explicou a este colunista: “Propomos um sistema que chamamos de isenção personalizada. Em vez de isentar mercadorias, devolve-se dinheiro às pessoas de baixa renda. Você arrecada com uma alíquota mais alta e devolve o dinheiro incidente sobre o consumo às pessoas de baixa renda, obviamente até um limite, para não ter fraudes. Esse sistema, do ponto de vista distributivo, é muito mais eficiente do que desonerar cesta básica”.

A vantagem do modelo cashback sobre a desoneração da cesta básica parece clara.  Se considerarmos as últimas pesquisas de orçamentos familiares, notaremos que famílias com renda acima de 25 salários mínimos por mês consomem, em termos absolutos, três vezes mais produtos da cesta básica que as famílias com renda de até dois salários mínimos. Então, quando se desonera a cesta básica, embora em termos relativos o benefício seja maior para o pobre, em termos absolutos está se dando mais dinheiro para famílias ricas do que para famílias pobres.

Lula bate no monetarismo     

Por Paulo Henrique Arantes

O humorista dizia que as pessoas são diferentes, mas umas são mais diferentes que outras. Bastante diferente é Lula. Primeiro, por sua história de vida. Depois, pela coragem de dizer verdades factuais, o que provoca calafrios da horda de pusilânimes que povoa os debates político e econômico.

      Enxergar uma orquestração no governo para derrubar o presidente do Banco Central, que tem mandato, não chega a ser sintoma pré-cegueira, mas muito mais provável é que haja uma orquestração para forçar a derrubada dos juros, o que é legítimo e necessário.

      Quando Lula afirma que capitalismo é crédito, produção, emprego e consumo, ele joga luz sobre uma verdade factual consoante alguns princípios de desenvolvimento capitalista. A política monetária não pode ser determinante de toda a economia, de resto uma disciplina humana, não exata.

      Keynes foi um dos maiores intelectuais do Século XX não apenas por sua “Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro”, mas pela forma humanizada com que peitou dificuldades econômicas, solucionando boa parte delas. Se a Escola de Chicago pretendeu sepultar o professor de Cambridge, falhou, pois o laboratório neoliberal aprofundou desigualdades e quebrou meio mundo em 2008 (não quebrou o mundo inteiro porque o Estado, keynesianamente, agiu).

      O argumento reiterado por Lula de que a inflação brasileira não decorre de demanda é outra verdade absoluta, fato notório. Uma breve sondagem das famílias revelará restrições de consumo na direção da vida franciscana.

      A mídia hipócrita, Estadão à testa, apregoa que Lula “ataca” o Banco Central porque este “contraria os interesses do governante de turno”. Trata-se de irritante distorção, já que o presidente do Brasil defende agora os princípios que sempre defendeu, os quais o elegeram pela terceira vez. O monetarismo nunca esteve entre esses princípios. Além do mais, Roberto Campos Neto não passa de um militante bolsonarista travestido de quadro técnico.

      O preceito básico que norteia atos e palavras de Lula, neste momento e desde sempre, é o da justiça social, algo inalcançável quando se tem como obstáculo os maiores juros do planeta. A economia pode e deve ser um instrumento promotor de justiça social, uma ferramenta para alcançar a igualdade.

      Oportuno transcrever Thomas Piketty, em “Capital e Ideologia”: “Sociedade justa é aquela que permite ao conjunto de seus membros o maior acesso possível aos bens fundamentais. Entre esses bens fundamentais figuram sobretudo a educação, a saúde, o direito ao voto e, em termos mais amplos, a participação de todos nas diferentes formas de vida social, cultural, econômica, civil e política. A sociedade justa organiza as relações socioeconômicas, as relações de propriedade e a distribuição de renda e de patrimônio a fim de possibilitar aos membros menos favorecidos que se beneficiem das mais elevadas condições de vida possíveis”.

      A sociedade imaginada por Piketty não é utópica – alguns países chegaram bem perto dela. Nenhum deles posicionando a política monetária acima de tudo e de todos.

Há quem se preste a atacar Lula por criticar Lemman

Por Paulo Henrique Arantes

 Corre a todo vapor o esforço dos jornalões para que se deflagre um movimento de oposição cega ao governo Lula, que não completou dois meses. Não chega a ser surpresa, mas o cinismo é aberrante e descarada é a intenção de turbinar a pressão do mercado contra qualquer ação que vise a recompor o poder aquisitivo da classe média e conferir dignidade às classes mais baixas da pirâmide social.

      Colunistas, comentaristas e outros que os valham alegam que a mídia independente tenta tornar Lula uma espécie de presidente inimputável, por afinidades ideológicas ou pelo fato que, com ele, a democracia não corre risco. Ora, a garantia da democracia é argumento bastante forte, mas, do lado de cá, não se pretende nada parecido com inimputabilidade.

      O governo Lula merece, no mínimo, tempo. E que não se busque escandalizar gestos corriqueiros nem enxergar pelos em ovos.

      Incontáveis vezes, Lula afirmou que nesta sua nova jornada, a exemplo das anteriores, atuará de forma responsável em termos fiscais. Um novo arcabouço fiscal está sendo concebido, claro que bem diferente do teratológico teto de gastos, dispositivo de resto ignorado por Bolsonaro e Paulo Guedes.

      Mas, o que fazem os jornalões?

      Semeiam o clima de terror econômico quando o presidente diz, simples e corretamente, que a responsabilidade social deve preponderar sobre a responsabilidade fiscal, como se isso sinalizasse gastança indiscriminada, algo que nunca houve nos governos Lula. Fernando Haddad montou uma equipe técnica qualificada na Fazenda, pôs Bernard Appy para cuidar da reforma tributária, autor de uma proposta antes aplaudida pelo mercado.

       Para o pessoal da bufunfa, não basta. A turma que se imagina liberal não tem a menor preocupação com coisas como miséria, fome, educação e saúde dilapidadas. Na verdade, nem deseja “menos Estado”, mas um Estado a seu serviço exclusivo. Não a sensibiliza a fala capitalista, porém saudável, de Lula, proferida na entrevista dada semana passada a Kennedy Alencar, quando criticou o juro alto: capitalismo é dinheiro circulando, é crédito, é poder de compra pelo povo, é emprego, é produção.

      A onda mais recente é atacar Lula por criticar… Jorge Paulo Lemman! O sujeito que mascara contabilidades, dá calotes, lucra bilhões com isso etc e tal, como se viu com espanto, mereceu elogios do inefável Carlos Alberto Sardenberg, que o caracterizou como mecenas. Para o jornalista de O Globo, Lemman não cometeu crime, só “errou”, e quem merece repúdio é o presidente.

      Ah! Mas o mercado puniu Lemman com a queda das ações das Americanas! E daí? Fraudes de 40 bi deveriam gerar reações muito mais graves do que a queda do valor de ações.

      Esse pessoal é incorrigível e nem disfarça seu preconceito. A aversão a Lula tem raízes históricas e é fruto de temores injustificados, já que os negócios dessa gente andaram muito bem, obrigado, nos governos do petista.  Em síntese, os donos do dinheiro tiveram motivos para detestar Bolsonaro, mas algo mais forte os afasta de Lula: o nordestino, ex-operário, definitivamente não é um deles.

Antes de tudo, um covarde

Por Paulo Henrique Arantes

Jair Bolsonaro encarna muito mais que o neofascismo emergente no mundo. Personifica o horror humano perpetrado por tiranos no curso da História. Hitler, Ceausescu, Franco, Pinochet e Garrastazu Médici merecem a companhia do capitão arruaceiro no lixo histórico. O Tribunal Penal Internacional o espera.

      A tragédia por ele provocada durante a pandemia de Covid-19, quando incentivou aglomerações, desencorajou o uso de máscara de proteção e desacreditou a vacina, teria na desgraça dos sufocados em Manaus seu ponto alto, mas a mortandade dos Yanomamis, de causas agora elucidadas, insere sua vilania em um patamar ainda mais alto.

      Anote-se: desgraça semelhante anuncia-se entre os povos Munduruku, Kayapó, Sawré Muybu e outros, todos igualmente impactados pelo garimpo ilegal.

      “Alô, pessoal de Roraima, é o Jair Bolsonaro. Em 2019, vamos desmarcar a Raposa Serra do Sol. Vamos dar fuzil com porte de arma para todos os fazendeiros” – esta foi uma das inúmeras falas do então presidente do Brasil alusivas à questão indígena. Onde estavam todos quando ele disse isso?

      A principal característica dos tiranos, além da crueldade, é a covardia. Qualquer medida governamental contra povos originários ou quaisquer minorias é antes de tudo covarde. Quando tomada para beneficiar criminosos, merecem qual denominação?

      A covardia do tirânico ex-presidente, que simplesmente fugiu, sempre foi evidente. Evidente quando negava o que havia dito, quando não encarava a imprensa, quando atacava mulheres, quando ridicularizava indefesos, como fez com os quilombolas.

      Bem observou Joaquim de Carvalho, neste Brasil 247. Toda vez que a corda estica, Bolsonaro sofre uma crise nas tripas decorrente da famigerada “facada” de Juiz de Fora. Ao baixar hospital, tenta despertar a piedade dos incautos. A autopiedade é outra característica dos covardes.

      A quem quiser ilustrar-se sobre a personalidade de Jair Bolsonaro, basta buscar o termo “covardia” num bom dicionário ou no Google: característica da pessoa desleal ou traiçoeira; comportamento que revela fraqueza de espírito, falta de coragem e medo; cagaço; característica de indivíduo violento, que age com deslealdade diante de pessoas frágeis.

Moraes, fake news e o 8 de Janeiro

Por Paulo Henrique Arantes

 Ativismo judicial é o nome que damos a atos do Judiciário dos quais discordamos, mas classificar ou não uma medida por esse termo é irrelevante, pois o que importa é a fundamentação da decisão judicial. Assim ensinam os bons juristas.

      Acusado de ativista – ou pior, de partidário -, o ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Alexandre de Moraes, tem sido na verdade um magistrado aberto a, digamos, certa criatividade jurídica, diante do risco de usurpação da democracia brasileira.

      Encontrar interpretações criativas e plausíveis, que viabilizem formas de atuação judicial, é muito diferente de abandonar o compromisso com as regras que todo juiz assume a priori. No caso das prisões dos terroristas do 8 de Janeiro, não há o que discutir. Flagrante é flagrante. Idem quanto à busca dos seus idealizadores e patrocinadores.

      Quanto aos questionamentos à atuação de Moraes no comando do TSE, o primeiro ponto a ser levado em conta é a omissão do Ministério Público Eleitoral, que praticamente nada fez diante a enxurrada de fake news bolsonaristas que inundou o pleito.

      O Observatório da Desinformação On-line nas Eleições de 2022, da Fundação Getúlio Vargas, identificou 427 ações sobre desinformação apresentadas à Justiça por partidos, coligações, federações e candidatos. O MP foi autor de 1% das denúncias. A Procuradoria Geral Eleitoral passou 70 dias da campanha eleitoral sem apresentar questionamentos ao TSE sobre a prática de desinformação contra o processo eleitoral.

      Era natural que o TSE tomasse medidas aparentemente “ativistas” para conter movimentos orquestrados visando a desacreditar as eleições e a própria democracia. O descrédito sobre o processo eleitoral, enfim, foi a motivação principal do ataque terrorista aos Poderes no 8 de Janeiro.

      É preciso, antes de mais nada, entrar em consenso sobre as questões fáticas que envolveram um nível de produção de material de conteúdo inverídico nunca visto. A ausência de protagonismo do Ministério Público Eleitoral é uma delas.

Neoliberais fracassam, mas não desistem

Foto: Milton Friedman e Augusto Pinochet

Por Paulo Henrique Arantes

Paulo Nogueira Batista Jr. disse à TV 247 que o neoliberalismo econômico está intrinsecamente ligado a governos autoritários, pois seus cânones jamais seriam predominantes em regimes democráticos. Trata-se de verdade factual e, por factual, incontestável. Ilustram-na à perfeição algumas das ditaduras latino-americanas dos anos 60-70-80, dentre as quais o Chile de Pinochet é modelo perfeito, tendo constituído laboratório de Milton Friedman e sua Escola de Chicago.

      Os meios utilizados pelos discípulos de Friedman para tomarem conta da economia dos países são descritos com riqueza de detalhes no livro “A Doutrina do Choque – A Ascensão do Capitalismo de Desastre”, de 2007, obra consagrada de Naomi Klein que merece revisitação.

      O polo chileno das experiências neoliberais está presente em boa parte do livro de Klein. É o mercado, na sua pior acepção, a chancelar uma ditadura implacável em troca de sinal verde para suas experiências econômicas, algo que se tentou reproduzir no Brasil de Paulo Guedes e Jair Bolsonaro (sim, é verdade que a ditadura bolsonarista não se concretizou – morreu na tentativa).

      Eis um trecho de “A Doutrina do Choque”:

      “Ainda que Pinochet pouco entendesse de inflação e taxas de lucro, os technos falavam uma língua que ele compreendia. A economia para eles era como as forças da natureza e precisava ser respeitada e obedecida porque agir contra a natureza seria contraproducente e ilusório. Pinochet concordava: as pessoas devem se submeter às estruturas porque a natureza mostraria que uma ordem elementar e uma hierarquia eram necessárias. Essa crença mútua de que estavam obedecendo a leis naturais superiores formou a base da aliança entre Pinochet e os Garotos de Chicago.”

      Nas linhas a seguir, a autora, jornalista premiada, poderia estar descrevendo o Brasil idealizado por Paulo Guedes, e, antes dele e de Bolsonaro, por Michel Temer e Henrique Meirelles:

      “Durante o primeiro ano e meio, Pinochet seguiu fielmente as regras de Chicago: privatizou algumas, mas não todas as empresas estatais (inclusive bancos); autorizou novas formas de especulação financeira; abriu as fronteiras para a importação, derrubando as tarifas que protegeram por muito tempo as manufaturas chilenas; e cortou os gastos governamentais em 10% – com exceção dos militares, que receberam um aumento considerável.”

      As tais “leis naturais da economia”, que os neoliberais tanto amam, garantiriam o equilíbrio econômico e recuo da inflação – a cabeça de Pinochet estava feita.  Mas eles erraram no Chile, como de resto em todos os lugares nos quais se meteram. Em 1974, cerca de um ano depois de os Chicago Boys apossarem-se da economia chilena, a inflação anual atingiu 375%, segundo Klein a taxa mais alta do mundo na época e duas vezes maior do que a do governo socialista de Salvador Allende, o heroico antecessor do ditador.

      O resultado imediato do neoliberalismo durante a ditadura Pinochet foi o aumento do desemprego e a inundação do comércio por produtos importados. Empreendimentos locais fecharam, incapazes de competir. O desemprego bateu recordes e a fome tornou-se alarmante. O laboratório da Escola de Chicago era um fracasso e os remédios ministrados a partir dali, ainda em conformidade com o receituário de Friedman, deram num tipo de tragédia bem conhecido por aqui:

      “Deu-se continuidade à tarefa de destruir o Estado de bem-estar para alcançar a utopia de capitalismo puro. Em 1975, fizeram um corte de gastos públicos de 27% numa tacada só – e continuaram cortando até que, em 1980, estes já representavam metade do que haviam sido com Allende. Saúde e educação sofreram os maiores baques. Mesmo a revista The Economist, uma defensora declarada do livre mercado, chamou aquilo de ‘uma orgia de mutilação’”.

      Sob Lula, o Brasil possui ferramentas para livrar-se da mentalidade selvagem dos Chicago Boys. Mas é preciso muita atenção: escandalizados com a bestialidade bolsonarista, muitos deles apoiaram o candidato do PT e exercerão toda forma de pressão sobre a equipe liderada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Todo cuidado é pouco.

Psicopata perdulário

Por Paulo Henrique Arantes

Lembremos de que Orlando Silva, quando ministro do Esporte, em 2008, foi massacrado por ter comprado uma tapioca com cartão corporativo. Havia uma CPI dos Cartões Corporativos em curso. A fúria da mídia falso-moralista foi implacável, afinal tratava-se de um “comunista gastador”.

Apesar do tom de denúncia, não se vê em geral a mesma indignação quando se revela a gastança fútil e desmedida de Jair Bolsonaro: 27,6 milhões de reais com hotéis de luxo, cosméticos, guloseimas de padaria e outros supérfluos. Nada desprezível para quem se vendia como comedor de pão com leite condensado sobre mesas emporcalhadas e desfilava no exterior traçando pedaços de pizza em pé.

A explicação para a baixa indignação talvez seja o fato de que Bolsonaro fez coisas muito piores do que esbanjar dinheiro público. É verdade, mas o comportamento perdulário pode expor um traço de personalidade do psicopata, pois evidencia o ímpeto de saciar a própria vontade sem se preocupar com as consequências ou as implicações ético-morais.

Vale rememorar o que o psiquiatra alemão Kurt Schneider escreveu sobre os psicopatas: “A inteligência limítrofe ou seletiva leva-os a praticar atos bizarros, por turrice e teimosia. Persistem voluntariosos, desde que seja em benefício próprio”.

Nada pode ser mais bizarro – evite-se por ora o termo “criminoso” – do que torrar 109 mil reais num restaurante ultramodesto de Boa Vista (RR) num único dia, especialmente quando se está ali para verificar a situação de refugiados. A não ser que o presidente tenha levado os refugiados para almoçar, o que é improvável.

O perdularismo psicopático – ou psicopatia perdulária, tanto faz – foi uma das características marcantes do governo sepultado, em boa medida exercido em parceria com as Forças Armadas, que em 2021 consumiram 500 toneladas de filé mignon e 80 mil cervejas Heineken e Stella Artois – muito boas, por sinal -, como descobriu o deputado Elias Vaz (PSB-GO).

Expulsão de Bolsonaro só depende da vontade do governo Biden

Foto: Chandan Khanna/AFP

Por Paulo Henrique Arantes

O mundo repudiou o terror praticado em Brasília no domingo 8. Os Estados Unidos condenaram a barbárie com veemência. O presidente Joe Biden classificou-a de “ultrajante” e deputados democratas defenderam a expulsão de Jair Bolsonaro, que está na Flórida numa condição mezzo em férias, mezzo foragido. Depois da fracassada – porém concreta – tentativa de bolsonaristas de derrubar o governo Lula, aumentaram exponencialmente as chances de o capitão ser preso ao por os pés no Brasil. Ao que parece, findou-se qualquer tipo de condescendência.

      Resta saber se a expulsão é juridicamente possível e politicamente provável.

      A coluna conversou a respeito com o professor do Instituto de Relações Internacionais da USP Padro Dallari. Como não há pedido de extradição feito pelo Judiciário brasileiro, a saída compulsória de Bolsonaro dos Estados Unidos teria de decorrer de uma decisão unilateral do governo americano. “É uma hipótese viável, mas difícil de operacionalizar, por razões políticas e jurídicas”, disse-nos Dallari.

      Contudo, a fala de Bolsonaro sobre o ato golpista, balbuciando que depredações “fogem à regra”, já revelam, no entender de Dallari, receio de ser expulso por parte do genocida e teve “caráter evidentemente acautelatório”.

      Já o advogado Pedro Serrano, também ouvido pela coluna, foi enfático: “O governo americano tem competência ampla para por qualquer estrangeiro para fora”.

      O jurista Lênio Streck, com quem também conversamos, observou que a estadia de Bolsonaro nos Estados Unidos “é precária, como de qualquer cidadão”, e depende da boa vontade do anfitrião. “Se o governo dos Estados Unidos decidir politicamente não mais acolher as férias de Jair Bolsonaro, não creio que alguém possa evitar esse ato governamental”, concluiu Streck.

A empatia envergonhada entre Bolsonaro e os jornalões     

Por Paulo Henrique Arantes

Não demorou nem uma semana desde a posse de Lula e os nossos centenários jornalões, em parte responsáveis pela ascensão de Jair Bolsonaro, já deflagraram artilharia contra o novo presidente. Como antes, pinçam-se gestos irrelevantes de membros do governo e tenta-se escandalizá-los. Ou descontextualiza-se uma frase. A sincera declaração de Simone Tebet de que tem divergências conceituais com Fernando Haddad, por exemplo, foi tratada como sintoma de confusão.

    Durante a campanha eleitoral, bateu-se insistentemente na tecla de que a condução da economia no país deveria se dar de forma livre de dogmas e apegos ideológicos. Cobrou-se uma gestão “não petista” nessa área, sempre aludindo-se ao “fracasso” do governo Dilma Rousseff. A escolha de Haddad para a Fazenda, um petista atucanado, deveria bastar. Mas o ex-prefeito de São Paulo, que deixou reserva importante nos cofres da cidade, foi tratado como radical de esquerda.

      Tebet no Planejamento, de outra parte, foi uma prova de que o governo Lula lidará com a economia mediante visão plural. Agentes públicos de notável civilidade e técnicos desapegados de manuais ideológicos estarão à frente dos trabalhos. Mas ainda não é suficiente. O mercado, sempre um espectro assustador, e suas vozes na mídia exigem uma economia de financistas, pelos financistas e para os financistas, coisa que o governo Lula nunca lhes entregará, pois não foi eleito para isso.

      O ministro Flávio Dino é outro dos alvos. Sério, correto e conhecedor das leis, Dino cumpre seu dever republicano ao defender a apuração de eventuais crimes de Bolsonaro e sua punição conforme o Código Penal, se condenação houver. Há quem exiba o cinismo de bradar: “sem revanchismo”, como se a anistia a criminosos constasse dos acordos políticos efetuados para composição do novo governo. Governo de união não significa governo tolerante com a delinquência, além do que questões judiciais serão decididas pelo Judiciário.

      A criação da Procuradoria de Defesa da Democracia, no âmbito da Advocacia Geral da União, é outro foco da indignação cínica da uma imprensa que um dia se revoltou com Bolsonaro, pero non mucho. A medida, interpretada honestamente, revela-se perfeita como instrumento adicional no combate às fake news, armas consagradas de uma verdadeira organização global neofascista. O tema é tratado como uma iniciativa para “punir opiniões”, como se os paladinos da opressão não fossem os integrantes do governo que acabou.

      O fato de um político como Bolsonaro ter contado em boa parte do seu desgoverno com analistas cheios de dedos antes de enquadrá-lo já revelava a verdadeira face dos jornalões brasileiros. Há uma empatia disfarçada entre parte da imprensa e o capitão fujão.

      Não se roga por condescendência ou vista grossa perante erros do governo Lula. Ao contrário, espera-se da imprensa rigor na fiscalização dos seus atos, mas não o lançamento de balões de ensaio diuturnos para desestabilizá-lo antes do engate da segunda marcha.