A difícil reconstrução da educação

Por Paulo Henrique Arantes

Até 2016, o Brasil vinha avançando no campo da educação. A Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) informava que o ingresso no sistema de ensino de crianças de quatro a cinco anos, idade pré-escolar, aumentara de 72,5% em 2005 para 89,1% em 2014, e que o acesso à educação básica subira de 89,5% para 93,6% nos 10 anos anteriores. Dos 44,3 milhões de brasileiros com idade entre quatro e 17 anos, 41,5 milhões estavam na escola em 2014.

A destruição absoluta de qualquer tipo de avanço social não começou com Jair Bolsonaro, mas com Michel Temer, em cujo governo lançou-se o atual plano do Novo Ensino Médio, ora suspenso. Com Bolsonaro, veio o desmonte total, por isso há muito mais a fazer do que interromper a implantação do NEM. É preciso olhar também para o ensino superior.

Vale recordar.

 O governo do capitão portou-se retórica e administrativamente como inimigo da educação. Para Bolsonaro e para os ministros Vélez Rodrigues, Abraham Weintraub e Milton Ribeiro – difícil escolher o pior -, professores eram pregadores marxistas e como tal deviam ser vigiados e delatados. Sociologia e filosofia seriam dispensáveis na formação do estudante. Universidades federais nada faziam além de promover “balbúrdias”.

Especialista no setor financeiro, Weintraub aportou no Ministério da Educação anunciando cortes na Universidade de Brasília, na Universidade Federal Fluminense e na Universidade Federal da Bahia. De cara, o governo Bolsonaro impôs as universidades federais cortes de 2,08 bilhões de reais, o correspondente a 29,74% do seu orçamento discricionário, de 6,99 bilhões de reais.

Ao não inserir o ensino superior público entre suas prioridades na hora de contingenciar recursos, o governo Bolsonaro demonstrou desconhecer que das 50 instituições que mais publicam trabalhos científicos no país, 36 são universidades federais e sete são universidades estaduais.

Um dos mais respeitados cientistas brasileiros, referência internacional em temas climáticos, Carlos Afonso Nobre disse ao colunista naquela época que 95% da pesquisa no Brasil são realizados em universidades públicas. Os 5% restantes seriam feitos por quatro instituições particulares – PUC, Fundação Getúlio Vargas, Insper e Mackenzie.

“Todos os governos de viés autoritário, de esquerda ou de direita, atuam para silenciar a universidade”, afirmou Nobre, relacionando a ideia de desmonte do ensino público com os princípios neoliberais que emergiram com Ronald Reagan na Presidência dos Estados Unidos, nos anos 80, e ganharam força agora na figura de Donald Trump.

“Reagan, Trump e seus seguidores entendem que cobrar menos impostos dos ricos é o que basta para desenvolver um país. É preciso ressaltar, contudo, que nos Estados Unidos as universidades não são públicas, mas contam com pesados incentivos públicos”, destacou o cientista.

Como contraponto, citou a Coreia do Sul, que foi castigada na crise de 2008 mas que, mesmo diante de uma queda brutal de suas exportações, aumentou os investimentos em ciência e tecnologia. “Quando passam por um aperto, eles pensam em como se tornar mais resistentes e competitivos no futuro”, elogiou.

Mas, seriam esquerdistas os professores brasileiros? Certamente, muitos o são, outros tantos não. A liberdade de cátedra, contudo, lhes deve ser assegurada. De todo modo, o tal “marxismo cultural” que predominaria nos meios acadêmicos é ficção. Karl Marx – tanto quanto Hegel, Adorno ou Platão – é referência filosófica para a humanidade. Imaginar que falar de Marx numa sala de aula levará jovens estudantes do Século XXI a empunharem foice e martelo contra o capitalismo e as “famílias” é um atentado ao bom senso. E é, antes de tudo, uma visão ideologizada.

 Em qualquer campo da atividade humana, o desenvolvimento do pensamento crítico é absolutamente central, ainda mais nos dias de hoje, em que se tem uma abundância de informações por todos os poros e canais. É necessário transformar essas informações em conhecimento, e esse conhecimento só se concretiza quando se adquire uma visão crítica.

Lembre-se de que filosofia e sociologia eram ministradas em muitas escolas do ensino médio antes de serem eliminadas pelo regime militar. Os militares de então, junto com as forças políticas dominantes, acreditavam que aquelas aulas eram uma espécie de valhacouto de comunistas, o que já naquela época era uma tolice.

No conflitivo cenário atual, apenas uma base curricular moldada por critérios técnico-pedagógicos e que contemplem os avanços civilizatórios, de modo afeito à realidade brasileira, pode fazer da educação um instrumento de construção do futuro – quer-se crer que o governo Lula pensa dessa forma.

CNBB fechada com Francisco

Por Paulo Henrique Arantes

A perseguição jurídica, política e midiática a Lula e o golpe constituído pelo impeachment de Dilma Rousseff foram assim reconhecidos pelo Papa Francisco em entrevista ao canal de notícias argentino C5N. Francisco é um líder progressista, que combate com a força da palavra as injustiças sociais e luta para derrubar dogmas milenares. Não poderia estar do outro lado.

      Francisco incomoda não só os poderosos responsáveis pela desigualdade extrema, mas também seus pares conservadores no âmbito da Igreja Católica, que insistem na preservação de uma Igreja cuja única função seria o conforto espiritual dos desesperados. Para o Papa Francisco, a inação diante do sofrimento não condiz com a fé católica, tampouco o silêncio perante a injustiça.   

       Não são poucos os padres bolsonaristas enrustidos, aqueles que dedicam suas homilias a alertar as famílias para o perigo comunista – valha-nos, Deus! Para sorte dos católicos brasileiros em geral, a CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – está fechada com Francisco.

      As 100 páginas descritivas da Campanha da Fraternidade 2023 compõem um retrato fiel do Brasil injusto e faminto. E evoca uma fé atuante buscando seu mote no Evangelho segundo Mateus: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.

      A fome carrega tanto o caráter de padecimento físico como a simbologia da exploração do homem pelo homem. Não há razão econômica que a justifique. Francisco bem diagnosticou durante as comemorações dos 75 anos da FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura: “Para a humanidade, a fome não é só uma tragédia, mas também uma vergonha. Em grande parte, é provocada pela distribuição desigual dos frutos da terra, à qual se acrescentam a falta de investimentos no setor agrícola, as consequências das mudanças climáticas e o aumento dos conflitos em várias regiões do planeta. Por outro lado, descartam-se toneladas de alimentos. Diante desta realidade, não podemos permanecer insensíveis ou paralisados. Somos todos responsáveis”.

      O cinismo de quem tenta pespegar cores partidárias em quem denuncia as causas da fome e da desigualdade ampla é eloquente. Não é a ideologia, mas o senso de justiça que chama à indignação quando comida é chamada de commodity.

      No Brasil, como bem descreve a CNBB no texto-base da Campanha da Fraternidade 2023, a fome não é problema ocasional, mas social, coletivo, estrutural e “reproduzido no curso ordinário da sociedade, que normatiza e naturaliza a desigualdade – é um projeto de manutenção da miséria em vista de perpetuação no poder”.

     Eis mais um trecho do texto-base da Campanha, este de fazer corar os “fiéis” da pátria, da família e da liberdade: “A crise econômica se alia, por exemplo, a uma conjuntura difícil no mercado de trabalho, dada a precarização da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), promovida pela reforma trabalhista de 2017 (Lei n. 13.467). O desemprego e o subemprego, ou trabalho informal, sem as necessárias seguranças institucionais, não podem faltar na lista das causas da fome no Brasil. É o trabalho assegurado e devidamente remunerado que possibilita ao ser humano comer com dignidade”.

      A CNBB ainda não condenou a perseguição a Lula e o golpe em Dilma, mas está em sintonia com o Papa Francisco no trato das questões sociais.

Economista Nelson Marconi considera arcabouço da Haddad restritivo

Por Paulo Henrique Arantes

O economista Nelson Marconi, professor da FGV, disse a este colunista que considerou o arcabouço fiscal anunciado hoje (30) pelo ministro Fernando Haddad “restritivo”, e que os percentuais propostos servirão para o governo “abrir negociação com o Congresso”.

Assessor econômico de Ciro Gomes na campanha eleitoral, Marconi afirmou que o plano “deveria ser anticíclico, e para tal o investimento deveria estar fora da regra”.

O economista foi além em sua crítica: “Para cumprir o que está propondo, o governo terá que elevar receitas. E não vi ninguém até agora falar em tributação sobre lucros e dividendos ou grandes patrimônios”.

A ver. O plano econômico, conforme anunciou Haddad, estará descrito de forma mais detalhada quando for enviado ao Congresso, na semana que vem.

Jornal da “ditabranda” incensa o mago das fake news

Photo by Stephanie Keith/Getty Images

Por Paulo Henrique Arantes

A mentira faz parte da vida, e às vezes recorremos a ela para evitar contratempos mais sérios. Essa é a mentira sem dolo, mas mentira, por certo. Nunca mentir parece uma qualidade inalcançável ao ser humano, todavia forjar inverdades para destruir reputações é abominável. O mestre supremo dessa arte criminosa ganhou destaque na Folha de S. Paulo nesta quarta-feira (29).

     Steve Bannon começa a entrevista interrompendo o repórter para dizer que não acredita que Trump e Bolsonaro perderam as eleições. Nada mais precisaria falar para que o leitor razoável mandasse o jornal imediatamente à lata de lixo, ou abandonasse a página na internet.

     O uso de fake news como estratégia política vem sendo denunciado reiteradamente como arma da extrema-direita. São graves suas consequências à democracia e, mesmo assim, a incrível Folha ataca, ecoando agências de checagem, o site do governo encarregado de desmenti-las na mesma edição em que põe holofotes sobre Bannon, uma espécie de Goebbels contemporâneo. Claro, as tecnicalidades exigidas na averiguação de fakes e seu desmentido não estão todas presentes no site oficial, pois se trata de um instrumento menos técnico e mais de defesa institucional.

      Na macropolítica, as fake news subiram ao topo durante a campanha que elegeu Donald Trump presidente dos Estados Unidos, mas não ficaram atrás em pleitos de alguns países europeus. No Brasil, Jair Bolsonaro elegeu-se mediante uso e abuso de noticias falsas, elaboradas por gente contratada, cabeças pensantes preparadas para elaborar coisas como a “mamadeira de piroca” que seria distribuída às crianças pelo candidato adversário. Bannon orientou a campanha bolsonarista e ainda hoje é próximo de Eduardo, o 03 que compete com o pai no campo das louvações à ditadura – para a Folha, “ditabranda”, conforme nauseante editorial de tempos atrás.

     Enalteça-se a existência de um movimento contrário às fake news, ao qual o governo Lula adere por meio do referido site, do qual a Folha não gostou. Felizmente, a cada dia mais e mais pessoas têm consciência de que textos, memes e vídeos com que se deparam na internet contêm invenções, são fictícios mesmo. Pena que tanta gente se preste a disseminá-los mesmo sabendo serem falsos. As razões psicológicas e filosóficas que explicam tal comportamento já começam a ganhar literatura. 

      O Brasil tem pelo menos 100 milhões de “marqueteiros” distribuindo mentiras – a população faz parte do pecado, e as agências de checagem de fatos ainda não conseguem trabalhar na mesma velocidade. Enquanto a população endossar fake news, não se resolverá o problema. Ressalte-se que criá-las e disseminá-las é caluniar e difamar, crimes previstos no Código Penal Brasileiro, daí a nos perguntarmos por que tantas leis não são devidamente aplicadas no Brasil, outro problema histórico.

      No campo das estratégias políticas, das campanhas eleitorais especificamente, exagerar ou conferir cores mais fortes a comportamentos, atos e fatos tem sido a regra desde sempre – algo bem diferente de criar e espalhar fake news. Estes são recursos retóricos, persuasivos, não mentiras.

A estilhaçada bola de cristal de Mendonção

Por Paulo Henrique Arantes

“O Haddad está enfraquecendo porque tenta construir no governo uma política econômica que é radicalmente contra o que pensam os economistas e os políticos do PT. Por isso, vai cair. Pode não ser agora. Mas vai cair.”

Quem disse tudo isso ao portal Metrópoles, na terça 21, foi o ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES Luiz Carlos Mendonça de Barros, ambos os cargos exercidos nos anos FHC, que não foram em nada parecidos com a era Bolsonaro, mas que tiveram seu lado sombrio.

A bola de cristal de Mendonção costuma estilhaçar-se com facilidade.

Bom exemplo dos balões de ensaio que costuma soltar está neste trecho de artigo que publicou em janeiro de 2019, primeiros sopros do governo Bolsonaro, no Valor Econômico:

“O ambiente de negócios de hoje é o resultado de 30 anos de uma experiência democrática com forte participação da sociedade. O desenho final que temos hoje foi fruto da interação entre problemas criados por uma Constituição utópica e a realidade social e política que sempre acaba se impondo em uma democracia. (…) Por isto, as dificuldades para se chegar ao modelo ideal, que certamente está na cabeça da equipe econômica, serão muito maiores do que os previstos”.

Como percebeu Luís Nassif na época, Mendonção contorceu-se para dizer que o modelo econômico ideal não deve levar em contra a realidade social e política do país. A fala, certamente, destinava-se a agradar a alguém.

Mendonção já foi desenvolvimentista, nos tempos do Plano Cruzado. Virou financista com o Plano Real. No início do governo medieval do capitão, enxergava na “cabeça da equipe econômica” a virtuosa capacidade de identificar “as dificuldades para se chegar ao modelo ideal”. Errou feio, claro está. Não há como pinçar qualquer avanço econômico nos últimos quatro anos.

A quem sinaliza Mendonção ao lançar o balão de ensaio da fritura de Haddad? Bem, sabe-se que desde há bastante tempo ele é “do mercado”. Criou no passado a corretora Patente, depois fundou os bancos Planibanc e Matrix. Ao comandar a privatização do sistema Telebrás, como ministro das Comunicações de FHC, foi afastado do cargo em meio a acusações de favorecimento a empresas, depois que a Folha de S. Paulo publicou, em 1998, transcrições de gravações altamente comprometedoras. Ele acabaria absolvido, em 2009, pela Justiça Federal das acusações de improbidade administrativa.

Em agosto de 2016, Luiz Carlos Mendonça de Barros concedeu uma entrevista a este colunista, então (e ainda hoje) editor de uma revista digital dirigida. Era o início do Brasil de Michel Temer e Henrique Meirelles. Pelo trecho de uma resposta de Mendonção e o que aconteceu na sequência com o Brasil, pode-se verificar o potencial de acerto da sua bola de cristal:

“Com o mandato do presidente Temer deixando de ser temporário e passando a ser definitivo, a economia vai se recuperar rapidamente. E o que é importante: a recuperação da economia serve como fortalecimento político do presidente. Ficou todo mundo preocupado com avaliação do presidente que saiu numa pesquisa, e a minha posição foi essa: essa pesquisa não quer dizer nada. Daqui a seis meses é que vai ser importante.”

Quem não se lembra o quão forte  Michel Temer concluiu seu governo golpista?

Procurador cobra concurso público para combater trabalho escravo

Por Paulo Henrique Arantes

O escândalo do trabalho análogo à escravidão apurado em Bento Gonçalves (RS) confirma uma realidade já conhecida, mas que nunca despertou reações na intensidade necessária. Despertará agora, quando os casos de exploração desumana estenderam-se dos canaviais do Nordeste para as vinícolas do Sul do país?

      Para vencer o estigma de que as áreas rurais nortista e nordestina abrigam a maioria dos trabalhadores escravizados, basta recorrer aos números da última Operação Resgate, de julho de 2022. As Operações Resgate são feitas pelo Ministério Público do Trabalho junto com Ministério Público Federal, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Defensoria Pública da União e Ministério do Trabalho (ou o equivalente Ministério do Trabalho e Previdência, nos anos Bolsonaro).

      A Operação Resgate encontrou 337 trabalhadores em condições análogas à escravidão. Os resgates poderiam ser muito mais numerosos caso não houvesse cerca de 1.500 cargos vagos de auditor-fiscal do Trabalho. Desde 2013 o governo não realiza concurso público para a função, disse à coluna o procurador do Trabalho Italvar Medina, vice-coordenador nacional de Erradicação do Trabalho Escravo e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do Ministério Público do Trabalho.

      “Quase 50% dos cargos de auditores fiscais do Trabalho estão vagos. Isso prejudica muito a organização de equipes de combate ao trabalho escravo e também a prevenção do trabalho escravo contemporâneo, já que, na medida em que fiscalizações de rotina deixam de ser realizadas – por exemplo no ambiente rural, sobre assinatura de carteiras, recolhimento de FGTS, trabalho infantil e outras – , empregadores se tornam mais confortáveis para descumprir a legislação e isso pode levar a situações extremas, como o trabalho escravo”, discorre Medina.

      Nos últimos anos, a Conatrae (Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo) emitiu duas notas exigindo concurso público para auditores do Trabalho, as quais não foram respondidas. “No momento, ainda não se tem nenhuma notícia concreta sobre a organização de concurso público para auditor fiscal do Trabalho, situação que precisa ser avaliada pelo Ministério do Trabalho”, cobra Medina.

      Os resgates de 2022 abrangeram todas as regiões do país, inclusive grandes centros urbanos. O trabalho escravo doméstico é um exemplo de situação de trabalho escravo urbano. A construção civil também é palco recorrente da exploração, sem falar das oficinas de costura, nas quais já houve resgates de trabalhadores migrantes, especialmente bolivianos, principalmente na cidade de São Paulo.

      “O trabalho escravo contemporâneo pode estar presente em qualquer região do país. Os Estados com mais resgates no ano passado foram Minas Gerais, Goiás e Piauí. Historicamente, o Estado com mais resgates é o Pará. E o Estado de onde partem mais trabalhadores, ou seja, onde eles são aliciados com mais frequência para serem explorados em outros locais, é o Maranhão”, aponta o procurador Italvar Medina.

      Em 2016, o Brasil foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos pela existência de trabalho escravo em suas terras. Na sentença, a corte determinou que o país intensificasse sua política de erradicação de trabalho escravo, não se permitindo quaisquer retrocessos. 

      A redução do número de auditores-fiscais precisa ser revertida, pois representa um descumprimento da decisão emanada pela corte internacional, o que pode gerar novas responsabilizações internacionais ao Brasil.

      Com a palavra, o ministro Luiz Marinho.

 Zap lulista, sem fakes

Elderly man is using mobile phone

Por Paulo Henrique Arantes

Circula em grupos de WhatsApp uma relação de 30 ações positivas do governo Lula em apenas dois meses. Por óbvio, esse tipo de veiculação requer checagem, mas, neste caso específico, parece não haver invenções – a maioria dos fatos relacionados foi noticiada pela imprensa profissional e alguns deles podem ser conferidos no Portal da Transparência. Alguns são projetos, não obras concretizadas – claro, trata-se de um material de propaganda.

O próprio texto disseminado via aplicativo de mensagens informa as fontes das informações, constituindo uma prática totalmente diferente daquela usada pelos odientos bolsonaristas, que continuam a forjar teorias conspiratórias só assimiláveis por analfabetos políticos.

Eis o que fez o governo Lula em 60 dias conforme a mensagem disseminada. Quem quiser conferir uma a uma, não o fará sem razão. Quem é dotado de boa memória e acompanha a imprensa profissional dia a dia, não terá dificuldade em reconhecer entre os itens aqueles que se referem a projetos a serem implementados e os que já estão em vigor.

1- Diesel e gás com impostos federais zerados por 1 ano

2- Novo Bolsa Família, com 600 reais + 150 para crianças até 6 anos + 50 por cada membro da família

3- Educação com 25 bi a mais do que 2022 (total de 184 bi)

4- Saúde com 23 bi a mais que 2022 (total de 183 bi)

5- Infraestrutura com 11 bilhões a mais do que 2022 (total de 25 bi)

6- Agricultura com 1 bilhão a mais do que 2022 (total de 18 bi)

7- Aumento de 15% no salário de professores, indo de 3845 para 4420 reais

8- Socorro aos índios Yanomamis, com 5 mil atendimentos, 100 profissionais de saúde, 5,5 mil cestas básicas e instalação de hospital da Aeronáutica. Quase 80% das crianças voltaram a ganhar peso

9- Envio de 600 milhões para estados e municípios reduzirem a fila de cirurgias

10- Reajuste de até 200% nas bolsas estudantis de graduação, mestrado e doutorado

11- Volta do Minha Casa Minha Vida, com 9,5 bilhões de orçamento, 8 vezes superior a 2022 e meta de entregar/contratar 2 milhões de moradias até 2026

12- Aumento de 9% no salário mínimo, 3% acima da inflação, indo de 1.212 em dezembro de 2022 para 1.320 em maio, maior ganho real desde 2012

13- Aumento de 39% na isenção do Imposto de Renda, de 1.903 para 2.640, o primeiro desde 2015; quase 14 milhões deixarão de pagar imposto

14- Programa nacional de distribuição de absorventes em escolas públicas, para meninas de baixa renda

15- Multa para empresas que pagarem salário desigual entre homens e mulheres com a mesma função

16- Retomada de 1.186 obras paradas de creches

17- Retomada de 1.236 obras paradas de escolas do ensino infantil e básico

18- Janeiro com a segunda maior geração de empregos na construção civil nos últimos 11 anos, já com impacto do aumento da verba federal em infraestrutura

19- Crédito de 1,2 bi para a conclusão do BRT (sistema de ônibus rápido) da cidade do Rio de Janeiro

20- Apoio às cidades vítimas da tragédia do litoral Norte de SP, com envio de 120 milhões e até supernavio da Marinha equipado com hospital de campanha e quase 300 leitos

21- Acordo para a empresa chinesa BYD abrir fábrica nas instalações da Ford, fechada desde 2021, em Camaçari, Bahia

22- Apoio ao projeto legislativo do PT, aprovado na Câmara, para pagar uma pensão de 1 salário mínimo aos filhos de mulheres vítimas de Feminicídio

23- Quase 2 bi em 100 dias na manutenção de rodovias

24- Orçamento de 500 milhões na construção de 100 mil cisternas apenas em 2023, 22 vezes maior do que 2022, para reduzir a seca no Nordeste e Norte de MG. Investimento foi cortado em 96% no governo anterior

25- 430 milhões para combater a seca no Rio Grande do Sul, com auxílio de 4,8 mil pra famílias pobres

26- Reativação do Fundo Amazônia contra o desmatamento, com 5 bi disponíveis

27- Aumento de 39% no repasse federal da merenda escolar, de 3,9 bi em 22 para 5,5 bi

28- Cesta básica caiu 1,4% em fevereiro, ante aumento de 1,7% em fevereiro do ano passado. Considerando janeiro+fevereiro, aumento de apenas 0,9%; no msm período de 2022, 5%

29- Apenas em janeiro, Lula se reuniu com 15 países, 50% do total de reuniões de Bolsonaro em 4 anos

30- Campanha Nacional de Vacinação, sem negacionismo, reconhecendo a importância de todas as vacinas na prevenção de doenças. Mais de 1 milhão vacinados com a Bivalente em apenas 5 dias.

Fontes:

Os itens 3, 4, 5 e 6 estão disponíveis no Portal da Transparência

O item 28 é referente à pesquisa mensal do Dieese, disponível no site deles

Todas as outras informações foram noticiadas por diversos veículos de imprensa e tbm no site oficial do governo.

A pequenez do presidente-joalheiro

Meme que circula na internet.

Por Paulo Henrique Arantes

Agir à base de carteiradas para por as mãos em presentes caros é a cara de Jair. Gente baixa, mesquinha.  Claro, a se comprovar que se tratou de pagamento de propina, como parece, a coisa se agrava. Falamos aqui do caráter de alguém cuja identificação moral é com ditadores e milicianos, tipos covardes e corruptos por definição.  

Covardes costumam ser mesquinhos e fugir na hora do “pega-pra-capar”. Jair é um consumado covarde e um notório fujão.  Sua covardia sempre foi evidente, por exemplo quando negava o que havia dito, quando não encarava a imprensa, quando atacava mulheres, quando ridicularizava indefesos. 

Indaga-se ainda hoje como foi possível o Brasil eleger um sujeito desse nível. Alguém que na pandemia atacou o isolamento, propagandeou curandeirismo e pregou contra vacinas.

O que é empenhar-se por alguns diamantes para quem responde por centenas de milhares de mortes?

Na condução do país, produziu a inflação mais alta em 27 anos (e o mercado não surtou, mas isso é assunto para outra coluna). Jair, o presidente que se empenhou para embolsar um punhado de diamantes, levou o Brasil de volta ao mapa da fome.

O homem dos colares e dos anéis aumentou desmatamento em terras indígenas em 138%. A proteção ao meio ambiente teve um quarto dos recursos destinados às emendas de relator em 2021. O garimpo ilegal avançou 46% em 2020.

Mais que triplicou registro de armas de fogo durante o governo do presidente-joalheiro, que também desmontou o aparato fiscalizatório de órgãos de Estado: o canal criado para denunciar violência contra mulher passou a receber denúncias de militantes antivacina.

A lista é enorme e conhecida, mas não pode ser obnubilada por um punhado de brilhantes.

Jair fez de tudo para blindar os filhos da Justiça. Flávio comprou casa de R$ 6 milhões com patrimônio R$ 1,74 milhão. Impôs-se sigilo de cinco anos à atuação do vereador Carlos em viagem à Rússia. Eduardo acumula denúncias Comissão de Ética da Câmara dos Deputados.

Dinheiro vivo, rachadinha, cartão corporativo, dinheiro público na campanha, patrocínio de fake news em escala industrial. Tudo agora coroado com ouro e diamantes. Uma ode à pequenez.

Paulo Caruso não veio ao mundo para fazer gracinha

Paulo Caruso. Foto de Ricardo Bastos.

Por Paulo Henrique Arantes

Morreu Paulo Caruso, um dos últimos de uma geração de cartunistas que se preocupa com os destinos do país, que faz do humor uma arma contra os poderosos, nunca contra os desvalidos.

      Convivi profissionalmente com Paulo, que me chamava de Xará, de 2013 a 2020. Ele fazia as ilustrações de capa de uma revista da qual eu era editor (ainda sou). Ele dava show. A mordacidade do seu traço não poucas vezes exigia pedidos de moderação por parte deste editor, menos corajoso que ele.

      Em 2018, trouxe-o da capa para as páginas centrais, só que como entrevistado. Paulo mostrou-se tão espirituoso falando quanto desenhando.

      Presenteio o leitor com algumas de suas falas, que servirão para saber como Paulo Caruso enxergava o Brasil, a imprensa e suas mazelas. Nosso papo foi em 2018.

“No Roda Viva 20 anos atrás, teve uma entrevista com o Roberto Civita, com aquele sotaque americano dele. Ele dizia: ‘Pode esquecer. Papel e tinta vão acabar. Se você gostar muito do barulho do papel, você vai poder ouvir o barulho dele no computador; se você gostar muito do cheiro de tinta, até o cheiro de tinta você poderá fazer sair do computador. Mas papel e tinta são antiecológicos e antieconômicos, por isso vão acabar’. E era um capitão da indústria impressa! Curioso que eles, da Editora Abril, não souberam capitalizar essa percepção – a editora está em grandes dificuldades, acabando com inúmeros títulos etc.”

“Desenho com papel e tinta, depois escaneio. O desenho a lápis fica impregnado com a personalidade do artista.”

“Eu tinha uma devoção pelo pessoal do Pasquim, mas em especial pelo Ziraldo. O Ziraldo era o meu ídolo, o cara que tinha o traço mais aberto. Já o meu irmão, depois que foi para o Rio de Janeiro e virou carioca, tinha como ídolo o Millôr. A casa do meu irmão tem uma espécie de altar em memória do Millôr. Esses ídolos foram os responsáveis pela nossa crença nessa linguagem de arte e humor. Mas, na época do Pasquim, a Dona Nelma, secretária do jornal, não me deixava nem passar pela porta.”

“Eu discuto muito a ascensão do Bolsonaro e dessa nova direita, mesmo o Sérgio Moro, que de certa forma participa disso. O Lula só está preso porque ele é de outra classe, nunca foi da classe política gerencial do país.”

“Eu participei de um encontro de humoristas em Nantes, na França, e tinha um grupo radical que se dizia contra qualquer censura e coisa e tal. Eu mostrei alguns desenhos meus, e eles disseram: ‘isso não é humor, isso é melancolia’”.

“Eu acho que a gente tem que exercer a liberdade dentro de alguns limites. Pela sua autocrítica você vai saber o que pode ser nocivo no seu trabalho. O que eu digo sempre é o seguinte: nós não somos comediantes, nós não estamos aqui só para fazer gracinha. O pessoal do stand-up, por exemplo, tem que aprender a tirar o c… da boca. O cara fala c… e todo mundo ‘hahaha’, como se aquilo fosse engraçado por si só. O que é isso?  O nosso humor é um humor reflexivo, intelectualizado, que visa a transformar a sociedade numa sociedade melhor, não é a crítica pela crítica. Aí, você ironizar o maltratado, o destratado pela vida, não dá a ele uma condição de superação.”

“No Roda Viva, certa vez o entrevistado era o candidato a governador de São Paulo João Leiva. Um repórter perguntou a ele sobre seu envolvimento com irregularidades no governo Quércia, ele respondeu daquele jeito e tal. Aí eu desenhei ele adernando num mar de lama e dizendo: ‘O mar de lama não me atinge’. Eu chamava e o câmera não mostrava o desenho. Eu saí e fui embora no meio do programa. Só retornei ao Roda Viva quando o Paulo Markum voltou a ser o apresentador.”

Dia da Mulher: o uso do cabelo afro não é uma questão menor

Por Paulo Henrique Arantes

Oito de março é Dia da Mulher e, com muito boa vontade, pode-se comemorar alguns avanços na direção da equidade e do tal empoderamento feminino. Elas estão conseguindo, aos poucos, ocupar seu lugar na sociedade. Pode-se tomar como exemplo a empresária Bia Santos, 27 anos, negra e dona da Barkus, startup de educação financeira para grupos vulneráveis. Há outras “Bias” nestas terras.

Não se venha atormentar com conversa sobre meritocracia, pois a própria Bia já disse que os casos isolados de protagonismo feminino, inclusive no campo do chamado empreendedorismo, devem-se, antes de tudo, aos anos de luta feminista e a políticas públicas.

Antes que se projete um 8 de março alvissareiro, é preciso debruçar-se sobre a última pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgada nesta semana: 33,4% das mulheres brasileiras com mais de 16 anos já sofreram violência física ou sexual – ou seja, são 21,5 milhões de vítimas. E pioramos: na pesquisa anterior, de 2021, as mulheres agredidas no Brasil eram 24,4%.

A Organização Mundial da Saúde informa que a média global desses casos é de 27%. Somos mais violentos em relação às mulheres do que o mundo como um todo.

O brado contra a violência de gênero e a discriminação – que haverá de resultar em medidas concretas dos governos – ecoa sob diversas formas, por exemplo na autoafirmação das mulheres negras, expressado pelo uso dos cabelos crespos, remetendo à africanidade. Essa não uma questão menor.

O uso do cabelo afro é uma forma de demonstrar que a conquista de direitos das mulheres não depende apenas da superação do subjugo pelos homens, mas também da superação de outras barreiras opressivas, entre as quais o racismo sobressai.

Como bradou Lélia Gonzalez, expoente do feminismo negro no Brasil, em seu discurso na Constituinte de 1987, “sem o criouléu, sem os negros, não se fará deste país uma nação”.