Fernando Collor

Fábio Rodrigues Pozzebom / ABr

Por Paulo Henrique Arantes

Lembro de Fernando Collor em campanha para presidente da República, em 1989. Tentava demonstrar virilidade (“aquilo roxo”), anticomunismo (“nossa bandeira nunca será vermelha”), moralismo (“caçador de marajás”) e um ridiculamente falso perfil anti-ideológico (“deixar a esquerda perplexa e a direita indignada”). Era dono de um discurso liberalizante, privatista, por isso teve apoio da mídia que até hoje abraça gente assim.

Eleito, o “liberal” fez a mais cruel intervenção estatal na economia de que se tem notícia, confiscando o dinheiro de quase todo mundo e provocando, além de falências, suicídios.

Tudo em Fernando Collor sempre pareceu falso, desde o casamento até o destemor com que assumiu a Presidência da República. No discurso, ele vinha para moralizar e modernizar, mas com o tempo – bem pouco tempo – sua amoralidade e seu apego a práticas corruptas antigas vieram à tona. Os mais informados já sabiam delas, e avisaram.

Luís Costa Pinto trouxe-nos o irmão mais novo do presidente, Pedro, à luz para detonar a bomba que resultaria em impeachment.

Eminência pardíssima e passador de chapéu, PC Farias, o “tesoureiro”, foi assassinado, em meio a uísque, amante e circunstâncias parcialmente esclarecidas. O sujeito rodava o país a bordo de um jatinho preto – o “Morcego Negro” – achacando empresários em nome do presidente da República.

 O Supremo Tribunal Federal absolveu Fernando Collor, em 2014, dos crimes de que fora acusado enquanto chefe do Executivo (peculato, falsidade ideológica e corrupção). Falta de provas. Além desses, os casos de “suposta” corrupção envolvendo-o não cabem em uma dúzia de colunas como esta.

Agora, o mesmo STF condena-o por recebimento de propinas enquanto senador: 20 milhões de reais para viabilizar um contrato entre a UTC Engenharia e a BR Distribuidora. O gancho é de oito anos e 10 meses, mas pode vir a ser modificado após análise de embargos de declaração a serem apresentados pelo réu.

Interessante notar que o discurso collorista nunca mudou. O moralismo e o anticomunismo extemporâneo estão sempre à testa, e sempre edulcorados por discursos inflamados. Daí a adesão a Bolsonaro lhe ser tão natural.

Outra característica de Fernando Collor é o antipetismo doentio, como se o Partido dos Trabalhadores aglutinasse a responsabilidade pelas mazelas do Brasil e os pecados dos brasileiros. Preconceito de playboy.

Sobre esse antipetismo, bem analisou a este colunista Heloísa Starling. Para a historiadora – que, aliás, critica a relação de Lula com Cuba e Venezuela -, certos políticos e cidadãos carregam e exibem ressentimentos toda vez que perdem um naco do seu poder, da sua preponderância histórica.

Esses homens, homens como Fernando Collor e Jair Bolsonaro, olham para a televisão e acham que seu filho de cinco anos não pode ver duas mulheres ou dois homens se beijando ou uma mulher negra chefiando um grupo de trabalho repleto de brancos. Em público, dizem ser anti-PT porque o antipetismo tornou-se um grande guarda-chuva, sob o qual se abrigam tais questões, as quais não necessariamente têm a ver com partido político, mas com o fato de aqueles homens se sentirem ameaçados em sua condição de macho.

O pensamento vivo de Keynes: o que o genial economista diria de um Campos Neto?

Por Paulo Henrique Arantes

Este colunista entrevistava Delfim Neto em 2013 e lhe perguntou se a crise financeira de 2008 havia ressuscitado John Maynard Keynes. Delfim foi peremptório: “Keynes nunca morreu!”. Uma imersão, ainda que não profunda, no pensamento do economista britânico revela muito mais que um mero ideólogo da ação estatal como motor da economia, como insistem em pintá-lo. Mostra um intelectual atormentado pela absurda desigualdade inerente ao capitalismo, sendo ele próprio um capitalista. Paradoxos são comuns às mentes geniais.

      Keynes nunca morreu, como bradou Delfim, não apenas pela coragem com que se impôs em Bretton Woods ou por ter legado ao mundo ocidental, especialmente aos Estados Unidos, suas três décadas de maior avanço social – o Pós-Guerra precedido e delineado pelo New Deal. O autor da seminal “Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro” sobrepõe-se intelectualmente, de forma gritante, a todos os economistas que vieram depois dele e tentaram desconstruir sua obra a partir da matemática, desaguando no horrendo neoliberalismo. Para Keynes, a economia é antes de tudo uma disciplina humana.

      Keynes escandalizou os tecnocratas bem antes de escrever a “Teoria Geral”, em 1936. Com “As Consequências Econômicas da Paz”, de 1919, cobrou das nações vencedoras da Primeira Guerra iniciativas que realmente salvassem os países destruídos, e não que subjugassem suas economias e suas populações. Sempre esteve ao lado das gentes esquecidas pelo capital.

      O pensamento keynesiano não pode ser resumido em um artigo, nem sequer em um livro. Mas quem quiser um boa radiografia intelectual do maior economista da História deve ler “O Preço da Paz: Dinheiro, Democracia e a Vida de John Maynard Keynes”, de Zachary D. Carter, obra de 2021 que se classifica como “biografia intelectual definitiva”.

      Carter, veterano jornalista americano, hoje no Huff-Post, escreveu um livro saboroso, em que detalhes da vida afetiva de Keynes entremeiam-se com suas atividades acadêmicas, burocráticas e políticas. Habilmente, o autor torna leve o acesso ao conhecimento profundo do intelecto keynesiano, suas vaidades, dúvidas e idiossincrasias.

      As polêmicas que Keynes sustentou ao longo da vida, tanto no âmbito acadêmico quanto na imprensa e em palcos políticos internacionais, compõem, juntas, um arcabouço (perdão) temático ainda hoje em debate. Seria interessante saber o que ele diria da insistência cega do atual presidente do Banco Central brasileiro, Roberto Campos Neto, em manter o juro básico na estratosfera e fazer vista grossa ao emprego. Certamente, sua análise de coisas como o teto de gastos de Henrique Meirelles seria mordaz. Nem se fale do “pensamento” econômico de um Paulo Guedes. São pulgas diante da dimensão intelectual e humana de John Maynard Keynes.

      O desenvolvimentismo desde Século XXI é filho de Keynes, claro está, e a essa corrente, com bons representantes no Brasil, resta derrotar um insistente neoliberalismo. Reforçar os princípios keynesianos é necessário, por seu brilho humanista e para que a desigualdade não recrudesça.

      Este trecho de “O Preço da Paz” ilustra, em parte, a originalidade e o caráter humanista do economista britânico, contra medievalismos que persistem:

“Keynes era um filósofo da guerra e da paz, o último dos intelectuais iluministas que buscaram a teoria política, a economia e a ética como um modelo unificado. Ele era um homem cujo maior projeto não era a taxação ou o gasto governamental, mas a sobrevivência daquilo que ele chamava de ‘civilização’ – o meio cultural internacional que ligava um homem do Tesouro britânico a uma bailarina russa. (…) Quando um repórter lhe perguntou se o mundo já havia visto algo semelhante ao desdobramento da Grande Depressão, Keynes respondeu com sinceridade: ‘Sim. O período ficou conhecido como a Idade das Trevas e durou 400 anos’”.

Visitando Magno Malta na Wikipédia

Por Paulo Henrique Arantes

 

Magno Malta é um símbolo. Encarna o oportunismo político de alguns pastores evangélicos que, com a Bíblia nas mãos, apregoam seu medievalismo. Tempero do Mundo era o nome da banda gospel que integrou, cujo repertório este colunista nunca ouviu, por graça divina. Temperar o mundo com obscurantismo é a missão dele e de assemelhados.

A fala de Malta sobre o caso Vini Jr. foi repulsiva, como tem sido repulsiva toda sua atuação parlamentar. Em 2016, comparou o impeachment da presidenta Dilma Rousseff a um “enterro de indigente”.

A Wikipédia lembra hoje que o perfil de Magno Malta na enciclopédia livre, em 2016, “foi adulterado por um computador localizado dentro do Senado Federal, e todos os seus escândalos contidos no verbete foram apagados”.

A capivara de Malta havia sumido da Wikipédia, mas, ao que parece, foi restaurada. Reproduzo aqui alguns trechos biográficos do senador, segundo a enciclopédia livre, à guisa de aculturamento:

Acusações de denúncia falsa e tortura: Em setembro de 2018, o ex-cobrador de ônibus Luiz Alves de Lima acusou o político de tê-lo torturado a ponto de quase ter sido morto, após acusá-lo de ter estuprado da própria filha. Magno Malta convocou a imprensa acusando o cobrador de estuprador, sendo apresentado pela mídia como o herói que denunciou o caso. Face às provas que indicavam não ter havido violência contra a menor, Luíz Alves de Lima foi absolvido em 2016. Praticamente cego, devido às torturas a que foi submetido, e sem condições de voltar a trabalhar, restou-lhe buscar indenização ao Estado, ficando com um pensão de R$ 2 mil mensais.

Ministério dos Transportes: O chamado “escândalo do Ministério dos Transportes” revelou acertos entre empreiteiras com o PR, partido de Magno Malta, que receberia propinas em troca de obras superfaturadas. O escândalo derrubou o ministro Alfredo Nascimento (PR-AM) e Geraldo Lourenço, diretor de Infraestrutura Ferroviária e diretor interino de Administração e Finanças do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), indicado por Magno Malta. Outra indicação do senador no Ministério foi seu próprio irmão, Maurício Pereira Malta, para o cargo de chefia da assessoria parlamentar do Dnit, que cuida dos interesses dos parlamentares ligados às obras do Orçamento.

“Sanguessugas”: Em 2007, seu nome foi envolvido entre os políticos que desviaram recursos públicos destinados à compra de ambulâncias no Ministério da Saúde. A família Ventoin, dona da empresa Planam, afirmou ter dado um Fiat Ducato para Malta como parte do pagamento de propina pela apresentação e liberação de uma emenda parlamentar para aquisição de ambulâncias. Chegou a ser indiciado pela CPI dos Sanguessugas, mas acabou absolvido na Comissão de Ética do Senado, que seguiu o parecer do relator Demóstenes Torres, que orientava arquivamento por falta de provas, em 28 de novembro daquele ano, juntamente com os dois outros senadores acusados: Ney Suassuna e Serys Slhessarenko.

Atos secretos: O nome de Magno Malta também aparece entre os beneficiados dos atos secretos que vieram a público após uma série de denúncias sobre a não publicação de atos administrativos, tais como de nepotismo e medidas impopulares, por exemplo, a extensão da assistência odontológica e psicológica vitalícia a cônjuges de ex-parlamentares, como noticiado na mídia em junho de 2009. O então professor da Faculdade de Direito da UERJ, Gustavo Binenbojm afirmou “A não publicação é o caminho mais usado para a prática de improbidade administrativa. Evita o conhecimento da sociedade e dos órgãos de controle. Provavelmente foi este o objetivo”. Investigações internas do Senado, motivadas pelas denúncias, apontaram irregularidades em todos os contratos de prestação de mão de obra.

Recebimento de valores não declarados: Em agosto de 2016, a Folha de S. Paulo publica trechos de e-mails enviados em 8 de setembro de 2014, indicando um suposto repasse de 100 mil reais não declarados a Magno Malta. Nota fiscal referente a uma consultoria prestada à fabricante de móveis Itatiaia com valor superior ao que seria recebido (nota fria) seria utilizada para a operação. O senador negou, por nota à imprensa, o recebimento de dinheiro da Itatiaia e ressaltou não ter cometido crime algum, relacionando as acusações à exposição de sua imagem durante o impeachment de Dilma Rousseff.

Deltan Dallagnol, o antiprocurador

Por Paulo Henrique Arantes

A turbulência política, judicial e policial que afligiu o Brasil durante a Operação Lava Jato, de resultados catastróficos para o país, vitaminava-se pela sede com que a “imprensa” veiculava vazamentos sem avaliar as intenções dos vazadores. Os procuradores da Lava Jato, Deltan Dallagnol à testa, achavam-se donos da moral, às vezes até pregando sua lógica persecutória em discursos religiosos. Só que todos têm os seus pecados e o moralismo quase sempre está aliado à hipocrisia. Além disso, o mundo dá voltas.

Procuradores e promotores, por determinação constitucional, devem estar comprometidos com a impessoalidade, valor que Dallagnol nunca prezou. Como escreveu há tempos Cláudio Barros Silva, ex-procurador-geral da Justiça do Rio Grande do Sul, “se o ato (do membro do Ministério Público) for ilegal ou revestido de interesse pessoal; se o ato for imoral ou desleal; se o ato for ineficiente ou desnecessário; se não for razoável ou lhe faltar objeto; ainda, se o ato praticado for parcial ou vinculado a um interesse menor, subjetivo, será sempre, o ato praticado, irregular, o que deporá contra os princípios que informam a instituição e que devem caracterizar a ação de seus membros”.

O Power Point anti-Lula de Dallagnol foi o exemplo acabado de desvirtuamento de função. À época, em sessão da Segunda Turma do STF, o ministro Teori Zavascki assim se manifestou a respeito: “Nós todos tivemos a oportunidade de verificar um espetáculo midiático com forte divulgação que se fez lá em Curitiba (…). Essa espetacularização não é compatível nem com aquilo que foi objeto da denúncia nem parece compatível com a serenidade que se exige na apuração desses fatos”.

Reduzir-se o argumento jurídico a considerações morais ou que visem a mobilizar a opinião pública é um desvio grave – e corriqueiro. Já o debate sobre as relações entre os procuradores da Lava Jato e a mídia merece aprofundamento. Foram inúmeros os casos de vazamento de informações sigilosas.

Em 2017, o ministro do STF Gilmar Mendes, após a então ombudsman do jornal Folha de S. Paulo, Paula Cesarino Costa, denunciar a realização de “coletivas em off” concedidas à imprensa por procuradores, as quais, se não constituíram uma forma de vazamento, certamente foram uma inovação na relação entre fontes e jornalistas, disse: “A imprensa parece acomodada com esse acordo de traslado de informações. Pouca relevância dá ao fato inescapável de que, quando praticado por funcionário público, vazamento é eufemismo para um crime: a violação de sigilo funcional”. Gilmar falava de uma prática na qual Deltan Dallagnol parece especialista.

A Lava Jato notabilizou-se por iniciais entregues aos tribunais com base em delações carentes de apuro técnico, visando à destruição simbólica de pessoas ainda não condenadas, algumas das quais antes mesmo de terem exercido seu direito de defesa. Como explicou o jurista Pedro Serrano ao colunista, tempos atrás: “Trata-se de um problema que o jurista alemão Claus Roxin chama de ‘populismo penal punitivo’. O italiano Luiji Ferrajoli, teórico do garantismo, reagiu a isso no livro ‘Poderes Selvagens’, que aborda esse tipo de coisa como um poder desconstituinte”.

 Combater a corrupção é imprescindível, desde que dentro do Estado Democrático de Direito – e não foi assim que Deltan Dallagnol atuou à frente da Operação Lava Jato, como resta elucidado.  À maneira de Dallagnol,  não se fez justiça, mas justiçaria. A função do Ministério Público é ser o defensor da sociedade, da legalidade, e, portanto, é incompatível com personalidades como a do ex-procurador, hoje deputado cassado.

Hiperpartidarismos

Por Paulo Henrique Arantes

A agência Aos Fatos classificou o Brasil 247 de hiperpartidário. Até poderia sê-lo, se referido como partidário de certos princípios. Mas é claro que o artigo de Gisele Lobato tentou pintar o site progressista com as cores do PT, como outros já fizeram, entre os quais o imponderado Ciro Gomes.

      Estranho. Por que Aos Fatos não se refere à Folha, ao Estadão, à Globo (jornal, sites, TV), à Veja como hiperpartidários? O tal jornalismo profissional que esses veículos se atribuem não resistiria a uma avaliação de média profundidade. Sites e canais abertamente de direita são menos hipócritas.

      O quarteto Folha-Estadão-Globo-Veja foi, em pool, radicalmente partidário da Operação Lava Jato e ainda mantém patética simpatia por Sérgio Moro, juiz parcial devidamente desmascarado. Os quatro nunca fizeram a tal mea culpa – que cobram de outros – pela erosão democrática provocada por Jair Bolsonaro, fruto da Lava Jato.

      É desde sempre partidário, o quarteto, de um liberalismo econômico rudimentar, uma ortodoxia cega e, de resto, descartada mundo afora. Folha, Estadão, Globo e Veja são, antes de tudo, hiperpartidários de uma elite encastelada, que chega ao absurdo de elogiar a conduta “técnica” do Banco Central ao manter o país estagnado pelos maiores juros do planeta. Optam por atacar um presidente da República que cobra juros menores, salários maiores, produção, consumo, crescimento – enfim, a roda saudável da economia.

      O quarteto vestiu a fantasia de defensor da democracia diante do horror bolsonarista. E posa aqui e ali como civilizado em temas comportamentais. Mas não pratica a essência da democracia, que é, além de noticiar a verdade nua, posicionar-se pela igualdade, em defesa dos excluídos do Orçamento.

      O quarteto, com vista grossa da agência Aos Fatos, é hiperpartidário da privatização indiscriminada, por isso condena a ação governamental de salvamento da Eletrobrás. Assumam ou não, são cabeças econômicas assemelhadas à de Paulo Guedes (ainda), hiperpartidárias de um liberalismo soterrado pela crise de 2008.

    Políticos, economistas e jornalistas em estado de sanidade não propõem que se saia a estatizar tudo que há pela frente – não se trata disso. Porém, em hipótese alguma cogitam colocar em mãos ligeiras setores estratégicos da economia de um país, tampouco dar a empresários que buscam lucro – e só lucro – autonomia para gerir serviços essenciais à população.

      O modelito “disfarçado” é o pior dos partidarismos. Tomar partido de peito aberto não é para qualquer um.

Fascistas têm medo e inveja de artistas

Por Paulo Henrique Arantes

O Marco da Cultura, que tramita na Câmara em comissões e caráter terminativo (não precisará ir a plenário) não vai eliminar as leis do setor já em vigor. Deverá amarrá-las. Objeto reiterado de polêmica e quase sempre vítima de fake news, a Lei de Incentivo à Cultura, a popular Lei Rouanet, continuará a fazer seu papel. Os bolsonaristas poderão prosseguir com os insultos aos artistas que dela dispõem para produzir sua arte.

Explicá-la aos de má fé é perder tempo, aos incautos pode até valer a pena. Os números apurados pela Fundação Getúlio Vargas sobre a Lei Rouanet são estes: a cada 1 real captado e executado, a sociedade recebe de volta 1,59 real. Entre 1993 e 2018, o Governo Federal abdicou, pela Lei, de 31,22 bilhões de reais de arrecadação, mas a economia recebeu uma injeção de 55,78 bilhões.

A perseguição ideológica à Lei Rouanet e aos artistas que buscam captar recursos por seu intermédio deve-se, é claro, ao medo que políticos reacionários sentem de um Chico Buarque de Holanda, de uma Daniella Mercury, de um Caetano Veloso, de uma Tereza Cristina, de um Gregório Duvivier, de um Paulo Betti, de um Zé de Abreu. Tais políticos, aos quais se alia uma pá de jornalistas, são gente com o mesmo espírito dos que destruíram uma tela de Di Cavalcanti na invasão do Palácio do Planalto em 8 de janeiro.

Desde sempre foi assim, mas com Bolsonaro a imbecilidade vitaminou-se. Na verdade, inveja talvez seja uma palavra mais adequada que medo: grandes artistas são objeto de idolatria sincera e reverência incondicional, sonho de todo fascista.

Alguns casos envolvendo a Lei de Incentivo à Cultura nos anos Bolsonaro beiram o surreal. Enquanto o cantor sertanejo conhecido (não por mim) como Zé Neto regozijava-se de não precisar da Lei Rouanet – e recebia um cachê muito acima do seu talento diretamente dos cofres de uma prefeitura, sem licitação ou compromissos de teor social – Maria Bethânia era acusada de tentar embolsar 1 milhão de reais via Lei Rouanet.

Claro que não foi nada disso.  Um projeto do diretor de cinema Andrucha Waddington visava a valorizar a poesia e levá-la à massa. Poemas audiovisuais digitais seriam disponibilizados gratuitamente em uma plataforma de internet, lidos por Bethânia. Insultada, ela desistiu de participar do projeto, e até hoje detratores não entenderam que aquele 1 milhão de reais, oriundo do setor privado e compensado pelo Fisco, remuneraria, além dela, diretores, cinegrafistas, programadores, editores e muitos profissionais mais.

Mecanismos semelhantes à Lei de Incentivo à Cultura beneficiam setores de serviços, da indústria, da saúde e da agricultura. A renúncia via Rouanet representa meros 0,48% das renúncias fiscais no Brasil.

O governo Bolsonaro represou valores autorizados de captação via Lei de Incentivo para inúmeros projetos culturais, mas liberou-os em tempo recorde para livros contando a história das armas no Brasil, tendo como “contrapartida social” palestras sobre armas e munições a crianças e adolescentes.

Salvo imprevistos, em breve o Brasil terá o seu Marco Regulatório de Fomento à Cultura – arcabouço que se pretende abrangente e norteador de políticas públicas culturais. O Projeto de Lei 3.905 / 2021, que estabelece o Marco, foi aprovado em caráter conclusivo na Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, e portanto não precisa ir a plenário, bastando aprovação na Comissão de Finanças e Tributação, onde se encontra, e na Comissão de Constituição de Justiça antes de ser sancionado e entrar em vigor.

Baixado em março pelo governo Lula, o Decreto 11.453 / 2023 abarca mecanismos de fomento além da Lei Rouanet, como as recentes Leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo. O decreto elimina entraves com que gestores públicos deparam-se para agir nesse campo. Está funcionamento como um aperitivo do que deverá ser o Marco da Cultura.

Historiadora Heloísa Starling denuncia nossa falta de cultura democrática

Foto: Fernando Lemos / Agência O Globo

Por Paulo Henrique Arantes

A democracia brasileira sobrevive em risco permanente por não a termos aculturada. A vitória de Lula em 2022 foi um passo importante para a garantia temporária da democracia, mas o passivo reacionário que veio à tona com Jair Bolsonaro está vivo, já que a sociedade brasileira possui raízes hierárquicas e escravistas fincadas a uma profundidade quilométrica.

A constatação é da historiadora Heloísa Starling. A professora da UFMG e ganhadora do Prêmio Jabuti pelo livro “Brasil: Uma Biografia”, que escreveu junto com Lilia Schwarcz, conversou com a coluna sobre a democracia brasileira e os golpes – e tentativas – a que é sazonalmente submetida.

“A democracia no Brasil, até 2018, havia caído algumas vezes por força de golpes de Estado. A novidade que enfrentamos nestes últimos anos é o fato de termos um presidente legitimamente eleito que tentou um processo de destruição da democracia por dentro – isso era inédito na História do Brasil. E ele disse que ia fazer isso”, avalia Starling.

Já existe literatura internacional e brasileira explicando as novas formas de solapar a democracia. Por aqui, Marcos Nobre o faz em “Os Limites da Democracia no Brasil”. Também Sérgio Abranches, em o “O Tempo dos Governantes Incidentais”. E há Fábio Victor, com seu “Poder Camuflado”.

Enfim, sabe-se como a democracia brasileira pode morrer hoje – e ela quase morreu. Mas, como pode renascer? Segundo Heloísa Starling, é necessário elaborar uma agenda de construção de uma cultura democrática que venha a eliminar a famigerada polarização.

“Uma polarização está se ossificando na sociedade brasileira. Isso é perigosíssimo para a democracia. A construção de uma cultura democrática é fundamental para quebrar essa ossificação”, diz a historiadora.

O reacionarismo enraizado de que fala Starling é nítido e se expressa cotidianamente pela negação do outro, disfarçada de antipetismo já há algum tempo. Sim, o repúdio de certa elite ao Partido dos Trabalhadores virou guarda-chuva para diversos tipos de segregação. O reacionário estrebucha diante da Lei de Cotas porque seu filho não consegue entrar na faculdade – cotas seriam coisa de gente do PT. Mulheres ganham vez e voz, mas o sujeito não pode expor abertamente sua indignação machista, então ataca o PT por falta de algo que melhor simbolize a equidade de gênero no cenário político-partidário.

“Há um fundo recessivo que se movimenta muito pelos afetos tristes, como o ódio, a ausência de compaixão. Na pandemia, eu me recuso a usar máscara? Como assim? É porque eu não tenho a referência do outro”, exemplifica a professora.

De golpe em golpe, de ameaça em ameaça, a democracia brasileira segue oscilante, ora tendo de conviver com negacionismos e ódios. Não há renovação de lideranças políticas, por enquanto só existem algumas figuras promissoras. Não ocorre no Brasil um processo sistemático de formação de quadros partidários, tampouco debate público, este substituído por discussões acerca de interesses de grupos ou facções.

Chico Buarque de Holanda

Por Paulo Henrique Arantes

Chico Buarque de Holanda povoa nossa vida com seu talento e seu engajamento. É aquele compositor e cantor que explodiu nos festivais dos anos 60 e que, desde então, jamais foi seduzido pela arte comercial. Influenciado por João Gilberto, Tom Jobim e outros craques da Bossa Nova, também bebeu em Noel Rosa, Wilson Batista, Nelson Cavaquinho e tantos sambistas geniais. A Tropicália bateu nele de frente, mas Chico soube defender seu “conservadorismo” musical.

A jornada de Chico envolve algumas bobagens que dele disseram. Por exemplo, quando referiam-se a ele como “um grande letrista”, na tentativa de diminuir a qualidade de suas melodias. Letra e música em Chico são igualmente brilhantes, concordam aqueles que entendem um pouco do cancioneiro popular. “Construção”, de 1973, talvez seja o melhor disco de música brasileira já produzido.

Hoje, suas qualidades literárias também são reconhecidas. Ganhar o Prêmio Camões não é para qualquer um.

Chico Buarque de Holanda teve o berço intelectual necessário para alçar voos artísticos tão altos, sempre portando o diferencial de harmonizar profundidade e simplicidade. Não se é filho de Sérgio Buarque de Holanda impunemente.

O historiador pai de Chico foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. É possível vê-lo naquela histórica foto no Colégio Sion, em 1980, ao lado de Lula, Olívio Dutra, Apolônio de Carvalho e tanta gente, e em outros momentos da redemocratização do Brasil, sempre no lado certo. O autor de “Raízes do Brasil” emprestou um pouco de sua bagagem para que fosse construído o arcabouço (perdão) ideológico do PT.

A identificação de Chico com princípios socialistas não decorre de apego a dogmas marxistas ou coisa que o valha – ele herdou do pai um senso crítico sem vieses.  Deve-se, totalmente, a uma visão de mundo em que predominam a civilidade, o amor ao próximo sem ver raça, o entendimento da arte – especialmente da música – como instrumento de enlevação da alma e, ao mesmo tempo, de posicionamento político. Tais coisas não se dissociam na democracia.

Se fôssemos classificar a obra musical de Chico Buarque de Holanda, o adjetivo “coerente” viria à testa. Na época da redemocratização, compôs “Vai Passar”, cujo recado era claríssimo nestes versos:

Num tempo, página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

Agora, quem passou foi Jair Bolsonaro e Chico nos brinda com “Que tal um samba”. É de lavar a alma:

Que tal uma beleza pura no fim da borrasca?
Já depois de criar casca e perder a ternura
Depois de muita bola fora da meta

De novo com a coluna ereta, que tal?
Juntar os cacos, ir à luta
Manter o rumo e a cadência
Desconjurar a ignorância, que tal?

Lula está certo: EUA não trabalham pela paz na Ucrânia

Por Paulo Henrique Arantes

 Lula não afrontou os Estados Unidos na China. O que o presidente brasileiro fez foi reafirmar o que muitos especialistas não alinhados vêm dizendo desde o início do conflito na Ucrânia: os EUA e a Otan não trabalham pela paz, mas para reforçar sua influência regional.

      Pelo andar da carruagem, depois da guerra restará a acentuação da decadência do poder americano, a despeito de quem sejam vencedores e derrotados diretos.

       De todo modo, o que se tem até aqui é uma Otan consolidada como peça determinante do belicismo, pois há tempos vinha mostrando claro desprezo pelas preocupações de Moscou com o movimento de sua infraestrutura militar para cada vez mais perto das fronteiras da Rússia.

      A Ucrânia foi pré-inserida na Organização de fato antes de sê-lo de direito. O país vinha sendo armado e recebia ajuda de inteligência – escrevemos isso em coluna recente.  

      Também já dissemos que a Otan e os Estados Unidos, na prática, usam a Ucrânia como um território de batalha para enfraquecer os russos – e para desafiar os chineses. Nunca estiveram efetivamente dispostos a lutar pela Ucrânia, tampouco a buscar a paz.

       Em termos jurídicos, havia justificativas para que o país de Putin realizasse a intervenção.  A Rússia pode ter-se sentido ameaçada por um ataque da Ucrânia, mesmo não sendo tal ataque iminente, disse-nos o professor de Direito Internacional da FGV Salem Nasser. Os russos foram, de certa forma, empurrados para a ação invasora. 

       Ninguém até hoje defendeu a invasão da Ucrânia nem os métodos utilizados, muito menos Lula.  Mas há que se explicar por que o ataque aconteceu. Talvez não houvesse alternativa.

      É claro que a personalidade autocrática de Putin influenciou a decisão, mas seria simplismo defini-la como determinante da invasão. Explicações behavioristas ajudam a compreender conflitos internacionais, mas apenas na superfície. No caso da guerra em tela, dizem pouco.

      Não se pode esquecer de que Putin é profundo conhecedor das relações internacionais e da História da Rússia e da antiga União Soviética. Ele também carrega a experiência da humilhação que a Rússia sofreu nos anos 90, quando tinha um presidente fantoche, um fanfarrão chamado Boris Yeltsin.

Os 100 dias de Lula e a imprensa patética

Por Paulo Henrique Arantes

É vergonhosa a tentativa dos jornalões de desqualificar o governo Lula aos 100 dias. Vergonhosa e desprovida de senso mínimo do ridículo. Primeiro, porque 100, 150 ou 200 dias nada significam em termos de metas e prazos quando se trata de reconstruir um país destroçado, segundo porque a evolução do Brasil no período, face à involução administrativa, institucional e democrática promovida por Bolsonaro, é estupenda.

Bastaria enfatizar que Lula domou uma tentativa de golpe de Estado na primeira hora do mandato e que pôs em prática conceitos básicos de civilidade governamental, além de assumir compromissos com a diversidade e a inclusão.

A forma arredondada da terra não está mais em discussão. Leonardo Sakamoto resumiu bem a nova realidade: passamos a discutir a taxa de juros em vez de questionar a eficácia de vacinas.

O Brasil, assim que Lula subiu a rampa pela terceira vez, voltou a exercer política internacional. O país, de imediato, readquiriu seu papel relevante perante o mundo. Não há milagre: esse espaço cabe ao Brasil, mas fora jogado no lixo pelo obscurantismo diplomático bolsonarista.

Saúde, educação, tecnologia, meio ambiente e cultura voltaram a ser conduzidos por pessoas partidárias do conhecimento, não de princípios pré-iluministas, quando não nazistas.

A própria economia, que para os jornalões seria o calcanhar-de-aquiles do governo Lula, já conta com um projeto mais do que palpável de crescimento responsável – mas não adianta, eles querem a preponderância de um neoliberalismo já desacreditado mundo afora e não descansarão da missão de atacar um governo que põe a qualidade de vida do povo no topo das prioridades.

O jornalão da família Marinho – que no geral tem se portado bem melhor do que a cínica Folha de S. Paulo -, nesta terça-feira (11) superou-se em exposição ao ridículo. O editorial intitulava-se: “Primeiros cem dias de Lula deixam a desejar”.  No parágrafo das ressalvas, o editorialista deveria desculpar-se pelo título: ’A área ambiental passou a contar com uma gestão sensata que trata de recuperar a Amazônia, a saúde se viu livre do negacionismo que custou centenas de milhares de vidas na pandemia, e a política externa, embora ainda sujeita a críticas, começa a recuperar o prestígio do Brasil no cenário internacional. Mais importante, Lula liderou o repúdio aos ataques do 8 de Janeiro ao lado de governadores, líderes do Legislativo e do Judiciário, numa união pela democracia que tem presença garantida nos livros de História”.

O que mais essa turma queria em 100 dias?