A distante solução para as cracolândias

Paulo Pinto / Fotos Públicas

Por Paulo Henrique Arantes

O crime organizado comanda o show no varejo das drogas e fez aumentar muito a oferta nos últimos anos, seja a cocaína, a maconha ou qualquer outra droga. Estão aí as eleições municipais, e prefeitos devem ter iniciativas nesse campo, buscar sintonia com os governos estaduais, os quais não devem recusar eventuais apoios do Governo Federal.

É claro que o próximo prefeito de São Paulo não vai resolver o problema das cracolândias, mas parece que Guilherme Boulos possui ideias a respeito mais civilizadas que as de seus concorrentes.

O sistema que abastece São Paulo de drogas é muito eficiente. Uma grama de cocaína nas quebradas da região central sai por 20 reais, pouco mais ou pouco menos que isso. A cocaína é “batizada”, me conta quem é do ramo, com muitas impurezas, o que significa que o usuário está cheirando menos cocaína, mas, em contrapartida, está também consumindo várias substâncias que afetam a saúde de forma negativa.

Nunca tivemos ações claras quanto ao tratamento do usuário de drogas. Quase nenhuma prevenção nas escolas.

Quanto à internação de usuários, o tema acende polêmicas. Importante lembrar que internação compulsória não é um ato médico – é o ato de um juiz. A família pode marcar audiência com o juiz, entrar com pedido de internação – é quando não consegue mais conviver com a pessoa drogada, a qual comete atos de violência, furta ou rouba para abastecer o vício. O juiz pode atender ao pedido de imediato ou designar um perito para ver aquela pessoa precisa mesmo de internação compulsória. De todo modo, o modelo tem contornos de crueldade.

Imagine, o leitor, a seguinte situação. O Estado realiza uma ação ampla e interna compulsoriamente 30 pessoas.  Há 2 mil pessoas na cracolândia central de São Paulo. Nada mudará.

Um especialista ouvido pela coluna mencionou estudos demonstrando que um usuário de crack gasta com a droga, em média, 150 reais por dia. Esse cidadão à margem da sociedade não trabalha. De onde vem esse dinheiro? De prostituição, roubo, furto – há verdadeiras feiras de produtos roubados nas cracolândias paulistanas. Projeta-se, portanto, que as cracolândias movimentem 9 milhões de reais por mês. Existe uma questão mercadológica envolvida.

É preciso combater o tráfico com inteligência, e não é o colunista quem sabe como fazê-lo. O colunista sabe, isto sim, que se a polícia prender 20 traficantes hoje, amanhã haverá mais 20 no mesmo lugar. É preciso desmontar a célula do crime organizado pontualmente instalada – isso nunca foi feito. A receita passa por desestruturar a organização criminosa especialmente no chamado quadrilátero do crack e oferecer saúde para quem precisa. Eficiência policial e política social são as exigências.

Dia Nacional do Cachorro Vira-Lata

Foto: Totós da Teté

Por Paulo Henrique Arantes

Celebra-se em 31 de julho o Dia Nacional do Cachorro Vira-Lata, o menos nobre dos pets, por não ter raça definida, e também o mais simpático. Nélson Rodrigues enxergou nos brasileiros, descrentes no potencial do futebol brasileiro na Copa do Mundo de 1958, um sentimento de inferioridade que batizou de “complexo de vira-lata”. Sem demérito dos quase sempre dóceis animais, a percepção rodrigueana foi perfeita. O Brasil ganhou aquele caneco.

Neste 31 de julho, renda-se homenagem a ala complexada da mídia brasileira, que insiste em manter o país na categoria de cão sem raça. São muitos os jornalistas que merecem condecoração no Dia Nacional do Cachorro Vira-Lata. Para eles, o Brasil deve manter-se subdesenvolvido, desde que carreie o Orçamento à alta finança.

O atavismo fomenta o preconceito, daí as tentativas de ridicularizar o presidente da República, político de origem popular, toda vez que ele se faz ouvir lá fora.  E Lula é de fato ouvido – mais que isso, é chamado a falar.

A imprensa complexada não admite, por exemplo, que ousemos sonhar com uma indústria tecnológica competitiva. Por que investir numa área em que somos incipientes, se podemos nos curvar diante das expertises americana e chinesa?

Lula recebeu das mãos de cientistas brasileiros o primeiro Plano Brasileiro de Inteligência Artificial na última terça-feira (30) – uma encomenda dele. E declarou: “Para termos autonomia e soberania, dependemos de domínio tecnológico. Não podemos permitir que ideias negacionistas, pautadas em desinformação e crenças pessoais perdurem”. A reação da mídia vira-lata foi dizer que é mais fácil comprar inteligência artificial dos Estados Unidos ou da China do que criar a nossa.

O custo do projeto brasileiro de inteligência artificial – 23 bilhões de reais a serem investidos até 2028 – é considerado alto pelos cães sem raça. Sem surpresa, pois tudo que se reverte em desenvolvimento lhes parece oneroso demais. Fossem recursos destinados ao pagamento de juros da dívida pública, lhes pareceriam pouco, muito pouco.

O chanceler alemão e Lula assinam protocolo de intenções em Berlin. O presidente da França é recebido por Lula no Palácio do Planalto. O presidente dos Estados Unidos telefona para Lula para tratar dos temas Venezuela, G20 e geração de empregos. O “ocidente democrático e desenvolvido” enaltecido pela mídia vira-lata brasileira sinaliza diariamente seu apreço pelos anseios de protagonismo internacional do Brasil, sem que o governo brasileiro abandone  sua aproximação com países asiáticos e africanos, a bem dos interesses nacionais.

Tudo isso atormenta os complexados. De todo modo, hoje é o dia deles. Parabéns aos cachorros vira-latas por este 31 de julho!

Kamala e a civilização contra o “big orange”

Foto: Pixabay.

Por Paulo Henrique Arantes

Todos os jornalistas do planeta tornaram-se, num passe de mágica, especialistas em Kamala Harris. Gente que nunca pisou nos Estados Unidos tece minuciosas elucubrações sobre seu potencial eleitoral com base nas supostas idiossincrasias do povo americano. Alguns a descrevem como a encarnação do sonho identitário de ver uma mulher negra na Presidência, o que seria o apogeu do progressismo; outros, como uma farsa imperialista que terminará por dizimar de uma vez por todas os palestinos.

Claro está que Kamala não é uma coisa nem outra. Sabe-se que ela ocupa a Vice-Presidência com discrição, o que a princípio é correto, e que seu passado de procuradora lhe dá um ótimo discurso no embate contra um criminoso contumaz.

Analistas mais realistas que o rei a apontam como anti-imigração, o que não é uma verdade absoluta. Só quem vive nos Estados Unidos sabe onde o calo americano aperta. Certamente, ela não é xenófoba como Donald Trump – e este é o ponto fulcral.

Na verdade, o que interessa à humanidade é que o “big orange” não volte à Casa Branca. A memória parece curta lá como cá. No poder, Trump foi protagonista de alguns dos maiores gestos na direção de uma inflexão anticivilizatória, fosse quando negava o aquecimento global, quando afrontava minorias, ofendia estrangeiros, erguia muros em fronteiras e prestava gentilezas tributárias a milionários.

Diante de um Trump, Kamala Harris adquire enorme dimensão democrática. Dela não se esperam mentiras escabrosas forjadas contra adversários políticos, tampouco estímulos golpistas como aqueles que culminaram na invasão do Capitólio. Isso já seria suficiente para torcermos por ela.

De outra parte, salvo a manutenção de apoios internacionais de motivação imperialista, o governo Biden, do qual ela faz parte, tem feitos positivos a mostrar. Tratou a economia como instrumento promotor de justiça social. O neoliberalismo foi quase enterrado nos Estados Unidos nos últimos quatro anos, como escreveu o insuspeito Paul Krugman: “Se incluirmos os ganhos salariais devidos à crescente parcela de americanos empregados e ao maior número de horas trabalhadas, o boom de Biden foi, inequivocamente, bom para a renda dos trabalhadores. (…) Os maiores ganhos foram para os trabalhadores mais mal pagos. Assim, o boom de Biden não apenas aumentou a renda geral; reduziu a desigualdade”.

Querem fazer a mídia independente comprar a versão bolsonarista dos fatos

Por Paulo Henrique Arantes

É terrível a incompreensão, real ou dissimulada, da mídia corporativa sobre o “quem é quem” no cenário político. Após o atentado contra Donald Trump, analistas iniciaram uma verdadeira força-tarefa para cobrar da imprensa independente uma indignação perante o que julgam um ataque à democracia, a aparente tentativa de assassinato mal sucedida do candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos.

Tentam ridicularizar conjecturas sobre a autenticidade do atentado, do mesmo modo que fazem com a “facada” em Jair Bolsonaro. É claro que atentar contra a vida de um candidato a presidente é também um ataque aos princípios das democracias, mas os dois personagens em tela carregam um passivo de armações, sem limites, que autorizam e até recomendam dúvidas.

Comprar pelo valor de face qualquer acontecimento que traga dividendos políticos a pessoas como Trump e Bolsonaro é assinar atestado de ingenuidade. É desconhecer a ousadia inescrupulosa de ambos, que fomentam ao longo das respectivas vidas públicas qualquer tipo de ato destrutivo da democracia, desde descreditar processos eleitorais até estimular – ou mesmo conceber – a destruição à força de instituições da República.

Trump é um jogador que não mede as consequências de suas apostas, é assim também como empresário. Bolsonaro notabilizou-se como um militar refratário à hierarquia e insubmisso, no mau sentido, que planejava explodir quartéis. Dois moleques que encontraram abrigo na extrema-direita política.

A mídia intitulada “profissional” – jornalões e emissoras de TV – acha que o jornalismo progressista utiliza dois pesos e duas medidas, condenando a priori os ataques da direita à democracia e fazendo vista grossa aos da esquerda.  O erro grosseiro – ou seria má fé? – é considerar os supostos atentados a Bolsonaro e Trump como obras consumadas da esquerda. Não há nada que indique tal relação. No Brasil, a última vez que a esquerda cometeu um ato violento foi durante a luta armada contra o regime militar, em reação ao terror de Estado.

E a direita brasileira? Só nos anos Bolsonaro, deixando de lado alguns arroubos rodoviários, sua ala miliciana matou Marielle Franco, enquanto a ala golpista depredou o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal, para ficarmos em dois exemplos.

A colunista da Folha de S. Paulo Mariliz Pereira Jorge, sem nominar a vídeo-reportagem seminal de Joaquim de Carvalho “Uma fakeada no coração do Brasil”, mesmo porque não a deve ter assistido, publicou um primor de hipocrisia e desfaçatez nesta semana, que ilustra a postura pusilânime da imprensa corporativa. Eis um trecho: “Numa reunião, um colega mencionou um documentário que provava a ‘conspiração’ do que chamam de ‘fakeada’ (fake+facada). Expliquei por que seria impossível envolver hospitais, médicos renomados, policiais e mais uma centena de pessoas, os detalhes da investigação da Polícia Federal, olhei em volta e percebi que, pelas expressões, a louca era eu”.

Quem acredita cegamente em versões bolsonaristas dos fatos merece ser chamado de louco? Ou de quê?

A vaidade de Joe Biden

Fotos Públicas (Adam Shultz/Casa Branca)

Por Paulo Henrique Arantes

Só não fica velho quem morre cedo, e os defeitos cognitivos acometem a maioria dos idosos. Sim, há nonagenários de impressionante vigor intelectual, mas são exceções diante da crueldade do tempo. Entre os octogenários cada vez mais vê-se o brilho edulcorado pela experiência, como provam quatro dos maiores artistas brasileiros: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Paulinho da Viola, ainda hoje ativos e geniais

Política também é arte, desde que praticada como tal. Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, infelizmente, não integra a lista das personalidades cuja idade não atrapalha o exercício da arte da política. O tempo corroeu sua desenvoltura verbal. Teria lhe corroído a capacidade de raciocínio, obrigatória para quem toma decisões que afetam o mundo inteiro? Não vale a pena arriscar.

A vaidade dos políticos, especialmente aqueles que alcançam o cume do poder, é bem conhecida. Julgam-se pessoas ungidas, cultivam a imagem a qualquer preço, não largam o osso. Biden cumpriu de modo honroso seu mandato presidencial. Deveria, a bem do seu país – e do mundo -, passar o bastão. Só a vaidade justifica sua insistência numa candidatura que elegerá Donald Trump. É pena, mas a vaidade não porta o condão eliminador da senilidade.

Há quem veja etarismo nas críticas à teimosia do presidente americano. Não se trata disso. Etarismo é um tipo de preconceito, o qual fecha as portas a pessoas idosas independentemente de suas capacidades físicas e mentais.  Apontar, diante das evidências, a incapacidade de uma pessoa governar um país é zelar por esse país, ainda mais quando do outro lado um mentiroso insano, ensandecido, arma o bote.

Vaidade é coisa séria, que não poupa os senis.  

Por extremo respeito, analistas americanos alinhados ao Partido Democrata pedem a Biden que abdique da candidatura sem lhe cobrar pela absurda vaidade, palavra que nem sequer é usada em seus artigos. Este é Paulo Krugman: “Dada a situação em que nos encontramos, devo, com muita relutância, me juntar ao coro que pede que Biden se afaste voluntariamente, com ênfase no aspecto ‘voluntário’. Talvez alguns leais a Biden considerem isso uma traição, dado o quanto apoiei suas políticas, mas temo que precisemos reconhecer a realidade”.

Aqui vai um trecho de Thomas Friedman: “Se há um momento em que o mundo precisa de uma América em sua melhor forma, liderada por seus melhores, esse momento é agora – pois grandes perigos e oportunidades estão sobre nós. Um Joe Biden mais jovem poderia ter sido esse líder, mas o tempo finalmente o alcançou. E isso ficou dolorosa e inevitavelmente óbvio na quinta-feira (dia do trágico debate com Trump)”.

Os dois colunistas do New York Times, craques inquestionáveis e de notável influência, são educados e elegantes. Mas Joe Biden é um homem público, como tal deve ser cobrado. O futuro da humanidade pode ser vítima da sua vaidade.

A arte de Zé Celso não cabe no mundo de Rubinho Nunes     

Por Paulo Henrique Arantes

O vereador Rubinho Nunes (União Brasil), o mesmo que dedica boa parte de seu mandato a perseguir o Padre Júlio Lancellotti, não quer que o Parque do Bixiga chame-se Parque do Rio Bixiga “José Celso Martinez Corrêa”. Luta na Câmara Municipal para que o espaço ora delimitado pelo legislativo municipal denomine-se Parque Abravanel, em homenagem a Sílvio Santos, bilionário comunicador cuja sovinice atravancou o sonho urbano-cultural do dramaturgo morto há um ano.

      Zé Celso e Sílvio Santos travaram uma longa briga judicial de motivação imobiliária. De um lado, a força a arte e da cultura; de outro, o poder econômico. Rubinho Nunes emerge para tumultuar o ambiente que parecia resolvido, com os argumentos reacionários de sempre.

      O revolucionário dramaturgo sabia em que terreno pisava. Conhecia o direito, pois formado pela Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, ali perto do mesmo Bixiga em que se instala o Teatro Oficina e se instalará o parque.

     De certo modo, indignado pelas injustiças do mundo, Zé Celso sempre abordou questões de direito em sua obra, ainda que subliminarmente. O direito está na arte, e não há por que imaginar que a arte não esteja no direito. Não se trata de mera inspiração temática, como quando o cinema exibe histórias de cunho judicial – há fartura desse tipo de filme, alguns excelentes, outros ruins. Trata-se de interseções práticas: a oratória inflamada do advogado no Tribunal do Júri estaria muito distante de um monólogo teatral?

      Seriam as faculdades de direito, além de formadoras de juristas, celeiros de atores e dramaturgos? No caso das Arcadas, pode se dizer que sim sem medo de errar.

      A dramaturgia escandalosamente simbólica de Zé Celso, fruto de seu inconformismo com qualquer regra imposta, pode ter brotado de seus aprendizados sobre liberdade e justiça nos bancos acadêmicos. “Acho que o teatro tem um sentido de justiça e eu advogo muito por isso. Nos últimos 50 anos, fui um excelente advogado”, declarou.

      O encenador de “Roda Viva”, “O Rei da Vela” e “Bacantes”, um “tropicalista” do teatro, preso e torturado na ditadura, odiado por puritanos da vida e da arte, estudou direito ao lado de Dalmo Dallari, Fábio Konder Comparato e Márcio Thomaz Bastos. Foi aluno de Goffredo da Silva Telles, Esther de Figueiredo Ferraz e Cesarino Junior.

      Das Arcadas não saltou para a dramaturgia apenas Zé Celso. Lá se formaram o também diretor e ator Renato Borghi, co-fundador do Oficina, os geniais atores Paulo Autran e Juca de Oliveira e o consagrado diretor, ator e professor de artes dramáticas Emílio Fontana. Os atores Marcos Caruso e Caio Blat, hoje presenças frequentes em novelas de televisão, também estudaram no Largo de São Francisco – Blat não chegou a se formar, mas Caruso bacharelou-se em 1976.  

      A seu modo polemista, figura endeusada por muitos e detestada por tantos outros, Zé Celso parecia ter a consciência de que lugares e tempos possuem o condão de modificar verdades não apenas sociológicas, mas jurídicas. Se o direito constitui um poderoso instrumento de resistência contra violações dos direitos humanos e da democracia, a arte também pode ser assim entendida.

       Batizar o Parque do Bixiga com o nome de Zé Celso Martinez Corrêa será homenagear a arte e o direito. Chamá-lo de “Abravanel” será uma dupla afronta.

      Raphael Carneiro Arnaud Neto, mestre em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, presidente da Comissão de Direito, Arte e Cultura da OAB da Paraíba, escreveu junto com Marianna Chaves num site de artigos jurídicos um texto inspirado sobre direito e arte, do qual se extrai o seguinte trecho:

      O recurso à arte pode oxigenar, descontruir e remodelar o pensamento rígido e inflexível que muitas vezes habita a mente do jurista, ainda pautado – não raras vezes – em uma lógica meramente positivista e exegética. A arte nos possibilita uma nova maneira de pensar, onde direito e criatividade não são excludentes. Seja como se dê esse encontro, uma coisa se pode ter como certa: a arte possui um papel fulcral na construção de uma formação criteriosa e humanística de advogados e juristas em geral. A arte pode contribuir para a instauração de uma nova cultura jurídica, pautada pelo pluralismo e pelo pensamento critico do direito.

      Desnecessário imaginar o que Rubinho Nunes pensa de considerações como essa. O que ele pensa da obra de Zé Celso Martines Corrêa, sabemos. De todo modo, homenagear a arte e o direito jamais passaria por sua cabeça, que prefere a adulação a comunicadores cuja presença na TV costuma primar pelo preconceito e a misoginia.

Brasil, Reino Unido e França aliviaram o mundo; falta os Estados Unidos

Imagem Pixabay.

Por Paulo Henrique Arantes

O show de horrores que se viu em Balneário Camboriú careceu da presença de Donald Trump para ser completo. Jair Bolsonaro e o descabelado Javier Milei são fascistoides modelares, mas Trump é a efígie global da ultradireita, personificando a xenofobia, a misoginia, a mentira estratégica e o neoliberalismo mais grosseiro. Reino Unido e França deram respiro ao mundo nesta semana ao colocarem a direita para escanteio, ainda que temporariamente.   Falta os Estados Unidos darem a Trump um merecido passa-fora.

Muitos afirmam que basta Joe Biden renunciar à candidatura, e outro nome democrata se encarregaria de vencer Trump em novembro. Não é tão simples. Não é nada simples. Boa parcela dos americanos médios dá de ombros para os crimes do laranjão, aplaude seu machismo e sua xenofobia, considera-o corajoso quando na verdade é um covarde, um falastrão cuja biografia é muito mais podre do que se fala.

Donald Trump já foi desmascarado, foi condenado pela Justiça, mas seu apelo eleitoral não se desfez. O que explica tamanha insanidade dos eleitores? Como é possível que um cidadão razoavelmente esclarecido escolha um candidato abertamente sem caráter?

“Não basta dizer não”, livro de 2017 da consagrada jornalista Naomi Klein, precisa ser revisitado. A autora, que escreveu o seminal “A doutrina do choque”, destrinchando a onda neoliberal que fulminou o estado de bem-estar social a partir dos anos 70, relata coisas escabrosas sobre o laranjão.

Presidente dos Estados Unidos, Trump nomeou Patrick Shanahan vice-secretário de Defesa. Shanahan, um alto executivo da Boeing , escreve Klein, “foi responsável pela venda de equipamentos caros para o Exército americano, incluindo helicópteros Apache e Chinook. Ele também supervisionou o programa de defesa antimísseis balísticos da Boeing – uma parte da operação que deve lucrar imensamente se as tensões internacionais (em 2017) continuarem a aumentar sob o governo Trump”.

Klein explica que oficiais de alta patente reformados costumam assinar contratos com empresas de armamento ou mesmo assumir cargos executivos nessas companhias. A diferença do governo Trump foi “o número de generais com laços lucrativos com prestadores de serviços militares nomeados para cargos em seu gabinete com poder de alocar fundos, incluindo aqueles oriundos de seu plano de aumentar gastos com os militares, com o Pentágono e com o Departamento de Segurança Nacional em mais de 80 bilhões de dólares em apenas um ano”.

Trump presidente teve Rex Tillerson como secretário de Estado, cujas relações umbilicais com a gigante do petróleo Exxon Mobil eram conhecidas. Todo mundo sabe o que acontece com o preço do petróleo quando há guerras envolvendo países produtores. Escreveu Naomi Klein: “Há outra razão pela qual o governo pode se apressar em explorar uma crise de segurança a fim de começar uma nova guerra ou acirrar um conflito já existente: não há maneira mais rápida ou mais eficaz de aumentar o preço do petróleo, especialmente se a violência interferir nos suprimentos de petróleo que vão para o mercado mundial”.

O planeta correrá sérios riscos, agravando-se os que já corre, se o laranjão voltar à Casa Branca. Sob sua presidência os Estados Unidos realizaram movimentos concretos para aumentar a produção de combustíveis fósseis, desmontar boa parte da legislação ambiental e solapar o Acordo de Paris, pavimentando o caminho para novos acidentes climáticos.

O mundo respirará aliviado se os Estados Unidos negarem a Trump uma volta ao poder, a exemplo do que o Reino Unido e a França fizeram nos últimos dias com seus líderes de direita. A exemplo do que fez o Brasil em 2022, mandando para casa – e em breve para a cadeia – seu representante na concertação global neofascista.

Ricupero

Foto Ricardo Bastos

Por Paulo Henrique Arantes

O papelão de Rubens Ricupero na TV 247 serviu para mostrar a verdadeira face do gentleman. O embaixador, ex-ministro de duas pastas, foi aquele que disse a microfones abertos que supunha fechados, nos anos em ocupava a Fazenda, que “o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”. Desculpou-se depois, dizendo-se envergonhado pelo surto de sinceridade.

De Dilma Rousseff ele nunca gostou. Em 2015, quando se ensaiava o golpe que derrubaria a presidenta, Ricupero contribuía para a forjadura do clima de terra arrasada que turbinaria o impeachment. Semeava pânico.

Em entrevista a este jornalista, ele disse coisas como esta: “O que é perigoso, na situação atual do Brasil, sem querer ser alarmista, é que nós estamos nos aproximando neste ano daquilo que de fato mereceria a qualificação de tempestade perfeita. Essa expressão nasceu por causa de um fenômeno que houve em Nova York há uns 10 anos, quando eles tiveram uma terrível tempestade, ao mesmo tempo que a meteorologia foi destrutiva houve um colapso do fornecimento de energia elétrica, os metrôs pararam, não havia iluminação, as pessoas tinham que voltar para casa a pé, começou a ocorrer saques de lojas. É a conjunção de tudo que pode dar errado.”

Ricupero também mostrou a este entrevistador sua bola de cristal econômica: “O ajuste fiscal (de Joaquim Levy), evidentemente, não vai ajudar a economia a se estimular, porque ele sempre tem um efeito recessivo. A poupança está baixíssima, ano passado caiu a menos de 14%, com um investimento interno de menos de 18%, quando precisaria ser de 23%, 24%. E, além do mais, temos ameaças graves de crises de água e energia elétrica. Então, se somarmos isso tudo nós temos um panorama muito complicado.”

E caprichou ao mencionar um ex-ministro de Collor, mostrando seu apego a um dogma ortodoxo: “Marcílio Marques Moreira costuma citar o provérbio romano de que ‘a dose é que faz o veneno’. Quando se gasta muito além do que se pode, com todos esses truques fiscais que fizeram, você pode fazer o bem, mas quebra”.

Sua aversão a Dilma Rousseff e sua visão superficial da realidade política brasileira ficou ainda mais evidente quando disparou esta: “Dilma deve a reeleição ao Nordeste, às regiões mais pobres, e nessas regiões ela ganhou por causa dos programas sociais”. Ou seja, o tom é de quem “culpa” os nordestinos pela vitória da presidenta Dilma.

Ainda hoje, como seu viu na TV 247, Rubens Ricupero atribui a tragédia econômica provocada por Michel Temer e Jair Bolsonaro aos governos de Dilma Rousseff, que registrou, entre outras marcas, o menor desemprego da História do Brasil. Mas o que significa o desemprego para um neoliberal?

A ENTREVISTA COMPLETA DE RUBENS RICUPERO AO COLUNISTA EM 2015 PODE SER LIDA NA ÍNTEGRA AQUI.

Rubinho e sua guerra contra o Padre Júlio Lancellotti

Vereador Rubinho Nunes.

Paulo Henrique Arantes

Já escrevemos aqui sobre Rubinho Nunes, vereador em São Paulo pelo União Brasil (seu sexto partido). Sua trajetória o credencia para a intentona atual: punir quem ousar doar comida aos moradores de rua da cidade de São Paulo com multa de 17 mil reais, além de desencorajar ações humanitárias desse tipo mediante enfastiante burocracia.

Rubinho odeia pobre? Parece que sim, mas muito mais escancarada é sua fixação odiosa pelo Padre Júlio Lancellotti.

Há um inquérito da Polícia Civil de São Paulo contra ele por, a partir de calúnias contra ONGs – em especial contra a Pastoral do Povo da Rua, capitaneada pelo Padre Júlio -, tentar instalar uma CPI na Câmara Municipal. O direitista quis dar conotação partidária à ação social do sacerdote, mas o intento causou forte repúdio e o tiro saiu pela culatra. Agora, volta à carga com o Projeto de Lei 445, que prevê multa a quem der de comer a moradores de rua. Diz que almeja “transparência”. Acredita quem quer.

Rubinho, um reacionário cheirosinho, enxerga o Padre Júlio como cabo eleitoral de Guilherme Boulos na eleição para prefeito da Capital. Pensa que destruindo a credibilidade das ações humanitárias por ele geridas roubará eleitores de Boulos. Seria patético, não fosse cruel.

Registre-se que a afinidade entre o sacerdote e o candidato do PSOL é mais do que justificável, pois ambos possuem histórias de vida de amparo aos sem-teto. Trata-se de uma saudável empatia.

O Padre Júlio Lancellotti é mais que um exemplo de sacerdote cristão. É um modelo de ser humano, cuja prática de amor ao próximo independe de religiões, ou melhor: está acima delas.

Em contraposição a ele está Rubinho Nunes, um dos fundadores do Movimento Brasil Livre, o MBL, aquele grupo de jovens reacionários que nasceu para estimular a derrubada de Dilma Rousseff. Ele era um dos organizadores daquelas manifestações pró-impeachment que tornaram o verde e o amarelo cores oficiais do golpismo.

Repitamos aqui, por oportuno, parte de artigo já publicado pela coluna:

De 2011 até hoje, Rubinho demonstrou sua versatilidade política integrando nada menos que seis partidos: PR, MDB, Patriota, PSL, Podemos e União Brasil. Em 2016, protocolou o primeiro pedido de impeachment contra um ministro do Supremo Tribunal Federal, acusando Marco Aurélio Mello de agir de forma arbitrária ao determinar, mediante liminar, que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, colocasse em votação pedido de impeachment contra o presidente da República, Michel Temer. A coisa toda acabou engavetada.

Em 2018, Lula, preso, teve seus benefícios de ex-presidente da República cortados pelo juiz federal Haroldo Nader, da 6ª Vara de Campinas, em decisão sobre ação popular liderada por Rubinho Nunes.

Ainda em 2018, o jovem político reacionário de Vinhedo, junto com o inefável Kim Kataguiri, entrou com ação para impugnar a candidatura Lula à Presidência da República com base na Lei da Ficha Limpa. A dupla do MBL foi vitoriosa no Tribunal Superior Eleitoral, como se sabe.

Rubinho Nunes e seus pares respiram ódio ao humanismo e a qualquer ação na direção da justiça social e da igualdade.

Roberto Campos Neto para presidente!

Pedro França / Agência Senado

Por Paulo Henrique Arantes

A paranoia da imprensa com a austeridade fiscal chega ao ponto de tratar Javier Milei como “libertário” em vez de maluco, isso porque o mandatário argentino obteve o primeiro superávit orçamentário mensal do país em 12 anos. Não importa a que custo social ou humano. Conferir pouca ou nenhuma importância à insanidade de um presidente, desde que ele faça genuflexão diária perante o “mercado”, é comportamento vezeiro da mídia.

No Brasil, temos caprichado na elevação do “mercado” à condição de “deus”. Lê-se, ouve-se e assiste-se a verdadeiras sessões de louvação à ortodoxia econômica, bússola a apontar para o norte feliz. As catástrofes sociais perpetradas pelos filhos da Escola de Chicago mundo afora não são mencionadas.

É saboroso ver a reação desesperada da mídia corporativa diante do surgimento do nome de André Lara Resende como possível escolhido de Lula para o Banco Central. A hipótese ALR tem olhos e focinho de factoide, mas seria interessante vê-la concretizada. Antes identificado com o liberalismo, sempre enaltecido como um dos “pais do Plano Real”, em soporífera referência, há alguns anos o economista passou a criticar com veemência a obsessão pelo controle fiscal, a pregar contra limitações de gastos e a defender o investimento público como forma de impulsionar o crescimento do país. Tornou-se o terror da Faria Lima.

A distorção que a mídia corporativa promove hoje quanto à questão do Banco Central e dos juros, ao tratar o bolsonarista Roberto Campos Neto como técnico qualificado e Lula como político de conduta figadal, é grave mas absolutamente previsível. Os jornalões poderiam pelo menos assumir que o presidente do BC é seu candidato dos sonhos à Presidência da República – o sujeito até já jantou com Luciano Huck, a personificação do bolsonarismo de sapatênis.

Não nos surpreendamos, pois essa mesma imprensa já fez pior ontem mesmo. Na pandemia, hipocritamente, chegava ao cúmulo de “debater”, em tons de imparcialidade, a fictícia imunidade de rebanho. Ao longo da tragédia pandêmica, cometeram-se esse e outros crimes informativos em nome da famigerada “isenção” jornalística.

Há amplos estudos demonstrando a incorreção da mídia na abordagem dos temas científicos relacionados com a pandemia de Covid-19, um deles publicado por especialistas brasileiros na prestigiosa revista Frontiers in Communication. A partir de abril de 2020, a imprensa brasileira começou a destacar os efeitos das medidas de distanciamento sobre a economia. Também nesse caso, as narrativas foram construídas mediante o princípio de “ouvir os dois lados” – um, favorável à “imunidade de rebanho”; outro, ao distanciamento social. Tratava-se de uma falsa equivalência, já que a oposição à “imunidade de rebanho” era cientificamente embasada, enquanto sua defesa baseava-se em projeções de economistas neoliberais.

O deputado de ideias medievais Osmar Terra, que é médico (?) mas não epidemiologista, ganhou amplo espaço da mídia com suas considerações que foram da insignificância do vírus à exaltação da cloroquina. Reportagens em grandes portais de notícias continham links de vídeo para pronunciamentos recheados de informações falsas.

Exaltar tecnocratas não é nada para quem deu voz a negacionistas da ciência, corresponsáveis por milhares de mortes evitáveis. Roberto Campos Neto para presidente!