Sazonalmente, algum jornalão obriga-nos a revisitar Michel Temer, sósia de Chistopher Lee que aterroriza tanto quanto o Conde Drácula interpretado pelo ator. Agora é O Globo, que atribui a queda fenomenal do desemprego no Governo Lula, de 12% para 6,8%, à reforma trabalhista feita pelo vampirão. Cai bem como piada.
Michel “Drácula” Temer é o modelo ideal de político para a elite brasileira, pois serve a ela sem perder a pose nem abdicar das mesóclises, cobrindo-se de um verniz jurídico que impressiona os incautos. Na verdade, seu forte são os conchavos. Ele articulou a derrubada da presidenta da República e surrupiou-lhe o cargo. Na Presidência, foi instrumento perfeito do Brasil reacionário.
Michel patrocinou uma reforma trabalhista que quase destroçou a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), levando a cabo uma “modernização” das relações de trabalho que respondeu por uma legião de trabalhadores informais, precarizados, sem direito a nada.
Os males que Michel “Drácula” Temer causou ao país ainda persistem. Abraçado a Henrique Meirelles, suas iniciativas no Planalto foram cirúrgicas contra as classes mais vulneráveis – o teratológico teto de gastos é o melhor exemplo disso, algo inédito mesmo nas piores praças neoliberais do mundo.
A reforma da Previdência que Jair Bolsonaro impingiu ao país, com ajuda do Congresso mais vil da História da República, foi concebida pelo governo de “Drácula”, só não tendo emplacado naquele mandato porque o vampirão perdeu qualquer condição de negociar com os parlamentares, denunciado que fora por corrupção após o vazamento de uma conversa pouco republicana com Joesley “Friboi” Batista.
Michel “Drácula” Temer encarna a elite do atraso, como bem definida pelo sociólogo Jessé Souza. Uma elite piegas, usuária de uma falsa oratória conciliadora, um discurso centrista hipócrita que mal disfarça a volúpia por privilégios, com um pé na academia e outro em regabofes com doleiros e congêneres.
Há coisa de cinco séculos, o genial Nicolau Maquiavel escreveu: “As injúrias devem ser feitas todas de uma só vez, a fim de que, menos saboreadas, ofendam menos; e os benefícios devem ser feitos pouco a pouco, a fim de que sejam melhor saboreados”. Nos anos 1980, Tancredo Neves trouxe o filósofo florentino para o processo de redemocratização do Brasil: “Notícia ruim a gente dá de supetão; notícia boa a gente dá aos poucos”.
A malícia mineira é puro maquiavelismo, outro nome para ardil, que pode servir tanto ao bem quanto ao mal. Sim, às vezes os fins justificam os meios. Nada a ver com Romeu Zema, é claro, verdadeira draga neoliberal e despossuído daquela formidável mineirice.
Note-se que as notícias positivas neste governo de Luiz Inácio Lula da Silva parecem vir maquiavelicamente a conta-gotas, sempre precedidas de muito suor. Assim ocorreu com a aprovação do arcabouço fiscal, depois com a reforma tributária, posteriormente com a alta do nível de emprego, em seguida com o aumento do PIB. São avanços sólidos, conquistas decorrentes de princípios socioeconômicos e trabalho. Consolidam-se aos poucos e não se desmancham no ar.
A imprensa neoliberal, que respondeu pela ascensão de Jair Bolsonaro, também pratica seu maquiavelismo; este, um maquiavelismo deletério, pois contrário os interesses da imensa maioria dos cidadãos brasileiros. O povo encontra-se muito, muito distante da Faria Lima, no entanto é bombardeado diariamente com análises econômicas provenientes do mercado de capitais. E só de lá.
Bater na mesma tecla diariamente, até que uma conjectura vire verdade – essa é a estratégia, por exemplo, dos jornalões, um dos quais não consegue mais escamotear seu bolsonarismo. Foi assim durante anos com a “corrupção petista”, tornada muito mais vistosa do que outras corrupções bem piores.
A onda que agora se eleva é para responsabilizar o governo Lula pelas queimadas que se alastram pelo território brasileiro. Há uma tragédia em curso, provavelmente de origem criminosa e potencializada pela seca. A contenção de uma intempérie dessa dimensão não se dá do dia para a noite. O governo mobiliza-se para conter o fogo, como mobilizou-se em socorro às vitimas das chuvas no Rio Grande do Sul, mas, reconheça-se, trata-se de uma missão sobre-humana, incontornável mesmo com brigadistas treinados para tal e uso de aviões para despejo de água nos focos de incêndio.
No médio prazo, como disse a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o risco de queimadas com as de agora será minimizado pelo fortalecimento da fiscalização e o incentivo a práticas alternativas de manejo de terras, como o uso de métodos mecânicos e biológicos para limpeza de terrenos.
Ter Marina Silva no Meio Ambiente já seria suficiente para o governo atual diferenciar-se completamente do anterior, quando a pasta era chefiada por um sujeito acusado de exportação ilegal de madeira. Porém, maquiavelicamente, os jornalões simplesmente comparam os índices de desmatamento pelo fogo entre os governos, e enxergam equivalência. Não verificam o inusitado, não apontam a vontade política, não valorizam a intenção, nem a disposição.
O escândalo envolvendo a Cambridge Analytica, o Facebook e a eleição de Donald Trump, em 2016, era na verdade um grão de areia no universo de possibilidades e potencialidades hoje detidas pelas big techs. Microsoft, Meta, Google, Apple e Amazon têm poder demais? Vivemos subordinados aos algoritmos? Parece que sim. O tema exige discussões aprofundadas, pois o futuro se atrela a ele. Conclusões sumárias não são bem-vindas, mesmo porque inúteis.
O caso Cambridge exerceu função pedagógica e jogou luz sobre cenários vindouros. Em 2017, com Trump eleito, não se tinha nem sequer uma visão de curto prazo a respeito. As legislações não detêm, sozinhas, o condão de ordenamento do futuro.
O que sabemos, por ora, é que as tecnologias desenvolvidas pelas big techs farão parte do mundo por muito tempo, o que significa que as gigantes do Vale do Silício americano – várias com sede administrativa na Irlanda do Norte – não merecem tanto poder. Recordemos: há 100 anos, as big oil, gigantes do setor petrolífero, ditavam o ritmo socioeconômico global e sua influência levou à criação de leis antitruste, mas ainda hoje a posse do petróleo gera conflitos entre nações e a oscilação do preço do barril descontrola economias mundo afora.
Cada vez que grandes corporações tomam conta de um segmento de mercado – monopólio é a palavra -, abre-se uma grande discussão sobre o futuro da vida na Terra diante de tanto poder concentrado. Quando esse monopólio envolve um campo novo do conhecimento que evolui exponencialmente a cada dia, o debate adquire contornos ainda mais graves. Quem pensa no futuro com honestidade intelectual sabe que não há inocentes no império dos algoritmos. É por isso que normas claras, precisas e saudáveis precisam ser criadas, disseminadas e cumpridas.
Em outubro de 2021, o Facebook, sem dúvida com esqueletos no armário, percorria sua Via Crucis. Uma reportagem do Wall Street Journal demonstrava que personalidades com milhões de seguidores, como Donald Trump e Neymar, dispunham da regalia de burlar certas normas da rede social sem serem incomodadas. Exatamente o que não pode ser franqueado a Elon Musk, dono X, hoje.
Musk que se defenda judicialmente de suas más condutas, e que sejam tomadas providências contra suas ingerências políticas contra democracias, como a brasileira.
Fato é que condutas a priori condenáveis serão a regra enquanto o setor como um todo não for objeto de discussão aprofundada, da qual devem participar profissionais de comunicação, de tecnologia, governantes, economistas e juristas em âmbito global. As big techs e as redes sociais exigem um amplo debate, pois o futuro depende do seu papel no mundo e da sua capacidade de determinar comportamentos.
A pesquisa “Vitimização e Percepção sobre Violência e Segurança Pública”, obra do sempre importante Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgada em 3 de setembro, traz alguns aspectos que mereceriam pautas especiais da imprensa. Os colegas jornalistas não deram muita bola para o que a sondagem constatou sobre o famigerado bico policial, atividade justificada pela necessidade de aumento da renda desse profissional, porém ilegal.
A questão foi analisada com propriedade pelo professor da Universidade Estadual de Londrina Cléber Lopes, coordenador do Legs (Laboratório de Estudos sobre Governança da Segurança), na newsletter Fonte Segura, distribuída pelo FBSP.
A participação de agentes públicos é proibida tanto na prestação direta de serviços de proteção quanto na gestão de empresas privadas de segurança. A pesquisa apurou que há cerca de 30 milhões de brasileiros – 18% dos entrevistados – com mais de 16 anos residindo em bairros onde policiais realizam serviço de segurança de modo privado. Trata-se de um trabalho velado, por fora da lei.
Assim escreveu o professor: “Os policiais são um ativo valorizado por muitos no mercado de proteção. Podem ser empregados informalmente para prestar serviços de segurança em seu horário de folga sem grandes riscos trabalhistas, afinal, a ilegalidade do bico inibe a busca por direitos trabalhistas. Além disso, os policiais podem oferecer recursos que não estão disponíveis às suas contrapartes privadas (os vigilantes) da mesma forma: o porte de arma (mesmo fora de serviço), o treinamento investido neles, o contato privilegiado com outros policiais e o poder legal para impor a lei. Em conjunto, esses recursos também contribuem para dotar os policiais de poder simbólico, ou seja, a capacidade de serem vistos como portadores de soluções ‘mágicas’ para problemas de segurança”.
Os policiais que fazem bico como segurança particular portam uma autorização tácita das instituições públicas a que pertencem – mais fácil fazer vista grossa à ilegalidade do que aumentar o salário do policial.
Cléber Lopes afirma que o bico policial compromete a qualidade da segurança pública. Cria conflitos de interesse, aumenta o estresse e o risco de vitimização do profissional: “No bico, os policias costumam trabalhar sem a retaguarda de outros policiais, sem uniforme e equipamento de proteção adequado, tornando-se assim mais vulneráveis a confrontos letais com criminosos. Esse é um dos motivos pelos quais os policiais brasileiros são mais vítimas de violência letal intencional fora de serviço do que no serviço”.
Em 2023, 60% dos policiais civis e 57% dos policiais militares assassinados o foram em horário de folga, segundo o Anuário de Segurança Pública 2024.
Como esclareceu o professor, a atuação de policiais na segurança privada, pela característica do sua função pública, viola os preceitos que deveriam nortear o trabalho particular de segurança – este, uma atividade essencialmente preventiva, sem poder coercitivo para imposição da lei. Um segurança privado não busca prender criminosos em nome da lei, mas gerencia riscos. “Ocorre que a penetração de policiais no universo da segurança privada pode fazer com que esse estilo de policiamento característico da segurança privada ceda espaço a um policiamento mais repressivo”, observa Lopes.
O tema abriga um nó de desatamento complicado. Parte da sociedade – a mais endinheirada – quer segurança privada e paga por ela; essa atividade supre parte da dificuldade financeira do policial, que ganha mal; a manutenção dessa situação é conveniente para as autoridades públicas de segurança.
Como se sabe, haverá uma manifestação da direita na Avenida Paulista no dia 7 de setembro. Mais uma. Bolsonaristas, marçalistas, malafaistas, olavistas e assemelhados pregarão, subliminarmente ou não, contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que apreciará um pacote de inquéritos que os atemoriza. O palanque reunirá as natas do reacionarismo, do golpismo e do negacionismo brasileiros.
No asfalto, manifestantes amarelados louvarão figuras abjetas como Elon Musk, defenderão “liberdade de expressão” sem nem sequer saberem o que isso significa, denunciarão bobagens como “ditadura do Judiciário”. Não será surpresa se virmos cartazes como os dizeres “quero meu X de volta”.
Alguns exaltarão Donald Trump, o agente laranja pluricondenado. Muitos enaltecerão Benjamin Natanyahu, genocida, criminoso de guerra. Uns tantos atacarão Janja por ser mulher não omissa, tampouco submissa. Claro, Lula será reiteradamente enxovalhado. Muitos pedirão a soltura daqueles que tentaram um golpe de Estado.
Sobrará também para o ministro do STF Flávio Dino, por ser gordo e “comunista”.
Essa gente toda que irá babar ódio na Avenida Paulista possui extensa capivara. Lá por 2015, então bem mais excitada do que hoje, pediu o impeachment sem crime de uma presidenta da República. Depois, propôs uma tal de “intervenção militar constitucional”, num átimo de criatividade.
Em inacreditável demonstração de incompreensão sobre o quem é quem na mídia brasileira, eles repudiarão no 7 de setembro a Rede Globo. Não se surpreendam se alguém for visto exigindo a permanência de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central (não ria antes de sábado, caro leitor).
O ridículo não tem limite. Voltarão às ruas no sábado, 7 de setembro, pessoas que, durante a pandemia de Covid-19, aglomeraram-se, descartaram máscara de proteção, tomaram e receitaram cloroquina. Desafetos da vida, inimigos do conhecimento, paladinos da desigualdade, destruidores da democracia também clamaram por um ridículo “voto impresso auditável” nas últimas eleições.
Está marcado o próximo show de horrores na Avenida Paulista.
Já se sabia, mas agora é oficial: o indicado de Lula para ser o próximo presidente do Banco Central é o economista Gabriel Galípolo, que escreveu o parágrafo a seguir, a quatro mãos com Luiz Gonzaga Belluzzo, constante do livro “Manda quem pode, obedece quem tem prejuízo”, de 2017:
“O Japão, um dos países mais endividados do mundo, sustenta uma dívida pública equivalente a 250% do seu PIB, mas suas taxas de juros são iguais ou menores que 0%. Os EUA detêm uma dívida de mais de 105% do seu PIB e o FED pratica taxas de juros inferiores a 0,75%. Os países da Zona do Euro apresentam endividamento de aproximadamente 92% do seu PIB, e o BCE também pratica taxas de juros nulas.”
Outro parágrafo da mesma obra:
“A história recente da evolução da dívida pública no Brasil demonstra o avesso da sabedoria convencional. Dizem os sabichões que a taxa de juro é elevada por causa do estoque da dívida, mas o caso brasileiro parece afirmar que a dinâmica da dívida é perversa por causa da taxa de juro de agiota.”
E um terceiro:
“O fato de uma classe social monopolizar os meios de produção e controlar o crédito lhe confere o poder de determinar a renda desta sociedade. Portanto, para que as necessidades pessoais e coletivas sejam satisfeitas é necessário que os agentes detentores dos meios de produção e crédito gerem mais dinheiro do que o investido inicialmente. O destino desta economia depende da decisão de gastar, investir e se endividar dos capitalistas. A complexidade reside no fato desta decisão nem sempre se dar de forma a gerar a melhor renda e emprego para a sociedade.”
Ainda não dá para comemorar, mas os sinais são de tempos melhores. A não ser que Galípolo inspire-se em Fernando Henrique Cardoso e mande esquecer o que escreveu.
Pablo Marçal não tem conteúdo nem para ser coach evangélico, muito menos prefeito de São Paulo. Palestrantes motivacionais, atuantes em carne e osso ou na internet, reproduzem-se como praga, aproveitando-se do vazio intelectual que parece predominar. Marçal candidato resulta disso e, no contexto coaching, é um dos piores, tanto pelo que diz quanto pelos esqueletos em seu armário.
O movimento da extrema-direita global para emparedar pensadores legítimos já conseguiu importantes vitórias mundo afora, e teve em Olavo de Carvalho seu mais estridente porta-voz. O filósofo Luiz Felipe Pondé, um acadêmico, esmera-se em esculachar a academia por considerá-la palco exclusivo a esquerdistas. Claro que o pensamento considerado “de esquerda” predomina nas universidades, mas por que não predominaria, já que o próprio livre-pensar foi historicamente combatido pela direita? Sim, Stalin e Fidel nunca permitiram pensamento divergente algum, e eram de esquerda – bingo! Daí a necessidade de se ressaltar o quão próximos situam-se os extremos que escapam à régua democrática.
O louvor à ignorância ganha corpo e não é de hoje. Valorizar a falta de conhecimento virou moda sob o falso argumento de que pensar não enche barriga. Um bolsonarista, olavista, marçalista ou coisa que o valha acha que andar com arma na cinta e mandar o filho criança trabalhar em vez de ir para a escola são virtudes. A virtude maior, para essa gente, é a capacidade de enriquecer, comprar segurança (leia-se um revólver e uma casa num condomínio blindado) e dar uma banana para os fracassados.
O discurso desse povo, em síntese, é o da famigerada meritocracia, algo absoluta e gritantemente distante de qualquer senso de justiça social. E dá-lhe negacionismo. Os louva-coaches não hesitam em acreditar em qualquer bobagem dita numa palestra proferida por um espertalhão para um amontoado de incautos. Abestalhado, o louva-coaches é a presa ideal, pois desde sempre um consumidor de “conhecimento” por orelhadas, jamais um questionador, muito menos um leitor.
A orelhada é a atitude intelectual mais profunda do louva-coaches. Mente vazia, ele escuta a bobagem dita pelo coach, gosta porque lhe é compreensível e lhe parece aplicável à vida cotidiana. O discurso do coach, nada mais que um mentiroso, faz com que um portal de esperança surja diante dos seus olhos, fazendo-o sentir-se não como o idiota que é, mas como um futuro self-made man. A sagrada orelhada irá transformar a vida do idiota, que logo nem saberá mais a qual coach louvar. Ou em qual coach votar.
Não há surpresa no que disse Ciro Gomes e que mereceu destaque na Folha de S. Paulo. Eis a incontinência: “Desde 2019, Moraes resolveu transformar esse inquérito (o das fake news) numa coisa que não tem fim, no inquérito do fim do mundo. Isso, data máxima vênia, não é direito. É incorreto. Está simplesmente produzindo nulidade para, inclusive, garantir a impunidade dos malfeitores”.
É óbvio que o ministro Alexandre de Moraes aprofunda-se para que não pairem dúvidas jurídicas sobre as condenações que certamente proporá como relator do inquérito das fake news. Só na cabeça de Ciro Gomes o magistrado “produz nulidade para garantir impunidade”.
Ciro, há algum tempo, tenta compensar sua impotência eleitoral disparando contra quase tudo. Em respeito à identificação levemente à esquerda que já teve, poderia mirar nos extremistas de direita que tentam destruir tudo que se assemelhe a democracia e civilidade.
O problema de Ciro Gomes é, nitidamente, o recalque por não ter sido, jamais, ungido como o candidato preferencial do campo progressista. Dotado de conhecimento econômico, com boas ideias heterodoxas, uma vez no comando do país não hesitaria em confrontar a alta finança, como sempre deixou transparecer. Mas não é aí que reside o problema Ciro.
A questão principal que cerca o político cearense e suas práticas é de ordem psicológica. Vaidade e inconformismo. Ciro Gomes se acha o mais preparado dos políticos e nunca perdoará Lula por não pensar a mesma coisa, daí a abraçar a onda polarizadora que pinta o petista como um Bolsonaro de esquerda.
Ciro tornou-se um espalha-roda na política brasileira, aquele sujeito cuja presença dissipa grupos de conversa. Só mesmo a Folha de S. Paulo, que a cada dia menos disfarça seu bolsonarismo, para dar o destaque que deu a uma fala dele, feita a um programa para ele criado chamado “O Brasil Desvendado” e reproduzido em suas redes sociais.
O apagar das luzes políticas de Ciro Gomes poderia ser menos patético. Apesar de ter navegado com PDS, PMDB, PSDB, PSB, Pros e PDT, o que indicaria enorme vazio ideológico, ele foi, em cargos no Executivo, um realizador pragmático. Deixou o governo do Ceará com 74% de aprovação, finalizou a implantação do Plano Real (para o bem ou para o mal) como ministro da Fazenda de Itamar Franco e, como ministro da Integração Nacional no primeiro governo Lula, de 2003 a 2006, imprimiu bom ritmo à gigantesca obra de transposição do Rio São Francisco.
O passar do tempo, emoldurado por seguidos fracassos eleitorais e a recusa de Lula a apadrinhar suas candidaturas, parece ter levado Ciro Gomes ao desespero, o que fica evidente quando ele alinha seu discurso ao do bolsonarismo.
Brasilia DF 25 06 2019 -Jornalista fundador do jornal The Intercept, Glenn Greenwald em audiência pública na Câmara dos Deputados foto Gustavo Bezerra
Por Paulo Henrique Arantes
Nem tudo que parece complexo, para ser compreendido, exige explicações complexas. O caso – ou não-caso – levantado pela Folha de S. Paulo acerca de condutas do ministro Alexandre de Moraes encontra numa frase dele próprio a mais perfeita justificativa: oficiar-se a si mesmo seria esquizofrenia.
Pode-se questionar a formatação do Judiciário, que possibilita o acúmulo de cargos em tribunais superiores, mas não se pode imaginar que o ocupante de dois cargos comporte-se como se não fosse a mesma pessoa.
Na mesma Folha, o advogado Thiago Amparo foi simples e direto: “O jornal afirmou que a atuação de Moraes estaria fora do rito. O rito era Moraes (STF) oficiar o Moraes (TSE). Qualquer análise precisa partir do fato de que as instituições estavam lidando com um campo político que queria implodir a democracia e literalmente o fez no fatídico 8 de janeiro. Sem essa clareza histórica, o que é análise vira inocência”.
Para ser contraposta, a “denúncia” de Fabio Serapião e Glenn Greenwald não requer contorcionismos, subterfúgios ou escamoteios. Jornalistas, políticos, juristas e cidadãos em geral que não se encontrem na banda ignóbil da sociedade já compreenderam que o jornal que considerou o regime torturador uma “ditabranda” escancara sua preferência pelo que Jair Bolsonaro e os bolsonaristas representam.
O “pluralismo” que a Folha de S. Paulo apregoa revelou-se piada de mau gosto há muito tempo. É o velho truque de salpicar colunistas progressistas para mascarar a verdadeira régua pela qual o jornal se baliza: o neoliberalismo, mesmo que a custo da democracia.
Já tivermos oportunidades, nesta coluna, de explicar como o neoliberalismo, cuja principal arma é a austeridade fiscal, abraça e patrocina regimes fascistas. A coisa começou no Reino Unido e na Itália no pós-Primeira Guerra Mundial, como relatou primorosamente Clara Mattei no livro “A ordem do Capital”, e ultrapassou o século XX para aterrorizar o XXI.
A obra de Mattei detalha como a austeridade impôs-se contra os levantes de trabalhadores explorados e consagrou-se como argumento impeditivo de avanços sociais. A semelhança com o Brasil de hoje é impressionante, onde a Faria Lima e seus serviçais na imprensa tentam fazer pespegar no governo a imagem de perdulário, semeando uma sensação de caos econômico. Trata-se de óbvia mentira, mas que serve a um jornal neoliberal como justificativa para aliar-se até a um Bolsonaro.
Os fascistas, exímios produtores de fake news, podem agora servir-se do factoide da Folha contra Alexandre de Moraes, atiçando-se mais uma vez, prontos para um novo bote sobre a democracia.
Todos queriam ouvir o que Antonio Delfim Netto tinha a dizer. Governo, oposição, políticos e economistas de matizes diversas raras vezes ousaram desprezar o que ele escrevia, durante muitos anos, em suas colunas nos jornais “Folha de S. Paulo” e “Valor Econômico”, e na revista “Carta Capital”. O ex-ministro da Fazenda do governo do general Emílio Garrastazu Médici, época do “Milagre Econômico” e apogeu da ditadura militar, apoiou os dois primeiros governos Lula e, com ressalvas, o governo e meio de Dilma Rousseff.
Em 2013, no primeiro governo Dilma, Delfim concedeu uma alentada entrevista a este colunista, para a Revista OAB-CAASP, quando falou em “esquizofrenia” em torno da inflação, das projeções para o PIB, da política de juros e da atuação do Banco Central, então sob o comando de Alexandre Tombini.
Sim, foi um colaborador destacado da ditatura, mas isso não apaga seu talento como economista. Delfim nunca rendeu-se ao financismo e sua morte, nesta segunda-feira (12), deixa uma lacuna.
Reproduzo a seguir a entrevista que fiz com Delfim Netto durante o Governo Dilma, em que ele rema contra a corrente ortodoxa da época, cuja semelhança com a de hoje é nítida.
Afinal, a economia brasileira vai bem ou vai mal?
Antonio Delfim Netto – Na verdade, o Brasil vai muito bem. O Brasil mudou. Desde a Constituição de 1988 as instituições estão muito mais sólidas, o país vem desenvolvendo instituições adequadas a um crescimento razoável. O Brasil está mais justo.
Em 2012, crescemos muito pouco, mas nos últimos 16-17 anos temos crescido em torno de 3% ou 4% ao ano, mas com uma mudança muito importante na distribuição da renda. A distribuição de renda tem melhorado, tem aumentado a igualdade de oportunidades de tal modo que se está criando um país mais decente.
O PIB de 0,9% em 2012 de fato é decepcionante. Mas, diante de um cenário mundial em que a Europa está em recessão, os Estados Unidos estão estagnados, o desempenho do PIB brasileiro configura uma catástrofe?
Para as nossas necessidades e possibilidades, seguramente é um crescimento baixo, mas que vai ser superado – eu estou convencido. O mais importante não é o crescimento no ano, mas sim que entre o terceiro e o quarto trimestres de 2012 tenhamos crescido 0,8%-0,9%. Isso significa que o Brasil já está crescendo alguma coisa entre 3% e 3,5% de modo anualizado. Então, estamos recuperando o crescimento. E consolidando a ideia de que esse crescimento tem de ser feito com inclusão social.
É correto afirmar que “a inflação está de volta”, em tom alarmista?
Por óbvio, é um exagero. Eu acho o seguinte: inflação está mais alta do que a gente gostaria. O objetivo no Brasil é 4,5%, ela está rodando em torno de 6% e deve terminar o ano abaixo de 6%. Não é uma inflação para se bater palmas, mas não existe a menor possibilidade de se perder o controle sobre ela.
Essa inflação, também, é produto de um certo comportamento esquizofrênico do governo. O governo tem uma política social em que, por exemplo, ele aumenta o salário mínimo com uma fórmula extravagante – como no ano passado, 14%. Tem de haver uma relação entre produtividade e salário. A produtividade não subiu, então você tem tensões de custo produzidas por isso.
O governo faz distribuição de renda, o que é muito saudável do ponto de vista da sociedade, mas quem produz também reduz seu investimento. Ou seja, diminuiu-se a taxa de crescimento. Isso também exerce pressão inflacionária. Com a outra mão, o governo tenta controlar a inflação por meio de política monetária, e não ataca alguns problemas estruturais que existem, como o desequilíbrio fundamental no mercado de trabalho.
É preciso verificar o seguinte: não há a menor hipótese de se perder o controle dessa inflação. O governo continua com instrumentos que tem para controlá-la, acho que tem agido corretamente, não está se precipitando.
Existe, obviamente, um cabo de guerra entre o mercado financeiro e o governo. Há quem diga que “para o governo readquirir credibilidade, é preciso aumentar a taxa de juros”. Que o mercado financeiro deseje isso é perfeitamente compreensível. Como ele tem um poder de transmissão dessas ideias muito grande, criam-se ansiedades como esta, de que estaríamos a ponto de perder o controle. Nada. A política fiscal brasileira é bastante virtuosa. Temos um déficit fiscal de 2,5% – um dos menores do mundo.
Além do pessoal do mercado financeiro, há o pessoal das próximas eleições, não?
Esse é um processo legítimo, e um processo legítimo é uma delícia. Se você olhar, o Fernando (Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República) diz que foi ele quem criou o Brasil. O Lula (Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República) diz que ele sim criou o Brasil. É natural. Só que antes do Fernando havia 450 anos, e antes do Lula havia 460.
A gente não pode levar a sério esse embate político, porque as pessoas que estão falando certas coisas sabem que essas coisas não são verdade. O mais surpreendente é eles acharem que os outros são tolos.
Em termos econômicos, o governo Lula foi uma continuidade do governo Fernando Henrique?
É preciso que se entenda o seguinte: o ponto de inflexão do Brasil foi a Constituição de 1988. O Brasil está se tornando um país constitucionalmente sólido, institucionalmente forte. O Plano Real só foi possível por conta dos avanços constitucionais. Não há nada que surja do nada. O governo Itamar Franco aceitou a ideia de fazer o Plano Real, contribuiu, se esforçou, aumentou as reservas internacionais. O Fernando, quando ministro da Fazenda, reuniu um grupo de economistas muito competentes e fez um plano brilhante de estabilização, que pode ser olhado de dois lados – do controle da inflação e do estímulo ao crescimento. Do ponto de vista da inflação, é um dos planos mais brilhantes do mundo. Do ponto de vista do crescimento é diferente: ele nunca foi completado, na verdade. A Lei de Responsabilidade Fiscal é outro mérito do governo do Fernando, contra a qual o PT lutou, diga-se.
Quando o Lula entrou, no fundo, aperfeiçoou a política do Fernando Henrique, e mudou a direção. A preocupação do Lula com a construção de uma sociedade socialmente mais justa produziu esse resultado que estamos vendo.
Quando eclodiu a crise de 2008, o senhor elogiou muito o presidente Lula por ter incentivado o crédito e o consumo naquela hora. O senhor exerceu alguma influência sobre Lula naquele momento?
Imagine se alguém precisa soprar alguma coisa para o Lula! O Lula, na verdade, é uma inteligência absolutamente privilegiada. Ele é um diamante bruto – e eu acho ótimo que não tenha sido lapidado, caso contrário ele teria restrições que não tem.
A administração Lula foi de muito boa qualidade, ajudada pelo que já vinha sendo construído, ajudada pelo vento externo favorável. Também acho que a Dilma (Dilma Rousseff, presidente da República) vai se sair muito bem. Ela é uma tecnocrata que leu os mesmos livros que a gente, trabalhadora, e está enfrentando problemas que ninguém ousava enfrentar. Basta ver seu primeiro movimento, que foi a mudança na Caderneta de Poupança, depois o ataque aos juros, o ataque ao custo da energia elétrica, o ataque à questão dos portos. Ela está tentando aumentar a competitividade. Estamos num processo de mudança da estrutura econômica do país.
Mas o nível de investimento não sobe, o “espírito animal” do empresariado não desperta. Por quê?
Eu acho que agora o governo entendeu. Os últimos discursos da Dilma revelam uma mudança radical, demonstram o entendimento claro de que é preciso ampliar o investimento público, de que o governo pode definir o que deseja em matéria de infraestrutura. “Eu quero uma estrada que seja uma Autoban alemã, que dure 25 anos e que atenda ao aumento da demanda” – aí, que se faça um leilão de boa qualidade, em que o governo fixa o que deseja e o mercado fixa a taxa de retorno. Qual era o equívoco? Era que o governo queria fixar a qualidade da obra e a taxa de retorno. Esses pontos estão ligados por uma curva – se você fixa um ponto, a curva lhe dá o outro. Se você fixar os dois, só por divina coincidência eles estarão em cima da mesma curva.
Os investidores estrangeiros – não os da especulação, mas os da produção – estão abandonando o Brasil?
Que nada. Estão aí, entrando à vontade, cobrindo déficits em contas correntes gigantescas. O que aconteceu no exterior é uma coisa muito simples. O Brasil era o queridinho quando a Bolsa brasileira dava 25% por ano. Agora quem são os queridinhos? México, Peru, Colômbia, pois a Bolsa deles está dando 20% por ano, e a brasileira menos 4%.
Esse investimento na Bolsa, a não ser quando se trata de um lançamento de capital, é simplesmente transferência de ativos, não é investimento. O investimento físico, na verdade, está crescendo no Brasil. O que houve foi que o setor industrial murchou. No ano passado, a agricultura também não foi muito bem. A demanda por bens industriais cresceu, mas a oferta não cresceu, basicamente porque se retiraram do setor industrial as condições isonômicas – taxa de juros razoável, tributação razoável e uma taxa de câmbio competitiva.
O câmbio está num patamar correto?
É muito difícil dizer. Melhorou muito. A taxa de câmbio talvez seja o problema mais vexatório para o economista – ninguém sabe exatamente qual é a taxa de câmbio de equilíbrio. O que se sabe é que a melhor política industrial possível é a política horizontal, e essa é feita com uma taxa de câmbio relativamente desvalorizada e relativamente estável.
O Brasil deixou o câmbio se valorizar demais, o que prejudicou muito as exportações brasileiras. Veja o caso da Argentina, um fracasso total. Quer dizer, as exportações diminuíram no mundo inteiro, e o Brasil também sofreu, e isso tem efeito no nível de atividade.
Mas agora houve uma melhoria do setor exportador por causa de duas ações do governo: primeiro, a desoneração da folha de pagamento – quando você desonera a folha de pagamento você baixa o custo da mão de obra; e houve uma melhoria do dólar. Então, você tem um estímulo para retomar as exportações e para poder competir com as importações.
Eu acredito que vamos ter neste ano um crescimento entre 3% e 4%, e acho que já está rodando em 3%, 3,5%. E vamos ter uma inflação de 5,6%, 5,7%. Não temos nenhum problema maior com contas correntes, vamos continuar sendo financiados, temos reservas muito importantes.
O senhor é sempre mencionado como conselheiro informal da presidente Dilma, além de tê-lo sido do presidente Lula…
Você acredita na imprensa?
O ministro da Fazenda não lhe telefona de vez em quando?
De vez em quando, por acidente, você pode conversar com o ministro, mas não existe nada disso. Nem sei como nasceu isso.
Seus artigos, às vezes, parecem influenciar o governo.
Seria muita pretensão minha imaginar que meus artigos tenham esse efeito. Eu apoiei o Lula, apoio o governo da Dilma porque eu acho que estamos num processo de construção de uma sociedade mais justa. O objetivo não é só o crescimento, o objetivo é o crescimento com inclusão, o objetivo é o crescimento em que as oportunidades surjam para todos.
Não importa se você foi fabricado na suíte presidencial do Waldorf Astoria ou num sábado à noite, meio bêbado, em frente ao Museu do Ipiranga debaixo de um poste. Depois de fabricado, não importa sua cor, seu credo, você tem direitos. Esse conceito é que está imbuído tanto na postura do Lula quanto na postura da Dilma.
No tempo do “Milagre Econômico”, quando o senhor foi ministro da Fazenda, o PIB brasileiro cresceu muito, mas as desigualdades sociais se aprofundaram, ao contrário de hoje. Ou não?
Isso é uma tolice. Naquela época, se crescia 11% ao ano com inflação declinante. Imagine-se uma coluna daqueles que tiveram o benefício de ter curso superior. E outra coluna composta pelo que chamamos de exército de reserva, e que, à medida que há demanda, vai entrando na primeira coluna. Quando ocorre desenvolvimento, a demanda de pessoal qualificado cresce muito mais depressa, mas havia o exército de reserva desempregado. Nós criamos 15 milhões de empregos naquela época.
A distribuição de renda não mede bem-estar, a distribuição de renda mede a distância entre as pessoas. O bem-estar vem se você diminuir a distância entre as pessoas. Por que o bem-estar está aumentando agora? Por dois motivos. Primeiro, porque você tem uma preocupação enorme com os 10% mais pobres e está aumentando a oferta aos 10% mais ricos. Isso reduz a distância entre eles
O Brasil é um país construído por imigrantes. Hoje, nós deveríamos estar abrindo a imigração, deveríamos trazer pedreiros, engenheiros, químicos, físicos, matemáticos, médicos que estão desempregados na Europa para acomodar esse mercado de trabalho que está muito tenso, muito estreito.
A grande revolução brasileira foi a revolução das mulheres. Quando eu era ministro, na Idade Média (risos), cada mulher deixava seis filhos. Hoje, elas não deixam dois. Elas se educaram mais que os homens, elas aprenderam, cresceram. A moça que era empregada doméstica tornou-se manicure. A manicure foi para o call-center. A moça do call-center foi para uma loja de departamentos. A mulher brasileira usava sabão de coco, hoje usa Dove. Esse é um processo civilizatório que aconteceu e que não pode ser influenciado apenas com taxa de juros.
Essa fixação no aspecto monetário, na taxa de juros, por exemplo, não é mais da parte da imprensa?
É dos economistas. Na verdade, os economistas contribuíram fortemente para a crise de 2008. Eles vieram atrás dos fatos. O setor financeiro inventou fórmulas que supostamente reduziriam o risco. Isso, supostamente, permitiu uma alavancagem muito maior. Como eles conseguiram isso? Destruindo as condições de controle do sistema financeiro que haviam sido construídas nos anos 30, à época do Roosevelt (Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos). Inventaram a teoria de que os mercados eram perfeitos.
Com Milton Friedman, da Escola de Chicago, à frente, correto?
O Friedman era um pedaço disso, mas teve influência no mundo todo – na Tatcher (Margareth Tatcher, primeira-ministra britânica), por exemplo. Mas aquilo – a pregação do mercado infalível – veio para justificar a patifaria do incesto entre o sistema financeiro e o poder incumbente. Começou tudo lá com o Reagan (Ronald Regan, presidente dos Estados Unidos) e veio destruindo aqueles controles todos até chegar à crise de 2008. A crise de 2008 reproduz a crise de 1929. Não teve a mesma profundidade porque agiu-se diferente.
Se você ler o Relatório Pécora, sobre a crise de 1929, verá que o sistema financeiro de então cometeu os mesmos crimes e abusos de agora.
A crise de 2008 fez renascer o keynesianismo?
Keynes (John Maynard Keynes, economista britânico) nunca morreu. O problema é que uma parte dos economistas foi cooptada para dar suporte supostamente científico a uma patifaria produzida por um incesto entre o setor financeiro e o poder incumbente.
E o Brasil nessa história?
O Brasil é um país fantástico. O Brasil está num processo de revolução e as pessoas ainda não entenderam isso. O Brasil é o único país do mundo em que há 12 ou 15 índices de preço, publicados toda semana. É o único país do mundo em que o Banco Central publica previsões do sistema financeiro e as chancela com seu carimbo toda semana. Nós gostamos do samba – tanto é verdade que o sistema mais sofisticado utilizado pelo Banco Central se chama Samba (sigla para o termo inglês Stochastic Analytical Model with a Bayesian Approach), o que demonstra que o Banco Central é muito mais sutil do que parece (risos).
Já que o senhor mencionou o Banco Central, como vem sendo a performance da sua diretoria, particularmente do presidente Alexandre Tombini?
Eu acho o Tombini um sujeito extremamente competente. Ninguém manda no Tombini. Ele sabe que é autônomo – o Copom (Conselho de Política Monetária, órgão do Banco Central) sabe que pode decidir o que quiser, que pode subir os juros amanhã se for necessário. É ilusão imaginar que o Guido (Guido Mantega, ministro da Fazenda) e a presidente estão contra isso.
E o Banco Central hoje tem um departamento de economia que seguramente é melhor que qualquer departamento de economia das melhores faculdades, das melhores academias do Brasil.
O senhor ainda é muito cobrado ou atacado por ter participado do regime militar? Como o senhor lida com isso?
Os militares não se ligavam com a execução da política econômica. O governo se reunia toda manhã e discutia o que estava sendo feito, mas não havia interferência militar na política econômica.
Na sua longa jornada como professor, economista, ministro e político, como viu a atuação da OAB nos momentos históricos do Brasil?
A OAB tem uma importância muito grande no Brasil. Aliás, eu brincava com o Cabral (Bernardo Cabral, ex-presidente do Conselho Federal da OAB e ex-ministro da Justiça, governo Fernando Collor de Melo) que, quando verteram para o alemão a Constituição de 88, acharam que a OAB era o Supremo Tribunal Federal, de tantas vezes que ela está citada na Carta. Trata-se de uma instituição muito útil.