Enquanto Lula engaja o mundo no combate à fome, vale lembrar alguns feitos diplomáticos de Bolsonaro

Por Paulo Henrique Arantes

Lula e a diplomacia brasileira merecem aplausos efusivos pelo desempenho no G20 / Rio. Conceber e engajar 82 países numa Aliança Global contra a Fome não é pouca coisa, e coloca definitivamente o presidente brasileiro no rol das lideranças globais – um verdadeiro influencer do mundo real, exterior à dissimulação das redes sociais.

Nunca houve termos de comparação entre Lula e Jair Bolsonaro, diferentemente do que pretendem nos fazer crer os apregoadores de uma tal “polarização”. Não há parâmetros, posto que o segundo sempre esteve fora do espectro democrático.

De fato, é bastante tedioso compará-los. Só que o colunista fraquejou diante da oportunidade de rememorar algumas pérolas do capitão quando nos envergonhava como chefe de Estado, no exato momento em que Lula consegue um raro consenso global.

Ria ou chore, raro leitor, rara leitora. Os fatos a seguir remetem a 2019, primeiro ano de Jair Bolsonaro como Presidente do Brasil (aguarde novas listas de aberrações).

– No Fórum de Davos, na Suíça, Bolsonaro fez um ridículo discurso de oito minutos (seu tempo era de até 45 minutos) em que disparou máximas religioso-reacionárias como “Deus acima de tudo” e mantras extremistas locais como “Não queremos uma América bolivariana”;

– Em abril, a lado de Benjamin Netanyahu, visitou o Muro das Lamentações em Jerusalém Oriental, território considerado em disputa pela comunidade internacional, chocando-se com a posição da ONU e ofendendo os palestinos;

– Tentou emplacar – sem sucesso, para a felicidade geral – o filho Eduardo como embaixador nos Estados Unidos. O 03 não pertence ao Itamarati, não é graduado em Relações Internacionais e nunca exerceu cargos ou funções na área;

– Em setembro, na 74ª Assembleia das Nações Unidas, atacou a Europa por “promover falácias” sobre o meio ambiente no Brasil, entre outras grosserias. O jornal britânico The Guardian referiu-se à fala o mandatário brasileiro como uma “defesa insana e conspiratória”; o francês Le Monde escreveu que Bolsonaro demonstrou “intolerância”.

– Em 23 de agosto, ofendeu a primeira-dama francesa, fazendo referência ao fato de Brigitte Macron ser 24 anos mais velha que o marido, o presidente François Macron. O ministro da Fazenda, Paulo Guedes, fez coro ao presidente no estúpido comportamento;

– Esqueceu dos nossos laços históricos, das relações comerciais, diplomáticas e de boa vizinhança com a Argentina e não cumprimentou o então presidente-eleito Alberto Fernández.

– Sob Bolsonaro, o Brasil votou contra, em novembro de 2019, uma resolução da ONU pelo fim do embargo americano a Cuba (houve 187 votos favoráveis ao fim do embargo; ficamos com Estados Unidos e Israel);

– Entusiasmado bajulador do presidente Donald Trump, Bolsonaro fez com que o Brasil liberasse de visto de entrada no país aos turistas americanos, A contrapartida do Tio Sam? Nenhuma.

O colunista agradece a Carta Capital pelo refresco de memória.

Inércia de Gonet fere a lei processual penal e favorece atos de ódio, afirma Roberto Tardelli

José Cruz / Agência Brasil – Fotos Públicas

Por Paulo Henrique Arantes

A quem serve o procurador-geral da República, Paulo Gonet, quando senta em cima dos inquéritos contra Jair Bolsonaro? Não serve à democracia, tampouco à justiça, pois justiça tardia resvala na ausência de justiça. Favorece, isto sim, atos como aquele visto na Praça dos Três Poderes em 13 de novembro: ódio, bomba, morte.

Noticiário Comentado conversou com o advogado e ex-procurador de Justiça Roberto Tardelli a respeito da inércia do PGR, de quem se espera conduta diferente das do seu pusilânime antecessor, Augusto Aras, um engavetador.

“Se o procurador-geral não age, cria-se um vácuo sem possibilidade de preenchimento, e a crise se instala. É quando se diz que a instituições não funcionam e as soluções ficam o arbítrio e à aventura de grupos políticos descompromissados com qualquer possibilidade democrática”, afirmou-nos Tardelli.

É nesse vácuo que surgem os “lobos solitários”, talvez não tão solitários assim. “Os discursos de ódio ganham força institucional”, frisa o advogado.

Apurou-se que Gonet aguardaria as eleições municipais para denunciar o ex-presidente por articular ação para que fosse descumprido o resultado eleitoral, por falsificar cartão de vacinação e por apossar-se, com intenção de venda, de patrimônio da Presidência da República (joias). Nunca houve justificativa razoável para tal procrastinação.

“O PGR, sem que houvesse qualquer permissão na lei, criou uma espera arbitrária – o período eleitoral. Criou por razões dele, não deveria tê-lo feito, mesmo porque agiu contra a lei processual penal, que não prevê essa demora”, avalia Roberto Tardelli. E prossegue: “As eleições se passaram e desconhecemos, até este momento, qual providência tomou o procurador-geral da República dentre as que deveria tomar – denunciar, determinar novas diligências ou até arquivar. Tudo o que não poderia ter feito era retardar o que somente ele poderia fazer”.

O PGR, lembra Tardelli, não pode se furtar do protagonismo que a Constituição lhe confere – ele é a única autoridade com capacidade postulatória perante o Supremo Tribunal Federal. “Ele é o único arqueiro, e somente ele pode disparar sua flecha, ninguém mais”.

A ordem é cortar direitos sociais e reabilitar Bolsonaro

Reprodução X

Por Paulo Henrique Arantes

Duas frentes na batalha da direita saltam aos olhos neste momento. Uma é antiga, contínua e historicamente vitoriosa. Outra, acaba de ser deflagrada e visa a reverter uma derrota. A primeira consiste em incutir de modo cada vez mais profundo na opinião pública a certeza de que nada é mais importante do que o governo cortar gastos. Esse empenho dos rentistas cumpre os mantras neoliberais que dominaram o Ocidente ao longo de décadas, os quais estão em desuso nos países mais avançados, cientes das desgraças sociais decorrentes do modelo.

O orçamento não deve servir prioritariamente aos detentores da dívida pública, mas ao bem-estar da população, concluíram os lúcidos. Por aqui, tecnocratas, economistas e rentistas, com avassalador apoio da imprensa, vendem ao público a máxima de que nada se revolverá no país se não for promovido um arrocho fiscal. Defendem um banho de água fria numa economia que se aquece, em que o desemprego cai ao menor patamar histórico. O alerta é sobre uma possível explosão inflacionária.

Tristemente, até o governo parece ter comprado esse peixe estragado. A justificativa extraoficial para tanta dedicação do Executivo ao pacote de cortes vindouro é que, sem ele, adeus governabilidade. Resta provado que, no Brasil, ninguém, nenhuma pessoa, nenhuma instituição, detém mais poder que “o mercado”. A conferir a habilidade de Lula e Haddad para preservar direitos sociais e, ao mesmo tempo, mimar esse ente chantagista.

A segunda frente da batalha direitista é a ressuscitação de Jair Bolsonaro. Para tanto, os reacionários, os golpistas, os negacionistas, os milicianos contam com um número significativo de parlamentares e, especialmente, com a mídia tradicional. De forma inacreditável, a Folha de S. Paulo publicou num espaço de três dias uma entrevista e um artigo do ex-presidente. O capitão pôde expor livremente suas canhestras noções de democracia.

Na quinta-feira (13) foi a vez de o portal Metrópoles trazer pingue-pongue com o dito cujo. O golpista teve oportunidade de falar sobre sua candidatura em 2026 (o jornalista pelo menos lembrou-lhe de que está inelegível). Emissoras de TV também têm fornecido microfone ao morto-vivo.

É nítida a tentativa de normalizar a atuação política de um ex-presidente condenado à inelegibilidade pelo Tribunal Superior Eleitoral e em vias de sê-lo pelo Supremo Tribunal Federal por articulação de golpe de Estado, falsificação de documento (cartão de vacinação) e posse, com tentativa de venda, de joias que deveriam ser incorporadas ao acervo da Presidência da República.

Como explicar a simpatia de veículos de imprensa por um ex-governante de notória proximidade com milicianos, admirador de torturadores e ditadores? Como entender o apreço de parte da mídia por uma pessoa que responde diretamente por milhares de mortes durante a pandemia, estimulador que foi de aglomerações e do descarte de máscaras de proteção? Como aceitar que ocupe as páginas de um jornal, de forma acrítica, um político inelegível que, quando no poder, tornou o Brasil pária global? Como ignorar as reiteradas agressões verbais a mulheres e minorias em geral, e também à classe jornalística, quando no exercício do mandato?

De todo modo, a ordem está posta: obedecer a “o mercado” e ressuscitar Jair Bolsonaro.  Lula terá de ser muito mais articulado e criativo para que não vivenciemos o advento Bolsonarismo parte II, a exemplo da tragédia Trump II.

O bico policial e o assassinato de Gritzbach

Por Paulo Henrique Arantes

Quatro dos seguranças que faziam a escolta de Antônio Vinícius Gritzbach, delator do PCC assinado no Aeroporto de Guarulhos na sexta-feira (8), eram policiais militares que na oportunidade faziam bico. A imprensa explica hoje (11) que esse tipo de trabalho é vedado aos PMs, apesar de usual.

Em setembro, publicamos aqui artigo intitulado “O conveniente bico policial”, o qual explicava por que essa prática, corriqueira entre policiais, era contraproducente para a segurança pública. Rememoremos.

A pesquisa “Vitimização e Percepção sobre Violência e Segurança Pública”, obra do sempre importante Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgada em 3 de setembro, trouxe alguns aspectos que mereceriam pautas especiais da imprensa. Os colegas jornalistas não deram muita bola para o que a sondagem constatou sobre o famigerado bico policial, atividade justificada pela necessidade de aumento da renda desse profissional, porém ilegal.

A questão foi analisada com propriedade pelo professor da Universidade Estadual de Londrina Cléber Lopes, coordenador do Legs (Laboratório de Estudos sobre Governança da Segurança), na newsletter Fonte Segura, distribuída pelo FBSP.

A participação de agentes públicos é proibida tanto na prestação direta de serviços de proteção quanto na gestão de empresas privadas de segurança. A pesquisa apurou que há cerca de 30 milhões de brasileiros – 18% dos entrevistados – com mais de 16 anos residindo em bairros onde policiais realizam serviço de segurança de modo privado. Trata-se de um trabalho velado, por fora da lei.

Assim escreveu o professor: “Os policiais são um ativo valorizado por muitos no mercado de proteção. Podem ser empregados informalmente para prestar serviços de segurança em seu horário de folga sem grandes riscos trabalhistas, afinal, a ilegalidade do bico inibe a busca por direitos trabalhistas. Além disso, os policiais podem oferecer recursos que não estão disponíveis às suas contrapartes privadas (os vigilantes) da mesma forma: o porte de arma (mesmo fora de serviço), o treinamento investido neles, o contato privilegiado com outros policiais e o poder legal para impor a lei. Em conjunto, esses recursos também contribuem para dotar os policiais de poder simbólico, ou seja, a capacidade de serem vistos como portadores de soluções ‘mágicas’ para problemas de segurança”.

Os policiais que fazem bico como segurança particular portam uma autorização tácita das instituições públicas a que pertencem – mais fácil fazer vista grossa à ilegalidade do que aumentar o salário do policial.

Cléber Lopes afirma que o bico policial compromete a qualidade da segurança pública. Cria conflitos de interesse, aumenta o estresse e o risco de vitimização do profissional: “No bico, os policiais costumam trabalhar sem a retaguarda de outros policiais, sem uniforme e equipamento de proteção adequado, tornando-se assim mais vulneráveis a confrontos letais com criminosos. Esse é um dos motivos pelos quais os policiais brasileiros são mais vítimas de violência letal intencional fora de serviço do que no serviço”.

Em 2023, 60% dos policiais civis e 57% dos policiais militares assassinados o foram em horário de folga, segundo o Anuário de Segurança Pública 2024.

Como esclareceu o professor, a atuação de policiais na segurança privada, pela característica do sua função pública, viola os preceitos que deveriam nortear o trabalho particular de segurança – este, uma atividade essencialmente preventiva, sem poder coercitivo para imposição da lei. Um segurança privado não busca prender criminosos em nome da lei, mas gerencia riscos. “Ocorre que a penetração de policiais no universo da segurança privada pode fazer com que esse estilo de policiamento característico da segurança privada ceda espaço a um policiamento mais repressivo”, observa Lopes.

O tema abriga um nó de desatamento complicado. Parte da sociedade – a mais endinheirada – quer segurança privada e paga por ela; essa atividade supre parte da dificuldade financeira do policial, que ganha mal; a manutenção dessa situação é conveniente para as autoridades públicas de segurança.

Trump e a distopia patrocinada por Elon Musk

Jim Watson / AFP

Por Paulo Henrique Arantes

Todos os cientistas e analistas políticos, economistas e palpiteiros já escreveram sobre a segunda eleição de Donald Trump. Todas as projeções sobre os prováveis efeitos da catástrofe eleitoral para o mundo – especialmente para o meio ambiente – e os impactos sobre a economia brasileira já foram feitas, sendo boa parte delas pertinente, algumas bastante ingênuas, outras tantas mal-intencionadas. Quanto ao seu potencial de reverter perante o Judiciário brasileiro a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, as análises patéticas predominaram.

A Folha de S. Paulo chegou ao cúmulo de uma entrevista com o capitão débil e golpista, na qual ele externou mais uma vez sua crença na “vira-latice” do Brasil e chegou a apontar o nome do seu candidato a vice-presidente em 2026, o escorregadio Michel Temer (o vampirão, logo em seguida, descartou a hipótese), a quem também incumbiu de providenciar junto ao STF alguma maneira de recuperar seu passaporte para que compareça ao regabofe de Trump.

Tudo que envolve a eleição de um negacionista climático, mentiroso, supervaidoso, misógino, racista, xenófobo e criminoso à Presidência dos Estados Unidos reveste-se de relevância global. Porém, nada é mais grave do que sua proximidade com Elon Musk.

Musk encarna a figura do empresário megalômano que quer dominar o mundo, subjugando os povos à sua corporação, como nas histórias de James Bond, pretensamente patrocinando até a vida humana extraterrestre. Essa figura poderosa e delirante está perfeitamente retratada no filme “Não Olhe para Cima”, de 2021, dirigido por Adam McKay, do qual muito se falou na época do lançamento.  É fácil enxergar o dono da SpaceX no CEO da startup que convence a presidente americana de que a destruição parcial da Terra, a ser abalroada por um cometa, pode ser lucrativa. Como a destruição, na hora H, mostra-se total, leva-a junto com um pequeno grupo para saborear as delícias da fortuna em outro planeta.

Vale rememorar o que dissemos de “Não Olhe para Cima” tempos atrás. O filme é um deboche sobre os negacionismos que infestam o mundo, como o de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Deve muito do seu sucesso ao carisma dos atores e das atrizes escolhidos – Leonardo Di Caprio, Jennifer Lawrence, Meryl Streep, Cate Blanchet, Jonah Hill.

Tão oportuno quanto a crítica ao negacionismo, à política exclusivamente eleiçoeira e ao domínio sobre a vida na Terra exercido pelas gigantes de tecnologia é o ataque de McKay  à mídia, que se revela um antro de debiloides, incapazes de mensurar a gravidade da situação: o iminente fim do mundo.

O cinema engajado merece aplausos, especialmente quando retrata distopias possíveis. Ocorre que, com a eleição de Donald Trump e sua ligação umbilical com Elon Musk, o mundo está diante de uma tragédia mais que possível – uma tragédia provável.

Caiado defendeu confisco de vacinas na pandemia

Secom / Fotos Publicas

Por Paulo Henrique Arantes

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, é nosso velho conhecido. Nada apaga da memória o candidato a presidente que foi em 1989, quando personificava os propósitos da UDR, União de Democrática Ruralista, que nada tinha de democrática, dedicando-se diuturnamente a criminalizar o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, e a impedir qualquer avanço da reforma agrária.

Hoje, governador, despreza a iniciativa do Governo Federal de unir esforços com os Estados para aprimoramento da segurança pública, num momento em que o crime organizado ganha tentáculos empresariais e políticos. A segurança vai muito bem em Goiás, afirma. Um pacto nacional nessa área, portanto, pouco lhe interessa.

Caiado poderia compartilhar a receita goiana anticrime com as demais unidades da Federação, mas prefere as bravatas. Não é um conservador civilizado, como tenta parecer, mas um oportunista de direita.

No ápice da pandemia, o governador e médico (!) Ronaldo Caiado alinhou-se com o general que atravancava o Ministério da Saúde, Eduardo Pazuello, na busca de um fato ou factoide que referendasse a argumentação fajuta de que todos os Estados deveriam ter isonomia na vacinação contra a Covid-19.

Cogitava-se, então, que o governo baixasse uma Medida Provisória determinando o confisco de toda e qualquer vacina disponível em solo brasileiro, em nome de uma suposta imunização territorialmente igualitária – algo que obviamente seria derrubado pelo Judiciário.  A intenção era subtrair do então governador paulista, João Doria, a condição de deflagrador da vacinação no país, com a Coronavac.

Caiado lançou a ideia na mídia. Dias depois, o Governo Federal negou a intenção.

Numa guerra pandêmica, cabe aos governadores, diante da inação federal, usar as armas de que dispõem para preservar a vida de suas respectivas populações, por isso Doria agiu bem. Caiado não honrou essa prerrogativa, ou pior, atuou contra ela.

De todo modo, a ideia que golpeava a ciência e a vida nascera morta. Não por vontade do governador de Goiás, que quer ser presidente do Brasil.

Esquerda precisa de um novo marketing

Por Paulo Henrique Arantes

Christopher Wylie é o nome do jovem que denunciou ao mundo o que faziam no escurinho Cambridge Analytica e Facebook, que resultou no escândalo envolvendo as duas companhias em 2018. Wylie era funcionário da SCL, grupo controlador da Cambridge, e a justificativa para rebelar-se foi uma profunda indignação ética. Eis um breve apanhado de suas declarações: “O Facebook tem tanto poder, que está fazendo um clone digital da nossa sociedade. (…) O que é que vai acontecer quando os sistemas de inteligência artificial começarem a se comunicar entre si? Isto é uma história de colonialismo. (…) Os nossos governos não estão preparados para lidar com isso”. 

Hoje sabe-se que a Cambridge não “roubou” dados de ninguém, as informações estavam lá para quem soubesse utilizá-las – e a companhia britânica sabia, foi o que Wylie tentou explicar. Na prática, a Cambridge Analytica praticava algo denominado “narrativa cultural”.

Quando se leem dados, a priori, não se sabe o que fazer com eles. O que fazer, em termos de marketing, quando se têm em mãos os dados dos torcedores do Corinthians e do São Paulo, para ficarmos em dois exemplos populares?

Os torcedores do Corinthians constituem um arquétipo social diferente daquele dos torcedores do São Paulo – isso é visível, portanto corintianos não podem ser submetidos à mesma forma de abordagem que são-paulinos, não se sensibilizam com os mesmos temas e apelos. Na mesma linha, a Cambridge descobriu que os seguidores de Madona são muito distintos dos seguidores de Lady Gaga, possuem preferências e atitudes diferentes.

Fala-se muito – ao meu ver de modo superficial e cheio de “chutes” – da necessidade de os partidos de esquerda se “reinventarem”. Na verdade, os poucos avanços sociais no Brasil são fruto de ideais da esquerda. Talvez a esfera progressista precise apenas de um impulso tecnológico no marketing que exerce.

A partir dos bancos de dados, hoje, chega-se a interpretações das narrativas culturais de grupos específicos e, então, “conversa-se” com eles. Christopher Wylie ficou assustado com isso. Note-se o potencial de direcionamento específico dos discursos: de posse do banco de dados do Poupatempo, pode-se desenvolver uma narrativa cultural. Com o do Itaú, outra. 

O principal dilema atual do marketing político é justamente a interpretação de dados (os legalmente disponíveis, claro está), para o que ainda não existe consenso científico. Uma novidade chamada microtargeting, criada pelo grande publicitário e figura humana André Torreta, que morreu de Covid, falava de algo semelhante à narrativa cultural, mas com uma diferença seminal: o microtargeting restringe-se a delimitações geográficas, já a narrativa cultural abraça quaisquer aspectos de grupos específicos, sejam eles econômicos, sociais ou comportamentais. 

A complexidade da narrativa cultural reside em tecer uma teia e montar uma radiografia do imaginário de um grupo de pessoas em determinado momento. As campanhas eleitorais no Brasil, em regra, passam longe isso. Ninguém está fazendo nada de novo por aqui. O candidato está empenhado em disparar mensagens de Whatsapp, algo extremamente primário.

Jair não lidera coisa nenhuma

Paulo Henrique Arantes

As eleições municipais mostraram que Jair Bolsonaro não é um bom cabo eleitoral. Candidatos por ele abertamente apoiados nos segundo turno perderam. Aliados que apoiou veladamente já largam para 2026 descompromissados com o capitão que, ademais, deverá sofrer condenações até o fim do ano pelos crimes que cometeu – posse e venda de joias que deveriam ter sido incorporadas ao patrimônio público, falsificação de atestado de vacinação, trama de golpe de Estado -, cujos inquéritos terão seguimento pela Procuradoria Geral da República a partir de agora.

Escrevemos em julho de 2023 que Bolsonaro não lideraria coisa nenhuma no futuro político do Brasil. O quadro resultante das eleições municipais mostra que estávamos certos. Vamos repisar algumas das considerações feitas em meados do ano passado, quando parte da imprensa apontava o ex-presidente como provável líder da oposição.

Jair Bolsonaro, inelegível, não porta o condão de moldar as performances opositoras em desconstrução ao governo Lula. Para tanto, precisaria de uma vocação gregária que nunca possuiu. Como presidente, e antes como deputado, foi um desagregador, afastando aliados dia sim, outro também, levando correligionários a não apenas abandonar seu barco, mas a sair atirando contra ele, por traidor. Só a caneta presidencial sustentou asseclas em torno de seus delírios. 

O acidente histórico que alçou Jair Bolsonaro ao Planalto foi confundido pela mídia com traquejo político do dito cujo. Liderar blocos de oposição sem possuir mandato exige capacidade negociadora, requer habilidade de negociação, diálogo e, mais que tudo, carisma. O suposto carisma de Bolsonaro, mito para meia dúzia de fascistoides, é às avessas: sua deficiência cognitiva e sua precariedade comunicativa influenciam, na verdade, pouca gente além dos espíritos milicianos. Em regra, afasta. 

O “capital político” de Bolsonaro virou poeira ao vento, se é que algum dia existiu.

Bom domingo, velha São Paulo

São Paulo SP 06 12 2020- Domingo na praça da Sé. Fotos Públicas.

Por Paulo Henrique Arantes

No domingo, 27 de novembro, Ricardo Nunes deverá ser apontado pela maioria dos eleitores paulistanos para continuar à frente da Prefeitura de São Paulo, se as pesquisas se confirmarem. Guilherme Boulos é um digno representante da esquerda, inteligente, bom orador, ousado. Possui honestidade de princípios, mas a máquina pública municipal é fortíssima, assim como é fortíssima a onda reacionária que se elevou com Jair Bolsonaro e ainda não retrocedeu, a despeito do ocaso político do capitão.

Salvo advento inusitado de última hora, São Paulo não dará ao Brasil no domingo a surpresa que deu em 1988, quando Luiza Erundina, então quadro do PT, mandou Paulo Maluf (PDS), José Serra (PSDB), João Leiva (PMDB) e João Melão (PL) para casa, surpreendendo a quase todos. Recordemos: aquele fora o ano da promulgação da Constituição Cidadã, as feridas da ditadura não estavam cicatrizadas (de certa forma, ainda não estão), a primeira eleição presidencial depois de 25 anos de escuridão só aconteceria no ano seguinte.

A vitória de Erundina foi um marco histórico, numa época em que o preconceito contra mulheres e nordestinos era um tanto mais saliente do que é hoje. São Paulo elegeu uma mulher nordestina de esquerda contra um candidato favorito que simbolizava o conservadorismo paulistano. Paulo Maluf, “Doutor Paulo” para os aduladores de plantão, carregava a imagem de “realizador”, “tocador de obras”, que até hoje seduz os incautos, além da justíssima pecha de corrupto.

São Paulo elegeu Luiza Erundina, Marta Suplicy e Fernando Haddad, mas nunca deixou de ser conservadora. Sente uma estranha “segurança” na figura insossa de Ricardo Nunes, numa nítida demonstração de que tem medo de mudar, ainda que o presente seja o de uma cidade em que não se consegue chegar em casa quando chove e onde se acostuma com a falta de energia elétrica. Às vezes, parece ecoar as praguejadas de Jânio Quadros.

Por medo e teimosia, São Paulo continuará a ser a cidade do cidadão que conversou com este jornalista anos atrás e descreveu sua caminhada habitual por áreas centrais da cidade. O momento atual merece a rememoração. Ele era morador dos Campos Elísios, ali pela esquina Eduardo Prado – Barão de Limeira. Nosso cidadão ia a pé até a Praça da Sé. Uma boa caminhada de meia hora. Ao colocar a cara na rua, o sujeito sempre deparava com corre-corres na subida em direção à Praça Marechal Deodoro – eram egressos da ex-Cracolândia da Praça Princesa Isabel, saídos em debandada após um “espalha” da Guarda Metropolitana.

Na outrora bucólica Praça Marechal, aproveitando a proteção contra chuvas dada pelo Elevado João Goulart, pessoas acomodavam-se colchões furados, fogões quebrados, cobertores rasgados. Elas estavam se mudando para o local. Como estavam em frente a uma estação do metrô, provavelmente seriam enxotadas dali.

Andando pela sombria Avenida São João, o sujeito cruzava a Rua Helvétia e via bares, pequenos armazéns, chaveiros e salões de cabelereiros com as portas cerradas, enquanto gente – como diz a polícia – de comportamento suspeito ia se instalando por ali mesmo. Eram migrantes da ex-Cracolândia da Princesa Isabel em busca de um novo gueto. Nosso amigo não conseguia comprar cigarros.

O andarilho dobrava para o descaracterizado Largo do Arouche, onde um restaurante especializado em massas, de passado glorioso, adquirira uma fachada horrorosa e passara a servir uma lasanha com overdose de sal. Já na Praça da República, um pouco à frente, ele recebia convites para programas sexuais. Recusava-os. Cruzava a Ipiranga, onde a imponência do Edifício Itália marca o começo da arborizada Avenida São Luís, um curto hiato livre do aspecto degradado do centro da cidade, cujos edifícios de apartamentos gigantescos erguidos na metade do século passado parecem preservados.

Dali a poucos metros, quando ele dobrava à esquerda na Xavier de Toledo em direção ao Teatro Municipal, o cenário depreciava-se novamente. Eram filas duplas de ônibus na via esburacada, semáforos quebrados e muitos adolescentes de olhar vidrado pedindo qualquer coisa insistentemente, em abordagens do tipo quase-assalto. A escadaria do Municipal era um misto de dormitório e banheiro, e o odor de urina já empurraria obrigatoriamente o andarilho para a direita, a cruzar o Viaduto do Chá, ao cabo do qual se situa a sede da Prefeitura, no Edifício Matarazzo, cuja arquitetura de inspiração fascista hoje abriga Ricardo Nunes.

Dali à Praça da Sé era só cruzar o Largo São Francisco e sua fedentina, escapar de uma tentativa de assalto e estacionar os olhos por um minuto na Faculdade de Direito da USP, que parecia – e ainda parece – exalar certo ar democrático. Reto pela Benjamin Constant, o nosso amigo que partira dos Campos Elísios chegava ao seu destino. 

A Praça da Sé ainda retrata a São Paulo legada por João Doria, Bruno Covas e Ricardo Nunes, apesar de uma “limpeza” de aspecto higienista feita ali, onde residia uma populosa comunidade em barracas ou a descoberto, famílias inteiras com panelas e fogareiros, bêbados desacordados, usuários de maconha e crack, trabalhadores desempregos e assaltantes. A Catedral lhes fez vista grossa.

Se no domingo, 27 de novembro, os paulistanos escolherem a continuidade, estarão manifestando seu apreço por esse cenário.  

The Economist descobre que as maravilhas do capitalismo liberal estão no fim

Por Paulo Henrique Arantes

The Economist publicou artigo alarmado e alarmante sobre o “desmoronamento do liberalismo”. Disse a revista que o colapso pode ser “repentino e irreversível”. A bíblia do liberalismo econômico está preocupada com o fim de um modelo que, no seu entender, levou o mundo a um histórico ciclo de prosperidade.

No mundo real, a queda dos dogmas liberais antevista por The Economist pode significar o avanço da humanidade em direção a uma realidade menos cruel.

A revista atribui o risco de colapso do liberalismo às seguintes situações possíveis: o retorno de Donald Trump à Casa Branca, com sua volúpia de destruição institucional; uma segunda onda de importações chinesas baratas; uma guerra aberta entre Estados Unidos e China por causa de Taiwan; uma guerra entre o Ocidente e Rússia. A revista não explica quem é “o Ocidente”, mas supõe-se que sejam os Estados Unidos e seus aliados incondicionais.

The Economist esqueceu a maravilha que a ordem econômica liberal – neta de Hayek, filha de Friedman e afilhada de Reagan e Thatcher – causou à economia mundial em 2008, sua apoteose. E enalteceu o falso êxito do modelo no seguinte parágrafo, pérola de cinismo:

“Está na moda criticar a globalização desenfreada como a causa da desigualdade, da crise financeira global e da negligência em relação ao clima. Mas as conquistas das décadas de 1990 e 2000 – o ponto alto do capitalismo liberal – são incomparáveis na História. Centenas de milhões escaparam da pobreza na China à medida que esta se integrava na economia global. A taxa de mortalidade infantil em todo o mundo é menos da metade do que era em 1990. A porcentagem da população global morta por conflitos travados entre estados atingiu o mínimo do pós-guerra de 0,0002% em 2005; em 1972, era quase 40 vezes maior. Pesquisas mais recentes mostram que a era do ‘Consenso de Washington’, que os líderes de hoje esperam substituir, foi aquela em que os países pobres começaram a desfrutar de um crescimento, de recuperação, diminuindo o abismo em relação ao mundo rico.”

Já se cansou de demonstrar que o capitalismo liberal, com sua ignóbil defesa da austeridade em detrimento de gastos sociais – sempre pelo carreamento dos recursos do Estado para os detentores das dívidas públicas –, aprofunda a desigualdade, nunca a diminui. Se houve uma redução da distância entre países ricos e pobres, foi por filigranas estatísticas; dentro dos países, a desigualdade aumentou, a renda se concentrou. Especialmente nos Estados Unidos, é notório o empobrecimento da classe média desde que o estado de bem-estar social, iniciado no Pós-Guerra, foi substituído pelo capitalismo da Escola de Chicago. A miséria e a fome grassam nos países ditos periféricos, que The Economist enxerga como beneficiados pela ordem econômica ora agonizante.

O capitalismo enaltecido por The Economist é um fiasco socioeconômico, é causador de tragédias humanitárias por concentrar riqueza em nível escandaloso. Dois terços de todas as novas riquezas produzidas no mundo ficam nas mãos de 1% da população, segundo relatório da Oxfan divulgado às vésperas do Fórum Econômico Mundial de 2023. Os repórteres da revista britânica estavam lá?

Já o trecho sobre a população global morta por conflitos entre estados é de arrepiar pelo descolamento da realidade. The Economist, sempre recorrendo à matemática, compara percentuais de 1972, época da Guerra do Vietnã, e 2005. Esquece-se de que hoje os palestinos estão sendo dizimados, numa contenda em que um país, sob a vista grossa e até a ajuda bélica dos Estados Unidos, mata populações civis sem a menor cerimônia. Certamente, trata-se de mais uma consequência espetacular do capitalismo liberal apregoado pela revista britânica. Um capitalismo cego, desumano.