A polarização Lula-Bolsonaro nunca existiu

Por Paulo Henrique Arantes

A retórica da polarização é falsa, construída para que se viabilize a candidatura de algum nome da direita limpinha, que não seja tosco como Jair Bolsonaro. Alguém que seja uma mistura de Henrique Meirelles, Paulo Guedes e Roberto Campos Neto na economia. Nos “costumes”, lhes cai bem um perfil tipo Luciano Huck ou Eduardo Leite. Para a maioria da sociedade brasileira, qualquer uma dessas pessoas na Presidência da República – ou alguém da mesma linha falso-modernista, um Tarcísio de Freitas – significaria o Brasil subjugado a todos aqueles mantras de austeridade, privatização, corte de gastos, meritocracia e outras mentiras neoliberais.

A polarização Lula–Bolsonaro que se vende como verdade absoluta é fake. O que existe, o que persiste, é Lula de um lado, capitaneando a ânsia nacional por justiça social e desenvolvimento econômico, e a elite do atraso, como bem definiu Jessé Souza, do outro. O que se batizou de “polarização” nada mais é que a continuidade do nosso conflito histórico entre exploradores e explorados.

Não há polarização Lula-Bolsonaro por inúmeras razões. Uma delas, a mais óbvia, é porque o capitão encontra-se inelegível e, se não fugir, será preso. Outra é porque Bolsonaro pode arregimentar uma multidão de imbecis, mas na verdade sempre foi uma marionete nas mãos das raposas da direita política. Covarde, traidor de amigos, intelectualmente primitivo, não desfruta da lealdade de ninguém que esteve em seu barco, ora naufragado. Isso, em termos práticos.

Em termos filosóficos, faz-se necessário um resgate histórico para que se compreenda a única polarização que vigora no país. Fiquemos no período nascido com a Constituição de 1988. Desde que os cidadãos voltaram a votar para presidente, de um lado sempre esteve Lula – é claro, nunca sozinho, mas como aglutinador de forças progressistas. Foi assim contra Collor e FHC, no entorno dos quais estiveram exatamente as mesmas figuras – e boa parte dos princípios – que abraçariam Jair Bolsonaro. E que, antes dele, incensariam Michel Temer.  

Ressalve-se que Fernando Henrique Cardoso declarou voto em Lula em 2022, dado não existir a tal terceira via. Tivesse a opção, príncipe dos sociólogos escolheria qualquer Luciano Huck da vida.

Claro está mais, e mais claro é impossível, que a única e intransponível polarização consiste na tragédia histórica brasileira, em que se perpetuam, de um lado, uma elite ignorante e segregacionista. De outro, aqueles que, para aquela elite, são os responsáveis pela inflação quando passam a comer melhor.

A quem desagradam os bons números da economia?

Por Paulo Henrique Arantes

“O mercado” não liga muito para a economia real, aquela que considera emprego, renda, consumo, produção, crescimento.  Esse ente abrigado em arranha-céus envidraçados ocupa-se mais de especular com câmbio, ações da Bolsa e coisa e tal, lembrando sempre de se apropriar da dívida pública e bradar por austeridade, mesmo ciente de que não existe a menor possibilidade de calote por parte do governo.

Os números da economia brasileira divulgados na sexta-feira 7 pelo IBGE seriam comemorados em qualquer país do mundo. Por aqui, os empregados de “o mercado” incrustrados na imprensa já correram para alertar que “neste ano, o crescimento irá desacelerar” e que o avanço ora registrado está “acima do potencial brasileiro”. Gostam, os porta-vozes da finança, de apontar os “riscos” decorrentes do consumo popular, de a economia rodar, da produção aumentar e de o país crescer.

Para os que enxergam a ciência econômica como um compilado de conhecimento humano cuja aplicação deve servir para melhorar a vida das pessoas, os resultados do Brasil em 2024 são alvissareiros. O PIB cresceu 3,4%, dentro do “esperado pelos analistas”.

Chama à atenção a produção industrial, que na História recente patinava ou regredia. Em relação a 2023, a indústria cresceu 3,3%. Setorialmente, a construção cresceu 4,3%; a indústria de transformação, 3,8%; e a produção de distribuição de eletricidade, gás e água, 3,6%.

A decepção fica por conta da agropecuária, que, prejudicada por questões climáticas, caiu 3,2%.

O avanço do setor de serviços foi de 3,7%, com informação e comunicação saltando 6,2% e o comércio atacadista e varejista, 3,8%. Já o consumo das famílias – este, um horror para “o mercado” toda vez que cresce – saltou 4,8%, com melhora do mercado de trabalho (crescimento da massa salarial real) e medidas governamentais de transferência de renda.

Os analistas econômicos da mídia não suportam ver as classes mais baixas consumindo mais, especialmente quando passam a morar e comer melhor graças a incentivos do governo – “gastança”, alegam. São os mesmos que reclamam do baixo desemprego, hoje em 6,2%, defendendo uma teratológica Taxa Neutra de Desemprego, abaixo da qual criar-se-ia um ambiente inflacionário insustentável. Claro, para o grupelho não importa se emprego significa sobrevivência para muita gente.

Como já escrevemos neste espaço, a lógica dos idólatras da austeridade é que emprego gera consumo e pressiona a inflação, pouco ou nada importando se famílias, por exemplo, passam a se alimentar melhor. A observância da TND, a impedir de alguma forma a queda do desemprego a partir de certo nível, manteria a inflação controlada. 

Cruel, no mínimo.

Sem incentivo público à cultura, não haverá outros “Ainda Estou Aqui”

Por Paulo Henrique Arantes

Desde que foi criada, durante o Governo Collor, a Lei Rouanet foi usada – muito mais nos quatro anos bolsonaristas – para justificar argumentos contra um fictício “marxismo cultural”. O modelo de estímulo fiscal foi mal compreendido ou distorcido por má fé. Números apurados pela Fundação Getúlio Vargas derrubaram a afirmação de prejuízo econômico: a cada 1 real captado e executado via Lei Rouanet, a sociedade recebe de volta 1,59 real.

A cultura, assim como a agricultura e a indústria, tem importância e precisa de fomento público, nem que seja via renúncia fiscal. O oscarizado “Ainda Estou Aqui” não recebeu um tostão de verba pública nem incentivos via Lei Rouanet, mas é um ponto fora da curva. Walter Salles há muito tempo é um diretor de projeção internacional. Se o Brasil pretende se tornar de fato um país cujo cinema ganha o mundo, precisa manter – e mesmo turbinar – a legislação cultural.

O Masp (Museu de Arte de São Paulo), a Pinacoteca de São Paulo, a Feira Literária Internacional de Parati e a Mostra Internacional de Cinema não seriam o que são sem o apoio da legislação de incentivo à cultura. Mais de 80% dos custos da reforma do Museu do Ipiranga, em São Paulo, foram pagos em recursos obtidos pela Lei Rouanet.

A perseguição ideológica à Lei Rouanet e aos artistas que buscaram captar recursos por seu intermédio deve-se ao temor reacionário pelas manifestações críticas. Alguns casos envolvendo a Lei de Incentivo à Cultura beiram o surreal. Como o do cantor sertanejo Zé Neto, que se regozijou de “não precisar da Lei Rouanet”, mas que recebeu um alto cachê diretamente dos cofres de uma prefeitura, em 2022, tendo sido contratado sem licitação. Dinheiro público diretamente na veia.

Maria Bethânia, cuja trajetória dispensa apresentações, foi alvo de fake news grosseira, acusada em 2011 de tentar abocanhar 1 milhão de reais via Lei Rouanet sem maiores esforços. Na verdade, tratava-se de um projeto do diretor de cinema Andrucha Waddington de leitura de poemas, de valorização da poesia. Bethânia seria a artista que faria a leitura das poesias. Poemas audiovisuais digitais seriam disponibilizados gratuitamente em uma plataforma de internet. Tratava-se de um projeto de difusão da poesia, aberto à visitação gratuita e pela voz de uma das maiores artistas brasileiras.

Insultada, Bethânia desistiu de participar do projeto de Waddington. E até hoje detratores não entenderam que aquele 1 milhão de reais, oriundo do setor privado e compensado pelo Fisco, remuneraria, além dela, diretores, cinegrafistas, programadores, editores e muitos profissionais mais.

Quem obtém recursos pela Lei Rouanet tem que dizer como vai usá-lo, sofre limitações de cachê, tem que executar uma contrapartida social – tem que prestar conta de tudo que é feito. Caso a prestação de contas não seja satisfatória, o captador tem que devolver o dinheiro para a administração pública. Já quando o artista apresenta-se numa festa e recebe da uma instância pública, diretamente, um cachê milionário, com inelegibilidade de licitação, ele não precisa prestar conta de nada.

Há casos de má destinação de recursos envolvendo a Lei Rouanet? É possível, até provável. Mas o princípio que norteia a norma é correto, como correto é valorizar a arte e a cultura do país e lhes dar meios de se manterem vivas. O que não se pode é represar valores autorizados de captação via Lei de Incentivo Fiscal para determinados projetos e, paralelamente, liberar em tempo recorde recursos para livros contando a história das armas no Brasil, tendo como “contrapartida social” palestras sobre armas e munições a crianças e adolescentes, como feito pelo governo Bolsonaro.

Marcos do Val incitou ao crime, mas não deverá ser punido

Por Paulo Henrique Arantes

O teratológico vídeo gravado e publicado em redes sociais pelo senador bolsonarista Marcos do Val (Podemos / ES), concitando os Estados Unidos a invadirem o Brasil, sugere crime de incitação ao crime, muito bem descrito no artigo 286 do Código Penal. Claro, o senador blinda-se com a imunidade parlamentar, mas há nuances a serem observadas.

Para o jurista Lenio Streck, do Val “precisa, no mínimo, ser investigado”.

O criminalista Conrado Gontijo, mestre em Direito Penal pela USP, interpreta o caso de modo um pouco deferente: “Por mais absurda e ridícula que seja a fala do senador, penso que ela está protegida pela imunidade constitucional. Aliás, o ridículo da afirmação revela que nem ela, nem seu prolator, devem ser minimamente levados a sério, dado que também revela a inexistência de conduta criminosa”.

A Constituição, em seu artigo 53, estabelece que parlamentares podem falar a bobagem que quiserem no exercício do mandato. Isso abrange o plenário, as comissões e outros ambientes inerentes ao cargo. Porém, a imunidade não se aplica a atos externos ao exercício do mandato. Se um parlamentar incitar crimes fora de sua função institucional – como em redes sociais, por exemplo -, pode, em tese, ser responsabilizado.

Há precedentes que favorecem Marcos do Val. O Supremo Tribunal Federal já negou pedido para enquadrar um parlamentar no artigo 286 por declarações em redes sociais, entendendo que o contexto era de manifestação política. Contudo, casos com provas robustas de incitação direta já resultaram em processos após autorização legislativa – eis uma barreira aparentemente intransponível: o espírito de corpo do Parlamento.

Em síntese, parlamentares podem ser enquadrados no artigo 286 se houver comprovação de que incitaram a crimes fora do exercício do mandato e com intenção clara. Há que se superarem os entraves constitucionais e o corporativismo do Congresso.

Marcos do Val é recorrente e uma cassação de seu mandato pelo conjunto da obra cairia bem para a democracia brasileira. “Instrutor” de segurança, foi consultor do filme Tropa de Elite, aquele cujo herói tortura adolescentes favelados. Em polêmica com o então ministro da Justiça, Flávio Dino, apelou para a gordofobia. Endereços seus foram alvo de busca pela Polícia Federal, suspeitando de que ele tentava obstruir investigações sobre o 8 de Janeiro. Relatório da PF revelou que do Val vangloriava-se em grupos de WhatsApp de uma suposta influência sobre Jair Bolsonaro.

Mas seu prestígio andou em baixa mesmo junto a bolsonaristas: em 25 de fevereiro de 2024, foi barrado ao tentar subir no carro de som de um daqueles show de horrores patrocinados por Silas Malafaia na Avenida Paulista.

A parolagem da gastança

Por Paulo Henrique Arantes

O governo é gastador. O país vai quebrar. Temos um enorme rombo fiscal.

Os três mantras de “o mercado”, reproduzidos diuturnamente pela imprensa liberaloide, cumprem a função de inculcar no cidadão comum a ideia de que austeridade é sinônimo de saúde econômica. Já reproduzimos neste espaço a perspicácia da economista italiana Clara Mattei para explicar como a alta finança e seus princípios “austeros” serviram ao fascismo e serviram-se dele.

Em “A ordem do capital” (Boitempo, 2023), Mattei escreveu: “Ao contrário do que os defensores da austeridade querem nos fazer pensar, o sistema socioeconômico em que vivemos não é inevitável nem deve ser relutantemente aceito como o único caminho a seguir. A austeridade é um projeto político decorrente da necessidade de preservar as relações de dominação das classes capitalistas. É resultado da ação coletiva para excluir quaisquer alternativas ao capitalismo. Portanto, pode ser subvertida por meio de uma ação contrária também coletiva. O estudo da lógica e do propósito da austeridade é um primeiro passo nessa direção”.

É gratificante saber que na imprensa brasileira nem todos os analistas econômicos estão cooptados por “o mercado”. No Valor Econômico, o experiente Pedro Cafardo costuma nos brindar com sua lucidez. Um peixe fora d’água, certamente.

Em sua coluna de 25 de fevereiro, Cafardo valeu-se de considerações do maior economista keynesiano brasileiro, Luiz Gonzaga Belluzzo, para explicar como e por que as contas de um país não podem ser regidas pela lógica da economia doméstica, em que gastar mais do que se possui fatalmente leva à quebra. No caso do Estado nação, endividar-se pode ser salutar, e quase sempre o é.

Eis um trecho do artigo de Cafardo:

“A dívida pública brasileira é em reais. E não há um único caso na história de quebra de dívida pública em moeda local. O Tesouro emite e os bancos centrais têm facilidade de comprar e vender títulos públicos para regular as taxas de juros e não permitir que haja descasamento nas operações. Para isso, o Estado capitalista criou instituições adequadas: os bancos centrais e os tesouros nacionais. Os balanços dos bancos têm hoje participação enorme dos títulos públicos, que constituem a riqueza financeira do capitalismo. Não existe estrutura financeira ou mercado financeiro sem a presença de título público, porque ele é o ativo de última instância, com segurança e liquidez. O entendimento imposto ao cidadão comum, portanto, é primário e incorreto, mas se propaga porque existe, segundo Belluzzo, uma parolagem sobre risco fiscal reproduzida em jornais, redes sociais e até em editoriais da grande mídia.”

É claro que os economistas heterodoxos, quase sempre à esquerda, não estão a estimular que o governo contraia dívida indiscriminadamente e saia a queimar o dinheiro. Conforme bem exposto pelo colunista do Valor, “países não quebram por dívida em moeda local. Mas essa dívida não pode aumentar descontroladamente, porque é um indicador da saúde fiscal de um país. Isso é verdade, mas é sabido que o Brasil está longe de ser um dos países mais endividados do mundo quando se considera a relação dívida/PIB, atualmente em 76%. Alguns exemplos: 260% no Japão, 137% na Itália, 122% nos Estados Unidos, 110% na França”.

Ao lado de Pedro Cafardo, trazem alento à análise econômica jornalistas como José Paulo Kupfer, Luís Nassif e mais um ou outro. São poucos os heróis diante do exército de serviçais de “o mercado” ocupando espaço na mídia.

Os caminhos tortuosos da defesa de Bolsonaro

Foto: Fellipe Sampaio / STF

Por Paulo Henrique Arantes

Apesar de a Folha de S. Paulo insistir (“Ameaça de Moraes a Cid abre brecha para contestar delação que implicou Bolsonaro”, em 21 de fevereiro), a advertência de Alexandre de Moraes a Mauro Cid, alertando-o para as consequências de mentir, é algo absolutamente corriqueiro, até aconselhável, na relação entre juiz e colaborador – recomenda-se não usar o termo “delator”. Trata-se de um não-fato, que de nada servirá à defesa de Jair Bolsonaro. Só serve mesmo à Folha, cujos editores deveriam prestar atenção nas explicações do jurista Wálter Fanganiello Maierovitch, colunista do UOL, portanto contratado dos Frias.

 

O prestigiado advogado de Bolsonaro, Celso Vilardi, experiente, não deverá tirar coelhos jurídicos da cartola, muito menos apelar para chicanas como a sugerida, subliminarmente, pela Folha de S. Paulo.

 

“Noticiário Comentado” ouviu três criminalistas sob anonimato, dois deles bem próximos de Vilardi, sobre as possíveis linhas da defesa do capitão golpista.  Claro, surpresas podem acontecer, mas as opções mais lógicas são as seguintes:

 

– alegar incompetência do STF para julgamento da ação penal, por não haver acusados detentores de foro por prerrogativa de função;

 

– ⁠alegar suspeição do ministro Alexandre de Moraes, por ser também vítima de alguns dos fatos descritos na denúncia;

 

– ⁠pedir nulidade da delação do Mauro Cid, em razão de supostas inconsistências;

 

– ⁠pedir nulidade da delação do Mauro Cid, alegando-se falta de voluntariedade;

 

– alegar ⁠inexistência de prova de participação do cliente nos fatos investigados.

São caminhos possíveis da defesa. Pela consistência da denúncia formalizada pela Procuradoria Geral da República, parecem bastante tortuosos.

Golpista aposentado, Michel Temer diz que governo Lula não tem credibilidade

Foto: Sérgio Lima/PODER 360

Por Paulo Henrique Arantes

Em evento promovido pela Fundação Ulysses Guimarães, na quinta-feira 20, Michel Temer afirmou que o problema do governo Lula é falta de credibilidade. Eis a fala do ex-presidente que se valeu de um impeachment sem crime ou quebra de decoro para chegar ao Palácio do Planalto: “Eu acho que o que está acontecendo com o atual governo é essa falta de credibilidade. E pelas mais variadas razões. Até  razões internas, daquela disputa entre ministérios ou do partido do governo com o próprio governo. Isso tira a credibilidade”.

Este jornalista entrevistou longamente o então vice-presidente da República Michel Temer, para uma revista dirigida a advogados. Naquela época pré-golpe, ele derretia-se em elogios a Dilma Rousseff: “Ela tem um estilo gerencial muito forte, de muita presença, e muitas vezes esse estilo, muito útil para o governo brasileiro, desmerece um pouco a ideia de sua habilidade política. Mas a presidente Dilma é de uma habilidade extraordinária. Eu tenho acompanhado as articulações políticas, as quais são feitas muitas vezes, evidentemente, com a minha colaboração. A suposta inabilidade política da presidente é desmentida precisamente pelo dia a dia dela com o Congresso Nacional e com os partidos políticos”.

O espírito bajulador de 2014, quando o entrevistei, daria lugar, em dezembro de 2015, à alma magoada. A famigerada carta de Temer a Dilma, praticamente justificando sua adesão ao golpe em curso, mostra que a perda de influência no governo poderia autorizá-lo à deslealdade de trabalhar, nas sombras, pela derrubada da presidente: “Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. A Senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas. 2. Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios, secundários, subsidiários. 3. A senhora, no segundo mandato, à última hora, não renovou o Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez belíssimo trabalho, elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele era uma indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a registrar este fato no dia seguinte, ao telefone. 4. No episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o Ministério em razão de muitas ‘desfeitas’, culminando com o que o governo fez a ele, Ministro, retirando sem nenhum aviso prévio, nome com perfil técnico que ele, Ministro da área, indicara para a Anac.’”

Se Temer reconhecia-se partícipe de articulações políticas em 2014, como disse a este jornalista, e em 2015 sentia-se jogado para escanteio, motivos houve. Perda de confiança por parte da presidente, que o via como um estimulador, ainda que de modo subliminar, do professo de impeachment?

Fato é que Dilma Rousseff caiu e Temer subiu. Qual a credibilidade do presidente da República Michel Temer? Ele foi depositário da esperança do povo brasileiro ou beneficiário do casuísmo-golpismo que tirou uma mulher honesta da Presidência da República? Teve a credibilidade que hoje diz que Lula não tem?

A credibilidade de Michel Temer certamente é bem alta nos saraus jurídico-políticos em que predominam as mesóclises. E no seio da alta finança. Os defensores da austeridade como fim em si estiveram eufóricos quando o governo Temer emplacou o teto de gastos, prova cabal de “credibilidade” para a Faria Lima.

Como já escrevemos neste espaço, o constitucionalista Michel Temer vilipendiou a Constituição ao promover uma reforma trabalhista totalmente descolada da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), apregoando uma “modernização” das relações de trabalho e em nome disso criando uma legião de trabalhadores informais, precarizados.

A reforma da Previdência que Bolsonaro impingiu ao país, com ajuda do Congresso mais canhestro da História da República, foi concebida pelo governo Temer. Só não emplacou naquele mandato porque o ocupante do Planalto perdeu qualquer condição de negociar com os parlamentares, denunciado que fora por corrupção após o vazamento do áudio de sua conversa macabra com Joesley “Friboi” Batista – esse é o Temer credível.

Repetimos o que já escrevemos, por oportuno: Michel Temer encarna a elite que traçou desde a proclamação da República a tragédia social brasileira. A elite do atraso, como bem definida pelo sociólogo e escritor Jessé Souza. Uma elite envernizada por uma oratória conciliadora, um discurso centrista hipócrita que mal disfarça a volúpia por privilégios, com um pé na academia e outro nos regabofes com doleiros e assemelhados.

Jair autoincriminou-se a cada palavra

Foto Nelson Almeida / AFP

Por Paulo Henrique Arantes

Jair não é uma pessoa inteligente. Ele não difere linguagem coloquial de linguagem infantil. Seu raciocínio é binário e seus argumentos, primários, quando não primitivos. É desprovido de senso de humor e suas gargalhadas soam falsas. Tosco e sem educação, incrimina-se por suas próprias palavras. Assim, Jair veio ao longo dos anos fornecendo atestados de que um ataque ao Estado Democrático de Direito comporia, sem qualquer pudor, seus planos.

Idólatra confesso de ditadores e torturadores, foi finalmente denunciado pela Procuradoria Geral da República ao Supremo Tribunal Federal, com base em um inquérito de mais de 800 páginas produzido pela Polícia Federal.

Uma perpassada por algumas das aspas com que nos brindou ao longo dos anos faz indagar: como um ser tão desumano pôde chegar ao mais alto posto da República? Pergunta dois: como um criminoso praticamente confesso manteve-se tanto tempo livre das mãos da Justiça? Pergunta três: como um propagador de mentiras tão descarado amealha tantos admiradores?

A arquitetura do golpe jairista está detalhadamente explicada na denúncia da PGR e deverá levar Jair e meia dúzia de militares à cadeia, além de outros colaboradores. O momento é oportuno para recordar como o próprio Jair construiu sua imagem de inimigo da democracia. A seguir, 11 sinais emitidos pelo capitão pouco inteligente.

“O erro da ditadura foi torturar e não matar.” Em entrevista à TV Folha (2016).

“Não vai ter nunca mais um presidente da República aqui que tenha a coragem de fazer o que foi feito em 1964.” Em live nas redes sociais (2020).

“Não vou respeitar decisões do Supremo que extrapolem suas funções.”
Durante crise institucional com o STF (2021).

“O Congresso Nacional não representa o povo brasileiro.” Frase repetida em diversos momentos, especialmente após derrotas em votações legislativas (2019-2022).

“Se eu for derrotado nas urnas, só há três alternativas: prisão, morte ou vitória.” Declaração em evento com apoiadores (2022).

“As urnas eletrônicas não são auditáveis.” Narrativa recorrente de Bolsonaro (2021-2022), sem provas.

“Se um dia o Exército resolver botar ordem nesse país, eu estarei na rua.”
Em entrevista ao programa Câmera Record (2020).

“Ou o Brasil melhora, ou acabamos indo para uma solução que nunca quis.” Live em agosto de 2021.

“A imprensa suja, golpista, corrupta, não vai calar a verdade.” Em redes sociais (2020), atacando veículos críticos ao seu governo.

“Não tem como ter eleição limpa com o sistema atual.” Durante discurso a apoiadores (2022).

“O povo não faz nada. Só reclama. Não tem poder.” Fala durante transmissão ao vivo (2020), desdenhando da capacidade de mobilização popular legítima.

O Datafolha e as caras do governo Lula

Por Paulo Henrique Arantes

O resultado da pesquisa Datafolha divulgada em 14 de fevereiro, mostrando que a aprovação de Lula caiu de 35% para 24% entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, veio sendo forjado no decurso do tempo. A inflação incômoda e o veneno extremo-direitista inoculado no mundo por Donald Trump (a manada atiça-se por psicopatas empoderados) podem explicar em parte a queda, porém menos que a nítida ação de desconstrução do governo em curso.

Nada se faz para conter as persistentes e a cada dia mais descaradas fake news nas redes sociais, enquanto a “imprensa séria” consolida-se como porta-voz do mercado financeiro. Não há popularidade que resista, não se desprezando, é claro, as deficiências reais do governo.

A estranheza da última Datafolha fica por conta da pesquisa Quaest de 3 de fevereiro, pela qual Lula venceria com tranquilidade todos seus principais oponentes de tivéssemos hoje uma eleição presidencial.

A distopia global que se anuncia pelas palavras e os atos do presidente dos Estados Unidos já foi vivida em terras brasileiras. Antes de depreciar o governo Lula, é preciso lembrar tudo que Jair Bolsonaro infligiu ao Brasil em termos de incivilidade, negacionismo, estupidez e boçalidade.

Analistas insistem em dizer que “o governo Lula não tem cara”. Digamos, em contraponto, que tem muitas caras. É preciso propagandeá-las, ousamos sugerir, adentrando o grupo dos que palpitam em comunicação.

O colega Sérgio Buarque de Gusmão poupou-nos do esforço de garimpagem ao identificar algumas das “caras” do governo Lula. Ei-las:

– em 2023, a renda domiciliar cresceu 11,5% em relação a 2022 (maior percentual em 12 anos);

– o desemprego, em 6%, é o menor já medido;

– o PIB cresceu 3,2% em 29023 e deverá crescer 3,5% em 2024;

– o salário mínimo teve aumento real de 7,5%;

– o Bolsa Família foi recriado com renda mínima de R$ 600 para 21 milhões de famílias;

– foi recriado o programa Farmácia Popular, em benefício de 24 milhões de pessoas que não podem comprar remédios;

– foi criado o programa Desenrola, que renegociou dívidas com até 90% de desconto;

– a verba da Merenda Escolas subiu de R$ 4 bi para R$ 5,5 bi, 30% dos quais comprarão alimentos produzidos pela agricultura familiar;

– foi criado o programa Escola em Tempo Integral, atendendo no primeiro momento a 1 milhão de alunos;

– criação do programa Pé de Meia, beneficiando em 2024 a 4 milhões de estudantes;

– foram investidos R$ 30 bi em projetos culturais;

– foi retomado o projeto Luz para Todos, em prol de 500 mil famílias (investimento de R$ 1,2 bi).

Há quem prefira a austeridade de Javier Milei, o sádico que “pôs nos trilhos” a economia argentina e aprofundou a fome e a miséria no país vizinho.

Armínio, aquele do juro a 45%, dá conselho a Galípolo

Por Paulo Henrique Arantes

Num evento na Casa das Garças, neste 12 de fevereiro, Armínio Fraga disse ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que a autoridade monetária precisa de ajuda da área fiscal para bem realizar seu trabalho. E assinalou: “a coisa não está bem”.

Muitas coisas não estão bem, porém quase tudo está muito melhor do que quando Armínio era o presidente do Banco Central, entre 1999 e 2002. Não se noticiou o que Galípolo respondeu ao seu interlocutor, mas poderia lhe ter lembrado que naquela profícua gestão a Selic chegou a 45% e terminou em 25%, passando de aterradora para assustadora.

Armínio pediu “ajuda à área fiscal” para promover tamanha redução da taxa básica e vender 25% como o resultado exitoso do seu trabalho? Ou nem foi preciso tanto?

Com a mídia insistindo em ouvir sempre e exclusivamente os próceres do mercado financeiro, alguém precisa mostrar teimosia e lembrar dos anos em que essa gente era governo. Costumava-se bater duro em Lula quando, na sua primeira passagem pela Presidência da República, falava de uma tal “herança maldita”.

O crescimento econômico no final dos governos do Príncipe FHC era pouco mais de 2%. O desemprego havia aumentado consideravelmente, alcançando o maior índice da década – 10,5% -, enquanto a renda per capita estagnara. A confiança de consumidores e investidores desabara, refletindo na redução do consumo e dos investimentos privados. Hoje registra-se o menor desemprego da série histórica (6,4%) e um aumento crescente da renda, com o salário mínimo tendo aumentado 7,5% em termos reais.

Apregoava-se o medo de Lula, virtual eleito para substituir Fernando Henrique. Para restaurar a confiança de “os mercados”, o governo firmou nos seus estertores um acordo com o FMI em 2002, no valor de US$ 30 bilhões e condicionado a uma genuflexão perante a ditadura da austeridade.

Ainda hoje atribuem-se os insucessos de FHC, Pedro Malan e Armínio Fraga a intempéries econômicas internacionais. Lula enfrentou em 2008 a maior crise financeira da História desde a Grande Depressão, e saiu do governo com 85% de aprovação.

Sim, a economia mudou, o mundo mudou, tudo mudou e é arriscado fazer comparações entre aquela e esta épocas. Ora, então por que a mídia – os jornalões, especialmente – só ouvem os economistas saudosos da era FHC?