Tarcísio, abuso de autoridade e obstrução da Justiça

Por Paulo Henrique Arantes

Tarcísio de Freitas carece de jogo de cintura. Bolsonarista envergonhado, ainda assim bolsonarista, o governador de São Paulo luta dia e noite para parecer “gestor”, no sentido coaching da palavra. Quando tenta cavar protagonismo político, comete aberrações como a abordagem de ministros do STF para que autorizassem um réu por crimes contra o Estado Democrático de Direito, cujo passaporte está retido, a viajar aos Estados Unidos.

Com a teratológica iniciativa, Tarcísio pretendeu posar de articulador da derrubada da taxação americana de 50% contra o Brasil, apostando na fantasiosa influência de Jair Bolsonaro sobre Donald Trump. O êxito da empreitada legaria à dupla Jair-Tarcísio os louros políticos pela “salvação do Brasil”. Tudo isso, é claro, na hipótese menos imoral.

Na outra hipótese, Tarcísio articulou a fuga de Bolsonaro. E, portanto, cometeu crime. Parênteses para interrogação: o governador imagina que o Supremo seja composto de idiotas?

Se for comprovado que Tarcísio tentou influenciar o Judiciário para remover restrição penal ou liberar viagem de Bolsonaro visando a sua fuga, haverá pertinência de enquadramento criminal, especialmente se o STF concluir que houve abuso do cargo e interferência indevida. Pela Lei 13.869/2019, que trata de abuso de autoridade, um governador que usa o cargo para tentar influenciar decisões judiciais ou para beneficiar indivíduos — especialmente réus — comete abuso de autoridade.


Se a conduta de Tarcísio for interpretada como tentativa de impedir ou atrapalhar a atuação da Justiça ou promover a fuga de alguém que está sob restrição (como Bolsonaro, com passaporte apreendido), pode haver tipificação de obstrução da Justiça.

Desta vez sem seu boné Maga, Tarcísio de Freitas negou ter procurado ministros do STF para tratar do trema EUA x Brasil. Por motivos óbvios, aqui ficaremos com Mônica Bergamo, jornalista que noticiou a iniciativa nada republicana do canhestro governador.

Trump é um tirano para o Direito Internacional

Nathan Posner / Getty Images

Por Paulo Henrique Arantes

Analistas da mídia dizem ser preciso cautela ao partidarizar o mais recente ato insano de Donald Trump, desta vez contra o Estado soberano brasileiro. Difícil não fazê-lo diante de uma conduta eminentemente política, motivada pelo desejo de pressionar um país pela salvação de um irmão ideológico em vias de condenação. No entanto, se buscarmos argumentos jurídicos, e não políticos, contra a inexplicável sobretaxa de 50% aos produtos brasileiros, os encontraremos de sobra.

“Nós não estamos diante de uma nova ordem mundial. Nós estamos diante de um processo que se volta para a barbárie, e em que se dá um passo atrás no nosso processo civilizacional. A base do nosso processo civilizacional é assentada no Direito Internacional, no respeito às regras estabelecidas.”

A ponderação acima é do professor de Direito Internacional da USP Wagner Menezes, membro do quadro de árbitros da ONU. Ele explica que o sistema internacional funciona com base no princípio da boa fé, o que gera segurança jurídica. “Quando o líder de um Estado se comporta de uma forma absolutamente contrária às bases estabelecidas da ordem jurídica, comporta-se não como um líder, mas como um tirano”, afirma o jurista.

Menezes explica que decisões de não cumprimento de acordos pré-estabelecidos de comércio multilateral  – que foi implodido pelos Estados Unidos já no governo Barack Obama, registre-se, com a paralisação do sistema de solução de controvérsias – constituem  um processo tirânico de descumprimento de regras. “Eu acho que a maior resposta da sociedade internacional seria justamente manter a estabilidade do padrão das relações internacionais”.

Trump afronta valores nos quais são assentados os regimes jurídicos, especialmente os princípios de não intervenção, de autodeterminação dos povos, de boa-fé e de cooperação.

“A soberania dos Estados deve ser tomada em conformidade com as normas jurídicas estabelecidas. Quando um governante age em desconformidade com os valores que nutrem inclusive o exercício da soberania, esse governante se transforma no déspota, num tirano. A própria sociedade americana tem reagido a esse tipo de tomada de decisões. E a comunidade internacional também precisa reagir”, provoca Wagner Menezes.

Ao fazer o que faz alegando ser motivado por  decisões do Poder Judiciário brasileiro, Trump agrava a situação, pois deixa claro que leva a cabo um processo de pressão, de coerção, na opinião de Menezes “muito mesquinho e pequeno”. O professor não nominou figuras como a do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, mas a carapuça veste à perfeição: “Quem aplaude esse tipo de atitude, ou quem possa se beneficiar disso, envergonha o país e a sociedade”.

De outra parte, Menezes acredita que o Brasil possui um corpo diplomático competente para buscar criar canais de comunicação que protejam os interesses do Estado brasileiro. “O mecanismo da reciprocidade pode ser aplicado, ele é autorizado pelo Direito Internacional. Mas neste momento é importante que nós deixemos de lado as bravatas políticas e os discursos ideologizados, de ódio e tudo mais. Tenho comigo que não se trata de uma decisão que reflita as relações históricas entre Brasil e Estados Unidos”, pondera.

Caça às bruxas é notória prática trumpista

Por Paulo Henrique Arantes

Afora a impropriedade absoluta de Donald Trump ao reclamar tolerância judicial ao criminoso contra o Estado brasileiro Jair Bolsonaro, o termo “caça às bruxas” usado por ele serve para caracterizar, isto sim, seus próprios atos e estilo de governar. Um estilo afeito ao macarthismo.

Só para lembrar: em 2017, Trump demitiu o diretor do FBI, James Comey, que liderava a investigação sobre os vínculos de sua campanha eleitoral com a Rússia. Obstrução da justiça, nitidamente.

Ao sugerir repetidamente que agências como o FBI, CIA, IRS e o Departamento de Justiça estavam infiltradas por inimigos políticos, Trump criou um clima de desconfiança institucional e promoveu uma purga de funcionários considerados “não leais”.

Trump também pressionou o então procurador-geral Jeff Sessions para reverter sua decisão de se declarar impedido de investigar a Rússia.

Pessoas como Alexander Vindman, que testemunharam contra Trump no caso do “quid pro quo” com a Ucrânia, foram rebaixadas ou forçadas a deixar seus cargos. Denunciantes protegidos por lei foram expostos ou desacreditados publicamente.

Donald Trumptentou abrir investigações contra Joe Biden e seu filho Hunter Biden. E pressionou o presidente da Ucrânia, em troca de ajuda militar, para anunciar investigações contra os Biden — o que levou ao primeiro processo de impeachment.

Inúmeras vezeschamou a imprensa de “inimiga do povo”. Retirou credenciais de jornalistas críticos, tentou impedir fusões desfavoráveis (como CNN-Time Warner) e incentivou processos contra meios de comunicação.

Após protestos antirracistas em 2020, Trump ameaçou usar o Exército contra civis, criminalizou movimentos como o Black Lives Matter e promoveu uma narrativa de “lei e ordem” contra dissidências.

O bilionário descabelado chamou adversários de “traidores”, “lixos humanos” e sugeriu que congressistas democratas “voltassem para seus países”, mesmo sendo cidadãs americanas. Exigiu lealdade pessoal de autoridades públicas — o que contraria a natureza institucional do serviço público.

Pressionou autoridades eleitorais, como na famosa ligação para Brad Raffensperger, da Geórgia, pedindo que “encontrasse votos” a seu favor.  Incentivou a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, promovendo a teoria da “eleição roubada”.

Trump criticou e afastou generais, membros do Pentágono e conselheiros que se opunham a sua retórica autoritária. Chamou militares mortos de “otários” e “perdedores”, segundo reportagens confirmadas por várias fontes.

Tributar milionários e desonerar pobres é keynesiano, não marxista

Por Paulo Henrique Arantes

A gritaria da mídia, em sintonia com a maioria de um Congresso reacionário até a medula, aponta o discurso “nós contra eles” do governo. Lula estaria revivendo a luta de classes marxista para alavancar sua popularidade – pobres versus ricos, trabalhadores versus patrões -, em vez de aceitar candidamente que o melhor para o Brasil é mesmo cortar gastos sociais e jamais aumentar impostos da turma da bufunfa. Não importa se as elites financeiras pagam muito menos impostos que as faixas inferiores da pirâmide social.

Os reacionários brasileiros ignoram que o tema da justiça tributária não consta da teoria da luta de classes marxista. Não é “coisa de comunista”. Marx apenas admitia que os trabalhadores lutassem por impostos progressivos enquanto não conseguissem abolir as relações capitalistas de trabalho. Contundente nessa área foi John Maynard Keynes, que, além de capitalista, nutria por Marx notória implicância.

Keynes defendeu com veemência a taxação progressiva sobre os ricos como forma de redistribuição e estímulo à economia. Advogou pela desoneração dos pobres e da classe média como meio de aumentar o consumo e o bem-estar.

Assim escreveu o ilustre economista britânico, no seu “How to Pay for the War”, de 1940: “Não é sensato manter um padrão de vida de luxo para os ricos ao mesmo tempo em que pedimos aos pobres que façam sacrifícios. Os ricos devem ser tributados pesadamente, não apenas para financiar a guerra, mas para manter a justiça social e evitar um excesso de poupança improdutiva, que apenas agrava os problemas econômicos. A função dos impostos é dupla: arrecadar e redistribuir. A justiça exige que o peso recaia mais sobre aqueles que podem poupar e menos sobre os que vivem de sua renda mensal”.

A obra foi escrita e publicada num cenário de guerra mundial, mas Keynes deixou claro que a justiça tributária deveria fazer parte a qualquer tempo das economias saudáveis. A lógica, para o mais importante economista do Século XX, deveria ser a adaptação do sistema tributário para regular a economia. Ou seja: mais impostos sobre quem possui mais capacidade de poupança e menos impostos para quem movimenta o consumo. Já em 1919, no clássico “The Economic Consequences of the Peace”, Keynes demonstrava preocupação ética e econômica com a concentração de riqueza, para ele uma fonte de instabilidade social e política.

Nos tempos atuais, ninguém trata melhor do tema tributação que o economista francês Thomas Piketty, autor de “O Capital no Século XXI”, que já nasceu clássico em 2013.  Numa entrevista a Veja, ele sentenciou: “Quem fica milionário se beneficiou do sistema educacional e da infraestrutura de seu país e lhe deve retribuição”. Bingo.

A DTM em Debate, Piketty foi claro e enfático: “O que defendo não é apenas um imposto qualquer, mas um imposto progressivo sobre o capital. (…) Um imposto sobre o capital privado é crucial para combater as crescentes desigualdades, mas também seria um instrumento útil para resolver crises da dívida pública, com contribuições de cada um segundo sua riqueza”.

Caracterizar a busca do governo Lula por justiça tributária como fomento à luta de classes é o recurso retórico dos donos das armas, os históricos donos do dinheiro e do poder. No Brasil, os pobres são subjugados e restam desarmados. Quando um governo se elege para redimi-los, ataca-se o governo.

Não existe luta de classes no Brasil. Existe a sujeição de uma classe a outra. Reverter em parte essa realidade por meios tributários seria um bom começo.

Flagrantes parlamentares de ataque aos pobres

Por Paulo Henrique Arantes

É nítida no dia a dia a volúpia chantageadora do Congresso Nacional. Sempre alinhado com os poderosos lobistas que o frequentam, o Legislativo empareda o Executivo em suas tentativas de promover justiça social, pouco dela que seja, alegando a falsa preocupação com as contas públicas e fazendo genuflexão à Faria Lima. Emendas têm de ser liberadas sem freio ou critério, caso contrário o fantasma do impeachment assombrará o presidente da República. Algo nesse sentido não seria surpresa sendo os parlamentares quem são.

Na presente legislatura, além do surto com o IOF, não foram poucos os momentos em que o Congresso avançou sobre a parcela mais pobre da população brasileira. No fim de 2024, a PEC 54, o PLP 210 e o PL 4.614, modificando BPC, o Bolsa Família, o abono salarial e limitando o aumento do salário mínimo foram aprovados na Câmara e no Senado. Lula fez vetos ao PL 4.614, derrubando a exigência de comprovação de deficiência moderada ou grave para recebimento do BPC e revogando a regra sobre reingresso no Bolsa Família.

Já o salário mínimo, graças aos nobres congressistas, só terá aumento real – acima da inflação – se o PIB de dois anos antes for positivo. Caso contrário, será corrigido pelo INPC seco.

O Brasil também deve ao Congresso Nacional a derrubada de propostas progressivas que beneficiavam diretamente os mais pobres no texto da Reforma Tributária. Ficaram garantidas apenas isenções na Cesta Básica.

Ao aprovar a PEC 54 e o PLP 210, o Parlamento congelou salários de servidores e instituiu o contingenciamento automático de gastos, afetando programas sociais, de saúde e educação. No caso do segundo, Lula vetou apenas o trecho que proibia o bloqueio de emendas parlamentares impositivas, incluindo emendas individuais e de bancada. O governo argumentou que impedir o bloqueio dessas emendas violaria uma decisão do STF (ADPF 854), que exige tratamento igual entre emendas e despesas discricionárias.

Fresca na memória está a criação de 18 novas cadeiras na Câmara, de 513 para 531, o que eleva os gastos dos “fiscalistas” daquela casa em cerca de 65 milhões de reais.

Hugo Motta e a Síndrome do Conciliador Cativo

Por Paulo Henrique Arantes

O leitor e a leitora sabiam que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, é médico? Sim, é médico. Não se sabe se algum dia exerceu a profissão com a mesma desenvoltura com que comanda o corpo parlamentar mais fisiológico e reacionário de que se tem notícia. Deputado federal desde 2011, então com 21 anos, vem sendo reeleito pela sua Paraíba, primeiro pelo MDB, ex-PMDB, depois pelo PRB, atual Republicanos.

Motta vende a imagem do liberal sempre aberto do diálogo, educado, bem penteado. Essa gente é um perigo, tanto mais quando segura nas mãos um belo naco do poder. A aparência janota e o discurso conciliador costumam camuflar potenciais tiranos, especialmente os formados na escola de Eduardo Cunha e Arthur Lira.

Não se pode abdicar da psicologia para analisar o comportamento daqueles que detêm poder, algo muito mais relevante do que vazar futricas de “bastidores”, palavrinha que faz jornalistas superficiais se acharem os tais, quando não passam de serviçais das fontes.

O psiquiatra Jerrold M. Post realizou estudos importantes sobre indivíduos obscuros alçados ao poder. Não que Hugo Motta se encaixe nas descrições abaixo, mas é uma possibilidade. Atirar pelas costas, afinal, não é conduta abonadora.

Post fundou o Centro de Análise de Personalidade Política da CIA. É autor de obras como “Dangerous Charisma: The Political Psychology of Donald Trump and His Followers” (2019) e “Leaders and Their Followers in a Dangerous World” (2004). Em sua avaliação, indivíduos que ascendem ao poder a partir da obscuridade e se tornam tiranos geralmente compartilham um tal de “narcisismo maligno”, distúrbio severo que beira a paranoia.

Esse narcisista combina senso inflado de importância com necessidade obsessiva de admiração. Quando contrariado, reage mediante humilhação ou vingança, nem sempre com atitudes toscas como as que marcaram Jair Bolsonaro no Executivo, mas frias e calculadas – um tirano parlamentar, sentindo-se ludibriado, age como Eduardo Cunha  no processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

O caso de Hugo Motta enquadra-se na patologia denominada Síndrome do Conciliador Cativo, que caracteriza moderados que, para sobreviverem politicamente, se submetem à lógica autoritária de seus aliados.

Um exemplo acabado de conciliador cativo, além de Motta, é o ex-presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos Kevin McCarthy, que se apresentava como moderado e “homem do diálogo” dentro do Partido Republicano, tendo sido eleito com promessas de governabilidade bipartidária.

No exercício da presidência da casa legislativa, entretanto, fez repetidas concessões à extrema-direita trumpista para se manter no cargo, incluindo abertura de processo de impeachment sem provas concretas contra o presidente Joe Biden. McCarthy também permitiu que parlamentares extremistas ditassem a pauta e usassem o Congresso como palco de desinformação. Acabou destituído por seu próprio partido ao perder o controle de sua ala mais radical.

Um Congresso de milionários que legisla para milionários

Por Paulo Henrique Arantes

Desnecessário buscar explicações profundas, tampouco “bastidores”, para justificar o golpe no governo e nos pobres que o Congresso Nacional acaba de aplicar ao derrubar o decreto que aumentava a alíquota do IOF. A elite brasileira predomina no Parlamento, e o Parlamento brasileiro incorpora os princípios históricos dela. Empareda o Executivo, chantageia-o. E busca muito mais que emendas que lhe garantam a reeleição: objetiva manter o Brasil no topo do ranking da desigualdade.

Quem afirmar que não existe luta de classes estará mentindo, e nessa luta a classe alta mostra-se cada vez mais forte, já que constitui o Congresso Nacional.

É bem fácil constatar as razões que levam deputados e senadores a trabalhar em prol dos endinheirados e contra os pobres: 60% dos deputados federais e 70% dos senadores declararam patrimônio superior a 1 milhão de reais ao Tribunal Superior Eleitoral nas eleições de 2022.

Boa parte dos congressistas possui renda adicional ao salário (39,3 mil) entre 20 mil e 100 mil. Vinte e cinco por cento deles declaram-se donos de fazendas, construtoras, transportadoras, clínicas, escolas privadas, rede de lojas e outros. O restante são profissionais liberais bem-sucedidos, pastores, bispos, apresentadores de rádio e TV.

Uma análise combinada de patrimônio, profissão e nível de instrução revela que a absoluta maioria dos parlamentares pertence à classe alta ou à classe média alta. Os representantes da faixa mais vulnerável da sociedade são numericamente irrelevantes.

As casas legislativas, por conseguinte, não refletem a disparidade de renda – e de oportunidades – da sociedade brasileira, portanto não estão aptas a representá-la. A sub-representação dos pobres no Parlamento mata a luta pela igualdade. A única solução é que o nosso sistema político e eleitoral deixe de constituir uma barreira à ascensão política de representantes da classe baixa.

Aumenta o movimento nos aeroportos, e elite já pode invocar espírito de Danuza Leão

Foto: Mariene Bergamo / Folhapress

Por Paulo Henrique Arantes

Lula comemora, com razão, o aumento do movimento de passageiros nos aeroportos brasileiros nos primeiros meses de 2025. Foram 51 milhões de viajantes de janeiro a maio, um crescimento de 10% em relação ao mesmo período em 2024. Os dados constam do Relatório de Demanda e Oferta, da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Contagem regressiva para a gritaria da elite do atraso.

Os ricos que desde sempre viajaram de avião não toleram gente de classe média – ou ex-média baixa, digamos – lotando voos e aeroportos. São queixosos aqueles que, por exemplo, se manifestam contra coisas como isentar do Imposto de Renda quem ganha até 5 mil reais mensais por mês. “Patriotas” que reclamam de pagar imposto enquanto adotam sofisticadas técnicas de sonegação.

Pobre incomoda rico, apesar de fortunas serem construídas com a exploração do seu trabalho.

Recordar é viver. Lembremos Danuza Leão, irmã de Nara, colunista de jornalão, modelo de sucesso nos anos 1960 e que faleceu em 2022. Quando do primeiro boom nos aeroportos brasileiros, em 2012, ela sentenciou em O Globo: “Ir a Nova York perdeu a graça. Agora até empregada doméstica pode ir”.

Naquela época a imprensa mainstream, com um tom de desdém de fazer inveja a Odete Roitman, noticiava que “Classe C descobre os aeroportos”. Sim, para incômodo da elite do atraso, muitos trabalhadores trocavam os pisos engordurados das rodoviárias pelas superfícies marmóreas dos aeroportos.

Danuza não estava sozinha. Arnaldo Jabor era outro usuário frequente da ironia dirigida à chamada “nova classe média” e seus hábitos de consumo. O inefável Diogo Mainardi, então numa Veja em sua pior época, via o aumento do consumo popular como “vulgarização”.

E, claro, os economistas neoliberais ainda hoje presentes na mídia tratavam o aumento do consumo como “fruto de um populismo irresponsável”, decorrente de “um endividamento excessivo”. Quase nada mudou: Lula segue melhorando a vida do povo e a elite do atraso protestando contra qualquer sintoma de que o país avança, pouco que seja, na direção de mais igualdade.

Rei do Ovo personifica a elite do atraso

Por Paulo Henrique Arantes

Ricardo Faria, dono da Global Eggs, sediada em Luxemburgo, alcunhado Rei do Ovo, é o retrato perfeito daquilo que o sociólogo Jessé Souza chamou de “elite do atraso”. Personifica o sujeito habilidoso em ganhar dinheiro, mas desprovido de inteligência e sensibilidade para quaisquer outros aspectos da vida em sociedade, incapaz de olhar além do próprio êxito financeiro.

O Rei do Ovo remunera mal seus empregados – um operador de produção de suas granjas ganha em média R$ 1.670,00 mensais. Como legítimo membro da elite do atraso, não gosta de pagar impostos no Brasil e transferiu seu domicílio fiscal para o Uruguai. Como seus pares, acha que o Estado brasileiro interfere demais nos negócios, especialmente no campo trabalhista. Obviamente, deve detestar pagar coisas como 13º salário e férias. O FGTS deve lhe causar arrepios.

Faria é um dos empresários mais ricos do Brasil, dá-nos conta a repórter Isabela Jordão, da direitista revista Oeste. À Folha de S. Paulo, o Rei do Ovo disse que compra uma empresa por mês. É, lógico, um defensor da informalidade no trabalho e nunca a relacionou com a precariedade.

Eis uma de suas frases sobre o ambiente de negócios no Brasil: “Operar no Brasil é comprar uma canoa, pegar o remo e começar a remar rio acima. Aí surge uma árvore caída, e dali a pouco você uma cobra, um jacaré”. Brilhante.

É um idólatra da meritocracia – bidu! -, considerando-se ele próprio um modelo de sucesso pelo esforço pessoal. Claro, esforço impulsionado pelo pai médico e a mãe engenheira, que lhe proporcionaram um intercâmbio nos Estados Unidos aos 15 anos e outros empurrõezinhos.

O Rei do Ovo, na verdade, talvez não passe de um baba-ovo. Baba-ovo de um país hoje xenófobo, como os Estados Unidos de Donald Trump, para ele modelo em termos de relações de trabalho, cuja economia foi construída pelos imigrantes ora expulsos.

Financiador de candidaturas parlamentares como as de Kim Kataguiri (União/SP) e Marcel Van Hattem (Novo/RS), o Rei do Ovo causaria surpresa se visse com bons olhos o Bolsa Família, que para ele financia vagabundos. De fato, a elite do atraso, da qual Faria é prócer, age como se desconhecesse os resultados do programa inclusivo, aplaudido e copiado mundo afora.

Certamente, Ricardo Faria não se comove – é provável que se incomode – com as recentes mudanças morfológicas na estrutura da sociedade brasileira, em parte desfeitas após o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, em parte retomadas com o terceiro mandado de Lula.

O Rei do Ovo, a fazer jus à elite da qual é prócer, a elite do atraso, jamais reconhecerá a importância de se construir um país de oportunidades àqueles que não podem vestir a fantasia da meritocracia. Nunca foi tão verdadeiro o diagnóstico de Jessé Souza, extraído do livro “A Tolice da Inteligência Brasileira – Ou Como o País se Deixa Manipular pela Elite”:

“Na realidade essa classe (chamada de ‘nova classe média’) não possui quaisquer dos privilégios de nascimento das classes médias e altas. Ao contrário, seus membros típicos têm que trabalhar desde cedo, frequentemente já aos onze ou doze anos, e conciliar escola e trabalho. Muitos são também superexplorados com jornadas de trabalho de até catorze ou quinze horas por dia, acumulando mais de um emprego e fazendo bicos de fim de semana, e, quando têm acesso ao ensino superior, o fazem em universidades privadas, cuja qualidade é muito inferior às universidades públicas, estudando à noite ou fazendo cursos à distância”.

São as pessoas descritas no parágrafo acima que, para o Rei do Ovo, deveriam se deixadas à própria sorte pelo Estado, livres para “empreender”.   

A balela do fim da Cracolândia, bandeira do candidato Tarcísio

Por Paulo Henrique Arantes

Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes não acabaram com a Cracolândia, porque não se resolve a complexa questão do tráfico-consumo de drogas mandando a polícia baixar o pau nos usuários e espalhando-os pela cidade. Já é farto o noticiário sobre mini-Cracolândias distribuídas por São Paulo, bem como os relatos sobre o tipo de abordagem que vem sendo praticado pelos policiais para dispersar as aglomerações.

É notório que a polícia não possui capacidade – talvez nem vontade – para prender traficantes, não os chefes, de modo a ferir de morte o crime organizado que abastece as Cracolândias grandes ou pequenas. O PCC é mais poderoso e articulado que as polícias civil e militar, seus membros são melhor remunerados. A polícia prende meia dúzia de pequenos traficantes por mês, o que não representa nada. Nem se fale dos policiais cooptados pelo tráfico, os quais garantem a intocabilidade de certas biqueiras.

Nunca houve um conjunto de ações coordenadas de saúde e segurança envolvendo a questão das Cracolândias. Todos os prefeitos e governadores recentes prometeram acabar com ela. João Doria, em determinado momento, afirmou de modo pomposo: “a Cracolândia acabou”. Ele fizera uma intervenção no então reduto e dispersara os usuários por uma semana.

O governador Tarcísio, candidato da mídia mainstream a presidente da República, de mãos dadas com o prefeito Nunes, aprofunda uma catástrofe social, higieniza com violência guetos de dependentes químicos no centro da cidade para desenhar seu cartão postal. Pouco lhe importa se essa população adoecida e vulnerável vai praticar seu vício em alguma quebrada da periferia.

Além de um projeto audacioso e complexo de saúde e apoio social para salvar os dependentes, é preciso desmontar as células do crime organizado que os escravizam. Claro, se a intenção for resolver de fato o problema.

São Paulo tem mais de 90 mil moradores de rua, segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais.  Entre essa população encontram-se tanto o sujeito que empobreceu e ficou sem ter para onde ir quanto aquele que sofre de transtornos mentais e perdeu a família. E há os usuários de drogas. Não se pode adotar o mesmo procedimento para cada uma dessas pessoas, é necessária uma política social flexível para ajudar seres humanos com necessidades diferentes.

A droga segue o dinheiro, por isso não há muita droga na África e uma quantidade enorme nos Estados Unidos. A droga, em várias formas, começou a abundar há cerca de 50 anos na Capital e no Interior paulistas, onde o dinheiro se fez presente. Em São Paulo, como no mundo, quem tem mais dinheiro usa mais droga, só que o filhinho de papai dos Jardins não é incomodado pela polícia.

Se o leitor for a favelas ou regiões mais pobres da cidade de São Paulo, verá um consumo de droga muito grande, mas nesses locais a pessoa usuária participa da distribuição da droga, do crime organizado, como forma de sustentar o seu próprio consumo. Vira criminosa.