Imparcialidade jornalística não é dar voz a charlatães

Por Paulo Henrique Arantes

Parte da imprensa brasileira mostra-se despreparada para lidar com temas científicos com o rigor que a ciência exige. Não se pode praticar o equilíbrio que norteia o jornalismo – ouvir “os dois lados” – quando numa ponta estão consensos globais e na outra, gritaria de charlatães. O papel da mídia em tais casos é desmascarar os picaretas, não lhes dar voz.

O “Estadão”, em sua edição do último domingo (18), reproduzida em seu portal na internet, estampou em manchete que “Tratamento precoce racha organizações e faz médicos irem ao Ministério Público contra o CFM”. No correr da matéria, enfatiza-se a divisão da classe médica entre aqueles que seguem o Conselho Federal de Medicina, para quem o médico tem total liberdade de prescrever, e os que cumprem a orientação da Associação Médica Brasileira (AMB), entidade que defende o banimento dos remédios que compõem o famigerado “kit covid”, como cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina. 

Os representantes do obscurantismo não merecem tanta condescendência. Apesar de a reportagem citar estudos que desacreditam o “kit covid”, o leitor pode ficar em dúvida.

Peso similar às duas “opiniões” não se justifica, e por uma razão simples: a ineficácia de “tratamento precoce” contra a Covid-19 com quaisquer desses medicamentos está devidamente provada, bem como as graves consequências que seu uso pode acarretar. O CFM, por medo, corporativismo, incompetência ou politicagem, posiciona-se de modo oposto ao que assinalou a Organização Mundial de Saúde. Quem poderia adotar tal postura de confronto, por congregar as sociedades médico- científicas brasileiras, é a AMB. Em consonância com a OMS, a entidade condena o “kit”.

A medicina não tem dúvidas quando à impropriedade dessas drogas contra o coronavírus. A ineficácia delas está demonstrada por dezenas de estudos publicados nas mais importantes revistas científicas do mundo. Enquanto isso, o Brasil é ridicularizado no Parlamento francês por causa da cloroquina e o “Estadão” enfatiza o “racha” médico, como se os dois lados merecessem o mesmo respeito. Não merecem, pois um deles contribui com a morte por teimosia e ignorância.

“Sem dúvida, há uma falsa polêmica. A ineficácia da cloroquina, entre outros remédios que estão sendo prescritos, já foi comprovadamente atestada por diversos estudos científicos. Não só a ineficácia como também o perigo que ela representa para pacientes que tenham, por exemplo, propensão a problemas cardíacos, além de outros efeitos colaterais muito danosos”, afirma Fernando Aith, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Direito Sanitário.

“É triste ver como tudo se judicializa no Brasil, inclusive conflitos que não deveriam existir entre essas sociedades médicas, as quais deveriam estar à frente da busca das melhores soluções”, adverte Aith. 

O professor lembra que o próprio médico francês Didier Raoult, “inventor” do uso da cloroquina contra Covid-19, veio a público para se desculpar pela bobagem cometida, reconhecendo a ineficácia do fármaco nos procedimentos em pacientes com a doença e sua indicação como tratamento preventivo.

Para piorar a sinuca em que se veem pessoas diagnosticadas com Covid-19, médicos obtusos contam com apoio de autoridades públicas. É o caso do prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga (Republicanos), que além de distribuir “kits Covid” nas unidades municipais de saúde e recomendar sua prescrição, divulgou uma “pesquisa”, livre de qualquer critério científico, demonstrando falsamente que 99% dos pacientes contaminados por coronavírus que tomaram a bomba farmacológica curaram-se. O Ministério Público, é claro, já foi para cima do prefeito.

Os médicos que trabalham na rede municipal de Sorocaba evitam dar entrevistas. Um deles, ouvido pelo Brasil 247 sob condição de anonimato, disse que muita gente chega ao hospital influenciada pela propaganda enganosa da Prefeitura e pede a prescrição do “kit Covid”. Porém, nos últimos dias, percebe-se que a mentira do prefeito Manga tem pernas curtas: os pacientes cada vez mais questionam os profissionais que prescrevem o kit falacioso.

Sorocaba, cidade paulista de quase 700 mil habitantes, vê seu principal jornal, o centenário “Cruzeiro do Sul”, bem como as retransmissoras locais da Globo e do SBT destacarem, a exemplo do “Estadão”, a “polêmica” em torno do “kit Covid”. Mais um caso da imprensa que, ingenuamente, ouve “os dois lados”, mesmo que um deles negue a ciência.

Na verdade, esse comportamento da mídia é notado desde o início da pandemia. Em março de 2020, a “grande imprensa” repercutia falas do medieval Osmar Terra “explicando” a imunidade de rebanho, conceito rechaçado pela totalidade dos epidemiologistas, entre outras barbaridades. 

Há amplos estudos demonstrando a incorreção da mídia na abordagem dos temas científicos relacionados com a pandemia de covid-19, um deles publicado por especialistas brasileiros na prestigiosa revista Frontiers in Communication.

O país do SUS não merecia esta tragédia

Por Paulo Henrique Arantes

Vivemos o ano 2 da tragédia pandêmica, neste momento pior no Brasil do que em outros países. Se aos heróis e às heroínas à frente dos serviços de saúde no mundo  todas as homenagens devem ser rendidas, aos brasileiros atuantes nessa área a canonização é pouco. No Dia Mundial da Saúde, somos donos da mais acentuada curva de contágios e campeões disparado de mortes por Covid-19. Aqui, a coisa caminha no patamar de 4 mil mortes diárias.

Pressionados pela explosão de casos graves e pela falta de leitos de UTI, insumos para intubação, em alguns casos até falta de oxigênio, médicos e médicas veem-se na situação da protagonista de “A Escolha de Sofia”, filme de Alan J. Pakula. A personagem-título, magistralmente interpretada por Meryl Streep, tem de decidir qual filho entregar aos carrascos nazistas.

A imunização da população brasileira caminha a passos de tartaruga em razão da cegueira do Governo Federal. O orçamento do Ministério da Saúde para 2021, inacreditavelmente, é de 125,8 bilhões de reais, menor que o de 2020, de 160,9 bilhões de reais, e muito próximo do de 2019, de 122,2 bilhões de reais, quando não havia pandemia.

A tragédia brasileira, que seria maior se não contássemos com o Sistema Único de Saúde, certamente seria menor se o SUS recebesse financiamento adequado à sua relevância, ainda mais em tempo de pandemia e caos hospitalar. Na verdade, o mais abrangente e inovador modelo de atenção pública à saúde vem sendo subfinanciado há tempos. Sobreviverá?

“O SUS resistirá, sem dúvida. Paradoxalmente, a pandemia produziu um resultado que há muito é buscado pelos defensores do sistema: o reconhecimento do seu valor por amplos segmentos sociais. Segmentos que até alguns anos eram indiferentes à sua sorte, atualmente têm outra percepção do sistema”, afirma Paulo Capel Narvai, professor-titular sênior da Faculdade de Saúde Pública da USP.

“Também entre sindicalistas e lideranças de movimentos sociais a imagem do SUS mudou para melhor. Tais setores sempre o defenderam, mas, por vezes, timidamente. Agora, não. Há amplo reconhecimento de que o SUS foi e segue sendo de enorme valor no enfrentamento da pandemia. A percepção mudou”, constata Narvai. “Fotos de brasileiros e brasileiras dos mais longínquos rincões sendo vacinados sobre barcos, cavalos, acamados em casas modestas, circulam nas redes sociais e desencadeiam reações de reconhecimento e gratidão aos profissionais do SUS”, destaca.

A população de fato reconhece o valor do SUS e seu papel na proteção sanitária, mas isso não se expressa nos orçamentos dos municípios, dos Estados e, sobretudo, do Governo Federal, adverte Narvai. “O Conselho Nacional de Saúde vem denunciando a falta de recursos e os cortes orçamentários impostos pela Emenda Constitucional 95 (Lei do Teto), de 2016. O cenário é gravíssimo e todos os setores interessados em manter no Brasil um sistema de saúde como é o SUS devem se empenhar na reversão dessa situação”, concita.

Graduado em Direito pela USP, Fernando Aith é especialista em Direito Sanitário e professor da Faculdade de Saúde Pública da mesma universidade. Ele lembra que o SUS, criado pela Constituição de 1988, possui “um arranjo, uma engenharia institucional e jurídica extremamente sofisticada”, que unifica todos os serviços públicos de saúde da União, dos Estados e dos municípios. Justamente por isso, “mesmo quando a União joga contra o SUS, como está acontecendo agora, você tem Estados e municípios a usar, a defender e a desenvolver o sistema”.

Como Narvai, Aith aposta na resiliência do SUS: “O Sistema Único de Saúde certamente está sofrendo um abalo forte, um subfinanciamento cada vez mais crônico, mas resistirá porque é uma instituição constitucional muito sofisticada, bem organizada e que inclusive nos protege federativamente – quando um ente federativo falha, ainda há dois entes federativos para dar conta do recado”.

O modelo do SUS é reconhecido mundialmente. Os mesmos governantes que, mundo afora, sabem da eficiência que o sistema descentralizado da saúde pública brasileira pode representar, sabem também que o governo brasileiro confronta a ciência e praticamente não dialoga.  Líderes de 23 países e a OMS reuniram-se no último dia 30 de março para traçar as primeiras linhas de um tratado global contra futuras emergências sanitárias. O pacto, que aperta as regras de compartilhamento de informações, visa a garantir o acesso universal e igualitário a vacinas, medicamentos e exames durante tempos de crise. O Brasil não participou do encontro.