“A tropa da PM em São Paulo está muito bem disciplinada”. A afirmação é do coronel PM reformado José Vicente da Silva Filho, que foi secretário nacional de Segurança Pública (governo Fernando Henrique Cardoso).
José Vicente, de carreira reverenciada na PM paulista, comentou para o Brasil 247 a manifestação do coronel aposentado Homero Cerqueira, que em suas redes sociais atacou o STF e concitou a população para os atos contra a democracia que bolsonaristas programam para 7 de setembro.
“Coronéis aposentados, como eu, mandam menos que cabos da ativa. Eles não têm influência sobre a tropa ativa, que está muito bem disciplinada”, disse José Vicente.
Mais cedo, o governador João Dória afastou o chefe do Comando de Policiamento do Interior-7, Aleksander Lacerda, que também fez manifestações contra o STF.
Sobre o caso, assim analisou José Vicente: “O coronel Aleksander é da ativa, suas manifestações são inaceitáveis por ofender autoridades, uma delas seu chefe, o governador. Mas é o único da ativa, e essas manifestações não influenciam automaticamente a tropa”.
Graduado em Psicologia e mestre em Psicologia Social pela USP, José Vicente da Silva Filho já prestou consultoria em segurança para o Banco Mundial, a Febraban, a Fiesp e os governos de São Paulo, Pernambuco, Bahia, Amazonas e Acre.
A Medida Provisória 1.045 / 2021, que a Câmara aprovou na terça-feira (10), está prestes a virar lei e é bem pior do que o noticiado pela imprensa. Se o texto original, enviado pelo governo, já era um tanto duro para os trabalhadores, sob a justificativa de que geraria empregos perdidos na pandemia, o material reciclado pelo relator Christino Áureo (PP-RJ) beira a crueldade. Redução de jornada e salário e suspensão de contrato compõem a face mais light da possível futura lei.
Ministério Público da União, Ministério Público do Trabalho e Procuradoria Geral do Trabalho contestaram a medida, enfatizando que o texto viola a Constituição e jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.
Para o procurador do Trabalho Italvar Medina, além das flexibilizações da CLT que favorecem o subemprego, a MP fere de morte o combate ao trabalho escravo no país. “Primeiro, ela busca atribuir poderes de fiscalização das relações de trabalho exclusivamente aos auditores fiscais, o que atingiria atribuições do Ministério Público do Trabalho. Paralelamente, ela limita a possibilidade de os auditores fiscais lavrarem autos e imporem multas por infração à legislação trabalhista”, explica Medina.
Além disso, diz o procurador, a MP “submete a possibilidade de anulação dos autos de infração de auditores fiscais do trabalho a um conselho que não tem natureza técnica e que seria composto também por empregadores”.
A MP em questão ainda tenta impedir que o trabalhador postule qualquer verba por adoecimento e sintomas de doença que surjam posteriormente ao seu vínculo empregatício, mas que tenham sido adquiridos durante a vigência do contrato de trabalho. Não bastasse, retira o caráter salarial de benefícios como o vale-alimentação.
“Quando foi editada pelo presidente da República, a MP 1.045 instituiu a possibilidade de suspender contratos ou reduzir jornadas e salários mediante o recebimento de um benefício. Na conversão em lei, o relator na Câmara inseriu vários dispositivos novos estranhos ao objeto originário da MP, o que inclusive é proibido pelo regimento interno da própria Câmara e por jurisprudência do STF”, adverte Medina.
Christino Áureo criou dois novos programas. Um deles, denominado Priori, prevê a contratação de jovens de 18 a 29 anos e de maiores de 55 anos a custos menores. “Essas pessoas terão menos direitos, alíquotas menores de FGTS, uma indenização sobre o saldo de FGTS menor em caso de dispensa e a possibilidade de o terço das férias e o 13º Salário serem pagos parceladamente mês a mês, o que contraria a finalidade dessas verbas”, observa Medina.
Outra invenção do deputado do PP é o programa Requip, ainda pior que o Priori, porque se destina prioritariamente a jovens vulneráveis praticamente sem qualquer direito trabalhista, recebendo uma bolsa menor que um salário mínimo. Segundo Italvar Medina, a justificativa é de que seria fornecida a esses jovens uma formação teórica, algo que já é plenamente alcançado pela aprendizagem profissional. “Esse programa, na verdade, retira todo tipo de proteção trabalhista, e não garante direitos previdenciários aos contratados dessa forma, o que contraria frontalmente a Constituição”, denuncia o procurador do Trabalho.
Calote ou pedalada. E mais que isso: desespero. Assim está sendo vista a intenção do governo de adiar e parcelar o pagamento de suas dívidas precatórias com empresas e pessoas físicas que vencem em 2022. Os recursos não gastos com precatórios seriam usados, entre outras coisas, para bancar um valor mais alto de remuneração do Bolsa Família, de 300 reais. Para tanto, é preciso mudar a Constituição.
“A ideia mostra o desespero do governo para tentar montar um programa social tendo à frente o teto de gastos. Além de ser uma estratégia meramente eleitoreira – pois se fosse para se preocupar com esse tema, que é essencial , deveria ter sido feito no início do governo – mostra que eles estão desesperados para burlar o teto que eles mesmos inventaram”, firma o economia Nélson Marconi, professor da Fundação Getúlio Vargas.
Segundo o ministro da Economia, Paulo Guedes, o parcelamento de parte dos precatórios em até 10 anos, a ser obtido via Proposta de Emenda Constitucional, não constitui calote. “Devo, não nego; pagarei assim que puder”, afirmou nesta terça-feira (3), como se negociasse fiado com o dono do boteco.
Para alcançar o valor de 300 reais, o Bolsa Família consumiria integralmente a folga hoje estimada pela Economia sem furar o teto de gastos, algo em torno de 30 bilhões de reais.
Esta é a opinião do médico sanitarista Gonzalo Vecina, dita ao Brasil 247, sobre o anúncio do governador de São Paulo, João Doria, de que a partir de 17 de agosto não haverá mais restrições ao número de pessoas em ambientes públicos, bares, restaurantes, lojas e tudo mais:
“Se a variante Delta fizer aqui o que está fazendo na Europa e na Flórida, ele vai ter que voltar rapidinho atrás. Não se trata de ser um adivinho, e sim de ver os fatos.”
Com o avanço da vacinação em São Paulo, Doria já autorizou a redução do toque de recolher noturno para a partir da meia-noite – até agora, a medida valia a partir das 23h, até às 6h do dia seguinte. Por enquanto, há 15 casos diagnosticados no Estado de São Paulo de pessoas com Covid-19 provocada pela variante Delta do vírus.
Nos Estados Unidos e na Europa, a nova cepa já faz as autoridades retrocederam com as medidas de flexibilização das normas de distanciamento. A Delta é mais contagiosa que as demais variantes do coronavírus, está demonstrado.
Quem não se queixa de pagar impostos? A reclamação é livre, mas não pagar significa recusar-se a participar da construção da nação, a despeito da qualidade dos serviços públicos dados em retorno. O problema maior surge quando o sistema tributário pesa mais sobre quem tem menos condição contributiva – os mais pobres. É o caso brasileiro. A injustiça arrecadatória nacional revela-se por diversas faces, seja a da infinidade de impostos indiretos – incidentes sobre o consumo, e que oneram pelos mesmos percentuais todas as classes sociais –, seja a do caráter pouco progressivo com que se taxa a renda, que o projeto de lei em apreciação no Congresso não corrigirá.
Quase ninguém discorda da necessidade de se simplificarem os tributos sobre o consumo no Brasil. Porém, há uma questão que gera debates acalorados entre especialistas: não é consenso que se possa dar caráter progressivo a esse tipo de imposto. De todo modo, a simplificação, que constava do projeto elaborado por Bernard Appy e bastante debatido em 2018, está passando longe do debate atual.
A tributação sobre consumo é voltada à arrecadação, que por sua natureza é regressiva, onerando mais pesadamente aqueles que têm menos poder aquisitivo. Se não houver um nível correto de incentivo fiscal, como isenção ou não-tributação de bens de primeira necessidade, qualquer imposto sobre consumo será regressivo.
Especialistas como Maria Helena Zockun, diretora de Pesquisa da Fipe-USP, considera os tributos sobre o consumo naturalmente regressivos, mas não acha que a isenção de itens básicos resolva o problema. Os governos reduziriam demais a cesta básica, mas ao fazerem isso desoneram tanto para o pobre quanto para o rico, o que não resolveria nada.
A origem da regressividade dos impostos indiretos, entende Zockun, é a extrema desigualdade de renda do país, que leva a um perfil de consumo muito diferenciado das famílias ao longo de sua estrutura de renda.
Para Vanessa Canado, integrante do grupo de Appy, o CCiF, e que deixou recentemente a equipe de Paulo Guedes, a principal causa do caos tributário é a tributação do consumo. No Brasil, ela aponta, vigoram três impostos da União (PIS, Cofins e IPI), o ICMS, que é dos estados, e o ISS, dos municípios. Há uma fragmentação não só entre os entes federativos, mas uma fragmentação da base tributária. Então, em vez de tributar tudo que é consumido, pede-se para o município tributar serviços, o estado tributar mercadorias e o Governo Federal tributar faturamento e produtos industrializados. No dia a dia, é muito difícil fazer essa segregação, entende Canado.
Por conta desse “caos”, segundo ela, as empresas ficam numa disputa por classificação fiscal, para saber o que estão fazendo, o que têm que pagar, e essa diversidade de entes federativos que cobram faz com que haja múltiplas regras.
Economistas mais progressistas, contudo, observam que a unificação de competências e a exclusão de estados e municípios ofendem o pacto federativo, porque retirariam dos estados e dos municípios a capacidade de obter receita de forma autônoma. Além disso, retirariam dos entes federativos a possibilidade de fazer política tributária com os impostos que são de sua competência, e que deixarão de ser. Elimina-se a capacidade de se utilizar o tributo para fins de desenvolvimento regional, econômico e social.
A proposta do governo é de taxar dividendos em 20%. No Brasil e na Estônia, e em nenhum outro país do mundo, a distribuição de lucros e dividendos a acionistas de empresas não é taxada. A benesse foi concedida em 1995 pelo governo Fernando Henrique Cardoso sob a justificativa de possuir o condão alavancar investimentos. A questão parece simples de resolver: se é injusto como está, taxe-se. Se é correto, mantenha-se a isenção. Mas há questões delicadas envolvidas.
Na verdade, o modelo de tributação dos lucros da empresa pode ser estruturado de diversas formas. A mais comum é o sistema misto, pelo qual tributa-se o lucro quando distribuído à pessoa física e, antes, tributa-se a empresa. Dessa forma, pode-se onerar menos a empresa em nome do reinvestimento. O modelo, contudo, tem armadilhas: as pessoas podem não distribuir os lucros e, aí, não pagam a segunda parte do imposto. Porém, se não há divisão e tributa-se tudo na empresa, como acontece no Brasil, compromete-se a capacidade de reinvestimento da empresa e o país sai perdendo do ponto de vista competitivo.
Quem defende a não tributação de lucros e dividendos diz que a pessoa jurídica já paga, então ocorreria bitributação. E quem defende a tributação de lucros e dividendos diz caminhar no sentido da justiça, porque as pessoas físicas que mais recebem não estariam sendo tributadas, o que configuraria caráter regressivo. O bom-senso nos leva a sermos favoráveis a algum nível de tributação de lucros e dividendos, desde que haja um ajuste na alíquota da pessoa jurídica. A questão simbólica também é importante, e também a efetivação da justiça tributária.
Dá certo alívio saber que temos no Brasil pessoas como Laurentino Gomes, que foi entrevistado no Roda Vida da segunda-feira 19. Sim, porque se trata de um escritor, e jornalista, que tem a humildade de não se dizer historiador, mas demonstra enorme capacidade de elucidar a História do Brasil. Lucidez e simplicidade marcam seus escritos e suas falas.
“Eu faço livros-reportagem. São livros de não-ficção, eu não invento diálogos ou cenários. Tudo que eu escrevo nos meus livros é baseado em fontes, e geralmente fontes credenciadas pela academia, mas, na hora de escrever, eu uso uma linguagem literária e jornalística. São instrumentos que a comunicação desenvolveu para atrair e reter a atenção do leitor”, disse Laurentino a este jornalista em 2013.
Registre-se que, talvez ao pesquisar para sua coleção “Escravidão”, Laurentino mudou um pouco de opinião. Em 2013, ele parecia nutrir simpatia pelo “charme” da escravidão descrito em “Casa Grande & Senzala”, e assim falou a este repórter: “O livro de Gilberto Freyre mostra uma composição da sociedade brasileira pela sua variedade, pela sua riqueza cultural, pela contribuição africana, pela convivência entre o senhor branco e os seus escravos, que é maravilhosa. Ele quebra os muros entre a Casa Grande e a senzala”.
Hoje, Laurentino Gomes demonstra ter a exata noção de como e por quais razões chegamos a 2021 como um país preconceituoso e desigual – um país racista. Ele também desnuda em sua nova obra toda a crueldade com que os senhores tratavam seus cativos no Brasil. Não se pode pensar dessa forma e exaltar Gilberto Freyre. Hoje, Laurentino bate duro no nosso racismo estrutural e nos seus perpetuadores.
Por Laurentino, o atual, fica-se sabendo que os negros que aqui chegavam em navios negreiros, provenientes de diferentes localidades da África, não eram mera força física a serviço de fazendeiros. Muitos tinham expertise em mineração, por exemplo, e foram os verdadeiros responsáveis técnicos pelo ciclo do ouro, não os bandeirantes.
Sabe o Laurentino atual que o negro brasileiro ainda não se livrou das correias. Como diz o velho samba da Mangueira, “pergunte ao Criador quem pintou esta aquarela, livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”.
O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública “A Violência contra Negros e Negras no Brasil” informa que de cada 100 pessoas assassinadas no país 75 são negras, e que os homicídios de negros cresceram 33,1% de 2007 a 2017, enquanto os de não-negros aumentaram 3,3%. Além disso, 66% das mulheres vítimas de homicídio em 2017 eram negras. E, entre 2017 e 2018, 75,4% das pessoas mortas em intervenções policiais entre 2017 e 2018 eram negras.
A violência decorrente do racismo estrutural e da profunda desigualdade social não se concretiza apenas em homicídios e outros tipos de agressões físicas. A pandemia do novo coronavírus também alveja com mais força a população negra. Já se sabe que as pessoas negras morreram e morrem muito mais de Covid-19, não por fatores biológicos, mas por sua condição de vida, pois boa parte delas vive em locais insalubres, onde é impossível manter distanciamento umas das outras.
Outra prova de que a escravidão na acabou quando da promulgação da Leu Áurea é que negros e negras só foram admitidos na educação formal na década de 1940, fator gerador de um déficit educacional que por si só já deveria justificar cotas escolares e universitárias.
Somos um país racista, em que elites fazem o que podem para manter negros e negras fora das esferas decisórias, quando não fora das esferas civilizadas. Gilberto Freyre enxergou um glamour de romance juvenil na escravidão brasileira. Laurentino Gomes percebeu a tempo que, na verdade, o glamour nunca existiu e os negros ainda lutam para não serem tratados como sub-humanos.
A luta dos profissionais de saúde contra a pandemia de Covid-19 e o negacionismo governamental não contou com um apoio que poderia ter sido decisivo a seu favor e a favor da vida de milhões de brasileiros. As operadoras de planos de saúde não demonstraram a mínima sensibilidade diante da gravidade da nova realidade sanitária. O setor de saúde suplementar não esboçou sequer uma iniciativa em sentido colaborativo face à excepcionalidade do momento, permanecendo socialmente inerte e de olhos voltados aos aspectos mercantis da sua prestação de serviços.
“Os convênios médicos poderiam ter sido mais proativos, por exemplo quanto à testagem do coronavírus, tema que gerou bastante polêmica logo no início da pandemia, porque a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) incluiu no seu rol de procedimentos apenas o PCR, não os testes sorológicos. Isso foi objeto de uma ação civil pública e, posteriormente, de uma audiência pública, depois da qual a Agência determinou a inclusão dos testes sorológicos”, lembra Marcos Patullo, advogado especializado em direito à saúde e pesquisador do Cepedisa (Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário).
“A grande maioria dos testes de Covid não foi paga pelos planos de saúde”, denuncia Patullo. Até outubro de 2020, apenas 7% dos testes de Covid-19 tinham sido feitos pelos convênios, observa, enquanto as negativas de realização de testes lideravam as reclamações de pacientes à ANS. “O setor de saúde suplementar poderia ter atuado de uma forma mais presente na testagem, não só facilitando o reembolso desses exames, mas principalmente facilitando o acesso do beneficiário ao teste, sem usar de negativas injustificadas”, acusa.
Patullo afirma conhecer casos de pacientes com dificuldade de encontrar o teste de Covid-19 na rede credenciada do seu convênio médico, além de planos que exigiam relatório médico minucioso para efetuar a testagem, conduta que impede, na prática, que o beneficiário faça o exame, que constitui procedimento de urgência.
“As operadoras deveriam ter consciência de que a saúde suplementar faz parte de uma política pública mais ampla, deveriam saber que são parte do sistema de saúde, a ser compreendido como um todo. O combate à pandemia deveria ter sido coordenado entre ações das áreas pública e privada”, avalia Patullo, que é doutorando do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.
Nesta semana, a ANS anunciou que os planos de saúde individuais terão reajuste negativo em 2021, ou seja, o preço da mensalidade cairá 8,19%, em razão da queda da sinistralidade (em 2020 houve aumento de 8,14%). Ocorre que menos de 20% dos convênios médicos no país são individuais. E os planos coletivos corrigem seus preços livres de qualquer regra. “Os contratos coletivos são desregulamentados, a ANS não controla o reajuste dos planos coletivos. Esse índice negativo que a Agência divulgou acabou escancarando essa realidade de dois mercados que atuam de formas completamente distintas: de um lado, o mercado de planos individuais, que é regulamentado; de outro, o mercado de planos coletivos, que atua de forma desregulamentada e que tem aplicado aumentos de 15%, 16% até 20% nas mensalidades”, explica Marcos Patullo.
Pela legislação, planos coletivos devem ter seus reajustes anuais negociados entre as partes contratantes com base em dois fatores: inflação (reajuste financeiro) e sinistralidade, que é medida por índice que relaciona as receitas com mensalidade auferidas e despesas realizadas com benefícios em um determinado período. Cabe à ANS definir os reajustes dos planos individuais e fiscalizar, não definir, a aplicação dos reajustes dos planos coletivos – no segundo caso, a condescendência da Agência com as operadoras é gritante.
A medicina suplementar parece constituir um setor acima da lei. Claro sinal disso é que deve 2,9 bilhões de reais ao SUS e não paga, como noticiado nesta semana pela imprensa. O ressarcimento ao SUS consta na Lei 9.656, de 1998, e foi criado como uma forma de equilibrar as contas do sistema público e evitar que as operadoras ganhem duas vezes: com as mensalidades pagas e sem gastar com o atendimento aos clientes quando estes recorrem ao sistema público.
É bonito ver Eliane Cantanhêde no “Em Pauta”, na Globo News de segunda a sexta-feira, às 20h, encadeando fatos que enredam Jair Bolsonaro e “seus” militares na trágica condução da saúde na pandemia, agora acrescida de evidencias de corrupção. A jornalista tem propriedade, contundência e fontes. Sabe verbalizar a indignação com o governo e antecipar fatos. Porém, no “Estadão” do domingo 11, exerce o vexatório papel de porta-voz da mais cínica elite brasileira, aquela cujas raízes estão fincadas em Higienópolis e que, de modo diverso do de Bolsonaro, é também golpista. E que recentemente parece agregar um componente cearense-coronelista.
Assim propõe a colunista o “Estadão”, conforme noticiado pelo Brasil 247: “Com Lula disputando a volta à Presidência, e com grandes chances, aprofundam-se a polarização e esvaem-se as soluções. Com Lula trocando a vaga na chapa pelo papel histórico de arquiteto e líder da união nacional, ele mantém sua capacidade poderosa de atrair votos, mas desanuvia-se o ambiente, tira-se a motivação de parte dos votos em Bolsonaro e abre-se a porta para uma nova era, inclusive na economia”.
Sim, Cantanhêde sugere que Lula, hoje com votos para vencer a eleição no primeiro turno, abra mão da cabeça de chapa em nome de uma união nacional que nunca existiu. Desnecessário lembrar que a colunista é idólatra de Sérgio Moro, foi voz enfática em favor dos crimes da Operação Lava Jato.
A estratégia de golpear Lula com o discurso da necessidade de despolarização e diálogo em torno de outro nome merece sonora gargalhada. Constitui um tipo de política à semelhança do que fazem especuladores do mercado – lança-se um não-fato como possibilidade real e espera-se para ver quem compra a ideia. É um jogo de vale-tudo bem ao gosto do Ciro Gomes de hoje, que já navegou por todas as tendências políticas imagináveis. E bem ao estilo dos velhos tucanos, junto aos quais Ciro já esteve em tempos não tão distantes.
Fernando Henrique Cardoso, certamente, é um ser humano e um político muito melhor do que Jair Bolsonaro, mas o verniz sociológico que o reveste apenas disfarça aquele a quem Tancredo Neves chamou de “o maior goela da política brasileira”. Professor Cardoso almoçou com Lula recentemente, reconheceu nele as qualidades dos democratas. Disse que, contra Jair, o apoiaria num segundo turno eleitoral. Mostrou-se politicamente correto, descendo um pé do muro em que sempre se colocou, mas ressalvando que seu partido busca um nome próprio para concorrer em 2022.
Na condição de “goela” e murista profissional, o professor Cardoso não dá ponto sem nó, e vê os olhos de Ciro Gomes mais dóceis que os de Lula. Oráculo dos ex-social-democratas convertidos em neoliberais, embora empole a voz para dizer “nunca fui neoliberal”, o professor Cardoso e os tucanos – sem nomes e sem votos – que ainda o reverenciam devem ser os primeiros a aplaudirem a sugestão da colunista Cantanhêde. A proposta dela mistura o estilo tucano com o cinismo do camaleão do Ceará.
De todo modo, o professor Cardoso e seus tucanos amestrados não teriam a ousadia de sugerir diretamente a Lula coisa tão canhestra. Ciro tampouco. Melhor é utilizar seus porta-vozes.
Augusto Aras pode estar deixando a condição de engavetador-geral da República após o presidente Jair Bolsonaro confirmar a indicação de André Mendonça, chefe da Advocacia Geral da União, para ocupar a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal pela aposentadoria de Marco Aurélio Mello.
Aras era cotado para o STF e, preterido por Bolsonaro, talvez dê início a uma gestão mais profícua na PGR, deixando de atuar sempre conforme os interesses do governo.
O parecer de Augusto Aras enviado nesta terça-feira (6) ao STF, em que aponta a inconstitucionalidade da privatização dos Correios, bate de frente com uma ideia do governo que foi verbalizada publicamente pelo próprio presidente.
Para o jurista Pedro Serrano, um comportamento de retaliação por parte de Aras não pode ser afirmado, mas “é possível”.
Ciro Gomes, Luiz Henrique Mandetta e Eduardo Leite debateram num evento do Centro de Liderança Pública em parceria com o jornal “O Estado de S. Paulo”, o impoluto “Estadão”. Sempre udenista, o jornalão faz das tripas coração para demonstrar que o Brasil estaria em sinuca ao ter que optar entre Lula e Bolsonaro em 2022.
O candidato ideal para os históricos conservadores talvez seja uma mistura dos três debatedores, alguém que aglutine as qualidades apregoadas pelo jornal que, em 3 de abril de 1964, estampou em manchete: “Democratas dominam toda a Nação”.
É preciso muito contorcionismo retórico, mentiras mesmo, para descrever Lula como o equivalente de esquerda a Bolsonaro. Ao contrário, não é necessário esforço para lembrar que o petista governou o país por oito anos e em nenhum momento emitiu uma palavra sequer em afronta à democracia e às instituições que lhe dão sustentação, reduziu a pobreza, ganhou respeito e admiração globais. Poderia ter obtido do Congresso carta branca para sua segunda reeleição, mas preferiu cumprir a Constituição. Jamais sobrepôs sua preferência pessoal às indicações corporativas para a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal.
Interessante ver “Estadão” e Globo (jornal, canais de TV e rádio) a bater duro no governo Bolsonaro. Como mea culpa não lhes integra o dicionário, ambos não explicam por que trabalharam tanto para que a Lava Jato encarcerasse o ex-presidente, de posse de quem não se encontrou nenhum centavo advindo de corrupção.
Os arautos da terceira via – comentaristas tucanos e tucanas, na maioria, cada vez mais afeitos à velha UDN – sofrem de carência de nomes, portanto apegam-se a potenciais náufragos eleitorais.
Ciro Gomes veste o moralismo de um Enéas – “meu nome é Ciro!”, logo bradará. Mandetta é bolsonarista arrependido. Eduardo Leite flerta com o progressismo ao assumir-se gay, mas terá de dizer com que cara apoiou um candidato a presidente francamente homofóbico, como já lhe cobrou Jean Willys. O governador gaúcho, além disso, terá de brigar com seu congênere paulista, João Doria, dentro do ninho tucano.
Sonho de consumo dos udenistas do Século XX I, Sérgio Moro está nos Estados Unidos a desfrutar daquilo que a Lava Jato lhe proporcionou – emprego muito bem remunerado fora do país e execração por seus pares da comunidade jurídica.
Depreende-se do cenário em tela que o udenismo, como sempre coberto pelo moralismo mais hipócrita, esforça-se para encontrar seu nome em 2022. Continuará esgoelando-se contra a corrupção – a dos outros – e urdindo golpes para compensar os votos que nunca teve.