A ordem é bajular

Por Paulo Henrique Arantes

O que nos incomoda? A lista deste jornalista é grande. Deixemos de lado a ignorância e a truculência, e vamos à pieguice. Bradar platitudes é hábito de muita gente, enaltecer valores óbvios e incontestáveis é a prática preferida de talvez sete entre dez de nossos convivas costumeiros. Certamente, foi o apego à pieguice que levou ao apogeu as palestras motivacionais que têm enriquecido tantos picaretas.

Quando Jair aparece em rédeas de contenção, diz pieguices em vez de belicosidades e burrices. A pieguice é uma das ferramentas retóricas do hipócrita. Tem o poder de acariciar mentes primitivas.

Não importa se uma tempestade perfeita está em vias de desabar sobre nós, mas sim que o amor existe e morreremos abraçados. É dose.

A honra cavalheiresca é filha da arrogância e da tolice, escreveu Arthur Schopenhauer, filósofo alemão que primou pela não-pieguice e por ridicularizar os bajuladores, todos intrinsecamente piegas. Eles são muitos, diria Nélson Rodrigues a exemplo do que disse dos idiotas.

Notem o leitor e a leitora as rodas de bajuladores ao redor de Jair em eventos e aparições públicas. Não são bajuladores requintados – sim, até para bajular é preciso talento e aprendizado. Em tempos outros, os aduladores do poder costumavam demonstrar alguma sofisticação, mostrar conhecimento técnico e até expor divergência pontual para, assim, serem considerados sinceros e autênticos pelo chefe – eis um tipo de bajulação subliminar que costumava dar resultado.

Os puxa-sacos atuais do poder são indiscretos e pouco criativos. Paulo Guedes, por exemplo, para se manter no cargo jogou no lixo todos os seus aprendizados na Escola de Chicago e falou com todas as letras: “O presidente sempre joga dentro das quatro linhas. Há um script escrito para colocá-lo no papel de golpista. Ele é um democrata”.

O bajulador-raiz, como Guedes, não se preocupa em demonstrar autonomia intelectual para o público externo. A adulação ao chefe se concretiza mediante manifestações públicas que certamente podem render um “obrigado” dentro do gabinete no dia seguinte, mas se for por mensagem de WhatsApp já estará ótimo. A permanência no cargo está garantida.

A bajulação – sempre de mãos dadas com a pieguice – por interesse econômico imediato é outra modalidade. Luciano Hang é um bajulador-raiz da categoria “retorno em espécie”, digamos. E se generais chegam a adular capitães, nada mais precisa ser dito a respeito destes tempos.

Quadro de escassez hídrica se agrava a cada dia, alerta meteorologista do Cemaden

Por Paulo Henrique Arantes

O presidente Jair Bolsonaro pede para o brasileiro economizar água e tomar banho frio, atitude em conformidade com a insensatez que o caracteriza. Sobre ações concretas do governo para amenizar os efeitos da crise hídrica e impedir racionamento de energia, nada. Em maio último, matéria do Brasil 247 alertava para os graves riscos provocados por sete anos de pouca chuva. O que mudou desde então?

Segundo o meteorologista Marcelo Henrique Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemadem (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, de maio até hoje o quadro se agravou. “Durante a estação seca, que está acabando, consomem-se os recursos dos reservatórios. A torcida é para que a estação chuvosa comece logo”, diz.

A hipótese positiva de que as chuvas venham em breve é só isso – uma hipótese. O que existe de concreto é a constatação de que o quadro se agrava. 

“Na região sul continua a situação de seca e não há previsão de mudar, porque vamos ter o (fenômeno atmosférico) La Niña, muito provavelmente, voltando, e isso vai diminuir as chuvas na região”, alerta Seluchi.

Em contrapartida, o La Niña pode favorecer as chuvas no norte e no nordeste do país. “Talvez em bacias como a do São Francisco, do Tocantins-Araguaia e do Xingu possa chover acima da média. Mas, de uma forma geral, precisamos ver como será o próximo quadro chuvoso. Nas regiões sudeste e centro-oeste é muito difícil de prever. Até agora, estamos consumindo o que tem na caixa d’água – está restando muito pouco”, adverte Marcelo Seluchi.

“Não me recordo de desempenho tão esdrúxulo”, diz Pedro Dallari sobre Bolsonaro na ONU

Por Paulo Henrique Arantes

“Foi algo vergonhoso”. Assim o jurista Pedro Dallari referiu-se, em conversa com o Brasil 247, à participação de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira (21). “Não me recordo de algum chefe de Estado ou de governo de um país importante ter tido um desempenho tão esdrúxulo nas Nações Unidas. O pronunciamento de Bolsonaro causou perplexidade geral, por menores que fossem as expectativas”, disse Dallari, que é professor titular do Instituto de Relações Internacionais da USP.

Para Dallari, o papel desempenhado pelo presidente do Brasil naquele fórum, diante de chefes de Estado comprometidos em maior ou menor grau com causas comuns, extrapola o fracasso retórico: “Há um evidente impacto negativo para a reputação do país, o que acaba por alijá-lo das negociações internacionais relevantes, a exemplo do que já vem acontecendo”.

Pedro Dallari foi presidente do Tribunal Administrativo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e integrou o Conselho Diretor do Centro de Estudos de Justiça das Américas, órgão da OEA. Conhece como poucos as vicissitudes diplomáticas e suas implicações comerciais. Ele acha que a recuperação do prestígio internacional do Brasil não virá tão cedo.

“Começa a se formar na opinião pública internacional um sentimento de desilusão em relação à sociedade brasileira. O fato de Bolsonaro ter chegado ao poder e o conjunto das forças políticas se manter inertes diante dos descalabros de seu governo depõe contra o país”, avalia.

A última passagem de Bolsonaro e comitiva por Nova York entrará nos anais da vergonha nacional em posição de destaque. Além do duplo negacionismo exibido no discurso na Assembleia Geral da ONU – negacionismo científico quanto à pandemia e também econômico, ao pintar um momento econômico brasileiro fictício –, o presidente levou risco sanitário aos americanos.

“A desfaçatez maior – que causou grande repercussão internacional, e menos aqui do deveria – decorre do fato de Bolsonaro ter ido a Nova York e à ONU sem estar vacinado contra Covid. Ele colocou deliberadamente em risco as pessoas que tiveram que entrar em contato com ele”, indigna-se Dallari.

Joaquim e os reacionários

Por Paulo Henrique Arantes

Em junho último, auge pandêmico, publicamos aqui a palavra de especialistas a explicar, com propriedade, por que não se deve propugnar pelo equilíbrio jornalístico quando um dos lados nega a ciência. “Ao dar amplo espaço aos discursos presidenciais contrários às medidas não-farmacológicas e a favor de drogas sem eficácia, como a cloroquina, na maioria das vezes sem problematizá-los, as mídias contribuíram para a disseminação da tese completamente equivocada e antiética da imunidade natural de rebanho”, destacava Cláudia Malinverni, jornalista, pesquisadora do Instituto de Saúde de São Paulo.

De forma condescendente, a imprensa expunha considerações de Osmar Terra e Nise Yamagushui de uma parte, e de infectologistas e epidemiologistas conceituados de outra. Como legado, parcela dos leitores ficava com os primeiros, para risco de sua vida. Quem comprou negacionismo agora pode comprar, sem receio, a versão oficial sobre a facada que tornou Jair Bolsonaro presidente do Brasil.

Essa ânsia por pluralidade, uma pluralidade acrítica, substitui em certos veículos o ímpeto investigativo. Repórteres amarrados ao “fontismo”, que são presenteados com furos e os publicam sem critério ou checagem, predominam. Possuir o celular de um político, ou de um assessor dele, está valendo mais do que gastar sola de sapato para descobrir a verdade. Colunistas de notas maliciosas de três linhas viram celebridades.

Não se bancam reportagens de fôlego, salvo exceções. As revistas semanais publicam apanhados editorializados do noticiário diário. Preguiça de investigar, medo de afrontar poderosos (principalmente os da finança), receio de afugentar anunciantes e de contribuir para que o poder no Brasil mude, de fato, de mãos – é o jornalismo estabelecido, hoje saudavelmente confrontado pela mídia progressista da internet.

Nesse contexto, é natural que o documentário da TV 247 “Bolsonaro e Adélio: uma fakeada no coração do Brasil” incomode tanta gente, a despeito de ser aplaudido em volume muito maior.

Conheci Joaquim de Carvalho nos anos 80, na redação do jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, numa rápida passagem. Tempos depois, trabalharíamos juntos em outros veículos, um dos quais tendo eu como editor e ele como repórter, outro com ele editor, eu colaborador esporádico.  Em qualquer função, Joaquim é pragmático: desconfiar da versão oficial lhe é espontâneo, caçar a verdade factual é seu oxigênio.

Os pluralistas de fachada jamais se entenderão com Joaquim de Carvalho, mesmo porque muitos deles são na verdade porta-vozes do reacionarismo que legou ao Brasil Jair Bolsonaro. Um reacionarismo ora arrependido pero no mucho.

Reacionários à moda nativa gostam de posar de liberais, de democratas conservadores, mas não enganam ninguém. O bom conservador situa-se entre os limites da régua democrática e não compactua com sua quebra – este aplaudiu “Uma fakeada no coração do Brasil”. O reacionário que diz não compactuar com Bolsonaro mas ataca a megarreportagem da TV 247 recusa-se a abraçar a denúncia contundente, permanecendo apegado às críticas que não dão em nada e, claro, contorcendo-se de inveja por jamais ter produzido algo tão forte.

Lula representa o sonho de liberdade dos brasileiros, afirma historiadora Heloisa Starling

Por Paulo Henrique Arantes

“Lula encarna a luta pela liberdade; Bolsonaro expressa o reacionarismo”. Com essas palavras a historiadora Heloisa Starling responde àqueles que enxergam nos dois personagens polos opostos que se equilibrariam em extremismo. Analista perspicaz da luta democrática brasileira, Starling diz que a história do Brasil constitui um infindável “sonho de liberdade” repleto de reveses, como o advento Bolsonaro.

O capitão não está sozinho nesta quadra, segundo a historiadora: “A fatia que apoia Bolsonaro não caiu do céu, nem personagens como Michel Temer. Eles são resultado de um traço da sociedade”.

Heloisa Starling contou ao Brasil 247 que estava entusiasmada com a atuação do Supremo Tribunal Federal ao confrontar, de modo mais incisivo, as vilanias do presidente da República. Mas decepcionou-se com a entrevista dada pelo ministro Gilmar Mendes à Folha de S. Paulo, no dia seguinte à divulgação da carta-retratação Bolsonaro-Temer, em que disse ser necessário acreditar nas promessas de boa convivência institucional feitas pelo chefe do Executivo.

“Eu estava vendo o Supremo, pela primeira vez, erguer barreiras, unido, em defesa da democracia”, lamentou.

Uma frase comumente atribuída a ela é seminal para caracterizar o presente momento: “A epiderme civilizatória se rompeu”. Na verdade, a sentença não é dela, mas do abolicionista Joaquim Nabuco, proferida no Século XIX. De todo modo, não poderia ser mais atual, como explica a professora: “O Brasil foi fundado na escravidão, e isso tem consequência decisiva na sociedade que se formou. A tolerância, as inclusões e os avanços civilizatórios que alcançamos até hoje são superficiais – nas palavras de Nabuco, epidérmicos. E a epiderme se rompe com facilidade”.

Na terceira década do Século XXI, era de se esperar que o regime democrático, a compreender não somente o voto popular como peça fundamental, mas também meios efetivos de inclusão social, não fosse mais posto em risco. Mas o que se vê no Brasil e em outros países é o fortalecimento de um autoritarismo repaginado, de face diversa das ditaduras tradicionais, que se aproveita de instrumentos da própria democracia para corroê-la por dentro.

Quem melhor descreveu as novas formas de autoritarismo foram os professores da Universidade Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblat, no livro “Como as Democracias Morrem”, de 2018, que teve grande repercussão no mundo inteiro.

No trecho abaixo, sobre os Estados Unidos nas mãos de Donald Trump, está perfeitamente retratado o Brasil de Bolsonaro e sua contenda contra as urnas eletrônicas, o que mostra o caráter internacional do novo reacionarismo:

“O presidente (Trump) também violou normas democráticas essenciais quando denunciou abertamente a legitimidade das eleições. Embora sua alegação de ‘milhões’ de eleitores ilegais tenha sido rejeitada por verificadores de fatos, repudiada por políticos de ambos os partidos e descartada como sem fundamento por cientistas sociais. (…) Falsas acusações de fraude podem minar a confiança pública em eleições – e quando cidadãos não confiam no processo eleitoral, muitas vezes perdem a fé na própria democracia”.

Para Heloisa Starling, o fato de Trump ter perdido a Presidência dos Estados Unidos não significa o fim da influência global do ex-presidente, com tudo que ela representa.  “Ele despachou seu assessor para cá”, notou, referindo-se à visita do marqueteiro Jason Miller, que acabou sendo ouvido pela Polícia Federal no âmbito do inquérito das fake news.

Vencer essa turma não será coisa fácil. Starling ainda não sentiu disposição para tanto no cenário político brasileiro. “As forças de oposição estão de fato convencidas de que a democracia está em risco? Sim? Então elas têm que se unir”, concitou. E finalizou: “A incompetência das nossas lideranças para organizar uma reação de fato é gritante”.

Fux latiu, mas não mordeu, diz ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão

Por Paulo Henrique Arantes

Nem Luiz Fux, nem  Arthur Lira. Os presidentes do Supremo Tribunal Federal e da Câmara dos Deputados não demonstraram a ousadia esperada ao responderem aos ataques feitos ontem (7) às instituições pelo presidente da República. O primeiro alertou que descumprir decisão judicial será crime – ou seja, quanto à ameaça feita, tudo bem se Bolsonaro limitar-se a ela. O segundo, nenhuma surpresa, concitou à concórdia geral, como se a discórdia não fosse semeada por uma só pessoa.

“Ameaçar o Judiciário já constitui crime de responsabilidade. Fux, pelo jeito, acha que ainda não houve esse crime. Está só latindo. Morder que é bom, nada”, avaliou o ex-ministro da Justiça (governo Dilma Rousseff) Eugênio Aragão, em conversa com o Brasil 247. “Afora que o presidente também cometeu crime de responsabilidade por faltar com o decoro do cargo, ao chamar um ministro do STF de canalha”, acrecentou.

Sobre a manifestação de Lira, Aragão disse considerá-la “chocha, colocando STF e Bolsonaro como dois contraentes com a mesma culpa pelo clima político”.

Eugênio Aragão foi o último ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff, tendo substituído José Eduardo Martins Cardozo quando este foi transferido para a Advocacia-Geral da União. Integrou o Ministério Público Federal por 30 anos (1987-2017).

Aragão disse também por que razão uma pessoa como Dilma Rousseff sofreu um processo de impeachment quase sumário, enquanto Jair Bolsonaro colhe apenas manifestos insossos das instituições a cada crime que comete: “Dilma não dividiu o jabá com o Centrão. Aliás, botou para correr quem mostrava sinais de gestão ímproba. Ela não foi destituída porque cometeu crime de responsabilidade, mas porque era um estorvo à preservação de interesses de atores políticos e do mercado”.

O ex-ministro também comentou a atuação do procurador-geral da República, Augusto Aras, apadrinhado de Bolsonaro em quem a pecha de “engavetador” já grudou na testa. Não se pode esquecer que o relatório final da CPI da Covid, que deve apontar responsabilidades do presidente da República relacionadas à tragédia da pandemia no país, dependerá do procurador-geral para surtir efeitos práticos. “O PGR está mudando. Já tomou iniciativas contra dois bolsonaristas ensandecidos. Resta saber se isso é uma nova orientação ou se foi só um soluço. De qualquer sorte, há uma guerra interna no MPF e ele está enfraquecido”, avalia Aragão.

Crimes de Bolsonaro estão tipificados no Código Penal, afirma criminalista

Por Paulo Henrique Arantes

Não foi apenas mais da mesma irresponsabilidade retórica, das mesmas bravatas contra a democracia e as instituições da República. Houve crime no discurso proferido pelo presidente Jair Bolsonaro para uma avenida Paulista repleta de analfabetos políticos no 7 de Setembro.

“Vejo caracterizado não apenas crime de responsabilidade do presidente, mas também condutas típicas do Código Penal, como incitação ao crime, crime contra a honra do ministro Alexandre de Moraes, crime de favorecimento pessoal e real a investigados”, afirma a criminalista Verônica Sterman.

Além disso, a possível destinação de dinheiro público para a realização do infeliz evento, cujas entidades organizadoras têm acesso a fundos públicos, merece investigação criminal, medidas constritivas, ação penal e, no limite, prisão dos responsáveis, explica a advogada, que teve atuação destacada na defesa de réus da Operação Lava Jato.

“Ninguém está imune à aplicação da lei”, assinala.

Sterman rememorou ao Brasil 247 o posicionamento pró-Lava Jato do deputado e depois candidato a presidente Jair Bolsonaro, que convidou Sérgio Moro para ser seu ministro da Justiça. “Depois que o sistema que ele mesmo apoiou durante anos virou contra seus filhos e amigos, ele mudou o discurso e começou a incitar violência contra ministros do Supremo e contra a própria corte. Aos amigos, a lei. Aos inimigos, os rigores da lei”, protesta a advogada.

A incitação ao crime praticada reiteradamente por Bolsonaro encontra sua pena – três a seis meses de detenção ou multa – no artigo 286 do Código Penal. Outro hábito do presidente, enaltecer criminosos, também está tipificado no Código, no artigo 287: “Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime”. Quantas vezes Jair Bolsonaro exaltou ditadores e torturadores? Para tais casos, a pena é a mesma da incitação ao crime.

Segundo especialistas, a lei penal repudia o elogio a criminosos como modalidade de incentivo implícito, no sentido da repetição daquele tipo de ação ou modelo criminoso por outras pessoas, destinatárias do discurso de louvação. É a cara do presidente do Brasil.

Já a Constituição é agredida por Bolsonaro dia sim, outro também. Para confirmar os crimes de responsabilidade do presidente, basta uma leitura rápida do Artigo 85 da Carta, a seguir:

Art. 85. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra:

I – a existência da União;

II – o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação;

III – o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais;

IV – a segurança interna do País;

V – a probidade na administração;

VI – a lei orçamentária;

VII – o cumprimento das leis e das decisões judiciais.

Parágrafo único. Esses crimes serão definidos em lei especial, que estabelecerá as normas de processo e julgamento.

Fiesp, a entidade do Cidadão Boilesen

Por Paulo Henrique Arantes

A covardia e o oportunismo da elite econômica brasileira são históricos e notórios, mas desta vez ela se superou. O manifesto Fiesp-Febraban adiado – ou abortado, tanto faz – vazou e perdeu sentido. Se divulgado, seria ainda pior. Poucas vezes se viu pusilanimidade tão vergonhosa.

O texto começa, candidamente, referindo-se à Praça dos Três Poderes como a “representação arquitetônica da independência e harmonia entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”.  Em paupérrima metáfora político-urbanística, dizem os donos da grana que “nenhum dos prédios é superior em importância, nenhum invade o limite dos outros, um não pode prescindir dos demais”.

Pela caneta desse empresariado terceiro-mundista, não é o presidente da República, portanto o Executivo, que agride os demais Poderes todo dia, que comete reiterados crimes de responsabilidade, que estimula a ruptura institucional, que insulta autoridades, que viola a Constituição, que fere o decoro, que corrói as Forças Armadas e que interfere, qual um déspota, nas instituições de Estado.

Para esse empresariado, sem surpresa, “todos” – sim, “todos” – precisam agir com “serenidade, diálogo, pacificação política, estabilidade institucional e, sobretudo, foco em ações e medidas urgentes e necessárias para que o Brasil supere a pandemia, volte a crescer, a gerar empregos e assim possa reduzir as carências sociais que atingem amplos segmentos da população”. 

Talvez uma praga tenha sido lançada sobre o redator dessa obra prima de acanhamento. Algo como “cair-lhe-ão as mãos se escreverdes o nome Bolsonaro”.

A pieguice sem limites, a falta de coragem de escrever em português claro e direto, fracassa ao tentar pintar com tintas democráticas – ainda que de forma canhestra – um grupamento que desde sempre pensou e agiu com a finalidade exclusiva de rechear o próprio bolso.

No caso da Fiesp, a memória recente nos remete ao pato amarelo que pedia o impeachment de Dilma Rousseff sem crime. Retrocedendo um pouco mais, reaviva-se a figura do “Dr. Geraldo”, ou Geraldo Resende de Mattos, sinistro representante dos industriais paulistas em intermediações com os porões da ditadura nos anos 70. Ressurge também a imagem de Albert Hening Boilesen, bem descrito no documentário “Cidadão Boilesen”, presidente do Grupo Ultra que gostava de assistir a sessões de tortura e era entusiasta da Operação Bandeirante, a tenebrosa Oban, financiada por empresários paulistas.

Em pelo menos dois momentos cruciais da história brasileira essa elite tomou partido, teve lado. E em nenhum deles o lado escolhido foi o da democracia. Na oportunidade atual, está em cima do muro. Imagina-se que penderá para a banda que lhe auferir mais benesses.

Pedro Serrano sobre calote nos precatórios: “totalmente contrário ao Estado de Direito”

Por Paulo Henrique Arantes

O ministro da Economia, Paulo Guedes, ainda busca caminhos para não pagar precatórios em 2022. O argumento calca-se na responsabilidade fiscal e no cumprimento da Lei do Teto, aberração herdada do governo Temer e efusivamente aplaudida por neoliberais da escola de Guedes. Na quarta-feira (25), o ministro, cada dia mais surreal em suas declarações, pediu “compreensão” e “ajuda” ao Supremo Tribunal Federal para que o pagamento das dívidas judiciais do governo possa ser empurrado com a barriga, para agonia dos credores.

Assim o constitucionalista Pedro Estevam Serrano avaliou, ao Brasil 247, a conduta de Paulo Guedes e do governo do qual, um dia, foi Posto Ipiranga: “É uma grande ofensa aos direitos essa forma como o Estado brasileiro está tratando a questão dos precatórios. São credores do Estado que têm direito de receber. É uma situação de irresponsabilidade do Estado, é totalmente contrário ao Estado de Direito, à modernidade. É um forte sinal do modo de funcionamento primitivo do Estado brasileiro. Trata-se de um capitalismo muito atrasado”.

Por que Jair não cai?

Por Paulo Henrique Arantes

Jair mais uma vez insufla seus muares a afrontar a democracia. Teme-se que o 7 de Setembro seja de horror, com ataques mais violentos às instituições do que os já rotineiros. Há até quem anteveja a concretização do um golpe no Dia da Independência pelas mãos de policiais militares. A onda golpista se levanta não é de hoje, mas as reações são tímidas, meramente retóricas, salvo alguns despachos dos ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, via STF e TSE, os quais irritaram o capitão.

      As peças que compõem a democracia brasileira não se movem com a intensidade que o momento exige contra um presidente que sinaliza o não cumprimento de decisões judiciais.  A concertação de governadores não terá efeitos práticos, a busca de um dedo de diálogo com Jair só pode ser brincadeira.

      Não existe no mundo mandatário tão isolado quanto Jair, interna e externamente, respaldado tão somente por fanáticos incrustrados nas Forças Armadas e nas Polícias. Jair nem sequer tem partido, e é refém do argentário centrão. Não respeita o decoro do cargo nem as normas mais comezinhas de convívio democrático. Ofende a inteligência, a ciência, o bom senso, a civilização, a razão.

      A CPI desnudou um esquema de corrupção em vigor dentro do Ministério da Saúde, atuante na compra de vacinas durante uma pandemia que já matou mais de meio milhão de brasileiros. A economia naufraga com desemprego cruel, a gasolina alcança 7 reais por litro, tenta-se dar contornos ainda mais precários às relações de trabalho, o câmbio posiciona-se nas alturas, a inflação de alimentos descontrola-se.

      Jair não governa, nunca governou, por não saber como fazê-lo e por não ter apetite para tanto. Dedica-se a criar inimigos imaginários e a cevar conflitos desnecessários. É um arruaceiro. Por que não cai? Por que ainda não caiu? Por que Jair, que comete crimes em série, ainda ocupa o Palácio do Planalto?

      A resposta encontra-se, primeiro, na perversa orquestração que o elegeu, calcada na criminalização da política via Moro-Dallagnol, levada a cabo com a complacência do mesmo Supremo Tribunal que hoje está prestes a ser emparedado. Nem se fale do Congresso Nacional, cujo comando só esteve em piores braços na época de Eduardo Cunha.

      O envolvimento dos arrependidos de hoje nas ações destrutivas da democracia de ontem – quando se chocou o ovo da serpente – é o que torna a defenestração de Jair tão difícil. A linguagem da política atual é de baixo calão, os bons quadros ficaram para trás.