A mediocridade da única pessoa que pode processar o presidente da República

José Cruz / Agência Brasil

Por Paulo Henrique Arantes

O procurador-geral da República é a pessoa mais poderosa do Brasil, pois a única que pode processar o presidente da República. A relevância a priori do cargo poderia transmutar-se em benefício histórico à nação, não fosse Augusto Aras seu atual ocupante. Servo de Jair Bolsonaro, Aras dedica-se a processar professores de Direito que o criticam, como Conrado Hübner Mendes, colunista da Folha de São Paulo. As “investigações preliminares” que costuma abrir contra o governo ou a figura do presidente já integram o anedotário popular: de 78 delas, apenas três resultaram inquérito – interferência na Polícia Federal, manifestação por intervenção militar e responsabilidade pelo colapso da saúde em Manaus, quando cidadãos doentes de Covid-19 morreram por falta de oxigênio.

Na terça-feira (14), ao não recorrer de decisões monocráticas dos ministros do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes – um, tucano; outro, também –, permitiu a anulação de investigações contra José Serra, Michel Temer e Moreira Franco sem que os méritos dos processos fossem julgados de forma colegiada pelo tribunal.

Augusto Aras é uma das faces da personalidade deletéria que hoje domina as instituições do país. A coluna conversou com o advogado Roberto Tardelli, ex-procurador de Justiça e dono de uma lucidez analítica ímpar, para tentar compreender a presença de figura tão canhestra num dos mais elevados postos da República, figura que só perde em mediocridade para o próprio presidente e disputa cabeça a cabeça a segunda posição com nomes como Eduardo Pazuello, Abraham Weintraub , Ernesto Araújo e Damares Alves.

Tardelli acha que o “espírito do tempo” bolsonarista ainda será estudado. “Não é possível que sejamos tão fracos e tão ruins. O Aras é consequência deste nosso momento”, disse à coluna.

É comum comparar Augusto Aras com o primeiro PGR alcunhado engavetador-geral da República, Geraldo Brindeiro, que blindou Fernando Henrique Cardoso contra coisas horríveis. Para Tardelli, contudo, as semelhanças acabam na lealdade ao presidente: “Eu não consigo compará-los, pois não dá para comparar FHC com Bolsonaro. Eu acho que Bolsonaro é incomparável com qualquer ser humano, é um ícone da bestialidade, do anti-humanismo”.

Papel diametralmente oposto exerceram os procuradores-gerais durante os anos em que o PT esteve no governo. Em vez de comaradagem, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff contaram com a volúpia persecutória de Antonio Fernando Souza, Roberto Gurgel e Rodrigo Janot. Depreende-se que o partido de Lula, no governo, agiu republicanamente ao nomear os chefes do Ministério Público, sem se preocupar com eventuais contratempos judiciais . Será?

“O PT só foi entender a importância da Procuradoria Geral da República e do Supremo Tribunal Federal quando virou réu. Acho que o partido pecou pela ingenuidade, numa visão mais amistosa, ou pela própria ignorância do processo político institucional que ocorria fora do âmbito do Congresso e do sindicalismo onde ele se criou. O PT não conhecia o Judiciário e o Ministério Público – quando conheceu, já era tarde”, analisa Roberto Tardelli.

No caso do Supremo, a maneira como votaram na Lava Jato os ministros Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Teori Zavaschi e Rosa Weber, por exemplo, todos nomeados nos governos petistas, confirmam o que diz Tardelli. Sem falar no comportamento do relator do Mensalão, Joaquim Barbosa.

Novo Relatório de Desigualdade Mundial: pandemia aumentou distância entre ricos e pobres

Por Paulo Henrique Arantes

Acaba de ser lançada a última edição do Relatório de Desigualdade Mundial do Word Inequality Lab, que tem o economista francês Thomas Piketty como diretor. Piketty é autor da mais importante obra literária de economia deste século até aqui, “O Capital no Século XXI”.

Segundo escreveu Piketty em suas redes sociais, “observamos um nível extremo de concentração de riqueza em todo o mundo”. De acordo com o estudo, os 10% mais ricos possuem de 60 a 80% da riqueza nas várias regiões do mundo. Os 50% mais pobres possuem menos de 5%. “A desigualdade de riqueza vem aumentando depois da Covid”, destacou o economista.

A alíquota de rendimento do trabalho das mulheres, ainda de acordo com Piketty, “está muito abaixo de 50% em todas as regiões do mundo; a nível global em 2020, a quota de mulheres é de cerca de 35% (versus 65% para os homens)”.

As desigualdades nas emissões de carbono são extremamente altas a nível global e dentro de cada país e regiões mundiais, mostra o estudo. “Os 50% mais baixos emissores têm níveis de emissão relativamente razoáveis; a prioridade principal deve ser reduzir as emissões dos primeiros 10%”, escreveu Thomas Piketty.

Suspeição de Moro enterrou chance de reabertura de processo contra Lula, afirma ex-ministro Eugênio Aragão

Por Paulo Henrique Arantes

Além de retórica eleitoral, o ex-juiz parcial Sérgio Moro mostrou raso conhecimento do Direito ao dizer que “manobras jurídicas enterraram de vez o caso do tríplex de Lula, acusado na Lava Jato”. Moro comentou, numa tuitada, o reconhecimento da prescrição do caso pelo Ministério Público Federal. Usou o chavão falso-moralista de que “crimes de corrupção deveriam ser imprescritíveis, pois o dano causado à sociedade, que morre por falta de saúde adequada, que não avança na educação, jamais poderá ser reparado”.

Segundo o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, que integrou o MPF como procurador da República, a prescrição constitui uma garantia da defesa à medida que estabelece um limite para o Ministério Público.

“Não se trata de afirmar que Lula foi salvo por ‘manobra jurídica’, mas apenas de, reconhecendo-se a suspeição evidente de Moro, não ser mais o caso de recomeçar as investigações ou a acusação”, disse Aragão do Brasil 247. “O Superior Tribunal de Justiça, ao fixar a pena no processo anulado, impôs um teto temporal para qualquer nova iniciativa, já que a pena, em qualquer caso, não poderia ser superior àquela fixada pelo STJ, mesmo anulado o processo”, explicou.

“A questão principal é que Moro agiu por paixão política e não era um juiz imparcial. Com isso, ele contaminou tudo. Mas claro que, como sempre, ele vai apontar a culpa nos outros, já que se acha impoluto”, avaliou o ex-ministro.

Ômicron: se o Brasil se sair bem, não terá sido por obra do governo, afirma especialista da USP

Por Paulo Henrique Arantes

A chegada da variante Ômicron ao Brasil é inevitável, concordam as autoridades sanitárias. A boa cobertura vacinal do país, principalmente em comparação com os países africanos em que a nova cepa parece ter surgido, pode dar aos brasileiros certa tranquilidade, mesmo que ainda não se saiba qual o grau de proteção que as vacinas oferecem em relação à nova modalidade do vírus. De todo modo, quem puxar aplausos para o governo Bolsonaro por conta disso estará redondamente enganado.

      “Nada do que ocorrer daqui para diante será capaz de apagar a irresponsabilidade e os crimes cometidos por várias altas autoridades federais, a começar pelo presidente da República, na condução da pandemia”, afirma Fernando Aith, professor titular da Faculdade de Saúde Pública da USP.

      Diretor do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (Cepedisa) da mesma universidade, Aith é um dos autores de um detalhado estudo sobre a atuação do governo na pandemia, o qual foi fornecido à CPI da Covid e auxiliou na confecção do seu relatório final.

      “O comportamento do governo foi do negacionismo à adoção de políticas públicas totalmente equivocadas e contrárias ao que era recomendado pela ciência e pela lógica. Nunca podemos nos esquecer de que poderíamos ter evitado entre 100 mil e 400 mil mortes no Brasil se o Governo Federal apoiasse as medidas não-farmacológicas que eram recomendadas e disponibilizasse a vacina para a população mais cedo, o que seria possível se o Ministério da Saúde não tivesse fugido dos fabricantes que o procuravam”, recorda Aith.

      De outra parte, avalia Aith, o abandono quase total das regras de contenção da Covid neste momento – basta sair às ruas, ir a um restaurante, a um comércio qualquer ou a um estádio de futebol para verificar – mostra que as autoridades públicas preocupam-se mais com o “esgotamento” da sociedade diante da pandemia e o andamento da economia do que com o potencial ainda grande de aumento dos casos de Covid.

      “O cálculo está sendo político, generalizando a importância de abertura e flexibilização das regras de contenção do coronavírus em nome de uma suposta segurança que teria sido dada pela vacinação já expressiva no Brasil. Isso significa um risco, cujo dano veremos mais à frente”, adverte Aith. “É preciso muito cuidado, porque há muita gente ainda não vacinada, há novas variantes surgindo, especialmente a Ômicron. Além disso, pode aparecer uma nova variante no Brasil entre os não-vacinados. Não se pode arrefecer nos cuidados”, alerta.

      Também não se deve desativar – ainda – toda a estrutura ambulatorial e hospitalar que se desenvolveu no país par combater a Covid no país. “O momento atual não é de desmobilização total das estruturas e esquemas montados para contenção da pandemia no Brasil, sejam os hospitais-referência, seja a grande estrutura de vacinação e de atendimento de UTI e internação”, recomenda o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.

      A orientação dos especialistas é que tais estruturas sejam desmontadas paulatinamente, retomando-se as cirurgias eletivas e os procedimentos para tratamento de doentes crônicos, como diabéticos e hipertensos, sem eliminar completamente a estrutura contra a Covid. “É hora de achar o equilíbrio”, diz Fernando Aith.

Doria pode estar sendo pressionado por militares para não transformar antigo DOI-Codi em memorial, diz Emídio de Souza

Por Paulo Henrique Arantes

O governador João Doria tem mais uma oportunidade de mostrar que não pretende apagar a memória dos que sofreram nas mãos da ditatura militar brasileira (1964-1985). A Comissão dos Direitos da Pessoa Humana da Assembleia Legislativa de São Paulo abrigará, no dia 2 de dezembro, a segunda audiência pública para tratar da transformação do antigo complexo do DOI-Codi, o palácio das torturas da Rua Tutoia, num memorial administrado pela Secretaria da Cultura.

Na audiência anterior, em 9 de setembro, registrada no documentário “O Dia em que  Justiça entrou no DOI-Codi”, o juiz José Eduardo Cordeiro Rocha, da 14ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, decidiu que o prédio não poderá ter outro destino a não ser o de constituir um memorial e que o Governo do Estado teria, a partir daquela data, 90 dias para apresentar um projeto com tal finalidade. O prazo vence em 9 de dezembro.

Da primeira audiência depreendeu-se que o Governo do Estado resiste à ideia, tendo dado desculpas esfarrapadas para atravancar o projeto. Um dos argumentos é que própria Pasta da Cultura não quer a responsabilidade pelo complexo. Representantes da Procuradoria da Fazenda chegaram a dizer que a criação de um memorial no local poria em risco a vida dos visitantes, já que havia “presos perigosos” na delegacia local – esqueceram de que não há presos custodiados no local desde 2003, quando a carceragem da 36ª DP, que ali funciona, foi desativada.

“O governo tem que trazer uma proposta. Trata-se de um espaço de inestimável valor simbólico na luta pela democracia”, afirmou ao Brasil 247 o deputado estadual Emídio de Souza (PT), presidente da Comissão dos Direitos da Pessoa Humana da Assembleia Legislativa. “Parece que o governador Doria não quer se desgastar com setores conservadores de São Paulo. Ele pode estar sendo pressionado, talvez por militares”, desconfia o parlamentar.

O DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), que tornou a Rua Tutoia 921, na Zona Sul paulistana, o endereço mais tenebroso da ditadura civil-militar que subjugou o país por 21 anos, foi tombado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) em 2014, o que é muito pouco em termos de preservação da História.

No antigo DOI-Codi 7 mil brasileiros foram presos e torturados e 54 morreram nas sessões de tortura comandas pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

A nova audiência pública, também um ato solene, acontecerá dia 2 de dezembro, às 10h, em formato híbrido, com possibilidade de participação online, pelo canal Youtube da Alesp (www.youtube.com/AlespOficial ), ou presencialmente, no auditório Teotônio Vilela.

Ciro, candidatura morta

Foto Jarbas Oliveira

Por Paulo Henrique Arantes

Ciro Gomes estuda a possibilidade de abandonar sua candidatura à Presidência da República. Será triste fim para um persistente competidor, quadro qualificado no pobre cenário político nacional, mas que não prima exatamente pela boa estratégia eleitoral. Optou pela estupidez de agredir com a mesma ênfase Lula e Bolsonaro, em flagrante demonstração de desonestidade intelectual. Acreditou na balela da terceira via e vê Sérgio Moro ocupar o espaço que almejava para si.

Não há terceira via: há Lula de um lado e, de outro, todos aqueles que respondem pela eleição de Bolsonaro – alguns arrependidos, outros não.

Ciro Gomes não soube inserir-se no campo da centro-esquerda, não soube vender o plano econômico desenvolvimentista que de fato possui. Boquirroto, suicidou-se na largada ao proferir ataques rasteiros contra tudo e todos. Transmitiu destempero.

É triste, porque Ciro tem o que mostrar. Apesar de ter navegado com PDS, PMDB, PSDB, PSB, Pros e PDT, o que indicaria enorme vazio ideológico, sempre foi, em cargos no Executivo, um realizador pragmático. Deixou o governo do Ceará com 74% de aprovação, finalizou a implantação do Plano Real como ministro da Fazenda de Itamar Franco e, como ministro da Integração Nacional no primeiro governo Lula, de 2003 a 2006, imprimiu bom ritmo à gigantesca obra de transposição do Rio São Francisco.

A imagem de Ciro Gomes refletia um político inimigo da hipocrisia. Contra José Serra, em 2010, quando da patética “agressão” com uma bolinha de papel sofrida pelo tucano, não compartilhou de “supostos” e “supostas” da mídia cheia de dedos: “A candidatura do Serra, basta ver todas as candidaturas das quais participou, sem exceção de nenhuma, tem essas características da violência, da traição, da rasteira, do jogo sujo, do jogo baixo. O candidato que tem a coragem de fazer uma simulação de receber uma bola de papel na cabeça a ponto de baixar em um hospital e ficar 24 horas de repouso, é um candidato que, ganhando poder, sabe-se lá o que seria capaz de fazer”.

O passar do tempo, contudo, emoldurado por seguidos fracassos eleitorais, parece ter levado Ciro Gomes ao desespero. Da anti-hipocrisia descambou para a baixaria – seu recente ataque a Dilma Rousseff foi gratuito e vergonhoso: “Uma das pessoas mais incompetentes, inapetentes e presunçosas que já passaram pela Presidência”.    

Ciro sabe como ninguém da farsa que foi a Operação Lava Jato, sabe que Lula foi vítima de uma armação jurídico-político-midiática e mesmo assim adota em relação ao ex-presidente o discurso udenista dos paladinos da justiça. Age como Serra agiu no passado, com violência, traição, rasteiras, jogo sujo, jogo baixo. Por isso morreu eleitoralmente.

Moro, Pastore e a social-democracia brasileira

Por Paulo Henrique Arantes

Affonso Celso Pastore, alçado ao posto de conselheiro econômico de Sérgio Moro, revelou-se recentemente otimista com a possível viabilização de uma “terceira via social-democrata”. Sim, o ortodoxo ex-presidente do Banco Central, onde esteve de 1983 a 1985 a serviço do ditador de plantão, general João Figueiredo, agora anda com economistas tucanos como Pedro Malan, Edmar Bacha e Armínio Fraga. Mais uma prova de que a social-democracia à moda brasileira é um tanto quanto sui generis.

O passado condena. Antes de servir à ditadura em nível federal, Pastore colaborou com seus agentes de alcance estadual como secretário dos Negócios da Fazenda do Estado de São Paulo, de 1979 a 1982, sob comando da dupla Paulo Maluf – José Maria Marin. O economista pulou do barco malufista antes que o escândalo da Paulipetro, que estourou o orçamento do estado, o alvejasse. Estouros de orçamento não combinam com economistas que dizem rezar pela cartilha da austeridade fiscal.

A social-democracia brasileira, na qual Pastore hoje se inclui, aceita – e até aplaude – coisas como o teto de gastos da dobradinha Michel Temer – Henrique Meirelles, que boqueia a ampliação de investimentos públicos num dos países mais desiguais do mundo. Não bastasse, em recente artigo na imprensa o conselheiro de Moro escreveu que o protecionismo responde pelo retrocesso da indústria nacional.

“É exatamente o oposto disso. Não foi o protecionismo que acabou com a indústria brasileira. O protecionismo como fator prejudicial à indústria sempre foi argumento ideológico das classes dominantes, principalmente a parte autodenominada ‘modernidade do sistema financeiro’, que acabou redundando na expressão política que foi o governo Collor, em 1990”, recordou à coluna o economista Paulo Kliass, especialista em políticas públicas e gestão governamental.

O movimento liberaloide que elegeu Fernando Collor de Mello deixou o país em posição internacional subalterna na divisão internacional do trabalho. Explica Kliass: “A indústria cada vez mais foi perdendo espaço, exatamente por causa da abertura. Isso levou à desnacionalização e à desindustrialização. A partir dali, os setores que mais cresceram foram agronegócio, a indústria extrativa (ambos com vistas à exportação, principalmente) e a área de serviços, mas não os serviços qualificados da chamada terceira onda, e sim telemarketing, transportes desqualificados (Uber como exemplo) e outros. Foi uma precarização”.

Basta verificar datas para identificar os verdadeiros destruidores da indústria brasileira, hoje um arremedo do que foi no passado, quando despontava como principal agente do desenvolvimento.  Há exatamente três décadas começou a “liberalização” ao estilo dos economistas liberais tupiniquins, sem projeto nacional, sem definição de áreas estratégicas e setores essenciais, bem diferente do que realizaram os governos Vargas e Juscelino, estadistas que, com erros e acertos, deram curso a projetos de desenvolvimento do país.

“Hoje, é tudo por conta das livres forças de mercado”, aponta Kliass.

Ao que tudo indica, Sérgio Moro será guiado, pelas mãos de Pastore, pelo caminho da privatização, da desnacionalização e do rigor fiscal como remédio para todos os males da economia – como um verdadeiro social-democrata brasileiro. “No Brasil, não há contradição entre se apresentar como social-democrata e defender coisas como o teto de gastos”, nota Paulo Kliass.

O fiscalismo de Affonso Celso Pastore, colaborador de Moro

Pastore (Leo Pinheiro / Valor)

Por Paulo Henrique Arantes

Ao cooptar Affonso Celso Pastore para liderar sua assessoria econômica, o ex-juiz Sérgio Moro confirma sua face neoliberal, alinhada ao desmonte do setor público. O economista da USP que presidiu o Banco Central durante a ditadura civil-militar, no desastroso governo do general Figueiredo, entende que o caminho do progresso é a privatização e a austeridade fiscal acima de tudo, apesar de, contraditoriamente, dizer preferir os modelos econômicos social-democratas.

  Assim escreveu Pastore em artigo recente no Estadão: “O caminho para o aumento dos investimentos em infraestrutura são as concessões ao setor privado, com a disciplina fiscal garantindo taxas de juros baixas e financiamento abundante no mercado de capitais”. Nada de investimento público. Para Pastore, o rigor fiscal – velha cantilena do mercado – levará o país ao melhor cenário econômico e social.

   O economista também tem um entendimento esquisito sobre a indústria nacional. “Por que a indústria brasileira não cresce? Seu desempenho pífio não é consequência da conjuntura desfavorável de 2008/09 e dos meses iniciais da pandemia. Tem origem em uma doença bem mais grave e duradoura, que é o protecionismo”, escreveu em outubro último no mesmo Estadão, ignorando que nenhum país desenvolveu sua indústria sem algum grau de protecionismo.

   O economista Nélson Marconi, professor da Fundação Getúlio Vargas, argumenta que o problema da indústria nacional decorre, isto sim, de “uma abertura às avessas”, que estimulou importações e desencorajou exportações, junto com “uma série de erros de política econômica”.

    O fato de ser crítico ao governo Bolsonaro e à condução da economia por Paulo Guedes não torna Pastore um progressista. Sua decepção deve-se ao fracasso das iniciativas neoliberais propostas pela dupla, não ao teor delas, como fica claro nesta resposta, em entrevista recente à revista IstoÉ: “O presidente venceu as eleições com uma equipe econômica propondo reformas, mas não fez nenhuma, exceto a da Previdência. Havia todo um programa de privatizações que não aconteceu. Quando fizeram a da Eletrobras, havia tantos defeitos que era melhor que não tivessem feito. A mesma coisa se vê agora: é um governo também sem programa para a retomada econômica”.

      Defensor das “reformas” – aquelas de sempre, que visam a escorchar trabalhadores e presentear o grande capital –, Pastore lança novo livro, intitulado “Erros do Passado, Soluções para o Futuro”, em que repete mantras liberais que o mundo vem abandonando desde a crise de 2008. Ao contrário de André Lara Resende, não reviu suas ideias à luz da História recente.

    Em entrevista à Folha de S. Paulo, Pastore exibiu sua maquiagem social-democrata: “Estamos falando de algo que se traduz em políticas econômicas com essa característica do capitalismo social-democrata, no qual o Estado seja um provedor de seguros para a sociedade. Não seguros que deixem todos sem incentivo para aumentar a eficiência, mas que permitam eliminar injustiças”.

     O repórter da Folha poderia ter replicado: mas, professor, como o Estado pode prover a sociedade do que quer que seja com um limitador de investimentos previsto para durar 20 anos, como o teto de gastos, que o senhor defende de forma intransigente?

   Para Nélson Marconi, “defender o teto atual significa impossibilitar avanços sociais e econômicos , e portanto não parece compatível com uma suposta plataforma social-democrata”. Segundo o professor da FGV, seria aceitável um controle de gastos a médio prazo que excluísse investimentos e fosse flexível a ações anticíclicas. 

   Se Sérgio Moro pretende fazer de Pastore seu Posto Ipiranga, no caso de sua improvável eleição o Brasil terá mais do mesmo na economia. Com a agravante de, em termos de destruição da infraestrutura nacional, o ex-juiz já ter o que mostrar, como a Petrobras exemplifica.

Schopenhauer e Bolsonaro

Por Paulo Henrique Arantes

Arthur Schopenhauer (1788-1860) é instigante. O pensador alemão é considerado o pai de um tal “pessimismo filosófico”. Claro, é bem mais que isso. Impressiona a mordacidade com que se refere a idiotas e hipócritas, cuja predominância neste Século XXI torna a obra dele atualíssima. Também impressiona a precisão de seus diagnósticos sociais.

       Assim escreveu Schopenhauer num pequeno livro, intitulado “A Arte de Escrever”: “O ignorância degrada os homens somente quando se encontra associada à riqueza. O pobre é sujeitado por sua pobreza e necessidade; no seu caso, os trabalhos substituem o saber e ocupam o pensamento. Em contrapartida, os ricos que são ignorantes vivem apenas em função de seus prazeres e se assemelham ao gado, como se pode verificar diariamente. Além disso, ainda devem ser repreendidos por não usarem sua riqueza e ócio para aquilo que lhes conferiria o maior valor”.

      O filósofo do Século XIX chamava os ricos de gado que vive exclusivamente para ruminar seus prazeres. Já os desabastados seriam vítimas das obrigações laborais, as quais os impediriam de qualquer progresso intelectual. A identificação com a realidade brasileira em tempos de Jair Bolsonaro é óbvia.

      Em “A Arte de Escrever”, Schopenhauer faz ácida crítica aos escritores despossuídos de ideias próprias, aqueles que nada fazem além de reproduzir pensamentos de terceiros. Transpondo-se tal princípio para os dias atuais, encontra-se semelhança com o que fazem resenhistas políticos com largo espaço na mídia, que se limitam a ecoar concepções que balizam interesses específicos.

      Assim escreve o filósofo: “No fundo, apenas os pensamentos próprios são verdadeiros e têm vida, pois somente eles são entendidos de modo autêntico e completo. Pensamentos alheios, lidos, são como as sobras da refeição de outra pessoa, ou como as roupas deixadas por um hóspede em casa”.

      O capitão descerebrado que hoje governo o Brasil, e seus repetidores da mídia, exalta o patriotismo como virtude máxima. Já se disse e repisou que o patriotismo é o último refugio do canalha. Schopenhauer trata disso com profundidade: “O patriotismo, quando tem a pretensão de se fazer valer no reino das ciências, não passa de um acompanhante indecente, do qual é preciso se livrar. Quando se trata de questões puras e gerais da humanidade e quando a verdade, a clareza e a beleza devem ser os únicos critérios, o que pode ser mais impertinente do que a tentativa de por na balança a preferência pela nação à qual certa pessoa pertence e, em nome desse privilégio, ou cometer uma violência contra a verdade, ou uma injustiça contra os grandes espíritos de nações estrangeiras para destacar espíritos inferiores da própria nação?”

      Quando a praga bolsonarista começa a ser erradicada, como apontam as pesquisas de opinião, emergem na mídia escritos que vendem um inexistente consenso acerca da necessidade de uma via diferente da única verdadeiramente oposta àquela representada pelo capitão. O que se lê em defesa da “terceira via” é de um contorcionismo retórico impressionante.

      Parece que esse movimento falsificador da realidade também foi vislumbrado por Schopenhauer: “Aqueles que elaboram discursos difíceis, obscuros, dubitativos e ambíguos com certeza não sabem direito o que querem dizer, mas têm uma consciência nebulosa do assunto e lutam para chegar a formular um pensamento. No entanto, com frequência, essas pessoas querem esconder de si mesmas e dos outros o fato de que na verdade não têm nada a dizer”.

O nacionalismo de Sérgio Moro

Foto: Lula Marques

Por Paulo Henrique Arantes

Ouvir Sérgio Moro lendo um discurso longo e inodoro como o de sua filiação ao Podemos é um teste de sobrevivência ao tédio. Um centenário jornal da gloriosa Sorocaba encontrou teor “nacionalista” no palavrório do ex-juiz. Sem desdenhar dos valorosos colegas da cidade paulista em que este jornalista tem raízes, nenhuma análise daquilo poderia ser mais inapropriada.

Não há conceito único de nacionalismo. O xenófobo que quer fechar fronteiras a imigrantes é rotulado de nacionalista. Também é chamado assim quem defende alguma dose de protecionismo para desenvolver a indústria nacional.

Não se sabe o que Moro pensa sobre recepcionar imigrantes, mas é conhecida a relação dele com a indústria nacional – a de petróleo e derivados, por exemplo. A Petrobras lida com riqueza extraída do subsolo brasileiro, ouro preto que pertence ao povo e que, desde o governo usurpador de Michel Temer, escoa para mãos multinacionais.

Com a sua Operação Lava Jato, Moro foi decisivo para a descaracterização da Petrobras como empresa estratégica para o desenvolvimento nacional. Além disso, no soporífero discurso de 10 de novembro, o ex-magistrado praticamente anunciou que, uma vez no comando do país, privatizará quase tudo.

O que deu no jornal sorocabano?

Moro e a Lava Jato, operada por Deltan Dallagnol e seus meninos, também destroçou uma empresa brasileira do porte da Odebrecht, adotando medidas judiciais não apenas contra seus diretores corruptos, mas contra a companhia, como se CNPJs cometessem crimes. Com a queda da Odebrecht, milhares de empregos desapareceram e o país perdeu protagonismo global em obras de engenharia.

Pode-se afirmar, sem medo de errar, que a Operação Lava Jato constituiu um movimento antinacionalista. Ou terá sido por acaso que Moro, após pular do barco bolsonarista, virou sócio-diretor da Alvarez & Marshal, consultoria americana especializada em “reestruturação corporativa”, ou seja, em limpar a barra de empresas ficha-suja?

Nacionalistas no bom sentido também costumam prezar pela soberania e a independência nacionais, tanto mais quanto a seus órgãos judiciais, como a Polícia Federal. Ministro da Justiça de Bolsonaro, Sérgio Moro, ao lado de Maurício Valeixo, então diretor da PF, assinou acordos com o FBI ampliando a influência americana em diferentes áreas de combate ao crime, “incluindo a presença dos agentes estrangeiros em um centro de inteligência na fronteira, investigações sobre corrupção e acesso a dados biométricos brasileiros”, como noticiou a Agência Pública.

Como sabem os informados, entre os quais não se enquadram alguns jornalistas sorocabanos, o FBI não tem jurisdição no Brasil.