Primeiro superávit do setor público em oito anos: uma péssima notícia para o Brasil

Por Paulo Henrique Arantes

A mídia – não toda ela – exulta como notícia alvissareira o superávit de 64,7 bilhões de reais do chamado “setor público consolidado”. É o famigerado superávit primário, que na verdade é uma má notícia para todos os brasileiros, exceto os poucos que lucram com o mercado financeiro.

Os jornalões até que explicam, sumariamente, que superávit primário significa receitas menos despesas de governo federal, estados, municípios e estatais, excetuadas as despesas financeiras, ou seja, os pagamentos de juros da dívida pública. Mas não esclarecem que esse resultado embute a piora das condições de vida da população em geral. Isso é recorrente.

O economista Paulo Kliass, especialista em políticas públicas e gestão governamental, lembra que a metodologia do superávit primário vigora há 40 anos, tendo sido imposta pelo Fundo Monetário Internacional quando dava as cartas aqui dentro.

“Quando se fala em superávit primário, se está pensando em receitas primárias e despesas primárias, as quais são chamadas assim em oposição às receitas e às despesas financeiras. As receitas brasileiras são basicamente tributárias – o governo praticamente não tem receita financeira, só despesa: o pagamento de juros”, advertiu Kliass em conversa com a coluna.

Como as despesas financeiras não fazem parte do cálculo do superávit primário, depreende-se que tal notícia “positiva” esconde, na verdade, que os gastos não financeiros (saúde, educação, previdência, saneamento e outros) foram arrochados, daí o resultado positivo em favor da receita.

“Não há nada a comemorar com o superávit primário. Este resultado significa que as despesas fundamentais para a maioria da população foram comprimidas se para obter um superávit. E esse superávit vai ser gasto com o quê? Com despesas financeiras”, avisa Kliass.

Nenhuma novidade. Falta os jornalões fazerem a ressalva.

Apesar da má vontade do governo, quase 2 mil trabalhadores escravizados foram resgatados em 2021

por Paulo Henrique Arantes

O Detrae (Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo do Ministério do Trabalho e Previdência) divulgou hoje (28): em 2021, 1.937 trabalhadores brasileiros foram identificados em condição análoga à escravidão e resgatados. Em 2020, foram 936.

O maior resgate em um único estabelecimento em 2021 ocorreu no Distrito Federal: 116 trabalhadores estavam em condições degradantes na extração de palha de milho para fabricação de cigarros artesanais. 

28 de janeiro é o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, data que deveria resultar em estrondoso alerta para um país que foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, em 2016, por abrigar trabalho análogo à escravidão.

O número crescente de escravizados resgatados não significa que o governo tenha incrementado sua atuação nesse campo. Ao contrário, a pasta do Trabalho, que recuperou o status de Ministério após quase três anos como subpasta da Economia, sofrerá o maior corte orçamentário da Esplanada em 2022: 1 bilhão de reais. Nem mesmo a precarização do trabalho imposta pela pandemia de Covid-19 foi levada em conta.

“O aumento do número de resgates deve-se em parte à intensificação da organização de ações conjuntas pelos órgãos que atuam no combate ao trabalho escravo. E esse trabalho está em risco: desde 2014 não é realizado concurso público para auditor fiscal do trabalho, sendo que 50% desses cargos estão vagos atualmente”, afirma Italvar Medina, procurador do Trabalho e vice-coordenador da Conaete (Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo), órgão do Ministério Público do Trabalho.

Junto com MPT atuam no combate ao trabalho escravo Ministério Público Federal, agentes da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal, da Policia Civil, da Polícia Militar e membros da Defensoria Pública da União, além dos auditores-fiscais do Ministério do Trabalho.

“Os dados também refletem a situação de crise pela qual passamos, pois, com o aumento de pessoas em situação de grande vulnerabilidade social e também com o avanço de atividades ilegais, como o garimpo, e do desmatamento, aumenta-se o risco de submissão de pessoas ao trabalho escravo contemporâneo”, ressalta Medina.

Algumas medidas oficiais sugerem, isto sim, que o governo prefere conviver com o trabalho escravo.  Um bom exemplo é a alteração da norma NR3, da então Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, dificultando-se a interdição de máquinas, equipamentos e estabelecimentos ou o embargo de obras que gerem risco de morte e lesões.  Outro fato modelar do descaso é a ausência de atualizações, desde 2019, da chamada Lista Suja, que deveria elencar empresas que mantenham trabalhadores e trabalhadoras em condições análogas à escravidão.

O artigo 149 do Código Penal tipifica como trabalho escravo contemporâneo trabalho forçado ou jornada exaustiva, restrição de locomoção em razão de dívida contraída perante o empregador, cerceamento do uso de qualquer meio de transporte, vigilância ostensiva no local de trabalho, retenção de documentos ou objetos pessoas do trabalhador com o fim de retê-lo no local de trabalho e outros pontos.

Pandemia de pobre, pandemia de rico

Por Paulo Henrique Arantes

O Brasil de Jair Bolsonaro é assunto para psicanalista, e Luciano Elia, professor titular de psicanálise da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, é um profissional do ramo mais que qualificado para tratar do tema. Ele levanta um ponto praticamente ignorado nos debates sobre a Covid-19: faltou, entre tanta coisa, recorrer à consciência política para combater a pandemia.

“O necessário isolamento social não foi entendido como um ato político. Faltou consciência coletiva”, afirma Elia. O que isso quer dizer? Claro está: as pessoas que cumpriram os protocolos sanitários o fizeram em esforço pela própria vida, não como ato de engajamento em benefício da coletividade.

A triste realidade decorrente da praga mostrou-se, como quase tudo, ainda mais triste para a população menos favorecida – outro fato abordado de forma tangencial nas discussões pandêmicas. “Foi muito difícil para os mais pobres, quando não impossível, trabalhar, alimentar-se e tudo mais mantendo distanciamento social. Ainda mais grave, um verdadeiro sofrimento, seriam as aulas on-line para os alunos pobres das escolas públicas”, observa Elia.

O sofrimento extraordinário provocado pelo coronavírus na parte da população já sofredora deixará um legado psicológico dificilmente superável. “Os fatores socioeconômicos vão determinar o futuro”, sentencia o psicanalista. A parte abastada – que teve de se adaptar ao estressante home office ou precisou recorrer a algum refúgio campestre para não se contaminar – pode fazer uma viagem para “descansar” do duro trauma do isolamento e da escassez de abraços e beijinhos.

O ônus psicológico da pandemia não tem data para sair da mente de ninguém, mas para alguns será mais doloroso. Lei da vida? Não. O Poder Público tem obrigação de cuidar da saúde mental com o mesmo interesse com que lida com doenças de outras naturezas (ou deveria lidar).

As equipes de saúde mental das unidades básicas de atendimento precisam ser incrementadas em resposta à crescente demanda devido a problemas psicológicos – é o mínimo que se espera.  Não é à toa que a pesquisa da Unifesp “Desigualdades e Vulnerabilidades na Pandemia de Covid-19”, coordenada pela psicóloga Lumena Furtado, dedica uma seção exclusiva a questões de saúde mental durante o período pandêmico.

Trabalho cuidadoso, detalhado, exibe um quadro de tragédia social que não foi criado pela pandemia, mas foi – e está – sendo agravado por ela. Eis um trecho do estudo, que resume o cenário em tela: “Foi observado que a vivência da pandemia de Covid-19 é mais que um problema de saúde pública. Deflagra também uma crise social que se manifestou nas condições de trabalho e renda, de moradia, de convivência e de saúde mental das pessoas. O adoecimento mental da população tem uma forte referência à complexidade dos problemas sociais, agravados pela ausência e a negligência do Poder Público. As pessoas precisam resolver seus problemas no conhecido ‘é nós por nós’. Um despejo violento em Diadema, sem a oferta de alternativas de moradia, é um exemplo do descuido do Poder Público, aumentando a vivência de medos e ansiedades”.

Professor da USP revolta-se contra Aras e Lira, cúmplices do negacionismo bolsonarista

Por Paulo Henrique Arantes

A vacinação infantil contra a Covid-19 começou no Brasil. Pode-se afirmar sem medo de errar que o governo vacina a criançada por pressão da civilização, não por desejo ou convicção. Como deixou claro em inúmeras declarações, com ecos do ministro da Saúde, Jair Bolsonaro preferiria ver a garotada longe das agulhas da imunidade.

O mais novo desvario do capitão ignora o que realiza o próprio governo, que aplica nada menos que 25 vacinas nos brasileirinhos e nas brasileirinhas até os seus seis anos de idade (o Programa Nacional de Imunização ainda não foi destruído por Bolsonaro). Contra hepatite B, rotarívus, meningite, febre amarela, varicela, poliomielite, sarampo e várias outras doenças, tudo certo. Contra Covid-19, não, senhor.

Já está diagnosticada a mente doentia e tirânica do presidente do Brasil. Mais difícil de decifrar é a inação daqueles que respondem pelas instituições republicanas que deveriam freá-lo. O advogado Fernando Aith, professor titular da Faculdade de Saúde Pública da USP, é um dos milhões de indignados. “Nenhum outro país, a não ser este que elegeu Bolsonaro, aceitaria passivamente um governo a atuar contra vacinação infantil numa pandemia”, afirma.

Tal aceitação não se ilustra apenas pelo silêncio das ruas. Em um nível bem mais grave, concretiza-se no esfacelamento das instituições democráticas que deveriam agir para impedir, coibir e punir palavras e atos de um tiranete desvairado, consubstancia-se na inércia do presidente da Câmara dos Deputados e do procurador-geral da República. Sem o primeiro, não há impeachment. Sem o segundo, não se abre processo criminal contra o presidente.  A exemplo de Bolsonaro, Augusto Aras e Arthur Lira entender-se-ão com a História.

“Estamos numa situação em que o presidente da República e seus principais assessores se sentem à vontade para tripudiar de todas as suas obrigações constitucionais e legais, atuar de forma aberta contra a população, induzir a população à morte, colocar a vida de crianças em perigo, e tudo isso sem qualquer movimento das instituições cuja função é impedir e punir tais condutas”, acusa Aith.

A carapuça serve na medida em Aras e Lira. “Há uma total irresponsabilidade por parte das autoridades federais e uma ausência de ação adequada por parte das instituições que deveriam punir aqueles que atuam contra o interesse público, especialmente contra o interesse das crianças neste momento”, protesta o professor

Encontros de Bolsonaro com Putin e Orbán isolarão ainda mais o Brasil no mundo, diz Rubens Ricupero

Por Paulo Henrique Arantes

O que significam os encontros oficiais de Jair Bolsonaro, em fevereiro, com Vladimir Putin e Viktor Orbán, mandatários russo e húngaro que não mostram o menor apreço pela democracia? Significam que o presidente brasileiro estará frente a frente com dois dos autocratas nos quais se inspira, principalmente no caso do extremista de direita Orbán, e que o Brasil voltará ao tempo do obscurantismo diplomático de Ernesto Araújo, que parecia abandonado desde que Carlos França assumiu o Itamarati.

Em conversa com o Noticiário Comentado, Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na Itália, prevê mais um salto de Bolsonaro na direção do completo isolamento global. “Orbán é num líder de extrema direita isolado no mundo cujo poder está ameaçado em seu próprio país. É uma aposta diplomática errada e pode ser mais um ‘prego no caixão’ de Bolsonaro, a exemplo do que foram as derrotas de Donald Trump e Benjamin Netanyahu”, disse Ricupero.

Já Putin, avalia o diplomata e ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente, personifica hoje a maior ameaça à paz mundial, com a iminência de invasão da Ucrânia. “É um líder de potência armada que tem violado regras internacionais. Para onde irá a imagem do Brasil se Bolsonaro encontrar-se com ele logo antes ou logo depois de uma invasão da Ucrânia?”, indaga Ricupero. E responde: “O encontro será interpretado como apoio”.

Consertar o estrago diplomático que Bolsonaro provoca ao país não será tarefa fácil para o próximo presidente da República. Ex-subsecretário-geral da ONU, Rubens Ricupero diz que enxerga em Lula, líder em todas as pesquisas, alguém que “de fato, tem uma política externa”, como mostrou sua recente viagem à Europa. “Junto com Celso Amorim, Lula tem condições de conduzir bem a política internacional”, observa o ex-ministro, salientando sua discordância quanto a declarações recentes do ex-presidente sobre a Venezuela e a Nicarágua.

Ricupero lamenta que os pré-candidatos a Presidência do Brasil não mantenham temas ambientais em suas agendas prioritárias. Parece que lidam com tais questões por obrigação. “Nossos políticos, quando falam do tema, é mais por pressão do que por convicção. Eles são espertos no jogo do poder, mas atrasados no trato das grandes questões globais”.

Policial civil do Distrito Federal diz que operações policiais podem esconder ações de milícias

AFP PHOTO / CARL DE SOUZA

Por Paulo Henrique Arantes

Em 2020, não menos que 819 pessoas morreram no Rio de Janeiro em decorrência de operações policiais. Em 2021, também na Cidade Maravilhosa, duas ações foram aterrorizantes: uma, da Policia Civil, no Jacarezinho, resultou 28 mortes; outra, da Polícia Militar, no Complexo do Salgueiro, computou 1.500 disparos feitos por policiais e nove mortes. No Brasil, em 2020, 12% das mortes violentas intencionais aconteceram durante intervenções policiais, conforme o Anuário de Segurança Pública.

Em artigo publicado nesta quarta-feira (12) na Fonte Segura, newsletter do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Alexandre Pereira da Rocha, doutor em Ciências Sociais e policial civil no Distrito Federal, faz uma crítica alentada ao modelo das operações policiais no Brasil. “A letalidade policial não é particularidade das corporações do Rio de Janeiro, mas é efeito perverso que perpassa polícias brasileiras orientadas por diretrizes notadamente combativas e bélicas”, escreveu Rocha.

O policial lembra que, em junho de 2020, o Supremo Tribunal Federal restringiu operações policiais nas comunidades cariocas durante a pandemia de Covid-19, em resposta à Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) número 635. Estabeleceu o STF que as polícias devem justificar a necessidade da ação em comunicado ao Ministério Público.

Não adiantou. “Mesmo com a ADPF 635, as intervenções policiais não deixaram de ser realizadas com pretextos obscuros, tampouco se tornaram menos violentas. Assim, falta transparência no planejamento, execução e resultado das incursões policiais, o que abre suposição para motivações escusas, como ações de milícias ou de justiceirismos”, diz Alexandre Pereira da Rocha.

É notório o desvirtuamento das operações policiais no Brasil e, com mais holofotes, no Rio de Janeiro. Tais ações, segundo o cientista social e policial, deveriam constituir “um conjunto de atos coordenados, executados de forma planejada e em caráter sigiloso, desencadeados a partir de um levantamento prévio de informações, com um objetivo definido e específico, conexos a uma investigação em curso”.

Ele explica que o sigilo mencionado, contudo, “não franqueia poderes irrestritos às corporações”. Ou seja, trata-se de um requisito que não deve se sobrepor à transparência e à publicidade dos atos públicos. “As ações policiais não podem ser conduzidas exclusivamente pela discricionariedade, pois devem possuir objetivos e escopos passíveis de avaliação por outras esferas do Poder Público. Caso contrário, em nome da segurança permitem-se arbitrariedades”, escreveu.

Conforme explica Rocha em seu artigo, uma operação policial deve se nortear por sete questionamentos: necessidade (é necessária?), legalidade (está dentro da lei?), ponderação (está devidamente planejada?), proporcionalidade (os meios estão adequados?),  racionalidade (há planejamento?), oportunidade (o momento é adequado?) e responsabilidade (organizadores e executores conhecem suas responsabilidades?).

Rocha finaliza seu artigo com as seguintes palavras: “As polícias brasileiras devem saber que, enquanto agências estatais, são obrigadas a respeitar os direitos fundamentais na sua integralidade e sem discriminações, inclusive nos cenários das operações. Destarte, buscar regramentos para dimensionar o mandado policial – como propôs a ADPF número 635 ou a conceituação sugerida neste texto no tocante às operações policiais – pode ser caminho para firmar que qualquer intervenção policial à margem do Estado de Direito Democrático é ilegal, bem como crime”.

A falsa modernidade de um jornalão

Por Paulo Henrique Arantes

O problema de alguns jornalistas são as bolhas em que vivem. O sujeito isola-se no seu nicho retrógrado e dele não sai, nem sequer olha para fora. Apega-se a meia dúzia de dogmas e deles não desgruda. Contorce-se em palavrórios para fazer o leitor crer em algo que o mundo já demonstrou irreal. Por exemplo, o trabalho desregulado.

O Estadão publicou – me escapa o nome do autor – que um dos “erros” da campanha de Lula à Presidência da República (líder absoluto, com 48% de intenção de voto) é pregar a reversão da reforma trabalhista de Michel Temer, a qual constituiria um largo passo rumo à modernidade trabalhista.

O elogio à precarização do trabalho cumpre o mantra neoliberal de excluir o Estado da vida humana, como se um ente superior – o mercado ou coisa que o valha – fosse capaz de civilizar a cabeça do patrão brasileiro, um explorador por definição (salvo raras exceções).

O IBGE informa hoje um desemprego no país de 13,5 milhões de pessoas – taxa de 12,6%, o dobro da média mundial. A taxa de subutilização do trabalhador é de 26,5%. A subutilização diz muito sobre as novas formas de trabalho e emprego, que, sem retoques, nada mais são do que bicos.

O emprego formal – “carteira assinada”- é apregoado como desestímulo a contratações, pelos “altos custos trabalhistas” que envolve. Trata-se de uma bobagem primária. Patrões demitem ou deixam de contratar quando seus produtos ou serviços não vendem, e seus produtos ou serviços não vendem quando o consumidor ganha mal ou está desempregado. Mais ou menos como a historinha do biscoito Tostines.

A mentira de que a desregulamentação estimula o emprego confirma-se com uma olhadela nos números. Ao término do primeiro governo Dilma Rousseff, em 2014, antes da quase destruição da CLT, o desemprego era de 4,8%. A volúpia por modernizar as relações de trabalho, nos moldes temeristas, não gerou empregos e contribuiu com a paradeira da economia.

Este colunista recorda-se de quando foi entrevistar o ex-ministro Eros Grau, do Supremo Tribunal Federal. Terminada a conversa, o magistrado pergunta se eu estava de carro ou chamaria um táxi. Nenhuma das duas opções – eu me mandaria de Uber. Grau indignou-se, primeiro, por me arriscar a ser conduzido por um motorista não profissional; segundo, por usar os serviços de trabalhador tão precarizado. Confesso ter ficado um pouco envergonhado: a indignação de Eros Grau deveria ser a de todos nós.

O que o Estadão pretende é açular os ânimos dos patrões que ainda leem o jornalão. A campanha de Lula acerta porque se dirige ao trabalhador, que abomina ser explorado. Votará em quem o defende.

Gonzalo Vecina, como Margareth Dalcolmo, acredita que comportamento da Ômicron pode indicar pandemia perto do fim

Por Paulo Henrique Arantes

O médico sanitarista Gonzalo Vecina, ex-presidente da Anvisa, compartilha da opinião da pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz, que em artigo publicado hoje no jornal O Globo afirmou que o comportamento da variante Ômicron pode sinalizar o fim da pandemia de Covid, pelo menos em sua forma grave. “O que ela pensa e deseja é o que eu penso e desejo”, disse Vecina ao NotiCom.

“Tudo nos levaria a crer que o vírus chegou a um ponto da sua escalada evolutiva que alcançou a ‘perfeição’. E qual é a ‘perfeição’ para um vírus? É manter o hospedeiro vivo. Para se reproduzir, ele precisa de um hospedeiro – isso é o máximo que um vírus pode imaginar em termos de evolução”, explica Vecina.

Ele observa que a Ômicron apresenta uma infectividade maior que a do sarampo, uma das doenças conhecidas mais transmissíveis, e ao que tudo indica não mata seu hospedeiro. “Ela produz doença, pode até produzir alguma morte, mas são poucas e geralmente em pessoas que têm outras fragilidades”, nota o médico. E indaga: “Será que está chegando a hora de o coronavírus permanecer apenas como causador de uma entre tantas doenças com as quais o homem convive? Esse é o pensamento que eu entendo do artigo da Dra. Margareth, e é também o que eu penso”.

Mesmo que o cogitado por Vecina e Dalcolmo se confirme, ambos advertem que não é hora de abandonar máscaras e certo distanciamento social. E, mais do que nunca, é preciso vacinar.

“Pode haver o surgimento de uma nova variante? O futuro é desconhecido. Temos de tomar muito cuidado com o que ainda vem frente, embora pareça que estamos num momento interessante, com muitos casos mas poucas mortes e poucos casos graves”, pondera Gonzalo Vecina.

Olhe para baixo: o que torna um filme bom

DON’T LOOK UP (L to R) CATE BLANCHETT as BRIE EVANTEE, TYLER PERRY as JACK BREMMER, LEONARDO DICAPRIO as DR. RANDALL MINDY, JENNIFER LAWRENCE as KATE DIBIASKY, Cr. NIKO TAVERNISE/NETFLIX © 2021

Por Paulo Henrique Arantes

Tem gente desferindo chutes sobre “Não Olhe para Cima”, dirigido por Adam McKay e que estreou nestes dias na Netflix. O que torna um filme bom ou ruim? Alguns consideram um filme ótimo porque conta uma ótima história, outros porque traz atores em interpretações marcantes. Há ainda aquele que diz amar um filme por transmitir posicionamentos políticos idênticos ao dele, expectador.

Não é preciso ser crítico de cinema para saber que um filme é resultado de intenso trabalho técnico, do suor de uma centena ou mais de profissionais. Quando esse grupo de trabalhadores consegue realizar o intento original, a fita, muito provavelmente, será boa. Se esse mesmo filme não tiver como objetivo principal o resultado comercial, poderá ser arte. Notem que um filme não deixa de ser arte por ter alcançado resultado comercial estrondoso.

Não se deve analisar uma obra cinematográfica sem ocupar-se da clareza e da verossimilhança do roteiro, da qualidade (ou da originalidade) fotográfica, da edição das sequências, do movimento das câmeras, do desempenho dos atores e das atrizes. Também não se pode avaliar um filme sem saber que Godard é considerado um gênio dessa arte que despreza roteiros e monta sequências com cortes que parecem defeitos no equipamento de edição.

Pós-introito, digo que sim, “Não Olhe para Cima” é um filme muito bom. É arte? Não. Não é original no manejo da linguagem cinematográfica, não é artesanal, tampouco inovador no uso da tecnologia. Tem fotografia realista, câmeras ágeis (sem aquela horripilante trepidação, aberração tão em moda), excelentes atores. O roteiro, que foi criticado por ser “lento” em certo momento, é perfeito para o objetivo do diretor: irritar-nos. Claro, reproduzindo nossa irritação com a invencível imbecilidade dominante nestes tempos.

O filme é um deboche (no bom sentido) sobre os negacionismos que infestam o mundo. Troque-se a presidente e o cometa em tela por um Bolsonaro qualquer e a pandemia e têm-se a realidade.

“Não Olhe para Cima” deverá muito do seu êxito comercial ao carisma dos atores e das atrizes escolhidos. Faz duas décadas que Leonardo Di Caprio deixou de ser um belo rostinho para cravar interpretações magníficas (talvez as melhores sejam com Scorsese, em “Os Infiltrados” e “O Lobo de Wall Street”). A personagem de Jennifer Lawrence é hilariante (impagável a insistência dela em questionar as razões de um general na Casa Branca lhe ter cobrado por um sanduíche que ali era distribuído gratuitamente). Meryl Streep encarna à perfeição a mandatária preocupada antes de tudo com a reeleição, mesmo que à custa do fim do mundo. Seu filho-assessor, Jonah Hill, é o retrato da boçalidade que caracteriza nove em cada 10 assessores políticos, chefes de gabinete e bajuladores em geral.

Tão oportuno quanto a crítica ao negacionismo e ao domínio sobre a vida na Terra exercido pelas gigantes de tecnologia é o ataque (frontal) de McKay  à mídia, que se revela um antro de debiloides. Um programa de entrevistas “leves” deve ser “leve” e provocar risinhos bobos mesmo que sentado diante dos apresentadores esteja um cientista provando a proximidade do fim do mundo. Cate Blanchett e Tyller Perry, os apresentadores, são donos das duas melhores interpretações de “Não Olhe para Cima”. A repulsa que tais figuras nos provocam quase se assemelha à que sentimos quando diante de um debate na TV Jovem Pan. Quase.

Alckmin repete Mário Covas

Por Paulo Henrique Arantes

O ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin prova que é um conservador sensato, livrando-se em parte da imagem de chefe de uma polícia truculenta e possuidora de esqueletos no armário. Importante lembrar que Alckmin, em 2015, decretou sigilo de até 15 anos para 26 assuntos da PM paulista, entre os quais alguns relacionados a operações, execução orçamentária e agendas do comandante-geral e do subcomandante da instituição.

Se os temas policiais de fato necessitaram ser escondidos em nome da segurança pública, como se justifica, a atitude de Alckmin foi correta e é usual em qualquer lugar.

“Alckmin é um governador meio reaça, mas correto”, disse em 2014 Plínio de Arruda Sampaio, ainda depois de falecido uma referência da esquerda católica brasileira. Digamos que Plínio e Alckmin são católicos que nunca rezaram para os mesmos santos – um, da linhagem progressista, atuante em reformas de base; outro, apegado a dogmas da Opus Dei.

Fora do PSDB, Alckmin será sempre um tucano, no sentido “clássico” do termo. E esta não é a primeira vez que um pássaro de bico grande e voo curto adere a Lula, ainda que nunca antes ocupando cargo de relevo em chapa eleitoral. Em 1989, Mário Covas jogou todo seu prestígio político em apoio ao petista contra Fernando Collor no segundo turno da eleição presidencial. Como agora, foi uma união contra o mal maior.

Quem viveu aqueles dias lembra-se de que o PSDB dividia-se entre os que pretendiam apoiar Collor e os que queriam fechar com Lula. No primeiro grupo estava Fernando Henrique Cardoso, já com cargo prometido num eventual governo do representante da direita. Covas, candidato derrotado no primeiro turno, bateu duro na briga interna, afirmou que deixaria o partido caso fosse formalizado apoio a Collor. Forçou a sigla a abraçar Lula.

No palanque de esquerda, Covas proferiu discursos contundentes nos inesquecíveis comícios da Praça Charles Miller, São Paulo, em 10 de dezembro, com a presença de Luís Carlos Prestes, e em 13 de dezembro, na Candelária, Rio de Janeiro, ao lado de Leonel Brizola. Fernando Henrique e José Serra também estiveram presentes, mas exibindo sorrisos amarelos.

Na época, Geraldo Alckmin era deputado federal. Hoje, mostra que a personalidade do seu padrinho político vive nele, o que pode ajudá-lo a superar a imagem de coroinha e protetor de policiais violentos.