O desafio da saúde no governo Lula

Por Paulo Henrique Arantes

O governo Bolsonaro, nos seus estertores, promoveu um corte de verbas destinadas a programas específicos na área da saúde, entre os quais projetos de combate ao câncer. A medida veio fechar uma jornada de destruição da saúde pública, cuja face mais visível é a desestruturação do antes excelente Programa Nacional de Vacinação.

Se confirmar o nome de Nísia Trindade (foto), presidente da Fiocruz, no Ministério da Saúde, Lula dará um pontapé inicial na direção certa para salvar o setor. O empenho para que a fila do SUS diminua precisa ser diuturno, principalmente porque a lei já obriga à agilidade.

No passado recente o Congresso estabeleceu os critérios – a Lei dos 30 Dias e a Lei dos 60 Dias – para que houvesse mais celeridade no atendimento dos pacientes no sistema público. O problema é que não há meios de cumpri-los, pois as instituições estão trabalhando no limite de sua capacidade.

Outro problema grave que a futura ministra, ou ministro, terá de enfrentar é quanto aos medicamentos disponíveis na rede pública. Hoje o SUS dá acesso a um pacote de medicações razoável, mas distante dos produtos mais modernos encontrados na rede privada. Há uma intensa discussão, global, sobre como fazer com que os sistemas públicos consigam bancar financeiramente o acesso às novas medicações, eficazes e caras.

O paciente que depende no seu tratamento de uma droga imunoterápica, por exemplo, vai ter grande dificuldade de recebê-la no sistema público, mas não no privado.

Além do problema decorrente de subfinanciamento, o Brasil convive com um sistema para liberação de novas drogas extremamente burocrático. Nos Estados Unidos, logo que a Food and Drug Administration (FDA) aprova um novo remédio, ele torna-se disponível para a população. Por aqui, o produto novo precisa percorrer três instâncias.

Primeiro, o novo remédio é avaliado pela Anvisa. Uma vez aprovado pela agência, o produto, para ser incorporado ao SUS, tem que ser submetido à Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde), e, no sistema privado, tem que passar pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). Esses órgãos analisam o que foi aprovado pela Anvisa e fazem a incorporação nas suas linhas de tratamento – é justamente nesse ponto que ocorre uma enorme demora.

No caso da ANS, até o mundo mineral (salve, Mino Carta!) sabe da influência que sofre de operadoras e administradoras de planos de saúde, preocupadas antes de tudo em reduzir custos. Historicamente, em todos os governos recentes, a presidência do órgão tem sido ocupada por pessoas ligadas – até sócias – a essas empresas, para as quais os pobres constituem uma robusta massa rica. As operadoras vivem tentando “roubar” pacientes do SUS com planos populares, mirando o dinheiro de quem deveria ser atendido na rede pública.

Esses gargalos não foram enfrentados pelos Pazuellos e Queirogas da vida, nem imaginaríamos que fossem. Mas o país renova a fé no sistema público a partir de janeiro de 2023, seja com Nísia Trindade ou qualquer outro nome que preze pela ciência e a saúde universal.

A eleição passou, mas o combate às fake news precisa continuar

Por Paulo Henrique Arantes

A Câmara dos Deputados rejeitou, ainda em abril, apreciar em regime de urgência o Projeto de Lei 2.630 / 2020, o PL das Fake News. Enterrou-se a esperança de que o país contasse com uma Lei das Fake News na eleição de outubro. Não fosse a ação proativa do Tribunal Superior Eleitoral, a máquina bolsonarista de forjar absurdos daria mais uma vez a Presidência da República ao capitão.

      As eleições passaram, Lula venceu, mas ainda se veem fake news surgirem para tumultuar o ambiente democrático, como aquela em que se atribui a Lula, presidente eleito, a frase “vamos confiscar tudo”, ou ao vice eleito, Geraldo Alckmin, a afirmação de que o PIX será taxado.

      Cabe à extrema direita o pioneirismo em profissionalizar a utilização em larga escala dessa ferramenta criminosa. Até que outro nome emerja, o guru global das fake news será o americano Steve Bannon, estrategista-chefe da campanha vitoriosa de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos. As milícias digitais brasileiras seguem seus passos abertamente, posam ao lado dele em fotos nas redes sociais e tudo mais.

      No estudo “Fake News: O Fenômeno da Desinformação”, a jornalista Magali Cunha, doutora em Ciências da Comunicação e editora-geral do Coletivo Bereia – Informação e Checagem de Notícias, escreveu o seguinte: “A disseminação de falsidades ocorre entre diferentes grupos ideológicos, intensificando polarizações. No entanto, grupos conservadores parecem ser os mais propensos à propagação, por conta de maior exposição à ‘dissonância cognitiva’. Tais grupos rejeitam transformações sociais e políticas que confrontam suas convicções”.

      Relativiza-se o que é verdadeiro a partir de convicções, ou interesses pessoais. Pouco importam as comprovações fáticas ou científicas – vide a cloroquina. A pandemia ferveu o caldo de cultura propício para o desenvolvimento das fake news.

        Instaurado em março de 2019, o famigerado inquérito das fake news no Supremo Tribunal Federal (4.781) nasceu meio torto, por iniciativa do seu então presidente, Dias Tóffoli, que designou como relator o ministro Alexandre de Moraes. Atipicamente, o inquérito excluiu a participação do Ministério Público, da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal das investigações. A ação justificou-se pelo Artigo 43 do Regimento Interno do STF, segundo o qual “ocorrendo infração à lei penal na sede ou na dependência do Tribunal, o presidente instaurará inquérito, se envolver autoridade ou pessoa sujeita à jurisdição, ou delegará esta atribuição a outro ministro”. Posteriormente, a legalidade da ação foi reconhecida pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, e pelo então advogado-geral da União, André Mendonça, que hoje integra o STF.

      Os criminosos, criadores e disseminadores de fake news, costumam, primariamente, defender-se apontando o direito constitucional à liberdade de expressão. Ocorre que liberdade de expressão não é um direito absoluto. Por exemplo, a incitação à violência não é protegida por liberdade de expressão. Discriminação racial ou religiosa também não. Assim como não são permitidos discursos que sejam capazes de colocar em risco a integridade física de indivíduos ou populações.

      Restrições à liberdade de expressão constam de todos os tratados internacionais que lidam com o tema e dos quais o Brasil faz parte, dentre eles o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos. Esses tratados, vale dizer, têm força superior à das leis comuns no Brasil.

      Deveria ser este o tempo da verdade, tempo de disseminar o que a ciência descobre em benefício da humanidade, tempo de consolidar os avanços civilizatórios que nada têm de esquerda ou direta – são avanços na direção do aperfeiçoamento da civilização. Não se pode permitir que ocultem-se verdades históricas e que, paradoxalmente, repliquem-se as mais abjetas mentiras.

      A parte civilizada do globo tenta vencer o extremismo calcado em fake news e em idolatrias inimagináveis no Século XXI, como a Adolf Hitler. Os grupos neonazistas têm mostrado a cara, impulsionados por discursos de ódio e contra minorias, conforme estudo da antropóloga Adriana Dias, da Unicamp. Estima-se a existência de 530 núcleos neonazistas no país, reunindo 10 mil pessoas. Não pode haver liberdade para o que essas pessoas querem expressar.

O que seria da eleição sem o “ativismo” do TSE?

Por Paulo Henrique Arantes

“Especialistas” ouvidos pelos jornalões apontam ativismo por parte do TSE e do STF, mais especificamente por parte do ministro Alexandre de Moraes, tanto na presidência da corte eleitoral durante as eleições quanto em inquéritos que relata no Supremo. É mesmo discutível o comportamento do magistrado, como é o de todos os juízes, sempre, em todos os processos sobre os quais se debruçam até que julguem. Inexiste dose zero de personalismo, na justiça e na vida.

Pergunta-se o que seria do pleito eleitoral sem o “ativismo” de Moraes e em face da absoluta inação do Ministério Público Eleitoral diante do gigantesco volume de delitos promovido pela campanha bolsonarista. Deveria Moraes deixar rolar a desinformação, as mentiras forjadas modernamente chamadas de fake news?

Para o jurista Rafael Mafei, professor de Filosofia do Direito da USP ouvido pela coluna – mas que não está no rol dos “especialistas” ouvidos pelos jornalões -, o que o TSE fez foi tão somente cumprir sua missão constitucional de garantir eleições equilibradas. “Podemos discutir uma ou outra decisão, e é normal que isso aconteça, porque são muitas decisões tomadas no curso do período eleitoral. Mas acho que não pode haver dúvida de que o espírito que moveu o TSE foi o de cumprir seu papel”, disse-nos Mafei.

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Registre-se que a estratégia política da extrema direita calcada na desinformação antecede estas eleições, tendo caracterizado todo o governo Bolsonaro e a campanha que o elegeu em 2018.  A prática é global, já se cansou de dizer, e seus formuladores são mais que conhecidos.

“Muitas nações lutam hoje para construir critérios jurídicos que permitam reagir a diversas formas de desinformação realmente nocivas – a desinformação eleitoral é uma delas. Existe também a desinformação científica, que vimos muito na pandemia. Globalmente, devem ser aperfeiçoados os critérios para intervenção sobre um tipo de desinformação que precisa ser combatido, preservando-se a liberdade de expressão, este um valor inequivocamente importante”, observa Mafei.

A novidade destas últimas eleições brasileiras é que o parâmetro para intervenções baseou-se não só no tradicional critério da proteção da honra e da imagem, mas também na coibição da desinformação. O TSE inovou, a bem da democracia. Praticou ativismo judicial? Ora, o termo ativismo pode significar muitas coisas. Para o professor Rafael Mafei, exercer protagonismo é da natureza dos tribunais superiores. Assim é nas democracias avançadas.

Os dois públicos de Lula

Foto Ricardo Stuckert

Por Paulo Henrique Arantes

     O “mercado” é impressionante. A imprensa também.

      O que disse Lula? Isto: “Eu nunca vi um mercado tão sensível como o nosso. É engraçado que esse mercado não ficou nervoso durante quatro anos do governo Bolsonaro”. E um pouco mais, ao perguntar: “Guardar dinheiro para pagar dívida de banqueiro?”

      Instalou-se uma espécie de polvorosa fake, com Bolsa caindo e dólar subindo. Analistas da mídia tradicional e mercadista correram a puxar a orelha do presidente eleito, que “vinha bem”, mas agora “sinaliza irresponsabilidade fiscal”.

      Parece piada.

      A responsabilidade fiscal é compromisso de Lula e está na vitrine dos seus oito anos de governo. Ocorre que o “mercado” quer mais. Quer que o cuidado com os gastos públicos esteja acima da preocupação com as carências da população e a necessidade de investimentos. Com Lula isso não acontecerá.

      O “mercado” quer ainda mais sinais do presidente eleito em sua direção. Não bastam os nomes dos economistas que o apoiam e o assessoram. Essa assombração mal definida que busca reger os destinos da humanidade pretende obrigar o futuro mandatário a ater-se antes de tudo ao teto de gastos, uma âncora aberrante que ignora a realidade de uma nação que precisa do Estado.

      Banqueiros se arvoram a dizer que “responsabilidade fiscal e social andam sempre juntas”. Onde? Como, se o teto de gastos impede destinações suficientes para o auxílio aos pobres, para plano de medicamentos a baixo custo e para suprir tantas outras carências sociais? Faltou explicar que o famigerado teto não é um instrumento modelar de responsabilidade fiscal, mas um modelo acabado de irresponsabilidade social.

      Lúcido mostrou-se José Roberto de Toledo, no UOL: “A ‘Faria Lima’ precisa tomar um calmante porque se for oscilar toda vez que o Lula der uma declaração de manhã de um jeito e, à tarde, de outro, ela vai ficar pirada. O Lula fala conforme o público”.

      Bingo. Lula tem mesmo dois públicos. Um, precisa dele. Outro, quer capturá-lo.

Um pouco do pensamento de Bernard Appy, que pode cuidar da reforma tributária no governo Lula

Por Paulo Henrique Arantes

O economista Bernard Appy é consultado por nove em cada 10 políticos, empresários e sindicalistas interessados em reforma tributária, tanto que na campanha eleitoral de 2022 foi ouvido – por intermédio do CCif (Centro de Cidadania Fiscal), think-tank por ele criado – pelas equipes técnicas dos candidatos Lula, Ciro Gomes e Simone Tebet. Em 2014, colaborou com o plano de governo da candidata Marina Silva. Foi secretário-executivo do Ministério da Fazenda no primeiro governo Lula (2003-2007) e chegou a assumir interinamente o comando da pasta, numa breve ausência de Guido Mantega.

      A se confirmar seu nome no novo governo, como tem sido cogitado, o Brasil terá um técnico qualificado para propor a reforma tributária, mas não um tecnocrata insensível com as causas sociais.

      Dez dias antes das eleições, a coluna conversou com Appy, que acredita que os impostos cobrados sobre o consumo podem adquirir caráter progressivo. Como? Devolvendo parte do dinheiro arrecadado aos mais pobres.

      “Propomos um sistema que chamamos de isenção personalizada: em vez de isentar mercadorias, devolve-se dinheiro às pessoas de baixa renda. Você arrecada com uma alíquota mais alta e você devolve o dinheiro incidente sobre o consumo às pessoas de baixa renda, obviamente dentro de um limite, para não haver fraudes. Esse sistema, do ponto de vista distributivo, é muito mais eficiente do que desonerar cesta básica”, explicou-nos o economista.

      A progressividade é uma decisão política, não estritamente técnica, entende Appy, aqui falando sobre o imposto de renda. Uma alíquota que se aproxime de 40% para os contribuintes de renda mais elevada estaria no padrão internacional – leia-se OCDE.

     Quanto à faixa de isenção, eis o que pensa Appy: “Se olharmos em termos absolutos, a faixa de isenção no Brasil é menor que a dos países desenvolvidos, mas se você pegar em termos de proporção da renda média, a faixa de isenção atual do imposto de renda no Brasil é até mais alta do que em países desenvolvidos. No fundo, acaba sendo uma decisão política. Eu, pessoalmente, sou contra uma faixa de isenção muito alta – pode ser um pouco mais alta do que a atual -, porque pagar imposto de renda faz parte da cidadania, ainda que seja uma alíquota baixa”.

      A distorção mais grave, no entanto, percebe-se quando a tributação da renda do trabalho de um empregado formal é comparada com a tributação do trabalho de um PJ (pessoa jurídica), aquele que recebe a renda como sócio de uma empresa no regime simplificado, no lucro presumido ou no Simples.

      “Imaginemos um prestador de serviço, sócio de uma empresa que está no lucro presumido, que fature 100 mil reais, tenha 20 mil reais de despesa e renda efetiva, antes da tributação da renda, de 80 mil reais. Esse prestador, hoje, na margem, está pagando 13% de imposto sobre a renda dele”, percebe Appy. Muito menos que o trabalhador assalariado, portanto.

      O economista também é contra desonerações setoriais: “Do ponto de vista de tributo sobre o consumo, não vejo nenhum setor que mereça. A melhor forma de tributar o consumo é com uma alíquota uniforme e devolução do imposto às famílias de baixa renda. Os países não usam desoneração sobre consumo como política de desenvolvimento setorial – são raríssimos os casos. O que existe é tratamento diferenciado para reduzir tributo em certas categorias de consumo, como cesta básica, determinados alimentos, transporte público. Como política de desenvolvimento, não é bom. No Brasil, isso é usado porque temos um sistema muito ruim, que tributa muito a produção, o que acaba levando à guerra fiscal por causa da tributação na origem”.

A antipolítica bolsonarista está nos estertores

Por Paulo Henrique Arantes

Já lembramos neste espaço que o primeiro mandatário da República Checa, o escritor e dramaturgo Vaclav Havel, foi um intransigente defensor da resistência não-violenta. Líder da Revolução de Veludo, Havel é um ícone da “política da antipolítica”, tendo atuado contra o monopólio ideológico da vida pública. Gandhi e Luther King também foram expoentes da antipolítica, conduzindo rebeliões pacíficas.  

Nos três casos, nada a ver com o sentimento antipolítica que Jair fez despertar em tanta gente no Brasil, mesmo sendo ele um político no pior sentido da palavra, deputado folclórico e inoperante, viúvo e saudoso da ditadura, mau orador, péssimo negociador. Suas horas na Presidência da República estão contadas e sua antipolítica de fachada deverá ser substituída pela política em sua essência civilizatória, surgida para que os conflitos sociais deixassem de ser resolvidos por meio da força.

Para o ensaísta húngaro Gyorgy Konrad, dissidente durante a dominação soviética em seu país, “a antipolítica é a atividade política daqueles que não querem ser políticos e que recusam sua cota de poder” – algo que Jair nunca fez, nem de longe. Tampouco poderia, pois extrai benesses pessoais justamente da política em sua pior versão, aquela do compadrio, da adulação, do favorecimento a grupelhos. Corrupção, fisiologismo, patrimonialismo, caciquismo, mandonismo e nepotismo, somados a uma notável incompetência na gestão pública, caracterizam a política bolsonarista.

Com a provável derrota de Jair no domingo, o governo Lula terá de provar que sem política, a boa politica, não se constrói uma nação. Será necessária uma nova transição, cujos resultados, se positivos, levarão as pessoas a compreenderem que sem política não há civilização. O desejo final dos eleitores é que as más práticas no exercício do poder político sejam extirpadas, não camufladas.  Se o povo afirma odiar política, talvez passe a amá-la quando entender que ela pode estar a seu serviço.

Cristianismo armado

Por Paulo Henrique Arantes

      O ataque a granadas e tiros de fuzil de Roberto Jefferson aos policiais federais ilustra o “cristianismo” praticado pelos bolsonaristas. Já se lembrou que o revide a balas foi anunciado por Jair em hipotético – e hoje provável – cerco policial que venha a sofrer. Um e outro apregoam pieguices falsamente cristãs diuturnamente. De arma na mão.

      A tarefa cristã, por sacerdotes ou fieis sem posto eclesiástico, de levar o Evangelho a todos cantos tem respondido ao longo dos séculos pelo conforto espiritual de muita gente, pessoas cujo desespero e a descrença lhes poderiam ser fatais, roubando-lhes o discernimento e lançando-os no vazio do ceticismo.

      Paralelamente, o engajamento cristão em ações concretas de cunho social, de combate às gritantes injustiças que persistem em nossa História, como praticado pelo Padre Júlio Lancellotti, constitui a mais efetiva das missões religiosas: olhar de modo indignado e denunciar a crueldade de políticas econômicas exclusivas, a insensibilidade dos detentores do poder – e do dinheiro – perante aqueles que comem lixo e dormem sob viadutos.

      Esse é um papel político louvável dos religiosos, cujo múnus pastoral requer a coragem de participar da contenda eleitoral exigindo dos candidatos que assumam compromisso com a reversão do quadro de miséria que parece cada vez mais predominante no Brasil. A CNBB fez isso.

      No Brasil convivem religiões diversas, num ecumenismo que sugere fraternidade e respeito. Tal característica brasileira está sendo vilipendiada por uma distorção aberrante levada a cabo por pastores evangélicos e por figuras esdrúxulas como o tal Padre Kelmon. A questão nesta semana saiu um pouco do foco, obnubilada pelo caso Jefferson, mas certamente no domingo saberemos quanto o falso deus bolsonarista influenciará o resultado das urnas.

      Deus como peça de fake news grosseiras e criminosas – assim Jair e equipe praticam seu cristianismo.  Ataca-se o outro com vileza por sua crença ou pela falta dela, imputam-se ao adversário palavras nunca ditas, descontextualizam-se posicionamentos passados, pintam-se o contendor e seus seguidores com as cores do demônio.  A era das mentiras forjadas para destruir reputações não vê limites e, nesta quadra tenebrosa, consolida-se mediante o duo Bíblia e bala.  

      O caldeirão de falsa religiosidade em que a campanha eleitoral foi jogada aceita tudo, desde promessa de salvação a quem votar em determinado candidato até inculcação de temor por eventual vitória do demônio, encarnado em certo postulante.

Delírios eleitorais    

Por Paulo Henrique Arantes

O sentimento que prevalece nesta campanha eleitoral deveria ser o de coragem, mas é de tristeza. Aos 522 anos de História, 133 de República e 37 de reconstrução democrática, o Brasil não conseguiu desenvolver força institucional suficiente para conter um ser desumano como Jair, alçado ao Planalto por um conluio elitista.

      Jair deverá ser derrotado em sua tentativa de reeleição, indicam os prognósticos, mas suas práticas em campanha já deveriam ser bastantes para uma impugnação. Qual o limite da mentira e do uso de recursos públicos para fins eleitorais? Para que servem as leis que tratam de calúnia, difamação e congêneres? Tirar do ar uma notícia forjada basta?

      O Tribunal Superior Eleitoral autorizou-se agora a excluir de ofício conteúdos sabidamente falsos que adentrem as mídias. Juristas advertem para a excepcionalidade da medida. Bingo! Se este momento não justifica atos excepcionais, o que justificará?

      Alheio a tudo isso parece estar o eleitor, ou parcela do eleitorado. O mundo paralelo em que vive Jair conta com população cativa, ignorante e delirante. Não pode ser menos que delírio acreditar que Jair “é família”, aplaudir Paulo Guedes e sua economia biruta, temer pela implantação do comunismo ou do banheiro unissex, atemorizar-se com o “fechamento de igrejas” ou espantar-se com as “ligações de Lula com o PCC”.  

      Tudo isso causa tristeza.

      Quem ainda hoje acha que a vida deveria ter seguido sem restrições durante a pandemia não tem os pés na terra. Eis o grande desafio de Lula e dos democratas: como alertar contra os riscos à democracia um cidadão que acreditou – e ainda acredita – na cloroquina? Como mudar a mentalidade do sujeito que quer andar armado e que normaliza racismo, misoginia e homofobia?

      Este colunista respeita os institutos de pesquisa e compreende como e por que o resultado das urnas pode contradizer as sondagens. Mas algo parece estranho quando vemos o Datafolha afirmar, como na tarde de quinta-feira 20, que 79% da população brasileira apoiam a democracia. Como assim, se mais de 40% do eleitorado votam em Jair? Outro dado estarrecedor: dos pesquisados que se dizem eleitores do mau capitão, 80% declaram-se apoiadores da democracia.

      Alguém está mentindo. Ou estamos todos loucos.

Moraes descobre a pólvora

Sérgio Lima / Poder 360

Por Paulo Henrique Arantes

O Brasil, entendido como a soma das instituições democráticas que lhe sustentam na condição de República, não está preparado para lidar com os métodos de campanha bolsonarista, o mesmo dos demais expoentes da extrema direita mundial. O ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, disse-se nesta quinta-feira (13) surpreendido com uma “segunda geração” de fake news, calcada em duas vertentes. Assim falou Moraes: “A primeira delas é a manipulação de algumas premissas verdadeiras, que junta várias informações verdadeiras que aconteceram chegando a uma conclusão falsa. A segunda delas é a utilização de mídias tradicionais para se plantar fake news e, a partir disso, as campanhas replicam essas fake news, dizendo que ‘isso é uma notícia'”.

Jura? Qual é exatamente a novidade?

Com relação ao primeiro modelito fake, o que o ministro descreveu é a descontextualização de sempre, presente em cinco de cada 10 peças de internet criadas para atacar Lula, como aconteceu para atacar Dilma, como era recorrente na mídia durante toda a Lava Jato e como acontece todo dia, toda hora, em grupos WhatsApp e redes sociais (as outras cinco são mentiras forjadas mesmo, sem qualquer ligação com a realidade). O trabalho de inculcar no gado a tão necessária contextualização dos fatos tem sido a árdua rotina de todos que ainda esperam vencer a eleição mediante argumentos sérios. Luta inglória.

O segundo modelo fake que Moares percebeu são as falsas notícias plantadas na imprensa. Louve-se, por correta, a fala do ministro: “Não se pode admitir mídia tradicional de aluguel, que faz uma suposta informação jornalística absolutamente fraudulenta para permitir que se replique isso. Esses casos cresceram muito a partir do segundo turno, e devem ser combatidos para garantir a informação de verdade”. Mas, referir-se a essa prática como novidade ou ao seu crescimento no segundo turno como algo inesperado revela, no mínimo, certa ingenuidade.

O presidente do TSE tem sido um aliado da democracia e, justamente por isso, uma pedra no sapato de Bolsonaro. Logo na primeira hora à frente da corte, com firmeza, anunciou que fake news não seriam toleradas. De fato, medidas têm sido tomadas para removê-las das plataformas que lhes dão suporte. Mas e daí? O alcance de mentes e corações já foi consumado e o boca-a-boca que se segue não pode ser bloqueado.  Talvez a chave para coibir esse tipo de crime de uma vez por todas seja a punição dos autores e dos disseminadores de modo mais célere. E mais duro, a exemplo da pena imposta nos Estados Unidos ao radialista odiento Alex Jones, de nada menos que 965 milhões de dólares, por negar o assassinato de oito crianças em uma escola de Connecticut.

O leitor já imaginou Carluxo e seus vassalos na mídia recebendo uma sentença como essa?

Lula sai na frente contra fake news e Orçamento Secreto

Por Paulo Henrique Arantes

Lula entra no segundo turno com 6 milhões de votos à frente de Bolsonaro e com os prováveis apoios de Simone Tebet e do PDT de Ciro Gomes, a despeito da pouca probabilidade de uma manifestação clara em seu favor por parte do cearense. Em São Paulo, o deputado federal mais votado foi Guilherme Boulos e o estadual, Eduardo Suplicy. Haddad venceu na Capital e está no segundo turno (o Interior paulista anda da caminhonete turbinada, ou sonha em ter uma, e ouve sertanejo universitário, seja lá o que for isso). 

É possível enxergar um cenário positivo para os democratas, mesmo com as bancadas numerosas eleitas pelo bolsonarismo. Lula sai na frente – e bem à frente – contra a máquina do Estado, usada descaradamente, e uma criminosa indústria de fake news que o TSE coíbe ainda timidamente.

As pesquisas são um caso à parte. A tendência é repudiá-las pelo subdimensionamento da extrema direita, mas vamos com calma. Um ponto e meio percentual a mais e Lula estaria eleito no primeiro turno – nesse quesito, o resultado ficou na margem de erro. Quanto ao desempenho de Bolsonaro, diretores dos institutos fizeram várias ressalvas sobre as projeções às vésperas das eleições, apontando os tais dos “votos envergonhados” e algo que parece mais provável: eleitores do capitão repudiam pesquisas e pesquisadores, e portanto muitas abordagens a bolsonaristas são descartadas.

A decepção dos democratas dá-se muito mais por uma falsa expectativa do que pelo resultado do primeiro turno em si. Vencer o presidente da República no primeiro turno exige mais do que denunciar um governo inepto, corrupto e fascistoide. Escrevemos aqui, em coluna passada, que Bolsonaro seria derrotado pelo que é o seu governo e a sua mentalidade doentia. E será.

Mas há toda uma estrutura de governo azeitada mediante benesses orçamentárias que rendem votos. É compra de voto, ou o Orçamento Secreto não favorece campanhas parlamentares? Bases eleitorais de deputados bolsonaristas estão abarrotadas de dinheiro.

Os democratas, liderados por Lula, venceram o primeiro turno amealhando apoios na sociedade civil, agregando trabalhadores, artistas, intelectuais, juristas, economistas e até empresários. A costura política desenvolvida pela campanha do petista está de parabéns.  Não se liquidou a fatura porque fazer o Poder mudar de mãos requer um pouco mais de trabalho. O segundo turno vai exigir sangue, suor e lágrimas.

A tal “pauta de costumes” tem seu peso, é claro, mas é simplismo argumentar que tantos brasileiros votam em Bolsonaro por identificarem-se em termos comportamentais com tamanha boçalidade. Há os fascistas, os belicosos e os idiotas por natureza, mas influi em favor de Bolsonaro muito mais a desinformação, via fake news, e o dinheiro, via Orçamento Secreto.