Sustentabilidade, inegável zeitgeist atual

Por Paulo Henrique Arantes

Quando Donald Trump anunciou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, 17 estados americanos formalizaram outro acordo, entre eles, para cumprimento de metas muito rigorosas de redução de emissão de gases de efeito estufa. A economia americana está num modo irreversível de substituição de combustíveis fósseis por fontes de energias renováveis, ainda que o país permaneça como grande poluidor.

Uma das vantagens da energia renovável é que ela gera novos e mais empregos. China, Alemanha e Estados Unidos são países que têm uma enorme dinâmica de empregos associada à energia renovável. Não tem mais volta.

O Brasil assumiu, no Acordo de Paris, metas bastante ambiciosas até 2030, até mais ambiciosas que as dos Estados Unidos, todas solenemente ignoradas por Jair Bolsonaro. As metas iniciais brasileiras – ou novas metas, talvez mais realistas – só serão alcançadas mediante incentivo forte à redução das emissões da agricultura e uma política rigorosa de desmatamento zero, têm afirmado e reafirmado os especialistas.

      O governo Lula parece tratar do assunto com a seriedade que ele merece. A postura do presidente brasileiro na Cúpula da Amazônia é de alguém comprometido com a preservação ambiental e, em consequência, com a questão climática.

Em implicações paralelas, o prestígio internacional que o Brasil deterá se reduzir significativamente os índices de desmatamento da Amazônia e implantar políticas eficazes de proteção dos seus ecossistemas será enorme. Com a redução do desmatamento na Amazônia e também do Cerrado o Brasil consolidará a imagem de país que trilha o caminho da sustentabilidade, retrato perdido nos anos Bolsonaro. Os setores exportadores do agronegócio, salvo exceções, sabem disso.

Quanto à exploração mineral em terras indígenas, que envolvem desmatamento, trata-se de outra forma de ambição econômica desmesurada, uma ambição desumana: nenhum valor econômico que exista embaixo ou em cima da terra é superior aos direitos dos povos originários.

Preservar a natureza e brecar o aquecimento global, ao menos no mundo civilizado, deixaram há algum tempo de ser bandeiras de “naturebas”. Também não são mais temas prioritários apenas para quem se preocupa com o futuro distante da humanidade, descolando-se dos problemas aparentemente mais urgentes. Quem não praticar sustentabilidade hoje estará fora da pauta econômica, fora do comércio internacional, fora da movimentação global.

Como já disseram, o zeitgeist desta quadra histórica é a sustentabilidade.

Chacinas policiais não derrotam o crime organizado

Por Paulo Henrique Arantes

A polícia do governador Tarcísio provou ser vingativa, na pior acepção da palavra, em vez de eficiente. É notório entre a bandidagem que matar um tira, ainda mais de grupamento especial, gera reação igualmente mortal. Ocorre que o morticínio possui a face cruel de alcançar inocentes, além de, comprovadamente, não reduzir o poder das organizações criminosas – estas têm de ser atacadas nos seus cofres.

Quem entende de crime organizado no Brasil é o desembargador aposentado Wálter Fanganiello Maierovitch, que tem espaços no UOL e na rádio CBN e que já foi colunista de Carta Capital. Ano passado, Maierovitch ganhou o Prêmio Jabuti pelo livro “Máfia, poder e antimáfia – Um olhar pessoal sobre uma longa e sangrenta história”. É figura midiática.

Há alguns anos, este colunista entrevistou longamente o jurista, fundador do Instituto Giovanni Falcone de Ciências Criminais. A imersão no conhecimento de Maierovitch amplia a visão sobre o modus operandi do crime, e, hoje, faz com que a ineficiência de ações como a da polícia do governador Tarcísio no Guarujá – e das polícias brasileiras em geral – seja clara como água.

O Brasil está atrasado em termos de política criminal, especialmente em relação ao crime organizado, ensina-nos Maierovitch.  Verificadas a legislação europeia e a Convenção de Palermo, primeiro instrumento jurídico a tratar de “organizações criminosas”, percebe-se que o crime organizado é de difícil desmantelamento. Identificam-se facilmente associações delinquenciais comuns – quadrilhas e bandos -, mas apenas resvala-se da estrutura dos grupos mais complexos.

Organizações como o PCC controlam territórios, exercem domínio social e possuem grande poder econômico. O Primeiro Comando da Capital já adquiriu caráter transnacional – é uma máfia, portanto. Como combatê-la? Não é chacinando um bairro pobre.

“O mundo sabe disso, isso é preconizado no mundo, e no Brasil não se pratica: você só consegue combater crime organizado mexendo no bolso, mexendo no caixa da organização. Vale dizer: desfalcando-a. E o governo de São Paulo ainda não de preocupou em desfalcar o PCC. Quando um comércio ou uma indústria quebram? Quando não têm dinheiro”, dizia-nos Wálter Fanganiello Maierovitch no longínquo ano de 2014. Nada mudou.

É óbvio que se entranhar nas movimentações financeiras do crime organizado dá trabalho, requer preparo técnico, recursos tecnológicos, dedicação exclusiva, tempo e dinheiro. É disso que a polícia precisa, não de estímulos a um estúpido desejo de vingança.

Hora de o Supremo horrorizar os medievais

Por Paulo Henrique Arantes

Sem dúvida, o Supremo Tribunal Federal foi – e é – indispensável para a manutenção da democracia. Se em alguns momentos preferiu os aplausos da massa punitivista, em tantos outros brecou impulsos neofascistas. Agora, precisa provar-se de uma vez por todas em sintonia com o mundo civilizado, fazendo jus à classificação de “reserva iluminista” que lhe foi dada tempos atrás pelo ministro Luís Roberto Barroso.

Claro, Barroso exagerou. Um tribunal constitucional não é reserva de nada. Cabe-lhe fazer cumprir a Carta Magna e nada mais. Ocorre que em tempos obscuros qualquer aceno antinegacionista é bem-vindo, mesmo quando movido a vaidade.

A presidente Rosa Weber está prestes a por em votação porte de drogas, demarcação de terras indígenas, aborto e direitos humanos nas prisões. Belo pacote progressista!

O STF tem a histórica oportunidade de horrorizar a tradicional e hipócrita “família brasileira”, para a qual seus filhos são anjos à mercê de traficantes, não o próprio combustível do tráfico. Tem a chance, o Supremo, de escandalizar os “cidadãos de bem” que prefeririam ver toda população carcerária debaixo da terra, pois “bandido bom é bandido morto”. É hora de a Alta Corte enfartar os “cristãos” que não aceitam que se abrevie a existência de um embrião sem cérebro que pode custar a vida da mãe (são os mesmos que defendem pena morte para quem ouse triscar-lhes o patrimônio).

Conforme se comportarem nessas apreciações, os ministros do Supremo tornar-se-ão alvos ainda mais preferenciais de ricaços medievos em aeroportos mundo afora, o que será um ótimo sintoma. Nada pior do que uma Justiça insossa.

Será de bom tom que o STF fique no lado do Iluminismo caso caracterize-se de fato uma contenda contra o obscurantismo nas votações que se avizinham. Não que se ignorem os excessos da Revolução Francesa, mas caçar “bruxas” e queimá-las em praça pública era bem pior.

Robespierre, uma das cabeças da Revolução Francesa, fez campanha pelo voto masculino universal, pelo direito de voto a negros, judeus, atores e empregados domésticos. Também defendeu a abolição do celibato clerical, dogma ainda em voga, e o fim do envolvimento francês no comércio atlântico de escravos. Talvez por isso, ainda hoje, alguns conservadores refiram-se ao Iluminismo como um mero movimento anti-religião. Trata-se de uma tentativa de inverter o rumo da humanidade, dando meia-volta em direção à Idade Média.

Seria estranho se o “mercado” aplaudisse Pochmann no IBGE

Por Paulo Henrique Arantes

Luís Nassif explicou muito bem (AQUI) quais as razões de Márcio Pochmann incomodar tanto Miriam Leitão e, em efeito manada, outros comentaristas de economia repetidores dos mantras do “mercado”. O professor da Unicamp, ex-presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, está sendo pintado por essa gente como um irresponsável tendente a fraudar dados quando alçado ao comando do IBGE. Essa espécie de “acusação preventiva” contra um cidadão sem máculas no passado pode vir a ser enquadrada em algum tipo penal? Consultaremos juristas num segundo tempo.

De outra parte, ser insultado por certas pessoas engrandece o currículo.

Em termos de argumentação teórica, liberais e neoliberais – e suas vozes na mídia – jamais poderiam aplaudir a indicação de Pochmann por Lula para o IBGE ou qualquer cargo que fosse. Seu pensamento é 100% antidominação do Estado pelo “mercado”. O professor, autor de umas cinco dezenas de livros, enxerga a economia como disciplina humana, como instrumento formulador de estratégias que visem ao desenvolvimento do país e ao bem-estar da população. Como poderia o nome de Pochmann agradar o “mercado”?

Selecionamos alguns trechos de artigos de Márcio Pochmann publicados recentemente em veículos de imprensa não alinhados ao neoliberalismo. A leitura levará à óbvia constatação de que o professor da Unicamp jamais poderia agradar ao “mercado”, mesmo que alçado a uma instituição que não define a política econômica. Sinal de honestidade intelectual da parte dele.

A seguir, Pochmann:

“A modernização no padrão de consumo posta em marcha com a estabilização monetária alcançada pelo Plano Real, em 1994, alcançou o limite destrutivo dos postos de trabalho da classe média assalariada e o endividamento das famílias de menor renda. Além disso, a viabilidade da estabilização monetária dependia de juros reais elevados, necessários para internalizar capitais externos, em geral especulativos, e permitir a valorização cambial (doença holandesa) fundamental à inundação de bens importados no mercado interno a preços inferiores.”

“(…) De outro lado e, por consequência, ocorreu a artificial elevação na taxa de juros promovida pelo Banco Central que, ao onerar as finanças públicas, promoveu o déficit público a ser financiado pelo maior endividamento do Estado e/ou austeridade fiscal, a elevação da maior carga fiscal, a privatização e o teto de limite aos gastos públicos não financeiros. Ao mesmo tempo, o patamar da taxa de juros reais passou a inibir os investimentos produtivos internos, alimentando o rentismo e a ‘maquiagem’ da montagem e empacotamento de insumos e componentes importados, travestidos de bens finais comercializados no mercado interno.”

“Na maior parte das vezes, as economias importadoras de bens e serviços digitais terminam financiando o consumo moderno com a produção e exportação de commodities minerais e vegetais. Isso muitas vezes é combinado à pobreza e baixos salários de ampla parcela da população com a intensa agressão ao meio ambiente.”

“A elevação da carga tributária em torno de 10 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) entre os anos 1990 e 2022 transcorreu assentada proporcionalmente mais na arrecadação sobre os segmentos dos rendimentos intermediários e empobrecidos. A classe e a fração de classe social dos proprietários terminaram sendo profundamente favorecidas.”

“Mesmo as novas atividades econômicas e modelos de negócios próprios da Era Digital, como a monetização das redes sociais, aplicativos e plataformas digitais, avançaram sem inclusão plena e efetiva no modelo atual de tributação. Com o passar do tempo, as distorções das ‘reformas pró-ricos1 impulsionadas pelo receituário neoliberal foram se tornando cada vez mais evidentes, operando contra os brasileiros que produzem e trabalham.”

Punitivista Moro quer afrouxar para os assassinos de Marielle

Evaristo Sá / AFP

Por Paulo Henrique Arantes

A assunção do juiz federal Sérgio Moro ao cargo de ministro da Justiça e da Segurança Pública foi lida como uma tacada certeira do então presidente Jair Bolsonaro. Símbolo do combate à corrupção, Moro daria ao governo a face almejada de inimigo número 1 de corruptos e bandidos em geral. Rápido no gatilho, em 23 dias o ministro elaborou internamente no Ministério um projeto de lei anticrime. Ansiosos por uma política menos corrompida e por uma sociedade menos violenta, os simplistas aplaudiram. Os mais atentos – entre os quais advogados, juristas, sociólogos e especialistas em combate à criminalidade – enxergaram no pacote anticrime apresentado ao Congresso pelo ministro da Justiça de Bolsonaro uma peça juridicamente primária e, mais grave, um instrumento de afronta a direitos fundamentais.

A relação Moro-Bolsonaro deu no que deu, e o hoje senador Moro está prestes a se tornar senador cassado. Antes, sempre com um discurso juvenil, tenta atrapalhar a busca aos mandantes do assassinato de Marielle Franco.

O pacote Moro de endurecimento o penal, em 2019, praticamente dava permissão à polícia para matar, quando defendia uma ridícula “exclusão de ilicitude”. Antes, ilegalmente à frente da Lava Jato (sim, a operação deveria ser tarefa exclusiva do Ministério Público), o juiz parcial mantinha suspeitos presos até que delatassem. Hoje, ironiza de modo juvenil – como de resto costuma argumentar – o fato de comprovados envolvidos no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes serem estimulados a delatar.

O papo é mais ou menos assim: “Estão vendo? Eles criticavam as delações na Lava Jato, mas agora adotam delações no caso Marielle”. O argumento pueril visa a atrapalhar, sim, o curso das investigações.

O devido processo legal nunca foi o forte de Sérgio Moro, que em seu canhestro Projeto de Lei de 2019 mostrou desapreço pelas audiências de custódia, ignorando decisão do Conselho Nacional de Justiça que atestava a necessidade do procedimento.

O pacote anticrime de Sérgio Moro era superficial. Por sorte sua aprovação no Legislativo deu-se após sensível desidratação.

Segundo juristas, o texto original continha erros que não se admitiriam a um estagiário de Direito. Por exemplo, ao contrário do que pensa Moro, não existe presunção de legítima defesa, nem absolvição na violenta emoção. Violenta emoção é uma situação condenatória – condena-se a pessoa, todavia impõe-se a ela uma pena mais branda em razão de um estado anímico diferenciado, que não é o estado de um policial perseguindo um ladrão.

O projeto anticrime de Moro apostava na violência. Especialistas afirmaram que, aprovado em sua forma original, a proposta aumentaria a massa carcerária, que já é uma das maiores do mundo.

O que os penalistas sérios viram no amontoado anticrime do ex-juiz parcial foi a peça de um movimento orquestrado contra o princípio da presunção de inocência, a ser consolidado com a prisão do réu antes do trânsito em julgado do processo.

         Com essas palavras o professor José Eduardo Faria, titular de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da USP, viu, à época, o comportamento de Moro como propositor de leis: “Eu acho que o projeto do ministro Sérgio Moro tem um certo desequilíbrio, e nesse desequilíbrio ele é extremamente punitivista, trabalha dentro de uma linha que, de certo modo, foi aplicada nos Estados Unidos na época das políticas de tolerância zero”.

      Interessante constatar, agora, que Sérgio Moro está preocupado com as garantias aos responsáveis pelo assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

Jornalão udenista ataca Alexandre de Moraes

Carlos Lacerda, prócer da UDN.

Por Paulo Henrique Arantes

Defender a democracia não é o forte de certos jornalões. O Estadão, por exemplo, arrumou de pronto um não-fato para relativizar o ataque sofrido em Roma pelo ministro Alexandre de Moraes e sua família. Muito grave, para o velho periódico e para o colunista J. R. Guzzo, expoente do reacionarismo nacional, é Moraes ter participado na Itália de um fórum que teve entre vários patrocinadores o Centro Universitário Alves Faria, a UniAlfa de Goiânia, condenada pela Justiça Federal do Rio Grande do Sul por divulgar tratamento precoce contra Covid-19 num tal “Manifesto pela Vida”.

Pode ser questionada a participação de juízes em eventos cujos patrocinadores carregam potencial de virem a ser julgados por eles, mas isso é questão corriqueira e tal comportamento de magistrados, a priori reprováveis, não impede que eles se considerem impedidos de julgar litígios dessas empresas em processos futuros. Quem possui a bola de cristal? Guzzo?

Não se recorda de ter sido Moraes criticado pelo jornalão quando, ministro da Justiça de Michel Temer, vestiu-se com uma roupa estranha, facão em punho, e saiu decepando plantações de maconha no Paraguai, em postura heroico-voluntarista. Nem quando, secretário de Segurança Pública de São Paulo, comandou batida midiática na sede da torcida Gaviões da Fiel, que havia feito manifestações antitucanas.

Moraes vira alvo do Estadão quando, componente das altas cortes, assume o protagonismo na luta em defesa do Estado de Direito, conduz um inquérito sobre fake news com potencial de desarmar a extrema direita golpista, preside o tribunal que torna Jair Bolsonaro inelegível. É nesse momento que essa parte da imprensa, sempre udenista, condói-se por deslizes corriqueiros na liturgia da magistratura, mesmo mostrando desapreço por Bolsonaro.

A praga do udenismo não morre. A índole do Estadão é falso-moralista.

Sonho de consumo dos udenistas ainda vivos, Sérgio Moro está prestes a perder o resto dos louros que a Lava Jato lhe proporcionou. Outro colunista do Estadão, Marcelo Godoy, traçou uma correlação futurista: à frente, Moraes seria punido pelo sistema assim como Moro está sendo, prestes a ver cassado seu mandato de senador. Coisa horrorosa! O ex-juiz parcial vilipendiou a Justiça, tramou e perseguiu em conluio com procuradores, abandonou a toga para ser ministro de um facistoide. Moraes, mesmo que com alguns possíveis atropelos, desde que chegou ao STF segue pelo caminho inverso: o do devido processo legal e da preservação da democracia.

Futebol, racismo e morte

Por Paulo Henrique Arantes

A morte da torcedora alviverde Gabriela Anielli é mais uma tragédia a ilustrar a história dos estádios de futebol e arredores. Ano passado, o assassinado foi Dante Luiz, outro torcedor do Palmeiras, na rua Palestra Itália. É muito mais que uma quadra trágica para a enorme torcida do Porco – os apaixonados por futebol em geral padecem. Em 2020, dois torcedores morreram numa briga de bar entre palmeirenses e santistas.

      O mesmo espírito fanático capaz de provocar a morte de alguém por divergência clubista é capaz de propalar o mais abjeto racismo nos estádios. O princípio – ou sua ausência – que move um ser humano branco a considerar a pessoa negra inferior não abarca o respeito à vida. Racismo e morte andam de mãos dadas, ainda que as mortes mencionadas acima não tenham, aparentemente, a raça como motivação. Como se vê, o ambiente do futebol está contaminado pelas duas coisas. E impunidade tem prevalecido.

    As ofensas raciais contra Vinícius Jr., em maio, ganharam manchetes mundo afora, manifestações diversas de repúdio e nenhuma ação contundente para eliminar o racismo nos ambientes desportivos. Os estádios de futebol – ou arenas, como se chamam hoje – são palcos do velho, porém muito vivo, preconceito contra negros.

      Quando se manifesta no futebol, o racismo torna-se ainda mais alarmante, pois o negro predomina não apenas nos campinhos de areia em favelas e subúrbios, mas nos grandes estádios onde brilharam, Pelé à frente, Domingos da Guia, Leônidas, Zizinho, Didi, Garrincha, Jairzinho, Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e centenas de outros craques de pele escura. Igualmente a raça negra sobressai-se no futebol feminino, com craques como Marta e Formiga, que fizeram história, mas o futebol de mulheres é relativamente recente e só agora começa a ganhar espaço no imaginário popular.

      O que aconteceu com Vinícius Jr. na Europa acontece todo dia em gramados brasileiros e com jogadores brasileiros no Exterior, onde torcedores fanáticos não hesitam em exibir todo seu preconceito. Hesitariam em matar?

       Um inestimável serviço ao país e à luta contra o racismo presta o projeto Observatório da Discriminação Racial no Futebol, trabalho coletivo pormenorizado que apura e divulga casos de preconceito no futebol e em outros esportes. Seus relatórios anuais são ricos em números e detalhes. O de 2021, último editado até aqui, nos dá conta de 158 ocorrências de discriminação naquele ano, 137 das quais no Brasil e 21 contra atletas brasileiros no Exterior. Do total, 124 deram-se no futebol e 34 em outros esportes.

      A dor de suportar ataques racistas não é tudo que acomete o atleta. Uma inaceitável inércia das autoridades legais nos casos de racismo os aflige igualmente. Praticamente não há punição.

      De certa forma, o ambiente futebolístico sempre abrigou racismo e violência. Mas a expectativa era de que o Século XXI trouxesse avanços contra essas duas pragas.

Um zoológico de negros na Era Pelé

Por Paulo Henrique Arantes

O advogado Irapuã Santana é uma das mais contundentes vozes do país em defesa dos direitos humanos e contra qualquer tipo de injustiça social. Recentemente, ele nos concedeu uma alentada entrevista, publicada originalmente em uma revista dirigida AQUI.

Irapuã fala de coisas sabidas, mas que ainda não comovem a todos tanto quanto deveriam. Ele lembra que o racismo manifesto durou muito mais do que a escravidão institucionalizada. A Bélgica foi palco de uma demonstração de crueldade ímpar: “Em 1958, houve a última exibição (até onde se tem notícia) de um zoológico humano, com congoleses”. Pelé estava ganhando a Copa do Mundo na Suécia com 17 anos, e havia uma feira de exposição de pessoas negras no país ao lado.

A Expo58 foi relembrada pelo jornal britânico The Guardian em 2018. Tratou-se de um evento em que a Bélgica comemorava a conquista do Congo.  Apresentava-se aos europeus uma típica aldeia congolesa. Os africanos passavam o dia fabricando cabanas de palha enquanto eram ridicularizados pelos visitantes brancos.

1958 não é 1858. Foi ontem. Muitos leitores deste artigo, certamente, já eram cidadãos conscientes à época. Tamanha desumanidade e seus efeitos não se apagam de um dia para outro. Não se tem notícia de circos humanos no Brasil desde a Lei Áurea, mas nada garante que eles não tenham existido. De todo modo, a discriminação, filha da escravidão, permanece viva.

O racismo estrutural brasileiro, hoje, é presenciado mesmo dentro de onde deveria estar extirpado à guisa de exemplo – o Judiciário “A gente tem ali 15% de negros, entre pretos e pardos. Estamos falando de um contingente de 85% de pessoas brancas. E mulheres também são minoria”, nota.

A sensação do negro diante do Judiciário, segundo Irapuã, é a de quem depara com um aviso gigantesco dizendo “aqui você não entra”. O advogado negro, de sua parte, sofre a pressão psicológica da desconfiança: “Temos que provar que somos advogados e não réus ou parentes de réus”.

E o que dizer das ações policiais? Nos Estados Unidos, quando um policial comete alguma ilegalidade contra uma pessoa negra, cai o policial, cai o comandante dele, cai o secretário de Segurança de Pública. “O que acontece aqui? Há processos administrativos e, depois de três semanas, tudo volta a ser como antes”.

Mercado de trabalho excludente, cotas burladas, manifestações veladas de racismo – tudo faz parte da realidade brasileira atual. Não é por falta de leis. “Temos o Estatuto da Igualdade Racial, temos a Constituição, temos a renovação da Lei dos Crimes de Racismo, temos a Lei de Cotas no serviço público e nas universidades, tem muita coisa. Hoje em dia, quando pegamos uma ação, temos um arcabouço jurídico gigante para fundamentar nossos pedidos. O problema é outro, é convencimento”.

Até há pouco tempo, a Fundação Palmares era presidida por um sujeito que dizia existir no Brasil um “racismo Nutella”. O tal racismo estrutural, para o bolsonarista, é mimimi de esquerdista. Por obra da democracia, a aberração Sérgio Camargo foi devidamente excluída do cenário político, mas o fato de alguém com tal performance no campo dos direitos humanos ter sido alçado ao posto mostra que o espírito belga de 1958 está vivo.

Percival, Fleury e a Folha de S. Paulo

Por Paulo Henrique Arantes

“Autópsia do Medo” é uma contextualização dos Anos de Chumbo escrita com primor pelo jornalista Percival de Souza. A primeira edição é do ano 2000. Agora, quando o nome do biografado por Percival, o monstruoso delegado Sérgio Paranhos Fleury, volta à baila por suas ligações com a Folha de S. Paulo, vale rememorar a obra.

Percival leu tudo que havia sido publicado a respeito dos porões da ditadura até então, mas não se satisfez, disse a este colega anos atrás. “Eu vi pessoas posando de heróis, e nem todas eram heróis. Vi embates violentos, mortes, torturas, e resolvi usar meu know how profissional”, contou-me.

Na ditadura militar, Percival trabalhava no Jornal da Tarde. Cobriu roubo a banco, o atentado ao Consulado Americano, o atentado ao Quartel General do 2º Exército, o assassinato de Carlos Marighela, a prisão dos padres dominicanos. “Essas coisas, ninguém precisava me contá-las, porque estive lá, in loco. Eu vi o corpo do Marighela dentro do Volkswagen na Alameda Casa Branca. Depois escutei tantas versões distorcidas sobre tudo isso que resolvi escrever ‘Autópsia do Medo’”.

Percival fez uma lista de 117 pessoas e conversou com todas elas, além juntar documentos.

O surgimento do Cabo Anselmo como serviçal da ditadura decorreu de um trabalho de espionagem de altíssimo nível feito pelo delegado Fleury, que capturou um militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), prendeu-o, fez-lhe uma lavagem cerebral, transformou-o em seu informante e o fez continuar a manter os contatos com os revolucionários como se nem tivesse sido preso, e a partir disso localizou pessoas, prendeu-as e matou-as.

Percival conheceu Fleury no Deic, antes de ele assumir o Dops (Departamento de Ordem Política e Social). “Era basicamente um caçador de ladrões, não era o Fleury da repressão política. Quando começaram os primeiros atentados a bomba, o Dops passou a incorporar policiais como ele e outros, que antes combatiam delinquentes comuns. E o Fleury foi para o Dops usando os mesmos métodos que usava no Deic. Por exemplo, pau de arara e choque elétrico”, relatou-me o jornalista.

Certa vez, na Delegacia de Roubos, Percival notou uma fila imensa. Descobriu tratar-se da fila do pau de arara. No elevador de entrada havia uma placa com os seguintes dizeres: “Contra a Pátria não há direitos”. Essa metodologia do Deic foi para o Dops com o Fleury.

Antes de ser cooptado como prestador se serviços da ditadura, Sérgio Paranhos Fleury liderava o Esquadrão da Morte, o dos policiais que matavam.  Por investiga-los e denunciá-los, Percival sofreu pressões da polícia e de entidades de classe (delegados, investigadores). “Tive de tirar minha mulher de casa no oitavo mês de gravidez por segurança e levá-la para a casa de um amigo”, recordou.

É essa gente que contava com os préstimos da Folha de S. Paulo para caçar, torturar e matar.

Jair não vai liderar coisa nenhuma

Presidente Jair Bolsonaro na saída do Palácio do Alvorada 05/05/2020 REUTERS/Ueslei Marcelino

Por Paulo Henrique Arantes

Analistas projetam o futuro de Jair e do jairismo. O ex-presidente inelegível portaria ou não o condão de moldar as performances da oposição em desconstrução ao governo Lula? É claro que não, e as razões são óbvias.

Nunca, em tempo algum, Jair demonstrou talento gregário. Como presidente, e antes como deputado, foi um desagregador, afastando aliados dia sim, outro também, levando correligionários a não apenas abandonar seu barco, mas a sair atirando contra ele, por traidor. Só a caneta presidencial sustentou asseclas em torno de seus delírios.

O êxodo de jairistas começou com Gustavo Bebianno, passou pelo general Santos Cruz, chegou a Alexandre Frota, alcançou Sérgio Moro e encontrou em Abraham Weintraub o new desafeto mais boquirroto. Há muitos outros.

O acidente histórico que alçou Jair ao Planalto não pode ser confundido com traquejo político do dito cujo. O movimento jurídico e midiático de criminalização da política, de duplo ápice – a prisão de Lula e o impeachment de Dilma Rousseff –, não encontrou ninguém melhor que o capitão para lhe dar seguimento. Daí a catástrofe e o arrependimento de alguns.

Liderar blocos de oposição sem possuir mandato exige capacidade negociadora, diálogo e, mais que tudo, carisma. O suposto carisma de Jair, mito para meia dúzia de idiotas, é às avessas: sua deficiência cognitiva e sua precariedade comunicativa influenciam, na verdade, pouca gente além dos espíritos milicianos. Em regra, afastam.

Os partidos que se propõem a fazer oposição cerrada ao governo Lula preferirão um candidato confiável, que não crie ele próprio problemas a cada vez que abrir a boca. O “capital político” de Jair é balela. Enquanto seus quatro anos de promoção de horror ainda estão quentes, é natural que sua figura mantenha certo peso, mas é questão de tempo – não se pode esquecer de que os desfechos criminais ainda estão por vir.

Os 58 milhões de votos que Jair obteve em 2022 são voláteis e circunstanciais – qualquer nome anti-PT chegaria a essa marca num pleito “polarizado” (perdão).

Aconselhar políticos não é habito saudável a jornalistas, tampouco aconselhar-se com eles. Porém, o momento revela-se irresistível: a direita brasileira tem uma oportunidade imperdível de se afirmar civilizada, lançando candidatos do espectro conservador mas que, nem por isso, sejam milicianos, negacionistas ou golpistas.