Bolsas não resolvem o estrago no ensino feito pelo governo Temer, afirma César Callegari

Michel Temer, em foto de Ricardo Bastos.

Por Paulo Henrique Arantes

Pouca gente – talvez ninguém – tem a qualificação de César Callegari para avaliar o programa educacional anunciado hoje (sexta-feira, 26) pelo presidente Lula. Callegari integrou por 12 anos o Conselho Nacional de Educação e foi secretário municipal de Educação de São Paulo durante a administração Fernando Haddad. Atualmente é presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada.

Para Callegari, o governo acerta ao tomar a iniciativa que está ao seu alcance no momento: bolsas de incentivo. Mas faz uma ressalva: “As escolas públicas de ensino médio são de responsabilidade dos Estados. Muitos deles têm sido negligentes, oferecendo educação média de má qualidade”.

O problema nos Estados, explicou Callegari ao NotiCom, aprofundou-se com a reforma do ensino médio feita no governo Michel Temer. “O MEC, agora, precisa ter força para liderar uma ‘reforma da reforma’, mostrando firmeza na sua função reguladora para exigir qualidade na formação de professores”, salienta.

Sem professores preparados e valorizados, destaca o educador, não haverá bolsa que retenha os alunos na escola. “A escola tem que ser relevante, significativa e prazerosa para os estudantes”, frisa Callegari.

Assinado hoje (26) pelo presidente Lula, o decreto que regulamenta o Programa Pé-de-Meia prevê a concessão de uma bolsa de permanência no ensino médio a 2,5 milhões de estudantes com renda familiar de até 218 reais por pessoa.

Quem não quer uma política industrial?

Por Paulo Henrique Arantes

O governo lançou seu plano de incentivo à indústria, cuja regressão da participação na economia nas últimas décadas tem sido determinante do baixo crescimento do país. Estimular a indústria, com alguma dose de protecionismo, propiciou aos países ditos desenvolvidos tornarem-se o que são.

Sabe-se muito bem como pensam os economistas que consideram a desinsdustrialização algo natural, em certos casos até bem-vinda. São os mercadistas de sempre. Eles perguntam: a indústria decai por força de mercado, ou seja, empresários tomam decisões e o resultado dessas decisões é uma trajetória de redução da participação da indústria no PIB? Ora, então não há problema.

É a prevalência do “Deus Mercado” em sua acepção máxima.

Neoliberais não enxergam nenhum motivo razoável para a indústria merecer tratamento diferenciado ou ser objeto de políticas específicas. Contradizem assim o exemplo da Embraer, nosso case de sucesso absoluto: construiu-se uma escola, junto com a escola construiu-se um centro de pesquisa, junto com essa escola e esse centro de pesquisa construiu-se uma indústria aeronáutica. Tudo isso aconteceu sem incentivo estatal? Ora, a Embraer era estatal até 1994.

O governo Lula está oferecendo uma política de financiamentos e subsídios, que será ok se bem direcionada.

Na verdade, ao se fazer a abertura comercial no fim dos anos 80, prejudicou-se muito os setores da indústria que se desenvolveram nos anos 70. A solução para o problema não seria tornar o desenvolvimento da indústria um fim em si mesmo, partindo-se da ideia de que devêssemos desvalorizar o real para competir com o resto do mundo.

Talvez também não devamos dar incentivos a torto e a direito, mas quando se fazem investimentos púbicos em infraestrutura, saneamento, mobilidade urbana, complexo de saúde, tecnologia verde, enfim, esses recursos puxam consigo o desenvolvimento de setores de alta tecnologia. Registre-se que o Plano Lula-Alckmin prioriza a inovação e, como descrito, abrangerá cadeias agroindustriais, saúde, bem-estar das pessoas nas cidades, transformação digital, bioeconomia e defesa.

Assim, estar-se-á desenhando uma política para melhorar serviços e bens públicos – esse deve ser o objetivo final.

Agradecimentos do colunista à professora Laura Carvalho pelo papo de tempos atrás.

Xandão contra os Goebbels do século XXI    

Por Paulo Henrique Arantes

  Alexandre de Moraes capricha no voluntarismo ao bater e rebater na tecla da necessidade de se criar uma legislação que coíba o uso da internet para disseminação de fake news. Mas a insistência do ministro justifica-se. Assim ele discursou na cerimônia rememorativa do 8 de Janeiro: “As democracias não podem mais ignorar o poder político das redes sociais como o mais novo e eficaz instrumento de comunicação de massa e a desinformação massiva nelas praticada por grupos extremistas, sem qualquer regulamentação concreta, com a proliferação de notícias fraudulentas e discursos de ódio e antidemocráticos, como instrumento de corrosão da democracia”.

      Esta coluna, mais de uma vez, alertou para a importância de o Congresso retomar a apreciação do Projeto de Lei 2.630, que trata do tema. O que a extrema-direita pratica no Brasil e no mundo, seguindo manual do nefando Steve Bannon, é a evolução tecnológica do marketing nazista, concebido pelo Bannon de Hitler, Joseph Goebbels.

      Goebbels ensinava que se devia combater um inimigo único, atribuindo a ele todos os males da nação – os judeus ontem, a esquerda hoje. O marqueteiro do nazismo adotava o princípio do exagero e da desfiguração, transformando pequenos erros dos adversários em enormes delitos e, assim, pespegando medo na população. Bolsonaro não fez outra coisa durante os quatro anos em que esteve na Presidência do Brasil.

      O modelo goebberiano consistia – mediante discursos em praça pública e uso intensivo do rádio – em tratar boatos como verdades, e a partir de então replicá-los insistentemente como notícias. O marqueteiro do nazismo, assim como os membros do gabinete do ódio bolsonarista, cooptava “especialistas” em diversos temas para respaldarem suas posições, obliterando opiniões contrárias e desqualificando seus autores. Foi isso que se viu, por exemplo, durante a pandemia, com Osmar Terra e Nise Yamaguchi fazendo o serviço sujo.

      Eis algumas frases atribuídas a Goebbels (com agradecimento aqui à equipe do Marketing com Café) que poderiam estar na boca de Steve Bannon, de Carluxo, Bananinha ou Filipe Martins:

“Nós não falamos para dizer alguma coisa, mas para obter um certo efeito.”

“Para convencer o povo a entrar na guerra, basta fazê-lo acreditar que está sendo atacado.”

“Mais vale uma mentira que não pode ser desmentida do que uma verdade inverossímil.”

“A propaganda deve limitar-se a um pequeno número de ideias e repeti-las incansavelmente, apresentando-as repetidas vezes a partir de perspectivas diferentes, mas sempre convergindo para o mesmo conceito. Sem fissuras ou dúvidas.”

“Individualize o adversário em um único inimigo.”

Lewandowski, um garantista no Ministério da Justiça


Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF

Por Paulo Henrique Arantes

Ricardo Lewandowski protagonizou com Joaquim Barbosa um acalorado bate-boca no plenário do Supremo Tribunal Federal. Era 2013, o STF era presidido por Barbosa e julgavam-se recursos no processo do “mensalão”.  Lewandowski pediu o adiamento da discussão sobre um recurso apresentado pelo ex-deputado Bispo Rodrigues. O destemperado, apressado e mal-educado Barbosa acusou-o fazer chicana. Rememorando: Barbosa era o relator do “mensalão; Lewandowski, o revisor.

Segue reprodução do entrevero:

Lewandowski: Presidente, nós estamos com pressa do quê? Nós queremos fazer justiça.


Barbosa: Nós queremos fazer nosso trabalho, e não chicana, ministro.


Lewandowski: Vossa excelência está dizendo que estou fazendo chicana? Eu peço que vossa excelência se retrate imediatamente.


Barbosa: Eu não vou me retratar, ministro.


Lewandowski: Vossa excelência tem a obrigação como presidente da Casa. Está acusando um ministro, um par de vossa excelência de fazer chicana, eu não admito isso.


Barbosa: Foi uma votação unânime.


Lewandowski: Eu estou trazendo um argumento.


Barbosa: Um argumento, ministro?


Lewandowski: Apoiado em fatos, em doutrina. Eu não estou brincando presidente, vossa excelência está dizendo que estou brincando? Eu não admito isso.


Barbosa: Faça a leitura que vossa excelência quiser.


Lewandowski: Vossa excelência preside uma Casa de tradição multicentenária.


Barbosa: Que vossa excelência não respeita. […] Está encerrada a sessão. Tem vista em mesa, portanto.

A intervenção do então decano Celso de Mello foi decisiva: “São importantes as razões que o eminente ministro Lewandowski suscita e expõe. Tem sido tradição nesta corte, quando um ministro está em dúvida e prefere não pedir vista, ao invés disso, porque, talvez, nós pudéssemos encerrar a sessão. […] Na quarta-feira, podemos partir deste ponto apenas.”

O Direito, em essência, deve ser garantista, como Ricardo Lewandowski sempre foi. Outros juízes, como Joaquim Barbosa mostrava-se à época em que esteve no STF, adotam postura persecutória, punitivista, tal qual justiceiros, atropelando direitos de réus e defensores.

Joaquim Barbosa também cultivou a fama de tratar mal advogados. Fama plenamente justificada, diga-o o criminalista Luiz Fernando Pacheco, que defendia José Genoíno no “mensalão”. Ele viveu um caso emblemático de violação de suas prerrogativas de advogado, em 2014.

Pacheco manifestava-se pela ordem ao microfone no plenário do STF. Então presidente da corte, Joaquim Barbosa ordenou o desligamento do seu microfone. O advogado continuou a falar mesmo com o microfone desligado. Barbosa então ordenou sua retirada do plenário por seguranças.

“Eu estava exercendo o direito de defesa do meu constituinte, utilizando-me das prerrogativas profissionais escritas em lei perante a casa maior da Justiça brasileira. Somente sob a presidência de uma pessoa autoritária uma situação como aquela poderia ocorrer”, recordou Pacheco à coluna.

Ao contrário de um Joaquim Barbosa e de muitos outros juízes, Lewandowski jamais demonstrou desconhecer o papel do advogado no sistema da Justiça. Papel bem descrito a este colunista por Celso de Mello, em 2013: “As prerrogativas do advogado, são, na verdade, direitos que competem muito menos ao advogado e muito mais às pessoas a quem o advogado dá assistência técnica. Isso é fundamental. Nota-se, muitas vezes, incompreensão por parte de alguns órgãos do Estado – do Poder Judiciário e também dos Poderes Executivo e Legislativo – das prerrogativas desses profissionais ou criando obstáculos ilegítimos ao normal desempenho pelo advogado de suas relevantes atribuições profissionais”.

É bom ter um garantista no Ministério da Justiça.

Por uma legislação dura e específica contra as fake news

Por Paulo Henrique Arantes

 Rearma-se a onda pela aprovação do Projeto de Lei 2.630, o PL das Fake News. Há interesses pouco republicanos escondidos por trás da abordagem do tema, mas é imperativo que a prática de disseminação de mentiras forjadas seja objeto de legislação específica, por restar provado que uma concertação neofascista utiliza-se de expertise nesse campo para organizar e por em curso atentados contra a democracia.

      Estas terras aferventam um caldo de cultura propício às fake news. Fatos sabidamente inverídicos são cirurgicamente fabricados apoiando-se em crenças pessoais de extremistas. Ódio, desinformação generalizada e ataques às instituições com o intuito de tomada ou manutenção do poder compõem o modus operandi.

      As fake news gestaram o 8 de Janeiro, massificando a desinformação e insuflando a parcela da população já propensa a golpes, gente temerosa do comunismo e bobagens congêneres. As milícias digitais brasileiras seguem abertamente os passos de Steve Bannon, aquele vermelhão de cabeleira ensebada alheio a qualquer compostura.

      No estudo “Fake News: O Fenômeno da Desinformação”, a jornalista Magali Cunha, doutora em Ciências da Comunicação e editora-geral do Coletivo Bereia – Informação e Checagem de Notícias, escreveu o seguinte: “A disseminação de falsidades ocorre entre diferentes grupos ideológicos, intensificando polarizações. No entanto, grupos conservadores parecem ser os mais propensos à propagação, por conta de maior exposição à ‘dissonância cognitiva’. Tais grupos rejeitam transformações sociais e políticas que confrontam suas convicções”.

      Relativiza-se o que é verdadeiro a partir de convicções ou interesses, pessoais – isso é a tal pós-verdade. Pouco importam as comprovações fáticas ou científicas, como se viu reiteradamente no Brasil, na pessoa do presidente da República, especialmente durante a pandemia.

        O fenômeno das fake news requer tratamento legal específico, rigoroso e cujo texto não permita interpretações dúbias. Paralelamente, e de uma vez por todas, as pessoas precisam entender que incitação à violência não é expressão de opinião. Discriminação racial ou religiosa também não. Restrições a tais condutas constam de todos os tratados internacionais que lidam com o tema e dos quais o Brasil faz parte.

Rubinho Nunes, um reaça contra o Padre Júlio Lancellotti

O vereador reacionário Rubinho Nunes.

Por Paulo Henrique Arantes

O autor da proposta de criação de uma CPI na Câmara de Vereadores de São Paulo para investigar a ação de ONGs que amparam dependentes químicos da Cracolândia paulistana é bem jovem, nasceu em 1988, mas pode ser referido como um velho conhecido. Rubinho Nunes quer enquadrar o Padre Júlio Lancellotti, cuja ação social é a concretização do verdadeiro cristianismo.

Claro, a ideia é prejudicar a candidatura de Guilherme Boulos, da qual Lancellotti é simpatizante – e é natural que o seja, pois ambos são forças mobilizadoras, sintonizadas, em defesa do enorme contingente populacional que vive em condições sub-humanas nas ruas de São Paulo.

Rubinho é um dos fundadores do Movimento Brasil Livre, o MBL, aquele grupo de jovens reacionários que nasceu para estimular a derrubada de Dilma Rousseff. Ele era um dos organizadores daquelas manifestações pró-impeachment que tornaram o verde e o amarelo cores oficiais do golpismo.

De 2011 até hoje, demonstrou sua versatilidade política integrando nada menos que seis partidos: PR, MDB, Patriota, PSL, Podemos e União Brasil.

 Em 2016, protocolou o primeiro pedido de impeachment contra um ministro do Supremo Tribunal Federal, acusando Marco Aurélio Mello de agir de forma arbitrária ao determinar, mediante liminar, que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, colocasse em votação pedido de impeachment contra o presidente da República, Michel Temer. A coisa toda acabou engavetada.

Em 2018, Lula, preso, teve seus benefícios de ex-presidente da República cortados pelo juiz federal Haroldo Nader, da 6ª Vara de Campinas, em decisão sobre ação popular liderada por Rubinho Nunes.

Ainda em 2018, o jovem político reacionário de Vinhedo, junto com o inefável Kim Kataguiri, entrou com ação para impugnar a candidatura Lula à Presidência da República com base na Lei da Ficha Limpa. A dupla do MBL foi vitoriosa no Tribunal Superior Eleitoral, como se sabe.

Rubinho Nunes integra aquela categoria de jovens políticos autointitulados modernos, que adoram pregar bobagens como meritocracia. O ódio ao Estado e a qualquer ação estatal na direção da justiça social e da igualdade é a marca desses meninos.

Querem culpar o advogado pela lentidão da Justiça

Por Paulo Henrique Arantes

A Justiça brasileira é lenta, diz o mantra, a despeito de o Supremo Tribunal Federal às vezes acelerar a coisa, abusando de decisões monocráticas. Os argumentos a favor da prática, reiterados agora pelo presidente da corte, ministro Luís Roberto Barroso, são até aceitáveis: há casos – como os crimes relacionados com o 8 de Janeiro – que não podem esperar a liturgia colegiada. Mas, com isso, confirma-se a regra: o trâmite regular no SFT é tão lento que se faz necessário driblar sua colegialidade.

A demora dos processos judiciais em geral, algo lamentavelmente normalizado, possui razões várias. Uma das mais alegadas é um suposto excesso de recursos apresentados por defensores. Os advogados, portanto, ao defenderem seus clientes utilizando os meios previstos pela lei, seriam corresponsáveis pela morosidade da Justiça. Dois argumentos bem simples de pronto derrubam essa tese. Primeiro, o de que a apresentação de recursos cumpre obrigatoriamente prazos exíguos. Segundo, o de que em boa parte das vezes, talvez na maioria delas, a solução rápida do litígio é o que mais interessa ao defensor.

Ataques retóricos a procedimentos legais da defesa costumam classificar de chicaneiros os advogados que apresentam recursos aparentemente protelatórios. Protelar, contudo, não é necessariamente ilegítimo – se é protelatório, deve assim ser declarado. Recursos, portanto, demoram porque não são julgados, não por culpa da defesa ou da parte contrária. Se os defensores da tese de que os recursos protelatórios constituem prática chicaneira conseguirem fazê-la prevalecer, o que se terá será o cerceamento da defesa.

      O Judiciário brasileiro conta com mais de 400 mil funcionários, dos quais aproximadamente 18 mil são magistrados. Segundo o CNJ, há no país cerca de 8 magistrados para cada 100 mil habitantes, enquanto na média dos países europeus a proporção é de 17,4 para cada 100 mil. Temos poucos juízes, portanto? Pode ser, mas aumentar esse número não garantirá a solução do problema da morosidade.

       Especialistas atribuem a lentidão da Justiça à ineficiência pura, a qual pode ser percebida na simples demora em julgar e em decisões mal fundamentadas, decisões genéricas, decisões que não estabelecem uma regra, tribunais que não querem aceitar orientações de tribunais superiores e que também não estabelecem um fundamento para tanto. Além disso, talvez não exista um conhecimento de gestão dentro dos gabinetes para gerir equipes e processos de produção. Se não existir investimento em inteligência de gestão do Judiciário, pode-se triplicar o pessoal e o que se obterá serão somente custos não reversíveis em benefícios. Estar-se-ia, dessa forma, acomodando o juiz que não trabalha e que deixou sua vara explodir de tantos processos acumulados.

      Para muitos analistas, a manutenção do STF como última instância recursal deveria ser revista. Os próprios ministros são a causa do acúmulo de processos. O diagnóstico de sobrecarga do Supremo é antigo, e os processos na corte voltaram a se acumular em 2023.  Acrescente-se a falta de vontade dos ministros de utilizarem mecanismos que restrinjam a chegada de processos à casa. Exemplo: pode ou não pode habeas corpus contra ato de relator do STJ? Não pode, salvo exceções. Que exceções? O Supremo não fixa regras claras de procedimentos e incentiva os advogados a recorrerem a ele.

      O fato de os ministros agirem como 11 ilhas dá sentido ao fato de as partes desejarem levar o caso ao Supremo, porque podem dar sorte e cair com um relator que as favoreça. Foi a grande quantidade de partidos que levou à judicialização da política? Não. É o próprio comportamento do STF que incentiva que se vá àquela corte.

      O Brasil iniciou com a Constituição de 1988 uma discussão que ainda não terminou, justamente a respeito do ingresso dos cidadãos na Justiça quando lesados. Abriu-se a porta de entrada. Ainda não se resolveu, contudo, como providenciar de modo célere a saída dessas pessoas da Justiça. A enxurrada de novos litigantes criou um gargalo para desaguar as ações, o que causou uma morosidade processual maior ainda. É preciso retirar muitos litígios do sistema judicial, repassando algumas questões para a solução amigável de conflitos, como a mediação e a conciliação. Para isso há um longo trabalho de mudança de mentalidade a ser feito.

      O que nos disse Lenio Streck há alguns anos permanece atual e oportuno: “Os brasileiros habituaram-se a correr para a Santa Trindade da Justiça – Polícia Judiciária, Ministério Público e Defensoria Pública. Cão latiu? Faz B.O. Não que pagar o segundo ponto da NET? Corre na Defensoria. Não quer pagar o estacionamento do shopping? Corre para o MP. Ora, o que o Estado tem a ver com isso? Não quer pagar o estacionamento, vai de ônibus. Não quer pagar a NET? Acampe em frente à NET. Só não use recursos públicos caros como a Defensoria ou o Ministério Público”.

Bolsonaristas no Natal

Por Paulo Henrique Arantes

A despeito da queda do juro básico lenta demais, os dados da economia em 2023 são alvissareiros, com inflação baixa e controlada, desemprego baixo e aparentemente em queda, crescimento estimado do PIB de 3%. A elevação do rating pelas agências de risco também é boa notícia, a refletir o esforço do ministro Fernando Haddad para mostrar que o governo não torrará dinheiro – claro que, muitas vezes, “torrar dinheiro” é como a finança se refere à disposição de investir com vistas à melhoria de vida das pessoas, mas acreditemos que Haddad comporte-se estrategicamente.

       A volta da condução econômica ao patamar da seriedade já seria uma grande conquista. Porém, a vitória maior do Brasil é ter retomado sua posição entre os países responsáveis ecológica e politicamente. Estamos longe de superar um punhado enorme de mazelas, mas contamos com gente bem intencionada no leme. E o mundo enxerga isso, basta verificar como Lula é recebido mundo afora, imediatamente após a defenestração daquele que se tornou piada internacional e que legou ao país a condição de pária. Se Deus ou o acaso geográfico nos deram a Amazônia, tínhamos obrigação de tirá-la das mãos de garimpeiros e traficantes de madeira – e o mundo civilizado aplaude a evolução brasileira.

      A representatividade que a subida da rampa na posse do presidente Lula sugeriu anda meio frustrada, é verdade. A gratidão a Cristiano Zanin e o reconhecimento do brilho de Flávio Dino não deveriam se sobrepor à necessidade histórica de mais presença feminina no Supremo Tribunal Federal, especialmente a presença de mulheres negras, por tudo que a corte simboliza para a democracia brasileira.

      De todo modo, o Estado brasileiro readquiriu seu caráter cidadão. Viu-se nesta semana o Ministério da Saúde anunciar a incorporação ao SUS da vacina contra dengue. Fez o governo sua obrigação, mas não se esqueça de que enquanto vivíamos uma pandemia devastadora o outro governo fazia campanha, pela pessoa do próprio presidente, contra vacinas e contra o uso de máscaras de proteção. Tribunais, governadores, prefeitos e parlamentares – não todos – digladiavam diuturnamente contra iniciativas obscurantistas cujo resultado era o aumento das mortes.

      Retornamos à civilidade, embora haja remanescentes vivos do medievalismo bolsonarista, cujo discurso central ainda é o de armar a população, perpetrar preconceitos, idolatrar torturadores. No Natal, festa cristã comemorada pela quase totalidade dos brasileiros, essas vozes estarão presentes. Saibamos confrontá-las.

      Estará presente, como já classificamos aqui, o incorrigível bolsonarista do WhatsApp, aquele que compartilhava mentiras produzidas pelo “gabinete do ódio”, que nunca entendeu bem o que são “instituições da República”.

      Esse sujeito provavelmente estará no seu Natal, ainda compartilhando montagens fotográficas de Lula em situações vexatórias, memes recordando falas infelizes de Dilma Rousseff e até “denúncias” contra os filhos do presidente – do presidente Lula, é claro. Esse “amigo” imbecilizado não usou máscara durante a pandemia e não foi contaminado, tendo a certeza de que se salvou por ter tomado cloroquina preventivamente.

      Esse ser absolutamente idiotizado continua a apregoar que o Brasil permaneceu durante os anos Bolsonaro livre escândalos de corrupção – os casos das vacinas superfaturadas foram no seu entender explicados e o roubo de joias lhe é desimportante. Esse intolerante com a corrupção alheia costuma pagar propina para policiais de trânsito para não ser multado, sonegar impostos “por não ser trouxa” e furar todas as filas nas quais é obrigado a entrar. E lhe desejará um feliz Natal, certamente.

Comunista

Por Paulo Henrique Arantes

A principal característica dos desprovidos de inteligência é a carência de senso de humor. Quem não entendeu a brincadeira de Lula ao referir-se a Flávio Dino como “comunista” certamente passa batido em piadas no dia a dia, nunca ri de si mesmo, leva metáforas ao pé da letra. Claro, no caso em tela há os que compreenderam o chiste do presidente, mas tentam descontextualizá-lo para tirar algum proveito.

Afora os burros, os mal-intencionados também estão na imprensa. Uma pesquisa de Real Time Big Data, disseminada pelo udenista Estadão, informa que 55% dos eleitores desaprovam Dino no STF e, desses, 64% admitem como motivo da rejeição seu “passado comunista”.

O fato de o comunismo não existir já há bastante tempo – exceto na Coreia do Norte, talvez – não pesou na pesquisa. Flávio Dino integrou os quadros do PCdoB, o Partido Comunista do Brasil, cuja denominação guarda certo romantismo. Espirituoso, Dino se disse, em 2015, “comunista, graças a Deus”, num primor de paradoxo com alto potencial de intrigar a direita descerebrada. Não há que se perder tempo a explicar o comunismo puro.

As décadas em que o mundo dividiu-se entre capitalistas e comunistas – a Guerra Fria – deixou raízes culturais profundas.  De certa forma, essa divisão persiste, a despeito de ninguém mais desejar o Estado como único detentor dos meios de produção. Entre os lúcidos, também ninguém quer o Estado ausente da economia, a privatização de tudo e de todos.

Mas a velha e inevitável dicotomia esquerda x direita, cuja descrição moderna encontra sua melhor forma em Norberto Bobbio, sobrevive. Com a primeira estão aqueles que consideram a igualdade e a justiça social os nortes de uma sociedade ideal; com a segunda, fica a turma da meritocracia, para quem o brilho individual levará cada um à felicidade, desde que o Estado não atrapalhe, pouco importando se no lado de fora do seu condomínio amontoem-se multidões de famélicos.

Assim escreveu Bobbio, em “Direita e Esquerda: “(…) o status de uma desigualdade natural ou de uma desigualdade social derivada do nascimento em uma família e não em outra, em uma região do mundo e não em outra, é diferente do status de uma desigualdade que depende de capacidades diversas, da diversidade dos fins a serem alcançados, da diferença de empenho empreendido para alcançá-los”. Desigualdade social – a inimiga histórica dos “comunistas” – não pode ser confundida com diferenças individuais, é o que diz Bobbio.

Não se imagina que o gado bolsonarista venha um dia compreender as dicotomias remanescentes da Guerra Fria. Seu forte é guerra civil.

Os zumbis e seus métodos

Por Paulo Henrique Arantes

Jair Bolsonaro vai à posse da Javier Milei com as qualificações de sempre: um tiranete a disparar contra a civilização quaisquer bobagens que lhe venham à cabeça. Impressionante a insistência desse senhor em exercer protagonismo político, ainda que impedido de disputar eleições.

Turbinar redes sociais e estimular seguidores idiotizados, nada além disso, compõem a vida pública atual do zumbi Bolsonaro (afora participações em pequenos eventos da legenda que o acolheu), portanto a presença dele em Buenos Aires indica apenas que os neofascistas se merecem.

Todos os políticos moldados por Steve Bannon criam problemas inexistentes no mundo real e os lançam como bombas para que os conflitos suscitados encubram a absoluta iniquidade do que são suas passagens pelo Poder. Ao dispararem uma bomba na praça política, olham para o lado e veem o que as pessoas acharam do artefato ficcional. A partir de então modelam os atos seguintes. Logo será a vez de Milei fazê-lo.

A acusação de fraude nas urnas eletrônicas foi isso: peça de uma metodologia calcada na mentira, claro que não concebida pela cabeça de Bolsonaro ou de seus filhos. De forma idêntica, sempre houve método no comportamento de Donald Trump, fonte de inspiração inequívoca para o vassalo brasileiro, que carrega boas chances de voltar à Presidência dos Estados Unidos com as mesmas estratégias.

Nos EUA e cá, pessoas ainda se enfeitiçam por fake news grosseiras. Algo precisa ser feito para que essa gente entenda como o jogo sujo da extrema direita funciona, entenda de que forma essa direita, enlouquecida, adota a mentira como instrumento natural de sua luta política, ainda que seus próceres pareçam zumbis em determinado momento.

Mesmo que sem a contundência esperada – prender o mentor – no retruque a arroubos antidemocráticos, as instituições brasileiras seguraram a barra quando um movimento golpista explicitou-se. A zumbilândia foi derrotada e a democracia não colapsou.  A partir do momento em que uma concertação positiva surgir no horizonte, poderemos nos tornar otimistas.