Brasil, Reino Unido e França aliviaram o mundo; falta os Estados Unidos

Imagem Pixabay.

Por Paulo Henrique Arantes

O show de horrores que se viu em Balneário Camboriú careceu da presença de Donald Trump para ser completo. Jair Bolsonaro e o descabelado Javier Milei são fascistoides modelares, mas Trump é a efígie global da ultradireita, personificando a xenofobia, a misoginia, a mentira estratégica e o neoliberalismo mais grosseiro. Reino Unido e França deram respiro ao mundo nesta semana ao colocarem a direita para escanteio, ainda que temporariamente.   Falta os Estados Unidos darem a Trump um merecido passa-fora.

Muitos afirmam que basta Joe Biden renunciar à candidatura, e outro nome democrata se encarregaria de vencer Trump em novembro. Não é tão simples. Não é nada simples. Boa parcela dos americanos médios dá de ombros para os crimes do laranjão, aplaude seu machismo e sua xenofobia, considera-o corajoso quando na verdade é um covarde, um falastrão cuja biografia é muito mais podre do que se fala.

Donald Trump já foi desmascarado, foi condenado pela Justiça, mas seu apelo eleitoral não se desfez. O que explica tamanha insanidade dos eleitores? Como é possível que um cidadão razoavelmente esclarecido escolha um candidato abertamente sem caráter?

“Não basta dizer não”, livro de 2017 da consagrada jornalista Naomi Klein, precisa ser revisitado. A autora, que escreveu o seminal “A doutrina do choque”, destrinchando a onda neoliberal que fulminou o estado de bem-estar social a partir dos anos 70, relata coisas escabrosas sobre o laranjão.

Presidente dos Estados Unidos, Trump nomeou Patrick Shanahan vice-secretário de Defesa. Shanahan, um alto executivo da Boeing , escreve Klein, “foi responsável pela venda de equipamentos caros para o Exército americano, incluindo helicópteros Apache e Chinook. Ele também supervisionou o programa de defesa antimísseis balísticos da Boeing – uma parte da operação que deve lucrar imensamente se as tensões internacionais (em 2017) continuarem a aumentar sob o governo Trump”.

Klein explica que oficiais de alta patente reformados costumam assinar contratos com empresas de armamento ou mesmo assumir cargos executivos nessas companhias. A diferença do governo Trump foi “o número de generais com laços lucrativos com prestadores de serviços militares nomeados para cargos em seu gabinete com poder de alocar fundos, incluindo aqueles oriundos de seu plano de aumentar gastos com os militares, com o Pentágono e com o Departamento de Segurança Nacional em mais de 80 bilhões de dólares em apenas um ano”.

Trump presidente teve Rex Tillerson como secretário de Estado, cujas relações umbilicais com a gigante do petróleo Exxon Mobil eram conhecidas. Todo mundo sabe o que acontece com o preço do petróleo quando há guerras envolvendo países produtores. Escreveu Naomi Klein: “Há outra razão pela qual o governo pode se apressar em explorar uma crise de segurança a fim de começar uma nova guerra ou acirrar um conflito já existente: não há maneira mais rápida ou mais eficaz de aumentar o preço do petróleo, especialmente se a violência interferir nos suprimentos de petróleo que vão para o mercado mundial”.

O planeta correrá sérios riscos, agravando-se os que já corre, se o laranjão voltar à Casa Branca. Sob sua presidência os Estados Unidos realizaram movimentos concretos para aumentar a produção de combustíveis fósseis, desmontar boa parte da legislação ambiental e solapar o Acordo de Paris, pavimentando o caminho para novos acidentes climáticos.

O mundo respirará aliviado se os Estados Unidos negarem a Trump uma volta ao poder, a exemplo do que o Reino Unido e a França fizeram nos últimos dias com seus líderes de direita. A exemplo do que fez o Brasil em 2022, mandando para casa – e em breve para a cadeia – seu representante na concertação global neofascista.

Ricupero

Foto Ricardo Bastos

Por Paulo Henrique Arantes

O papelão de Rubens Ricupero na TV 247 serviu para mostrar a verdadeira face do gentleman. O embaixador, ex-ministro de duas pastas, foi aquele que disse a microfones abertos que supunha fechados, nos anos em ocupava a Fazenda, que “o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”. Desculpou-se depois, dizendo-se envergonhado pelo surto de sinceridade.

De Dilma Rousseff ele nunca gostou. Em 2015, quando se ensaiava o golpe que derrubaria a presidenta, Ricupero contribuía para a forjadura do clima de terra arrasada que turbinaria o impeachment. Semeava pânico.

Em entrevista a este jornalista, ele disse coisas como esta: “O que é perigoso, na situação atual do Brasil, sem querer ser alarmista, é que nós estamos nos aproximando neste ano daquilo que de fato mereceria a qualificação de tempestade perfeita. Essa expressão nasceu por causa de um fenômeno que houve em Nova York há uns 10 anos, quando eles tiveram uma terrível tempestade, ao mesmo tempo que a meteorologia foi destrutiva houve um colapso do fornecimento de energia elétrica, os metrôs pararam, não havia iluminação, as pessoas tinham que voltar para casa a pé, começou a ocorrer saques de lojas. É a conjunção de tudo que pode dar errado.”

Ricupero também mostrou a este entrevistador sua bola de cristal econômica: “O ajuste fiscal (de Joaquim Levy), evidentemente, não vai ajudar a economia a se estimular, porque ele sempre tem um efeito recessivo. A poupança está baixíssima, ano passado caiu a menos de 14%, com um investimento interno de menos de 18%, quando precisaria ser de 23%, 24%. E, além do mais, temos ameaças graves de crises de água e energia elétrica. Então, se somarmos isso tudo nós temos um panorama muito complicado.”

E caprichou ao mencionar um ex-ministro de Collor, mostrando seu apego a um dogma ortodoxo: “Marcílio Marques Moreira costuma citar o provérbio romano de que ‘a dose é que faz o veneno’. Quando se gasta muito além do que se pode, com todos esses truques fiscais que fizeram, você pode fazer o bem, mas quebra”.

Sua aversão a Dilma Rousseff e sua visão superficial da realidade política brasileira ficou ainda mais evidente quando disparou esta: “Dilma deve a reeleição ao Nordeste, às regiões mais pobres, e nessas regiões ela ganhou por causa dos programas sociais”. Ou seja, o tom é de quem “culpa” os nordestinos pela vitória da presidenta Dilma.

Ainda hoje, como seu viu na TV 247, Rubens Ricupero atribui a tragédia econômica provocada por Michel Temer e Jair Bolsonaro aos governos de Dilma Rousseff, que registrou, entre outras marcas, o menor desemprego da História do Brasil. Mas o que significa o desemprego para um neoliberal?

A ENTREVISTA COMPLETA DE RUBENS RICUPERO AO COLUNISTA EM 2015 PODE SER LIDA NA ÍNTEGRA AQUI.

Rubinho e sua guerra contra o Padre Júlio Lancellotti

Vereador Rubinho Nunes.

Paulo Henrique Arantes

Já escrevemos aqui sobre Rubinho Nunes, vereador em São Paulo pelo União Brasil (seu sexto partido). Sua trajetória o credencia para a intentona atual: punir quem ousar doar comida aos moradores de rua da cidade de São Paulo com multa de 17 mil reais, além de desencorajar ações humanitárias desse tipo mediante enfastiante burocracia.

Rubinho odeia pobre? Parece que sim, mas muito mais escancarada é sua fixação odiosa pelo Padre Júlio Lancellotti.

Há um inquérito da Polícia Civil de São Paulo contra ele por, a partir de calúnias contra ONGs – em especial contra a Pastoral do Povo da Rua, capitaneada pelo Padre Júlio -, tentar instalar uma CPI na Câmara Municipal. O direitista quis dar conotação partidária à ação social do sacerdote, mas o intento causou forte repúdio e o tiro saiu pela culatra. Agora, volta à carga com o Projeto de Lei 445, que prevê multa a quem der de comer a moradores de rua. Diz que almeja “transparência”. Acredita quem quer.

Rubinho, um reacionário cheirosinho, enxerga o Padre Júlio como cabo eleitoral de Guilherme Boulos na eleição para prefeito da Capital. Pensa que destruindo a credibilidade das ações humanitárias por ele geridas roubará eleitores de Boulos. Seria patético, não fosse cruel.

Registre-se que a afinidade entre o sacerdote e o candidato do PSOL é mais do que justificável, pois ambos possuem histórias de vida de amparo aos sem-teto. Trata-se de uma saudável empatia.

O Padre Júlio Lancellotti é mais que um exemplo de sacerdote cristão. É um modelo de ser humano, cuja prática de amor ao próximo independe de religiões, ou melhor: está acima delas.

Em contraposição a ele está Rubinho Nunes, um dos fundadores do Movimento Brasil Livre, o MBL, aquele grupo de jovens reacionários que nasceu para estimular a derrubada de Dilma Rousseff. Ele era um dos organizadores daquelas manifestações pró-impeachment que tornaram o verde e o amarelo cores oficiais do golpismo.

Repitamos aqui, por oportuno, parte de artigo já publicado pela coluna:

De 2011 até hoje, Rubinho demonstrou sua versatilidade política integrando nada menos que seis partidos: PR, MDB, Patriota, PSL, Podemos e União Brasil. Em 2016, protocolou o primeiro pedido de impeachment contra um ministro do Supremo Tribunal Federal, acusando Marco Aurélio Mello de agir de forma arbitrária ao determinar, mediante liminar, que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, colocasse em votação pedido de impeachment contra o presidente da República, Michel Temer. A coisa toda acabou engavetada.

Em 2018, Lula, preso, teve seus benefícios de ex-presidente da República cortados pelo juiz federal Haroldo Nader, da 6ª Vara de Campinas, em decisão sobre ação popular liderada por Rubinho Nunes.

Ainda em 2018, o jovem político reacionário de Vinhedo, junto com o inefável Kim Kataguiri, entrou com ação para impugnar a candidatura Lula à Presidência da República com base na Lei da Ficha Limpa. A dupla do MBL foi vitoriosa no Tribunal Superior Eleitoral, como se sabe.

Rubinho Nunes e seus pares respiram ódio ao humanismo e a qualquer ação na direção da justiça social e da igualdade.

Roberto Campos Neto para presidente!

Pedro França / Agência Senado

Por Paulo Henrique Arantes

A paranoia da imprensa com a austeridade fiscal chega ao ponto de tratar Javier Milei como “libertário” em vez de maluco, isso porque o mandatário argentino obteve o primeiro superávit orçamentário mensal do país em 12 anos. Não importa a que custo social ou humano. Conferir pouca ou nenhuma importância à insanidade de um presidente, desde que ele faça genuflexão diária perante o “mercado”, é comportamento vezeiro da mídia.

No Brasil, temos caprichado na elevação do “mercado” à condição de “deus”. Lê-se, ouve-se e assiste-se a verdadeiras sessões de louvação à ortodoxia econômica, bússola a apontar para o norte feliz. As catástrofes sociais perpetradas pelos filhos da Escola de Chicago mundo afora não são mencionadas.

É saboroso ver a reação desesperada da mídia corporativa diante do surgimento do nome de André Lara Resende como possível escolhido de Lula para o Banco Central. A hipótese ALR tem olhos e focinho de factoide, mas seria interessante vê-la concretizada. Antes identificado com o liberalismo, sempre enaltecido como um dos “pais do Plano Real”, em soporífera referência, há alguns anos o economista passou a criticar com veemência a obsessão pelo controle fiscal, a pregar contra limitações de gastos e a defender o investimento público como forma de impulsionar o crescimento do país. Tornou-se o terror da Faria Lima.

A distorção que a mídia corporativa promove hoje quanto à questão do Banco Central e dos juros, ao tratar o bolsonarista Roberto Campos Neto como técnico qualificado e Lula como político de conduta figadal, é grave mas absolutamente previsível. Os jornalões poderiam pelo menos assumir que o presidente do BC é seu candidato dos sonhos à Presidência da República – o sujeito até já jantou com Luciano Huck, a personificação do bolsonarismo de sapatênis.

Não nos surpreendamos, pois essa mesma imprensa já fez pior ontem mesmo. Na pandemia, hipocritamente, chegava ao cúmulo de “debater”, em tons de imparcialidade, a fictícia imunidade de rebanho. Ao longo da tragédia pandêmica, cometeram-se esse e outros crimes informativos em nome da famigerada “isenção” jornalística.

Há amplos estudos demonstrando a incorreção da mídia na abordagem dos temas científicos relacionados com a pandemia de Covid-19, um deles publicado por especialistas brasileiros na prestigiosa revista Frontiers in Communication. A partir de abril de 2020, a imprensa brasileira começou a destacar os efeitos das medidas de distanciamento sobre a economia. Também nesse caso, as narrativas foram construídas mediante o princípio de “ouvir os dois lados” – um, favorável à “imunidade de rebanho”; outro, ao distanciamento social. Tratava-se de uma falsa equivalência, já que a oposição à “imunidade de rebanho” era cientificamente embasada, enquanto sua defesa baseava-se em projeções de economistas neoliberais.

O deputado de ideias medievais Osmar Terra, que é médico (?) mas não epidemiologista, ganhou amplo espaço da mídia com suas considerações que foram da insignificância do vírus à exaltação da cloroquina. Reportagens em grandes portais de notícias continham links de vídeo para pronunciamentos recheados de informações falsas.

Exaltar tecnocratas não é nada para quem deu voz a negacionistas da ciência, corresponsáveis por milhares de mortes evitáveis. Roberto Campos Neto para presidente!

Jornalistas que dão conselhos a Lula

Por Paulo Henrique Arantes

Este colunista trabalhou durante oito anos num palácio de governo, produzindo releases para a imprensa sobre gestões de dois governadores. O palácio era o dos Bandeirantes, e os governadores eram Orestes Quércia e Luiz Antônio Fleury Filho. Não me queiram mal por isso.

Era como frequentar uma escola ver os colegas credenciados no Comitê de Imprensa – os setoristas – darem longos expedientes até que o governador se dispusesse a lhes conceder entrevista, ou mesmo ter com eles uma conversa informal, na qual certamente lhes seria dada alguma informação em primeira mão. Eram todos profissionais experimentados, alguns cobriam o Palácio desde os tempos de Adhemar de Barros.

Fleury não tinha nenhum tostão de carisma, mas Quércia era espirituoso e inteligente – um “peixe ensaboado”, como o Interior batiza os espertos. Ocorre que a intimidade que fingia manter com os setoristas encorajava-os a atitudes no mínimo engraçadas. Alguns tinham por hábito dar conselhos políticos e administrativos ao governador, que fingia levá-los em consideração.

“O senhor deveria cuidar primeiro disto, depois daquilo”, “Se eu fosse o senhor, não acreditaria nesse sujeito”, “Por que o senhor não convida fulano para aquela vaga no secretariado?”, “O senhor deveria trocar X por Y”. Quércia fazia cara de interessado e agradecia “muito” pelas dicas. Jamais se teve notícia de ter acatado qualquer uma delas.

Colunistas, comentaristas e congêneres de hoje parecem ser descendentes intelectuais dos setoristas do Palácio dos Bandeirantes dos anos 80. Não resistem a dizer o que Lula deve fazer ou falar. Em vez de analisar as reais razões e as verdadeiras intenções de um ato ou fala do presidente da República, bem como suas consequências, comportam-se na mídia como se dissessem: “Se eu estivesse no lugar de Lula, faria aquilo, não isso”.

Por ter duas ou três fontes no Poder, essa turma julga-se conhecedora da mente do presidente e acredita ter meios de induzi-lo a esta ou aquela atitude. Dizer que Lula “derrapou” num discurso é uma interpretação, afirmar que Lula deveria ter dito “assim, e não assado” é muita pretensão, a menos que se esteja pleiteando o posto de conselheiro ou assessor presidencial – e Lula já os tem de sobra.

Austeridade a serviço do fascismo, ou vice-versa

Por Paulo Henrique Arantes

É seminal o livro “A Ordem do Capital”, da economista e professora Clara E. Mattei, da New School for Social Research. A partir da análise histórica dos fatos sociais, políticos e econômicos ocorridos no Reino Unido e na Itália depois da Primeira Guerra Mundial, ela explica como a austeridade tornou-se a principal bandeira daqueles que lucram com a desigualdade, os quais nunca hesitaram em patrocinar o fascismo para manter o status quo.

A obra de Mattei possui impressionante identificação com o Brasil de hoje e de sempre, em que a – vamos lá – Faria Lima e seus serviçais na imprensa tentam fazer pespegar no governo a imagem de perdulário, semeando uma sensação de caos econômico. Absolutamente falso, pois o verdadeiro caos foi herdado e a coisa agora entra nos trilhos. O Governo Lula, com Fernando Haddad à testa da Fazenda, tem buscado o crescimento econômico e a melhora de vida da população antes de tudo, ao passo que se esforça para que dinheiros não escoem pelo ralo.  

Faz-se de “gastar” um palavrão e esperneia-se quando o governo procura vedar os reais ralos de dinheiro público. O Congresso tem sido exemplar na tarefa de preservar privilégios setoriais. Os fascistas, exímios produtores de fake news, agora podem servir-se das manchetes do Estadão, ouriçando-se, prontos para um novo bote sobre a democracia. Em punho, a bandeira da austeridade.

Por isso os escritos de Clara E. Mattei são oportunos. Como é este trecho, que parece indignar-se com este Brasil da Faria Lima, de Armínio Fraga e de Eurípedes Alcântara:

“Ao contrário do que os defensores da austeridade querem nos fazer pensar, o sistema socioeconômico em que vivemos não é inevitável nem deve ser relutantemente aceito como o único caminho a seguir. A austeridade é um projeto político decorrente da necessidade de preservar as relações de dominação das classes capitalistas. É resultado da ação coletiva para excluir quaisquer alternativas ao capitalismo. Portanto, pode ser subvertida por meio de uma  ação contrária também coletiva. O estudo da lógica e do propósito da austeridade é um primeiro passo nessa direção.”

A turma da austeridade, claro está, é efusivamente austera com seu próprio dinheiro quando se trata de pagar imposto: paga pouco ou nada e acha muito. A crítica é que o governo “gastador” estaria tentando equilibrar suas contas pelo meio exclusivo do aumento de receita. Trata-se do suprassumo do cinismo. Mas, como vira-latas rodrigueanos, seguimos copiando os irmãos americanos. Nas terras do Tio Sam, a razão é salva por Paul Krugman, que nos brinda com isto:

“Quanta diferença faz para a qualidade de vida de um bilionário se ele tiver que se contentar com um iate um pouco menor? No topo da pirâmide, a riqueza é em grande parte sobre status e autoimportância; como Tom Wolfe escreveu há muito tempo, é sobre ‘vê-los pular’. E quando os políticos não se curvam, quando não tratam os muito ricos com a deferência e admiração que consideram merecer, alguns deles ficam enfurecidos. Vimos isso quando muitos de Wall Street se voltaram contra o presidente Barack Obama —depois que ele os ajudou a se recuperar na crise financeira— porque se sentiram insultados por suas críticas ocasionais. Biden não é exatamente um guerreiro da luta de classes, mas não adora os super-ricos. E muitos deles estão se voltando para Trump por pura mesquinhez.”

Austeridade e fascismo seguem de mãos dadas. E fortes.

Medo do clima? Motivos não faltam

Por Paulo Henrique Arantes

      Agora as palavras clima e medo andam juntas. A tragédia gaúcha deflagrou a sensação geral de impotência diante da possibilidade – ou da alta probabilidade? – de se acordar no meio da noite e ter de deixar a casa e os pertences para trás em nome da salvação da vida. Importante lembrar que a cidade de São Paulo, recentemente, nem chegou perto de uma inundação como a de Porto Alegre, mas boa parte da população ficou dias sem energia elétrica por causa de uma tempestade. Nossas metrópoles não suportam grandes intempéries climáticas (nem se fale de cidades litorâneas, ribeirinhas e das comunidades instaladas em encostas de morros).

      A coluna perguntou a Marcelo Seluchi, coordenador de Operações do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Desastres Naturais, órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) se o medo de um desastre iminente se justifica.  A resposta não poderia ser mais clara:

      “Medo? Podemos dizer que sim, estamos condenados ao medo porque sabemos que esses desastres vão continuar ocorrendo”.

      Desde 2011, ano do desastre na região serrana do Estado do Rio de Janeiro, as catástrofes causadas pela revolta da natureza diante do desrespeito ao meio ambiente têm sido frequentes. E a revolta não vem apenas por meio de chuvas: de 2012 a 2020 sofreu-se uma seca histórica. Quem não se lembra da situação em que ficou o Sistema Cantareira, em São Paulo?

      “As pessoas esquecem um pouco das secas, por serem silenciosas e não provocarem tantas mortes nos dias de hoje, mas seus impactos são grandes. Se a seca paulista ocorresse nos séculos passado ou retrasado, as consequências seriam muito mais graves, como foi na década de 1870, quando uma longa estiagem praticamente dizimou a população do Ceará”, adverte Seluchi.

        Quanto ao horror provocado pela fúria das águas, o Brasil viveu-o num curto espaço de tempo recente em Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro (Petrópolis e Angra dos Reis) São Paulo (São Sebastião) e, agora, Rio Grande do Sul – este último já protagonista da pior tragédia de motivação climática da História.

       O medo do horror climático pode ser diminuído se os sistemas de prevenção tornarem-se mais resilientes. Muito mais resilientes. É nesse ponto que entra a vontade política

      “A maioria das metrópoles estão despreparadas. Porto Alegre estava um pouco melhor preparada porque tem um sistema de diques, um sistema de comportas, um sistema de bombas, mas que não funcionaram adequadamente. Outras cidades, como Canoas, também têm diques, e esses diques não foram preparados para uma cheia do tamanho desta”, observa Seluchi. É necessário ser mais claro para que se identifique, então, a responsabilidade das autoridades públicas gaúchas?

       Marcelo Seluchi participou na quarta-feira (19) de uma reunião na Câmara dos Deputados em que se discutiu um novo de sistema de alerta sobre risco de catástrofe por celular. A ver. O que existe hoje em algumas regiões baseia as mensagens no endereço cadastrado pelo usuário. Ou seja, se minha residência estiver em área de risco iminente, eu serei avisado. Se eu estiver numa área de risco longe da minha casa, ficarei à deriva.

      No segundo semestre de 2024, como já se informou, estaremos livres das consequências de El Niño, mas teremos que enfrentar as idiossincrasias de La Niña.  “Normalmente, durante anos de La Niña chove menos na região Sul”, diz Seluchi. E prossegue: “La Niña consiste no resfriamento das águas do Pacífico Equatorial, só que o restante do Oceano Pacífico e praticamente todo o Oceano Atlântico estão mais quentes do que o normal, então vai ser uma La Niña muito particular. Eu diria que sem precedentes”.

      Isso significa que choverá pouco no Sul (o Paraná já está em estado de seca), mas muito no Norte e no Nordeste. E o Pantanal, especialmente, deverá ser bastante afetado. “Ainda estamos no início da estação seca e o Pantanal já está tendo muitos incêndios”, alerta Seluchi. Também a Amazônia não sairá ilesa de La Niña: “Tivemos uma situação chuvosa muito deficiente na Amazônia. Então, num período seco após um período de chuva fraco, é muito provável que os meses de baixa do Amazonas sejam abaixo do normal”.

A volta de Bolsonaro desagradaria ao Estadão?

AFP

Paulo Henrique Arantes

 O governo Lula, como todos os governos, deve ser cobrado pela imprensa. Não há boa prática jornalística que prescinda da fiscalização do poder, da denúncia de irregularidades, do apontamento de erros. Mas o que a mídia tradicional brasileira – jornalões quase falidos, em regra – faz neste momento é tentar reviver os tempos dos famigerados Mensalão e Lava Jato e os meses antecedentes ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff: escandalizar atos banais, distorcer dados econômicos, inverter o sentido da realidade factual para dar argumentos eleitorais a determinados grupos.

      A última de O Estado de S. Paulo é comparar o trabalho de comunicação da Secretaria de Comunicação Social com as práticas do gabinete do ódio bolsonarista, “notícia” já desmentida e que o tempo apagará por inépcia. Nem se fale das entrevistas com economistas-financistas disseminando a falsa ideia de que o cuidado fiscal vem sendo desprezado, coisa que até as agências de rating desmentem. É gente que pouco se lixa para os ótimos resultados da economia em termos de emprego e renda, com inflação baixa e controlada. Gente que não quer ver na presidência do Banco Central alguém que enxergue a economia além de suas implicações monetárias.

      Há ainda aqueles momentos de puro cinismo, como quando se escreve que o governo brasileiro, Lula particularmente, faz “picuinha” com Israel. Fosse assim, picuinha com Israel estaria fazendo todo o mundo civilizado, especialmente a ONU, cuja relatora para direitos humanos, Francesca Albanese, identificou “motivos razoáveis” para considerar genocídio a atuação israelense na Faixa de Gaza.

      Até mesmo a total mobilização do governo em socorro ao afogado Rio Grande do Sul é alvo de tentativas de desabono, as quais alcançam até o fotógrafo oficial da Presidência da República – o ótimo Ricardo Stuckert – por falta de irregularidades graves a denunciar. Enquanto isso, o governador Eduardo Leite, bolsonarista enrustido cuja atenção ao meio ambiente está abaixo de zero, é tratado com nauseante condescendência.

      A explicação para tais posturas é, antes de tudo, comercial. Os jornalões e seus desdobramentos de internet, rádio e TV precisam cevar quem os sustenta, além de manter cativa a meia dúzia de leitores que ainda lhe resta. Lula não os representa.

      O que afastou os donos do dinheiro, a partir de determinado momento, do governo fascistoide passado foi ausência total de governança por parte da parelha Jair Bolsonaro-Paulo Guedes, em permanente disposição para o improviso e lances oportunistas – uma bagunça completa. Pouco lhes incomodou o negacionismo na pandemia e os ataques diuturnos à democracia, por exemplo. Já a aversão dessa gente a Lula é fruto de raízes históricas de preconceitos e temores injustificados, pois seus negócios andaram muito bem, obrigado, em todos os governos do petista. 

      Em síntese, os donos do dinheiro – e por tabela os jornalões – têm motivos de sobra para detestar Bolsonaro, mas algo mais forte os afasta de Lula: o nordestino, ex-operário, definitivamente não é um deles. Alguém duvida que uma volta do capitão ao comando do país, na falta da insossa opção de uma “terceira via”, agradaria a O Estado de S. Paulo? Sorte de todos nós que tamanha tragédia não vai acontecer.

Fake news sem punição autorizam conspirações contra a democracia

Por Paulo Henrique Arantes

Ao receber o título de Doutor Honoris Causa em Comunicação e Cultura na Universidade de Turim, o escritor e filósofo Umberto Eco referiu-se aos usuários das mídias sociais como “uma legião de imbecis, que antes falavam apenas no bar, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.

O consagrado autor de “O Nome da Rosa” foi além: “Normalmente, eles, os imbecis, eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel”. Não satisfeito, acrescentou: “O drama da internet é que ela promoveu o idiota a portador da verdade”.

É triste constatar o realismo da fala do escritor italiano, mas dar voz também aos imbecis talvez seja o preço da liberdade. Quem frequenta as redes sociais de forma ampla, em rol de “amizades” que vá além do, digamos, círculo de convivência presencial, sabe do que se trata. Não se pode negar a mídia social como palco revelador das faces verdadeiras: personalidades, crenças e crendices, ódios e amores antes recolhidos são catapultados do teclado para o mundo, satisfazendo aquele desejo de boa parcela da humanidade de se exibir.

Essa liberdade de expressão, absoluta nas redes, não exime ninguém de crimes como calúnia, difamação, insulto, escárnio por motivo religioso, ato ou escrito obsceno, incitação do crime, apologia ao crime, falsa identidade, pedofilia, preconceito, discriminação ou revelação de segredo profissional – todos descritos no Código Penal.

Ocorre que surgiu no mundo digital um novo tipo de crime, fruto de orquestração da extrema-direita. As fake news podem conter características dos crimes mencionados no parágrafo acima, mas são outra coisa, são peças de estratégias políticas, friamente forjadas e adequadas ao terreno dos robôs e dos algoritmos. A legislação precisa tipificar essa nova prática, esse novo crime. O Brasil, particularmente, precisa de uma lei específica para identificar e punir as fake news, que servem de base para nada menos que tentativas de golpe de Estado.  

Assim escrevemos neste espaço dias atrás: O Brasil não pode conviver eternamente com dois mundos – um real, outro fictício, paralelo, forjado por estrategistas de extrema direita dedicados a promover o caos e a caluniar governos democráticos. A ordem de escandalizar qualquer ato político-administrativo banal e classificá-lo como corrupção, ao estilo da Lava Jato e das “denúncias” que resultaram no impeachment de Dilma Rousseff, hoje dá lugar a um comportamento ainda mais grave: as fakes sabotam ações de defesa civil e saúde pública. 

O temor de que uma lei específica contra as fake news resulte em censura não se justifica, a não ser que seu texto seja mal escrito ou mal aplicado. É irritante ler, ouvir e assistir a “analistas” falando sobre os “riscos” que podem decorrer de uma lei das fakes, a qual seria potencialmente cerceadora de opiniões. De que planeta vêm esses senhores e essas senhoras? É preciso lhes desenhar a óbvia diferença entre uma opinião e uma acusação mentirosa, um fato forjado para destruir uma reputação ou desacreditar, por exemplo, uma eleição democrática?

A manutenção pelo Congresso de um veto de Bolsonaro à criminalização de fake news, em 28 de maio, mostra a dimensão do problema, e mostra a quem interessa ver as fakes livres para conspirar contra a democracia.

Galípolo no Banco Central pode subverter a ordem neoliberal

Galípolo e Belluzzo (foto publicada em Carta Capital).

Por Paulo Henrique Arantes

   Se há um brasileiro, hoje, detentor de poder e que o usa contra os interesses dos brasileiros, seu nome é Roberto Campos Neto. O presidente do Banco Central reveste-se de um verniz técnico que mal lhe disfarça o compromisso único com o “mercado” (mercado financeiro, entenda-se), aquele espectro que assombra a economia real. O compromisso do BC deveria ser com o Brasil.

   Nem Miriam Leitão enxerga risco de descontrole da inflação, mas a “expectativa inflacionária” leva Campos Neto a uma preocupação doentia, pois decorrente de uma ortodoxia cega. Por sua cartilha, o atingimento do centro da meta inflacionária garantirá o paraíso, nem que a custo de juros teratológicos. Emprego, renda, consumo das famílias, aquecimento da indústria e do comércio – nada disso consta do dicionário neoliberal do atual presidente do Banco Central do Brasil.

   A nos sorrir a sorte, e a se confirmar o prognóstico de um tal “bastidor” (não sei quem é esse sujeito que faz a fama de tantos jornalistas), o próximo presidente do Banco Central será Gabriel Galípolo, atual diretor de Política Monetária e ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda de Fernando Haddad. Professor da PUC de São Paulo, Galípolo foi CEO do banco Fator sem dobrar-se ao financismo rasteiro. Sua ligação com o professor Luiz Gonzaga Belluzzo é um farol de lucidez apontando para o futuro.

   Belluzzo e Galípolo escreveram juntos muita coisa boa. O livro “Manda Quem Pode, Obedece Quem Tem Prejuízo”, por exemplo, é saboroso. A obra é de 2017 e, apesar de alguns indicadores terem mudado, permanece conceitualmente atual.  Eis um trecho, que deveria ser lido por Roberto Campos Neto:

   “O Japão, um dos países mais endividados do mundo, sustenta uma dívida pública equivalente a 250% do seu PIB, mas suas taxas de juros são iguais ou menores que 0%. Os EUA detêm uma dívida de mais de 105% do seu PIB e o FED pratica taxa de juros inferiores a 0,75%. Os países da Zona do Euro apresentam endividamento de aproximadamente 92% do seu PIB, e o BCE também pratica taxas de juros nulas.”

   Outro parágrafo que vai na ferida:

   “A história recente da evolução da dívida pública no Brasil demonstra o avesso da sabedoria convencional. Dizem os sabichões que a taxa de juro é elevada por causa do estoque da dívida, mas o caso brasileiro parece afirmar que a dinâmica da dívida é perversa por causa da taxa de juro de agiota.”

   “Taxa de juro de agiota” – não poderia haver descrição mais perfeita da Selic atual, nem se fale dos juros cobrados na praça pelos bancos. Mas Galípolo e Belluzzo têm muito, muito mais a dizer. É gratificante ler economistas que tratam a economia como disciplina humana, não como compilação de regras matemáticas. A conferir:

   “O fato de uma classe social monopolizar os meios de produção e controlar o crédito lhe confere o poder de determinar a renda desta sociedade. Portanto, para que as necessidades pessoais e coletivas sejam satisfeitas é necessário que os agentes detentores dos meios de produção e crédito gerem mais dinheiro do que o investido inicialmente. O destino desta economia depende da decisão de gastar, investir e se endividar dos capitalistas. A complexidade reside no fato desta decisão nem sempre se dar de forma a gerar a melhor renda e emprego para a sociedade.”

   Um dos autores das palavras acima pode vir a ser presidente do Banco Central do Brasil. A pô-las em prática, subverterá a ordem neoliberal em vigor.