Os coaches e os idiotas

Foto: Antonio Milena / Fotos Públicas

Paulo Henrique Arantes

Pablo Marçal não tem conteúdo nem para ser coach evangélico, muito menos prefeito de São Paulo. Palestrantes motivacionais, atuantes em carne e osso ou na internet, reproduzem-se como praga, aproveitando-se do vazio intelectual que parece predominar. Marçal candidato resulta disso e, no contexto coaching, é um dos piores, tanto pelo que diz quanto pelos esqueletos em seu armário.

 O movimento da extrema-direita global para emparedar pensadores legítimos já conseguiu importantes vitórias mundo afora, e teve em Olavo de Carvalho seu mais estridente porta-voz. O filósofo Luiz Felipe Pondé, um acadêmico, esmera-se em esculachar a academia por considerá-la palco exclusivo a esquerdistas. Claro que o pensamento considerado “de esquerda” predomina nas universidades, mas por que não predominaria, já que o próprio livre-pensar foi historicamente combatido pela direita? Sim, Stalin e Fidel nunca permitiram pensamento divergente algum, e eram de esquerda – bingo! Daí a necessidade de se ressaltar o quão próximos situam-se os extremos que escapam à régua democrática.

O louvor à ignorância ganha corpo e não é de hoje. Valorizar a falta de conhecimento virou moda sob o falso argumento de que pensar não enche barriga. Um bolsonarista, olavista, marçalista ou coisa que o valha acha que andar com arma na cinta e mandar o filho criança trabalhar em vez de ir para a escola são virtudes. A virtude maior, para essa gente, é a capacidade de enriquecer, comprar segurança (leia-se um revólver e uma casa num condomínio blindado) e dar uma banana para os fracassados.

O discurso desse povo, em síntese, é o da famigerada meritocracia, algo absoluta e gritantemente distante de qualquer senso de justiça social. E dá-lhe negacionismo. Os louva-coaches não hesitam em acreditar em qualquer bobagem dita numa palestra proferida por um espertalhão para um amontoado de incautos. Abestalhado, o louva-coaches é a presa ideal, pois desde sempre um consumidor de “conhecimento” por orelhadas, jamais um questionador, muito menos um leitor.

A orelhada é a atitude intelectual mais profunda do louva-coaches. Mente vazia, ele escuta a bobagem dita pelo coach, gosta porque lhe é compreensível e lhe parece aplicável à vida cotidiana. O discurso do coach, nada mais que um mentiroso, faz com que um portal de esperança surja diante dos seus olhos, fazendo-o sentir-se não como o idiota que é, mas como um futuro self-made man. A sagrada orelhada irá transformar a vida do idiota, que logo nem saberá mais a qual coach louvar. Ou em qual coach votar.


Ciro Gomes, o espalha-roda

Fotos Públicas.

Por Paulo Henrique Arantes

Não há surpresa no que disse Ciro Gomes e que mereceu destaque na Folha de S. Paulo. Eis a incontinência: “Desde 2019, Moraes resolveu transformar esse inquérito (o das fake news) numa coisa que não tem fim, no inquérito do fim do mundo. Isso, data máxima vênia, não é direito. É incorreto. Está simplesmente produzindo nulidade para, inclusive, garantir a impunidade dos malfeitores”.

É óbvio que o ministro Alexandre de Moraes aprofunda-se para que não pairem dúvidas jurídicas sobre as condenações que certamente proporá como relator do inquérito das fake news. Só na cabeça de Ciro Gomes o magistrado “produz nulidade para garantir impunidade”.

Ciro, há algum tempo, tenta compensar sua impotência eleitoral disparando contra quase tudo. Em respeito à identificação levemente à esquerda que já teve, poderia mirar nos extremistas de direita que tentam destruir tudo que se assemelhe a democracia e civilidade.

O problema de Ciro Gomes é, nitidamente, o recalque por não ter sido, jamais, ungido como o candidato preferencial do campo progressista. Dotado de conhecimento econômico, com boas ideias heterodoxas, uma vez no comando do país não hesitaria em confrontar a alta finança, como sempre deixou transparecer. Mas não é aí que reside o problema Ciro.

A questão principal que cerca o político cearense e suas práticas é de ordem psicológica. Vaidade e inconformismo. Ciro Gomes se acha o mais preparado dos políticos e nunca perdoará Lula por não pensar a mesma coisa, daí a abraçar a onda polarizadora que pinta o petista como um Bolsonaro de esquerda.

Ciro tornou-se um espalha-roda na política brasileira, aquele sujeito cuja presença dissipa grupos de conversa. Só mesmo a Folha de S. Paulo, que a cada dia menos disfarça seu bolsonarismo, para dar o destaque que deu a uma fala dele, feita a um programa para ele criado chamado “O Brasil Desvendado” e reproduzido em suas redes sociais.

O apagar das luzes políticas de Ciro Gomes poderia ser menos patético. Apesar de ter navegado com PDS, PMDB, PSDB, PSB, Pros e PDT, o que indicaria enorme vazio ideológico, ele foi, em cargos no Executivo, um realizador pragmático. Deixou o governo do Ceará com 74% de aprovação, finalizou a implantação do Plano Real (para o bem ou para o mal) como ministro da Fazenda de Itamar Franco e, como ministro da Integração Nacional no primeiro governo Lula, de 2003 a 2006, imprimiu bom ritmo à gigantesca obra de transposição do Rio São Francisco. 

O passar do tempo, emoldurado por seguidos fracassos eleitorais e a recusa de Lula a apadrinhar suas candidaturas, parece ter levado Ciro Gomes ao desespero, o que fica evidente quando ele alinha seu discurso ao do bolsonarismo.

Folha de S. Paulo confirma que fascismo e neoliberalismo andam de mãos dadas

Brasilia DF 25 06 2019 -Jornalista fundador do jornal The Intercept, Glenn Greenwald em audiência pública na Câmara dos Deputados foto Gustavo Bezerra

Por Paulo Henrique Arantes

  Nem tudo que parece complexo, para ser compreendido, exige explicações complexas. O caso – ou não-caso – levantado pela Folha de S. Paulo acerca de condutas do ministro Alexandre de Moraes encontra numa frase dele próprio a mais perfeita justificativa: oficiar-se a si mesmo seria esquizofrenia.

      Pode-se questionar a formatação do Judiciário, que possibilita o acúmulo de cargos em tribunais superiores, mas não se pode imaginar que o ocupante de dois cargos comporte-se como se não fosse a mesma pessoa.

      Na mesma Folha, o advogado Thiago Amparo foi simples e direto: “O jornal afirmou que a atuação de Moraes estaria fora do rito. O rito era Moraes (STF) oficiar o Moraes (TSE). Qualquer análise precisa partir do fato de que as instituições estavam lidando com um campo político que queria implodir a democracia e literalmente o fez no fatídico 8 de janeiro. Sem essa clareza histórica, o que é análise vira inocência”.

      Para ser contraposta, a “denúncia” de Fabio Serapião e Glenn Greenwald não requer contorcionismos, subterfúgios ou escamoteios. Jornalistas, políticos, juristas e cidadãos em geral que não se encontrem na banda ignóbil da sociedade já compreenderam que o jornal que considerou o regime torturador uma “ditabranda” escancara sua preferência pelo que Jair Bolsonaro e os bolsonaristas representam.

      O “pluralismo” que a Folha de S. Paulo apregoa revelou-se piada de mau gosto há muito tempo. É o velho truque de salpicar colunistas progressistas para mascarar a verdadeira régua pela qual o jornal se baliza: o neoliberalismo, mesmo que a custo da democracia.

   Já tivermos oportunidades, nesta coluna, de explicar como o neoliberalismo, cuja principal arma é a austeridade fiscal, abraça e patrocina regimes fascistas. A coisa começou no Reino Unido e na Itália no pós-Primeira Guerra Mundial, como relatou primorosamente Clara Mattei no livro “A ordem do Capital”, e ultrapassou o século XX para aterrorizar o XXI.

     A obra de Mattei detalha como a austeridade impôs-se contra os levantes de trabalhadores explorados e consagrou-se como argumento impeditivo de avanços sociais. A semelhança com o Brasil de hoje é impressionante, onde a Faria Lima e seus serviçais na imprensa tentam fazer pespegar no governo a imagem de perdulário, semeando uma sensação de caos econômico. Trata-se de óbvia mentira, mas que serve a um jornal neoliberal como justificativa para aliar-se até a um Bolsonaro.

      Os fascistas, exímios produtores de fake news, podem agora servir-se do factoide da Folha contra Alexandre de Moraes, atiçando-se mais uma vez, prontos para um novo bote sobre a democracia.

Uma entrevista com Delfim Netto

Foto Ricardo Bastos

Por Paulo Henrique Arantes

Todos queriam ouvir o que Antonio Delfim Netto tinha a dizer. Governo, oposição, políticos e economistas de matizes diversas raras vezes ousaram desprezar o que ele escrevia, durante muitos anos, em suas colunas nos jornais “Folha de S. Paulo” e “Valor Econômico”, e na revista “Carta Capital”. O ex-ministro da Fazenda do governo do general Emílio Garrastazu Médici, época do “Milagre Econômico” e apogeu da ditadura militar, apoiou os dois primeiros governos Lula e, com ressalvas, o governo e meio de Dilma Rousseff.

Em 2013, no primeiro governo Dilma, Delfim concedeu uma alentada entrevista a este colunista, para a Revista OAB-CAASP, quando falou em “esquizofrenia” em torno da inflação, das projeções para o PIB, da política de juros e da atuação do Banco Central, então sob o comando de Alexandre Tombini.

Sim, foi um colaborador destacado da ditatura, mas isso não apaga seu talento como economista. Delfim nunca rendeu-se ao financismo e sua morte, nesta segunda-feira (12), deixa uma lacuna.

Reproduzo a seguir a entrevista que fiz com Delfim Netto durante o Governo Dilma, em que ele rema contra a corrente ortodoxa da época, cuja semelhança com a de hoje é nítida.

Afinal, a economia brasileira vai bem ou vai mal?

Antonio Delfim Netto – Na verdade, o Brasil vai muito bem. O Brasil mudou. Desde a Constituição de 1988 as instituições estão muito mais sólidas, o país vem desenvolvendo instituições adequadas a um crescimento razoável. O Brasil está mais justo.

Em 2012, crescemos muito pouco, mas nos últimos 16-17 anos temos crescido em torno de 3% ou 4% ao ano, mas com uma mudança muito importante na distribuição da renda. A distribuição de renda tem melhorado, tem aumentado a igualdade de oportunidades de tal modo que se está criando um país mais decente.

O PIB de 0,9% em 2012 de fato é decepcionante. Mas, diante de um cenário mundial em que a Europa está em recessão, os Estados Unidos estão estagnados, o desempenho do PIB brasileiro configura uma catástrofe?

Para as nossas necessidades e possibilidades, seguramente é um crescimento baixo, mas que vai ser superado – eu estou convencido. O mais importante não é o crescimento no ano, mas sim que entre o terceiro e o quarto trimestres de 2012 tenhamos crescido 0,8%-0,9%. Isso significa que o Brasil já está crescendo alguma coisa entre 3% e 3,5% de modo anualizado. Então, estamos recuperando o crescimento. E consolidando a ideia de que esse crescimento tem de ser feito com inclusão social.

É correto afirmar que  “a inflação está de volta”, em tom alarmista?

Por óbvio, é um exagero. Eu acho o seguinte: inflação está mais alta do que a gente gostaria. O objetivo no Brasil é 4,5%, ela está rodando em torno de 6% e deve terminar o ano abaixo de 6%. Não é uma inflação para se bater palmas, mas não existe a menor possibilidade de se perder o controle sobre ela.

Essa inflação, também, é produto de um certo comportamento esquizofrênico do governo. O governo tem uma política social em que, por exemplo, ele aumenta o salário mínimo com uma fórmula extravagante – como no ano passado, 14%. Tem de haver uma relação entre produtividade e salário. A produtividade não subiu, então você tem tensões de custo produzidas por isso.

O governo faz distribuição de renda, o que é muito saudável do ponto de vista da sociedade, mas quem produz também reduz seu investimento. Ou seja, diminuiu-se a taxa de crescimento. Isso também exerce pressão inflacionária. Com a outra mão, o governo tenta controlar a inflação por meio de política monetária, e não ataca alguns problemas estruturais que existem, como o desequilíbrio fundamental no mercado de trabalho.

É preciso verificar o seguinte: não há a menor hipótese de se perder o controle dessa inflação. O governo continua com instrumentos que tem para controlá-la, acho que tem agido corretamente, não está se precipitando.

Existe, obviamente, um cabo de guerra entre o mercado financeiro e o governo.  Há quem diga que “para o governo readquirir credibilidade, é preciso aumentar a taxa de juros”. Que o mercado financeiro deseje isso é perfeitamente compreensível. Como ele tem um poder de transmissão dessas ideias muito grande, criam-se ansiedades como esta, de que estaríamos a ponto de perder o controle. Nada. A política fiscal brasileira é bastante virtuosa. Temos um déficit fiscal de 2,5% – um dos menores do mundo.

Além do pessoal do mercado financeiro, há o pessoal das próximas eleições, não?

Esse é um processo legítimo, e um processo legítimo é uma delícia. Se você olhar, o Fernando (Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República) diz que foi ele quem criou o Brasil. O Lula (Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República) diz que ele sim criou o Brasil. É natural. Só que antes do Fernando havia 450 anos, e antes do Lula havia 460.

A gente não pode levar a sério esse embate político, porque as pessoas que estão falando certas coisas sabem que essas coisas não são verdade. O mais surpreendente é eles acharem que os outros são tolos.

Em termos econômicos, o governo Lula foi uma continuidade do governo Fernando Henrique?

É preciso que se entenda o seguinte: o ponto de inflexão do Brasil foi a Constituição de 1988. O Brasil está se tornando um país constitucionalmente sólido, institucionalmente forte.  O Plano Real só foi possível por conta dos avanços constitucionais. Não há nada que surja do nada. O governo Itamar Franco aceitou a ideia de fazer o Plano Real, contribuiu, se esforçou, aumentou as reservas internacionais. O Fernando, quando ministro da Fazenda, reuniu um grupo de economistas muito competentes e fez um plano brilhante de estabilização, que pode ser olhado de dois lados – do controle da inflação e do estímulo ao crescimento. Do ponto de vista da inflação, é um dos planos mais brilhantes do mundo. Do ponto de vista do crescimento é diferente: ele nunca foi completado, na verdade. A Lei de Responsabilidade Fiscal é outro mérito do governo do Fernando, contra a qual o PT lutou, diga-se.

Quando o Lula entrou, no fundo, aperfeiçoou a política do Fernando Henrique, e mudou a direção. A preocupação do Lula com a construção de uma sociedade socialmente mais justa produziu esse resultado que estamos vendo.

Quando eclodiu a crise de 2008, o senhor elogiou muito o presidente Lula por ter incentivado o crédito e o consumo naquela hora. O senhor exerceu alguma influência sobre Lula naquele momento?

Imagine se alguém precisa soprar alguma coisa para o Lula! O Lula, na verdade, é uma inteligência absolutamente privilegiada. Ele é um diamante bruto – e eu acho ótimo que não tenha sido lapidado, caso contrário ele teria restrições que não tem.

A administração Lula foi de muito boa qualidade, ajudada pelo que já vinha sendo construído, ajudada pelo vento externo favorável. Também acho que a Dilma (Dilma Rousseff, presidente da República) vai se sair muito bem. Ela é uma tecnocrata que leu os mesmos livros que a gente, trabalhadora, e está enfrentando problemas que ninguém ousava enfrentar. Basta ver seu primeiro movimento, que foi a mudança na Caderneta de Poupança, depois o ataque aos juros, o ataque ao custo da energia elétrica, o ataque à questão dos portos. Ela está tentando aumentar a competitividade. Estamos num processo de mudança da estrutura econômica do país.

Mas o nível de investimento não sobe, o “espírito animal” do empresariado não desperta. Por quê?

Eu acho que agora o governo entendeu. Os últimos discursos da Dilma revelam uma mudança radical, demonstram o entendimento claro de que é preciso ampliar o investimento público, de que o governo pode definir o que deseja em matéria de infraestrutura. “Eu quero uma estrada que seja uma Autoban alemã, que dure 25 anos e que atenda ao aumento da demanda” – aí, que se faça um leilão de boa qualidade, em que o governo fixa o que deseja e o mercado fixa a taxa de retorno. Qual era o equívoco? Era que o governo queria fixar a qualidade da obra e a taxa de retorno. Esses pontos estão ligados por uma curva – se você fixa um ponto, a curva lhe dá o outro. Se você fixar os dois, só por divina coincidência eles estarão em cima da mesma curva.

Os investidores estrangeiros – não os da especulação, mas os da produção – estão abandonando o Brasil?

Que nada. Estão aí, entrando à vontade, cobrindo déficits em contas correntes gigantescas. O que aconteceu no exterior é uma coisa muito simples. O Brasil era o queridinho quando a Bolsa brasileira dava 25% por ano. Agora quem são os queridinhos? México, Peru, Colômbia, pois a Bolsa deles está dando 20% por ano, e a brasileira menos 4%.

Esse investimento na Bolsa, a não ser quando se trata de um lançamento de capital, é simplesmente transferência de ativos, não é investimento. O investimento físico, na verdade, está crescendo no Brasil. O que houve foi que o setor industrial murchou. No ano passado, a agricultura também não foi muito bem. A demanda por bens industriais cresceu, mas a oferta não cresceu, basicamente porque se retiraram do setor industrial as condições isonômicas – taxa de juros razoável, tributação razoável e uma taxa de câmbio competitiva.

O câmbio está num patamar correto?

É muito difícil dizer. Melhorou muito. A taxa de câmbio talvez seja o problema mais vexatório para o economista – ninguém sabe exatamente qual é a taxa de câmbio de equilíbrio. O que se sabe é que a melhor política industrial possível é a política horizontal, e essa é feita com uma taxa de câmbio relativamente desvalorizada e relativamente estável.

O Brasil deixou o câmbio se valorizar demais, o que prejudicou muito as exportações brasileiras. Veja o caso da Argentina, um fracasso total. Quer dizer, as exportações diminuíram no mundo inteiro, e o Brasil também sofreu, e isso tem efeito no nível de atividade.

Mas agora houve uma melhoria do setor exportador por causa de duas ações do governo: primeiro, a desoneração da folha de pagamento – quando você desonera a folha de pagamento você baixa o custo da mão de obra; e houve uma melhoria do dólar. Então, você tem um estímulo para retomar as exportações e para poder competir com as importações.

Eu acredito que vamos ter neste ano um crescimento entre 3% e 4%, e acho que já está rodando em 3%, 3,5%. E vamos ter uma inflação de 5,6%, 5,7%. Não temos nenhum problema maior com contas correntes, vamos continuar sendo financiados, temos reservas muito importantes.

O senhor é sempre mencionado como conselheiro informal da presidente Dilma, além de tê-lo sido do presidente Lula…

Você acredita na imprensa?

O ministro da Fazenda não lhe telefona de vez em quando?

De vez em quando, por acidente, você pode conversar com o ministro, mas não existe nada disso. Nem sei como nasceu isso.

Seus artigos, às vezes, parecem influenciar o governo.

Seria muita pretensão minha imaginar que meus artigos tenham esse efeito. Eu apoiei o Lula, apoio o governo da Dilma porque eu acho que estamos num processo de construção de uma sociedade mais justa. O objetivo não é só o crescimento, o objetivo é o crescimento com inclusão, o objetivo é o crescimento em que as oportunidades surjam para todos.

Não importa se você foi fabricado na suíte presidencial do Waldorf Astoria ou num sábado à noite, meio bêbado, em frente ao Museu do Ipiranga debaixo de um poste. Depois de fabricado, não importa sua cor, seu credo, você tem direitos. Esse conceito é que está imbuído tanto na postura do Lula quanto na postura da Dilma.

No tempo do “Milagre Econômico”, quando o senhor foi ministro da Fazenda, o PIB brasileiro cresceu muito, mas as desigualdades sociais se aprofundaram, ao contrário de hoje. Ou não?

Isso é uma tolice. Naquela época, se crescia 11% ao ano com inflação declinante. Imagine-se uma coluna daqueles que tiveram o benefício de ter curso superior. E outra coluna composta pelo que chamamos de exército de reserva, e que, à medida que há demanda, vai entrando na primeira coluna. Quando ocorre desenvolvimento, a demanda de pessoal qualificado cresce muito mais depressa, mas havia o exército de reserva desempregado. Nós criamos 15 milhões de empregos naquela época.

A distribuição de renda não mede bem-estar, a distribuição de renda mede a distância entre as pessoas. O bem-estar vem se você diminuir a distância entre as pessoas. Por que o bem-estar está aumentando agora? Por dois motivos. Primeiro, porque você tem uma preocupação enorme com os 10% mais pobres e está aumentando a oferta aos 10% mais ricos. Isso reduz a distância entre eles

O Brasil é um país construído por imigrantes. Hoje, nós deveríamos estar abrindo a imigração, deveríamos trazer pedreiros, engenheiros, químicos, físicos, matemáticos, médicos que estão desempregados na Europa para acomodar esse mercado de trabalho que está muito tenso, muito estreito.

A grande revolução brasileira foi a revolução das mulheres. Quando eu era ministro, na Idade Média (risos), cada mulher deixava seis filhos. Hoje, elas não deixam dois. Elas se educaram mais que os homens, elas aprenderam, cresceram. A moça que era empregada doméstica tornou-se manicure. A manicure foi para o call-center. A moça do call-center foi para uma loja de departamentos. A mulher brasileira usava sabão de coco, hoje usa Dove. Esse é um processo civilizatório que aconteceu e que não pode ser influenciado apenas com taxa de juros.

Essa fixação no aspecto monetário, na taxa de juros, por exemplo, não é mais da parte da imprensa?

É dos economistas. Na verdade, os economistas contribuíram fortemente para a crise de 2008. Eles vieram atrás dos fatos. O setor financeiro inventou fórmulas que supostamente reduziriam o risco. Isso, supostamente, permitiu uma alavancagem muito maior. Como eles conseguiram isso? Destruindo as condições de controle do sistema financeiro que haviam sido construídas nos anos 30, à época do Roosevelt (Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos). Inventaram a teoria de que os mercados eram perfeitos.

Com Milton Friedman, da Escola de Chicago, à frente, correto?

O Friedman era um pedaço disso, mas teve influência no mundo todo – na Tatcher (Margareth Tatcher, primeira-ministra britânica), por exemplo. Mas aquilo – a pregação do mercado infalível – veio para justificar a patifaria do incesto entre o sistema financeiro e o poder incumbente. Começou tudo lá com o Reagan (Ronald Regan, presidente dos Estados Unidos) e veio destruindo aqueles controles todos até chegar à crise de 2008. A crise de 2008 reproduz a crise de 1929. Não teve a mesma profundidade porque agiu-se diferente.

Se você ler o Relatório Pécora, sobre a crise de 1929, verá que o sistema financeiro de então cometeu os mesmos crimes e abusos de agora.

A crise de 2008 fez renascer o keynesianismo?

Keynes (John Maynard Keynes, economista britânico) nunca morreu. O problema é que uma parte dos economistas foi cooptada para dar suporte supostamente científico a uma patifaria produzida por um incesto entre o setor financeiro e o poder incumbente.

E o Brasil nessa história?

O Brasil é um país fantástico. O Brasil está num processo de revolução e as pessoas ainda não entenderam isso. O Brasil é o único país do mundo em que há 12 ou 15 índices de preço, publicados toda semana. É o único país do mundo em que o Banco Central publica previsões do sistema financeiro e as chancela com seu carimbo toda semana. Nós gostamos do samba – tanto é verdade que o sistema mais sofisticado utilizado pelo Banco Central se chama Samba (sigla para o termo inglês Stochastic Analytical Model with a Bayesian Approach), o que demonstra que o Banco Central é muito mais sutil do que parece (risos).

Já que o senhor mencionou o Banco Central, como vem sendo a performance da sua diretoria, particularmente do presidente Alexandre Tombini?

Eu acho o Tombini um sujeito extremamente competente. Ninguém manda no Tombini. Ele sabe que é autônomo – o Copom (Conselho de Política Monetária, órgão do Banco Central) sabe que pode decidir o que quiser, que pode subir os juros amanhã se for necessário. É ilusão imaginar que o Guido (Guido Mantega, ministro da Fazenda) e a presidente estão contra isso.

E o Banco Central hoje tem um departamento de economia que seguramente é melhor que qualquer departamento de economia das melhores faculdades, das melhores academias do Brasil.

O senhor ainda é muito cobrado ou atacado por ter participado do regime militar? Como o senhor lida com isso?

Os militares não se ligavam com a execução da política econômica. O governo se reunia toda manhã e discutia o que estava sendo feito, mas não havia interferência militar na política econômica.

Na sua longa jornada como professor, economista, ministro e político, como viu a atuação da OAB nos momentos históricos do Brasil?

A OAB tem uma importância muito grande no Brasil. Aliás, eu brincava com o Cabral (Bernardo Cabral, ex-presidente do Conselho Federal da OAB e ex-ministro da Justiça, governo Fernando Collor de Melo) que, quando verteram para o alemão a Constituição de 88, acharam que a OAB era o Supremo Tribunal Federal, de tantas vezes que ela está citada na Carta. Trata-se de uma instituição muito útil.

Quantos livros tem sua biblioteca?

290 mil.

O que o senhor lê atualmente?

Não leio mais nada.

Qual seu escritor brasileiro preferido?

Machado (Machado de Assis).

A distante solução para as cracolândias

Paulo Pinto / Fotos Públicas

Por Paulo Henrique Arantes

O crime organizado comanda o show no varejo das drogas e fez aumentar muito a oferta nos últimos anos, seja a cocaína, a maconha ou qualquer outra droga. Estão aí as eleições municipais, e prefeitos devem ter iniciativas nesse campo, buscar sintonia com os governos estaduais, os quais não devem recusar eventuais apoios do Governo Federal.

É claro que o próximo prefeito de São Paulo não vai resolver o problema das cracolândias, mas parece que Guilherme Boulos possui ideias a respeito mais civilizadas que as de seus concorrentes.

O sistema que abastece São Paulo de drogas é muito eficiente. Uma grama de cocaína nas quebradas da região central sai por 20 reais, pouco mais ou pouco menos que isso. A cocaína é “batizada”, me conta quem é do ramo, com muitas impurezas, o que significa que o usuário está cheirando menos cocaína, mas, em contrapartida, está também consumindo várias substâncias que afetam a saúde de forma negativa.

Nunca tivemos ações claras quanto ao tratamento do usuário de drogas. Quase nenhuma prevenção nas escolas.

Quanto à internação de usuários, o tema acende polêmicas. Importante lembrar que internação compulsória não é um ato médico – é o ato de um juiz. A família pode marcar audiência com o juiz, entrar com pedido de internação – é quando não consegue mais conviver com a pessoa drogada, a qual comete atos de violência, furta ou rouba para abastecer o vício. O juiz pode atender ao pedido de imediato ou designar um perito para ver aquela pessoa precisa mesmo de internação compulsória. De todo modo, o modelo tem contornos de crueldade.

Imagine, o leitor, a seguinte situação. O Estado realiza uma ação ampla e interna compulsoriamente 30 pessoas.  Há 2 mil pessoas na cracolândia central de São Paulo. Nada mudará.

Um especialista ouvido pela coluna mencionou estudos demonstrando que um usuário de crack gasta com a droga, em média, 150 reais por dia. Esse cidadão à margem da sociedade não trabalha. De onde vem esse dinheiro? De prostituição, roubo, furto – há verdadeiras feiras de produtos roubados nas cracolândias paulistanas. Projeta-se, portanto, que as cracolândias movimentem 9 milhões de reais por mês. Existe uma questão mercadológica envolvida.

É preciso combater o tráfico com inteligência, e não é o colunista quem sabe como fazê-lo. O colunista sabe, isto sim, que se a polícia prender 20 traficantes hoje, amanhã haverá mais 20 no mesmo lugar. É preciso desmontar a célula do crime organizado pontualmente instalada – isso nunca foi feito. A receita passa por desestruturar a organização criminosa especialmente no chamado quadrilátero do crack e oferecer saúde para quem precisa. Eficiência policial e política social são as exigências.

Dia Nacional do Cachorro Vira-Lata

Foto: Totós da Teté

Por Paulo Henrique Arantes

Celebra-se em 31 de julho o Dia Nacional do Cachorro Vira-Lata, o menos nobre dos pets, por não ter raça definida, e também o mais simpático. Nélson Rodrigues enxergou nos brasileiros, descrentes no potencial do futebol brasileiro na Copa do Mundo de 1958, um sentimento de inferioridade que batizou de “complexo de vira-lata”. Sem demérito dos quase sempre dóceis animais, a percepção rodrigueana foi perfeita. O Brasil ganhou aquele caneco.

Neste 31 de julho, renda-se homenagem a ala complexada da mídia brasileira, que insiste em manter o país na categoria de cão sem raça. São muitos os jornalistas que merecem condecoração no Dia Nacional do Cachorro Vira-Lata. Para eles, o Brasil deve manter-se subdesenvolvido, desde que carreie o Orçamento à alta finança.

O atavismo fomenta o preconceito, daí as tentativas de ridicularizar o presidente da República, político de origem popular, toda vez que ele se faz ouvir lá fora.  E Lula é de fato ouvido – mais que isso, é chamado a falar.

A imprensa complexada não admite, por exemplo, que ousemos sonhar com uma indústria tecnológica competitiva. Por que investir numa área em que somos incipientes, se podemos nos curvar diante das expertises americana e chinesa?

Lula recebeu das mãos de cientistas brasileiros o primeiro Plano Brasileiro de Inteligência Artificial na última terça-feira (30) – uma encomenda dele. E declarou: “Para termos autonomia e soberania, dependemos de domínio tecnológico. Não podemos permitir que ideias negacionistas, pautadas em desinformação e crenças pessoais perdurem”. A reação da mídia vira-lata foi dizer que é mais fácil comprar inteligência artificial dos Estados Unidos ou da China do que criar a nossa.

O custo do projeto brasileiro de inteligência artificial – 23 bilhões de reais a serem investidos até 2028 – é considerado alto pelos cães sem raça. Sem surpresa, pois tudo que se reverte em desenvolvimento lhes parece oneroso demais. Fossem recursos destinados ao pagamento de juros da dívida pública, lhes pareceriam pouco, muito pouco.

O chanceler alemão e Lula assinam protocolo de intenções em Berlin. O presidente da França é recebido por Lula no Palácio do Planalto. O presidente dos Estados Unidos telefona para Lula para tratar dos temas Venezuela, G20 e geração de empregos. O “ocidente democrático e desenvolvido” enaltecido pela mídia vira-lata brasileira sinaliza diariamente seu apreço pelos anseios de protagonismo internacional do Brasil, sem que o governo brasileiro abandone  sua aproximação com países asiáticos e africanos, a bem dos interesses nacionais.

Tudo isso atormenta os complexados. De todo modo, hoje é o dia deles. Parabéns aos cachorros vira-latas por este 31 de julho!

Kamala e a civilização contra o “big orange”

Foto: Pixabay.

Por Paulo Henrique Arantes

Todos os jornalistas do planeta tornaram-se, num passe de mágica, especialistas em Kamala Harris. Gente que nunca pisou nos Estados Unidos tece minuciosas elucubrações sobre seu potencial eleitoral com base nas supostas idiossincrasias do povo americano. Alguns a descrevem como a encarnação do sonho identitário de ver uma mulher negra na Presidência, o que seria o apogeu do progressismo; outros, como uma farsa imperialista que terminará por dizimar de uma vez por todas os palestinos.

Claro está que Kamala não é uma coisa nem outra. Sabe-se que ela ocupa a Vice-Presidência com discrição, o que a princípio é correto, e que seu passado de procuradora lhe dá um ótimo discurso no embate contra um criminoso contumaz.

Analistas mais realistas que o rei a apontam como anti-imigração, o que não é uma verdade absoluta. Só quem vive nos Estados Unidos sabe onde o calo americano aperta. Certamente, ela não é xenófoba como Donald Trump – e este é o ponto fulcral.

Na verdade, o que interessa à humanidade é que o “big orange” não volte à Casa Branca. A memória parece curta lá como cá. No poder, Trump foi protagonista de alguns dos maiores gestos na direção de uma inflexão anticivilizatória, fosse quando negava o aquecimento global, quando afrontava minorias, ofendia estrangeiros, erguia muros em fronteiras e prestava gentilezas tributárias a milionários.

Diante de um Trump, Kamala Harris adquire enorme dimensão democrática. Dela não se esperam mentiras escabrosas forjadas contra adversários políticos, tampouco estímulos golpistas como aqueles que culminaram na invasão do Capitólio. Isso já seria suficiente para torcermos por ela.

De outra parte, salvo a manutenção de apoios internacionais de motivação imperialista, o governo Biden, do qual ela faz parte, tem feitos positivos a mostrar. Tratou a economia como instrumento promotor de justiça social. O neoliberalismo foi quase enterrado nos Estados Unidos nos últimos quatro anos, como escreveu o insuspeito Paul Krugman: “Se incluirmos os ganhos salariais devidos à crescente parcela de americanos empregados e ao maior número de horas trabalhadas, o boom de Biden foi, inequivocamente, bom para a renda dos trabalhadores. (…) Os maiores ganhos foram para os trabalhadores mais mal pagos. Assim, o boom de Biden não apenas aumentou a renda geral; reduziu a desigualdade”.

Querem fazer a mídia independente comprar a versão bolsonarista dos fatos

Por Paulo Henrique Arantes

É terrível a incompreensão, real ou dissimulada, da mídia corporativa sobre o “quem é quem” no cenário político. Após o atentado contra Donald Trump, analistas iniciaram uma verdadeira força-tarefa para cobrar da imprensa independente uma indignação perante o que julgam um ataque à democracia, a aparente tentativa de assassinato mal sucedida do candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos.

Tentam ridicularizar conjecturas sobre a autenticidade do atentado, do mesmo modo que fazem com a “facada” em Jair Bolsonaro. É claro que atentar contra a vida de um candidato a presidente é também um ataque aos princípios das democracias, mas os dois personagens em tela carregam um passivo de armações, sem limites, que autorizam e até recomendam dúvidas.

Comprar pelo valor de face qualquer acontecimento que traga dividendos políticos a pessoas como Trump e Bolsonaro é assinar atestado de ingenuidade. É desconhecer a ousadia inescrupulosa de ambos, que fomentam ao longo das respectivas vidas públicas qualquer tipo de ato destrutivo da democracia, desde descreditar processos eleitorais até estimular – ou mesmo conceber – a destruição à força de instituições da República.

Trump é um jogador que não mede as consequências de suas apostas, é assim também como empresário. Bolsonaro notabilizou-se como um militar refratário à hierarquia e insubmisso, no mau sentido, que planejava explodir quartéis. Dois moleques que encontraram abrigo na extrema-direita política.

A mídia intitulada “profissional” – jornalões e emissoras de TV – acha que o jornalismo progressista utiliza dois pesos e duas medidas, condenando a priori os ataques da direita à democracia e fazendo vista grossa aos da esquerda.  O erro grosseiro – ou seria má fé? – é considerar os supostos atentados a Bolsonaro e Trump como obras consumadas da esquerda. Não há nada que indique tal relação. No Brasil, a última vez que a esquerda cometeu um ato violento foi durante a luta armada contra o regime militar, em reação ao terror de Estado.

E a direita brasileira? Só nos anos Bolsonaro, deixando de lado alguns arroubos rodoviários, sua ala miliciana matou Marielle Franco, enquanto a ala golpista depredou o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal, para ficarmos em dois exemplos.

A colunista da Folha de S. Paulo Mariliz Pereira Jorge, sem nominar a vídeo-reportagem seminal de Joaquim de Carvalho “Uma fakeada no coração do Brasil”, mesmo porque não a deve ter assistido, publicou um primor de hipocrisia e desfaçatez nesta semana, que ilustra a postura pusilânime da imprensa corporativa. Eis um trecho: “Numa reunião, um colega mencionou um documentário que provava a ‘conspiração’ do que chamam de ‘fakeada’ (fake+facada). Expliquei por que seria impossível envolver hospitais, médicos renomados, policiais e mais uma centena de pessoas, os detalhes da investigação da Polícia Federal, olhei em volta e percebi que, pelas expressões, a louca era eu”.

Quem acredita cegamente em versões bolsonaristas dos fatos merece ser chamado de louco? Ou de quê?

A vaidade de Joe Biden

Fotos Públicas (Adam Shultz/Casa Branca)

Por Paulo Henrique Arantes

Só não fica velho quem morre cedo, e os defeitos cognitivos acometem a maioria dos idosos. Sim, há nonagenários de impressionante vigor intelectual, mas são exceções diante da crueldade do tempo. Entre os octogenários cada vez mais vê-se o brilho edulcorado pela experiência, como provam quatro dos maiores artistas brasileiros: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Paulinho da Viola, ainda hoje ativos e geniais

Política também é arte, desde que praticada como tal. Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, infelizmente, não integra a lista das personalidades cuja idade não atrapalha o exercício da arte da política. O tempo corroeu sua desenvoltura verbal. Teria lhe corroído a capacidade de raciocínio, obrigatória para quem toma decisões que afetam o mundo inteiro? Não vale a pena arriscar.

A vaidade dos políticos, especialmente aqueles que alcançam o cume do poder, é bem conhecida. Julgam-se pessoas ungidas, cultivam a imagem a qualquer preço, não largam o osso. Biden cumpriu de modo honroso seu mandato presidencial. Deveria, a bem do seu país – e do mundo -, passar o bastão. Só a vaidade justifica sua insistência numa candidatura que elegerá Donald Trump. É pena, mas a vaidade não porta o condão eliminador da senilidade.

Há quem veja etarismo nas críticas à teimosia do presidente americano. Não se trata disso. Etarismo é um tipo de preconceito, o qual fecha as portas a pessoas idosas independentemente de suas capacidades físicas e mentais.  Apontar, diante das evidências, a incapacidade de uma pessoa governar um país é zelar por esse país, ainda mais quando do outro lado um mentiroso insano, ensandecido, arma o bote.

Vaidade é coisa séria, que não poupa os senis.  

Por extremo respeito, analistas americanos alinhados ao Partido Democrata pedem a Biden que abdique da candidatura sem lhe cobrar pela absurda vaidade, palavra que nem sequer é usada em seus artigos. Este é Paulo Krugman: “Dada a situação em que nos encontramos, devo, com muita relutância, me juntar ao coro que pede que Biden se afaste voluntariamente, com ênfase no aspecto ‘voluntário’. Talvez alguns leais a Biden considerem isso uma traição, dado o quanto apoiei suas políticas, mas temo que precisemos reconhecer a realidade”.

Aqui vai um trecho de Thomas Friedman: “Se há um momento em que o mundo precisa de uma América em sua melhor forma, liderada por seus melhores, esse momento é agora – pois grandes perigos e oportunidades estão sobre nós. Um Joe Biden mais jovem poderia ter sido esse líder, mas o tempo finalmente o alcançou. E isso ficou dolorosa e inevitavelmente óbvio na quinta-feira (dia do trágico debate com Trump)”.

Os dois colunistas do New York Times, craques inquestionáveis e de notável influência, são educados e elegantes. Mas Joe Biden é um homem público, como tal deve ser cobrado. O futuro da humanidade pode ser vítima da sua vaidade.

A arte de Zé Celso não cabe no mundo de Rubinho Nunes     

Por Paulo Henrique Arantes

O vereador Rubinho Nunes (União Brasil), o mesmo que dedica boa parte de seu mandato a perseguir o Padre Júlio Lancellotti, não quer que o Parque do Bixiga chame-se Parque do Rio Bixiga “José Celso Martinez Corrêa”. Luta na Câmara Municipal para que o espaço ora delimitado pelo legislativo municipal denomine-se Parque Abravanel, em homenagem a Sílvio Santos, bilionário comunicador cuja sovinice atravancou o sonho urbano-cultural do dramaturgo morto há um ano.

      Zé Celso e Sílvio Santos travaram uma longa briga judicial de motivação imobiliária. De um lado, a força a arte e da cultura; de outro, o poder econômico. Rubinho Nunes emerge para tumultuar o ambiente que parecia resolvido, com os argumentos reacionários de sempre.

      O revolucionário dramaturgo sabia em que terreno pisava. Conhecia o direito, pois formado pela Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, ali perto do mesmo Bixiga em que se instala o Teatro Oficina e se instalará o parque.

     De certo modo, indignado pelas injustiças do mundo, Zé Celso sempre abordou questões de direito em sua obra, ainda que subliminarmente. O direito está na arte, e não há por que imaginar que a arte não esteja no direito. Não se trata de mera inspiração temática, como quando o cinema exibe histórias de cunho judicial – há fartura desse tipo de filme, alguns excelentes, outros ruins. Trata-se de interseções práticas: a oratória inflamada do advogado no Tribunal do Júri estaria muito distante de um monólogo teatral?

      Seriam as faculdades de direito, além de formadoras de juristas, celeiros de atores e dramaturgos? No caso das Arcadas, pode se dizer que sim sem medo de errar.

      A dramaturgia escandalosamente simbólica de Zé Celso, fruto de seu inconformismo com qualquer regra imposta, pode ter brotado de seus aprendizados sobre liberdade e justiça nos bancos acadêmicos. “Acho que o teatro tem um sentido de justiça e eu advogo muito por isso. Nos últimos 50 anos, fui um excelente advogado”, declarou.

      O encenador de “Roda Viva”, “O Rei da Vela” e “Bacantes”, um “tropicalista” do teatro, preso e torturado na ditadura, odiado por puritanos da vida e da arte, estudou direito ao lado de Dalmo Dallari, Fábio Konder Comparato e Márcio Thomaz Bastos. Foi aluno de Goffredo da Silva Telles, Esther de Figueiredo Ferraz e Cesarino Junior.

      Das Arcadas não saltou para a dramaturgia apenas Zé Celso. Lá se formaram o também diretor e ator Renato Borghi, co-fundador do Oficina, os geniais atores Paulo Autran e Juca de Oliveira e o consagrado diretor, ator e professor de artes dramáticas Emílio Fontana. Os atores Marcos Caruso e Caio Blat, hoje presenças frequentes em novelas de televisão, também estudaram no Largo de São Francisco – Blat não chegou a se formar, mas Caruso bacharelou-se em 1976.  

      A seu modo polemista, figura endeusada por muitos e detestada por tantos outros, Zé Celso parecia ter a consciência de que lugares e tempos possuem o condão de modificar verdades não apenas sociológicas, mas jurídicas. Se o direito constitui um poderoso instrumento de resistência contra violações dos direitos humanos e da democracia, a arte também pode ser assim entendida.

       Batizar o Parque do Bixiga com o nome de Zé Celso Martinez Corrêa será homenagear a arte e o direito. Chamá-lo de “Abravanel” será uma dupla afronta.

      Raphael Carneiro Arnaud Neto, mestre em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, presidente da Comissão de Direito, Arte e Cultura da OAB da Paraíba, escreveu junto com Marianna Chaves num site de artigos jurídicos um texto inspirado sobre direito e arte, do qual se extrai o seguinte trecho:

      O recurso à arte pode oxigenar, descontruir e remodelar o pensamento rígido e inflexível que muitas vezes habita a mente do jurista, ainda pautado – não raras vezes – em uma lógica meramente positivista e exegética. A arte nos possibilita uma nova maneira de pensar, onde direito e criatividade não são excludentes. Seja como se dê esse encontro, uma coisa se pode ter como certa: a arte possui um papel fulcral na construção de uma formação criteriosa e humanística de advogados e juristas em geral. A arte pode contribuir para a instauração de uma nova cultura jurídica, pautada pelo pluralismo e pelo pensamento critico do direito.

      Desnecessário imaginar o que Rubinho Nunes pensa de considerações como essa. O que ele pensa da obra de Zé Celso Martines Corrêa, sabemos. De todo modo, homenagear a arte e o direito jamais passaria por sua cabeça, que prefere a adulação a comunicadores cuja presença na TV costuma primar pelo preconceito e a misoginia.