Um jornalista vira-lata

Por Paulo Henrique Arantes

O colunista do Estadão Andrés Oppenheimer porta um currículo glamoroso. Eis o que consta de sua apresentação no jornalão: “Foi considerado pela revista Foreign Policy ‘um dos 50 intelectuais latino-americanos mais influentes’ do mundo. É colunista do The Miami Herald, apresentador do programa ‘Oppenheimer Apresenta’ na CNN em Espanhol, e autor de oito best-sellers. Sua coluna ‘Informe Oppenheimer’ é publicada regularmente em mais de 50 jornais”.

A despeito de toda a pompa curricular, Oppenheimer é inacreditavelmente ruim. Trata-se de um mero repetidor das máximas liberais.  Em seu artigo do último domingo (29), simplesmente chamou os discursos na ONU de Lula e Gustavo Petro, presidente colombiano, de “patéticos”.

Em síntese, Oppenheimer estaria feliz se os dois presidentes voltassem suas armas retóricas contra Venezuela e Cuba. O laureado jornalista-escritor também não gostou de os mandatários terem condenado os ataques genocidas de Israel a Gaza e ao Líbano.  Também se incomodou pelo fato de Lula e Petro mostrarem-se, no seu raso entender, mais pró-Rússia do que pró-Ucrânia.

Para Oppenheimer, Lula e Petro são “ridículos”, pois não enxergariam a própria pequenez, tentando exercer influência global, metendo-se a costurar planos de paz infrutíferos. Tal impressão posiciona o edulcorado colunista como porta-estandarte do vira-latismo latino-americano.

Andrés Oppenheimer vestiria bem um sapatênis. Não surpreenderá ser vier a participar da domingueira de Luciano Huck.

Oppenheimer é a perfeita personificação do latino-americano que gostaria de ser norte-americano. Não se orgulha da sua condição de argentino e deve sofrer com a de cucaracha. É simpático a Javier Milei, embora vista a canhestra fantasia de “isentão”.

O atavismo fomenta o preconceito, daí as tentativas de ridicularizar Lula e Petro. A imprensa complexada, da qual Oppenheimer é expoente, não admite que o Sul tenha voz, a não ser para dizer amém.

Lula e Petro foram ovacionados na ONU – e isso é relevante. Antes, o chanceler alemão e Lula assinaram protocolo de intenções em Berlin. O presidente da França foi recebido por Lula no Palácio do Planalto. O presidente dos Estados Unidos telefonou para Lula para tratar dos temas Venezuela, G20 e geração de empregos. O “ocidente democrático e desenvolvido” enaltecido pela mídia vira-lata brasileira sinaliza diariamente seu apreço pelos anseios de protagonismo internacional da América Latina, Brasil à testa.

Para Andrés Oppenheimer, somos patéticos.

Como pensam os economistas que defendem a Taxa Neutra de Desemprego

Por Paulo Henrique Arantes

O leitor e a leitora certamente ficaram felizes ao saber que o desemprego no Brasil caiu para 6,6% no trimestre de junho a agosto de 2024, segundo a Pnad Contínua divulgada na sexta-feira 27. Afinal, quem não comemoraria o fato de obtermos o menor nível de desemprego desde 2012?

Resposta: economistas neoliberais.

Esse grupo – cada vez menor, mas ainda bastante influente – acredita numa tal Taxa Neutra de Desemprego (TND), abaixo da qual criar-se-ia um ambiente inflacionário insustentável. Claro, para o grupelho não importa se emprego significa sobrevivência para muita gente.

A lógica dessa gente é que emprego gera consumo e pressiona a inflação, pouco ou nada importando se famílias, por exemplo, passam a se alimentar melhor. A observância da TND, a impedir de alguma forma a queda do desemprego a partir de certo nível, manteria a inflação controlada.

Sim, é cruel.

Há algum tempo, os “desempreguistas” calcularam a TND brasileira em torno de 9%, portanto os 6,6% atuais seriam inflacionários. Isso significa, para os neoliberais, que a empregabilidade de hoje deve ser combatida.

Esses economistas desumanos dizem que Taxa Neutra de Desemprego é determinada pela institucionalidade. Explica-se: se considerarmos um país europeu típico e compará-lo com os Estados Unidos, o país tipicamente europeu tem uma TND de 9% e os Estados Unidos, de 4%. Por quê? Porque nos Estados Unidos as instituições e o mercado de trabalho são mais, digamos, flexíveis.

Esse lero-lero vai desaguar na defesa de coisas como reforma trabalhista e maldades decorrentes, como a precarização do trabalho.

O risco de Guerra Mundial é Trump, não Kamala

Win McNamee/Getty Images

Por Paulo Henrique Arantes

A exemplo dos extremistas de direita do Brasil, os americanos superam-se na disseminação do medo. Assim escreveu numa rede social Donald Trump, nesta segunda-feira (23): “O mundo está agora em um lugar muito perigoso. Kamala [Harris] não consegue responder nem às perguntas mais simples. É loucura! Se ela não pode fazer isso, como poderá nos representar para impedir a Terceira Guerra Mundial? A resposta é simples: ela não pode!”

A candidata democrata está longe de constituir uma garantia de paz global, mas o republicano é uma ameaça concreta de ruptura dos princípios de boa convivência entre países. O belicismo compõe sua natureza, o personalismo irresponsável marca-o de modo indelével. Além disso, uma pessoa abertamente vaidosa e sem caráter é capaz de tudo para se manter no poder, a exemplo do que faz Benjamin Netanyahu na Palestina e, agora, no Líbano.

Já citamos aqui, e vale reprisar, o livro “Não basta dizer não”, de 2017, da consagrada jornalista Naomi Klein. A obra desnuda Trump.

Presidente dos Estados Unidos, o laranjão nomeou Patrick Shanahan vice-secretário de Defesa. Shanahan, um alto executivo da Boeing, escreveu Klein, “foi responsável pela venda de equipamentos caros para o Exército americano, incluindo helicópteros Apache e Chinook. Ele também supervisionou o programa de defesa antimísseis balísticos da Boeing – uma parte da operação que lucraria enormemente com o aumento das tensões internacionais.

Klein explicou que oficiais de alta patente reformados costumam assinar contratos com empresas de armamento ou mesmo assumir cargos executivos nessas companhias. A diferença do governo Trump foi “o número de generais com laços lucrativos com prestadores de serviços militares nomeados para cargos em seu gabinete com poder de alocar fundos, incluindo aqueles oriundos de seu plano de aumentar gastos com os militares, com o Pentágono e com o Departamento de Segurança Nacional em mais de 80 bilhões de dólares em apenas um ano”.

Retomamos o alerta que já fizemos neste espaço. Trump presidente teve Rex Tillerson como secretário de Estado, cujas relações umbilicais com a gigante do petróleo Exxon Mobil eram conhecidas. Todo mundo sabe o que acontece com o preço do petróleo quando há guerras envolvendo países produtores. Mais de Naomi Klein: “Há outra razão pela qual o governo pode se apressar em explorar uma crise de segurança a fim de começar uma nova guerra ou acirrar um conflito já existente: não há maneira mais rápida ou mais eficaz de aumentar o preço do petróleo, especialmente se a violência interferir nos suprimentos que vão para o mercado mundial”.

O planeta correrá sérios riscos, agravando-se os que já corre, se Donald Trump voltar à Casa Branca.

Mídia confunde imparcialidade com incensar bandido

RS / Fotos Públicas

Por Paulo Henrique Arantes

Cabe ao jornalista vasculhar o poder, identificar equívocos e irregularidades, questionar os envolvidos e levar a verdade a leitores, ouvintes e telespectadores.  Tomar partido em contendas políticas? Sim, quando um dos lados revela-se claramente antidemocrático, armamentista, misógino,  negacionista, mentiroso. Ficar em cima do muro em situações assim não é ser imparcial, é pactuar com a Idade Média, é deixar de lado o compromisso com a verdade.

Medieval – e absurdamente incompetente – foi o Governo Bolsonaro. Um ser humano medievo, ignorante e preconceituoso, adepto de argumentos primitivos, íntimo de milicianos habitou o Alvorada e assombrou o Planalto de 2019 a 2022. Jair Bolsonaro, hoje, não está muito longe da cadeia, mas ainda exerce certa influência política. Há de ser combatido pelo jornalismo responsável, por todo o mal que causou à sociedade brasileira, sendo seu comportamento na pandemia o exemplo maior.

O Governo Lula deve ser fiscalizado, cobrado e denunciado em eventuais más práticas. Este jornalista, por exemplo, não aplaude certas genuflexões feitas ao “mercado” nem a tolerância com o ministro das Comunicações, Juscelino Filho. Não concorda com a exploração de petróleo na Margem Equatorial e entende que a defesa do meio ambiente deveria ser mais contundente, menos retórica. Também gostaria de ver mais mulheres na composição dos tribunais superiores. Ainda espera uma iniciativa emblemática na área da cultura.

São claras, contudo, as razões para que o tratamento conferido ao Governo Lula seja de respeito, que nada tem a ver com condescendência. O primeiro motivo é que não se perde mais tempo discutindo a eficácia de vacinas, os “maconheiros” das universidades, a cor da roupa de meninos e meninas. Não se perseguem cientistas ou artistas, nem se povoa a administração pública de militares que só sabem – quando sabem – administrar tropas. Não se sequestra a religião para utilização política.

No atual governo, o debate dá-se em torno das nossas idiossincrasias sociais e econômicas reais. A economia começa a girar em prol do cidadão comum, como mostram PIB, inflação e emprego, e a despeito das mencionadas gentilezas ao “mercado”. Nos campos educacional, habitacional e da saúde, é notório o esforço para reverter o atraso imposto pelo governo anterior. Aos olhos internacionais, o Brasil voltou ao Século XXI, tornou a participar dos debates globais importantes – quando fala ao mundo, Lula é ouvido; quando não fala, é chamado a falar.

Os êxitos do Governo Lula significam o desespero da mídia neoliberal, bolsonarista se necessário aos seus interesses. Essa imprensa justifica espaços dados a fascistoides  e imbecis com a palavrinha “pluralismo”. O pluralismo necessário, saudável, é o que concede voz a representantes dos diferentes matizes do espectro democrático, não o que direciona holofotes a quem pouco se lixa para a democracia, quando não a bandidos.

Pablos Marçais agradecem.

Michel Temer, sempre modelo da elite



Alan Santos / PR (Fotos Públicas)

Por Paulo Henrique Arantes

Sazonalmente, algum jornalão obriga-nos a revisitar Michel Temer, sósia de Chistopher Lee que aterroriza tanto quanto o Conde Drácula interpretado pelo ator. Agora é O Globo, que atribui a queda fenomenal do desemprego no Governo Lula, de 12% para 6,8%, à reforma trabalhista feita pelo vampirão. Cai bem como piada.

Michel “Drácula” Temer é o modelo ideal de político para a elite brasileira, pois serve a ela sem perder a pose nem abdicar das mesóclises, cobrindo-se de um verniz jurídico que impressiona os incautos.   Na verdade, seu forte são os conchavos. Ele articulou a derrubada da presidenta da República e surrupiou-lhe o cargo. Na Presidência, foi instrumento perfeito do Brasil reacionário.

Michel patrocinou uma reforma trabalhista que quase destroçou a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), levando a cabo uma “modernização” das relações de trabalho que respondeu por uma legião de trabalhadores informais, precarizados, sem direito a nada.

Os males que Michel “Drácula” Temer causou ao país ainda persistem. Abraçado a Henrique Meirelles, suas iniciativas no Planalto foram cirúrgicas contra as classes mais vulneráveis – o teratológico teto de gastos é o melhor exemplo disso, algo inédito mesmo nas piores praças neoliberais do mundo.

A reforma da Previdência que Jair Bolsonaro impingiu ao país, com ajuda do Congresso mais vil da História da República, foi concebida pelo governo de “Drácula”, só não tendo emplacado naquele mandato porque o vampirão perdeu qualquer condição de negociar com os parlamentares, denunciado que fora por corrupção após o vazamento de uma conversa pouco republicana com Joesley “Friboi” Batista.

Michel “Drácula” Temer encarna a elite do atraso, como bem definida pelo sociólogo Jessé Souza. Uma elite piegas, usuária de uma falsa oratória conciliadora, um discurso centrista hipócrita que mal disfarça a volúpia por privilégios, com um pé na academia e outro em regabofes com doleiros e congêneres.

Maquiavélicos do bem e do mal

Por Paulo Henrique Arantes

Há coisa de cinco séculos, o genial Nicolau Maquiavel escreveu: “As injúrias devem ser feitas todas de uma só vez, a fim de que, menos saboreadas, ofendam menos; e os benefícios devem ser feitos pouco a pouco, a fim de que sejam melhor saboreados”. Nos anos 1980, Tancredo Neves trouxe o filósofo florentino para o processo de redemocratização do Brasil: “Notícia ruim a gente dá de supetão; notícia boa a gente dá aos poucos”.

A malícia mineira é puro maquiavelismo, outro nome para ardil, que pode servir tanto ao bem quanto ao mal. Sim, às vezes os fins justificam os meios. Nada a ver com Romeu Zema, é claro, verdadeira draga neoliberal e despossuído daquela formidável mineirice.

Note-se que as notícias positivas neste governo de Luiz Inácio Lula da Silva parecem vir maquiavelicamente a conta-gotas, sempre precedidas de muito suor.  Assim ocorreu com a aprovação do arcabouço fiscal, depois com a reforma tributária, posteriormente com a alta do nível de emprego, em seguida com o aumento do PIB. São avanços sólidos, conquistas decorrentes de princípios socioeconômicos e trabalho. Consolidam-se aos poucos e não se desmancham no ar.

A imprensa neoliberal, que respondeu pela ascensão de Jair Bolsonaro, também pratica seu maquiavelismo; este, um maquiavelismo deletério, pois contrário os interesses da imensa maioria dos cidadãos brasileiros. O povo encontra-se muito, muito distante da Faria Lima, no entanto é bombardeado diariamente com análises econômicas provenientes do mercado de capitais. E só de lá.

Bater na mesma tecla diariamente, até que uma conjectura vire verdade – essa é a estratégia, por exemplo, dos jornalões, um dos quais não consegue mais escamotear seu bolsonarismo. Foi assim durante anos com a “corrupção petista”, tornada muito mais vistosa do que outras corrupções bem piores.

A onda que agora se eleva é para responsabilizar o governo Lula pelas queimadas que se alastram pelo território brasileiro. Há uma tragédia em curso, provavelmente de origem criminosa e potencializada pela seca. A contenção de uma intempérie dessa dimensão não se dá do dia para a noite. O governo mobiliza-se para conter o fogo, como mobilizou-se em socorro às vitimas das chuvas no Rio Grande do Sul, mas, reconheça-se, trata-se de uma missão sobre-humana, incontornável mesmo com brigadistas treinados para tal e uso de aviões para despejo de água nos focos de incêndio.

No médio prazo, como disse a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o risco de queimadas com as de agora será minimizado pelo fortalecimento da fiscalização e o incentivo a práticas alternativas de manejo de terras, como o uso de métodos mecânicos e biológicos para limpeza de terrenos.

Ter Marina Silva no Meio Ambiente já seria suficiente para o governo atual diferenciar-se completamente do anterior, quando a pasta era chefiada por um sujeito acusado de exportação ilegal de madeira. Porém, maquiavelicamente, os jornalões simplesmente comparam os índices de desmatamento pelo fogo entre os governos, e enxergam equivalência. Não verificam o inusitado, não apontam a vontade política, não valorizam a intenção, nem a disposição.

O futuro depende de leis fortes contra o poder das big techs

Por Paulo Henrique Arantes

O escândalo envolvendo a Cambridge Analytica, o Facebook e a eleição de Donald Trump, em 2016, era na verdade um grão de areia no universo de possibilidades e potencialidades hoje detidas pelas big techs. Microsoft, Meta, Google, Apple e Amazon têm poder demais? Vivemos subordinados aos algoritmos? Parece que sim. O tema exige discussões aprofundadas, pois o futuro se atrela a ele. Conclusões sumárias não são bem-vindas, mesmo porque inúteis.

O caso Cambridge exerceu função pedagógica e jogou luz sobre cenários vindouros. Em 2017, com Trump eleito, não se tinha nem sequer uma visão de curto prazo a respeito. As legislações não detêm, sozinhas, o condão de ordenamento do futuro.

O que sabemos, por ora, é que as tecnologias desenvolvidas pelas big techs farão parte do mundo por muito tempo, o que significa que as gigantes do Vale do Silício americano – várias com sede administrativa na Irlanda do Norte – não merecem tanto poder. Recordemos: há 100 anos, as big oil, gigantes do setor petrolífero, ditavam o ritmo socioeconômico global e sua influência levou à criação de leis antitruste, mas ainda hoje a posse do petróleo gera conflitos entre nações e a oscilação do preço do barril descontrola economias mundo afora.  

Cada vez que grandes corporações tomam conta de um segmento de mercado – monopólio é a palavra -, abre-se uma grande discussão sobre o futuro da vida na Terra diante de tanto poder concentrado. Quando esse monopólio envolve um campo novo do conhecimento que evolui exponencialmente a cada dia, o debate adquire contornos ainda mais graves. Quem pensa no futuro com honestidade intelectual sabe que não há inocentes no império dos algoritmos. É por isso que normas claras, precisas e saudáveis precisam ser criadas, disseminadas e cumpridas.

Em outubro de 2021, o Facebook, sem dúvida com esqueletos no armário, percorria sua Via Crucis. Uma reportagem do Wall Street Journal demonstrava que personalidades com milhões de seguidores, como Donald Trump e Neymar, dispunham da regalia de burlar certas normas da rede social sem serem incomodadas. Exatamente o que não pode ser franqueado a Elon Musk, dono X, hoje.

Musk que se defenda judicialmente de suas más condutas, e que sejam tomadas providências contra suas ingerências políticas contra democracias, como a brasileira.

Fato é que condutas a priori condenáveis serão a regra enquanto o setor como um todo não for objeto de discussão aprofundada, da qual devem participar profissionais de comunicação, de tecnologia, governantes, economistas e juristas em âmbito global. As big techs e as redes sociais exigem um amplo debate, pois o futuro depende do seu papel no mundo e da sua capacidade de determinar comportamentos.

 O conveniente bico policial

Por Paulo Henrique Arantes

A pesquisa “Vitimização e Percepção sobre Violência e Segurança Pública”, obra do sempre importante Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgada em 3 de setembro, traz alguns aspectos que mereceriam pautas especiais da imprensa. Os colegas jornalistas não deram muita bola para o que a sondagem constatou sobre o famigerado bico policial, atividade justificada pela necessidade de aumento da renda desse profissional, porém ilegal.

   A questão foi analisada com propriedade pelo professor da Universidade Estadual de Londrina Cléber Lopes, coordenador do Legs (Laboratório de Estudos sobre Governança da Segurança), na newsletter Fonte Segura, distribuída pelo FBSP.  

   A participação de agentes públicos é proibida tanto na prestação direta de serviços de proteção quanto na gestão de empresas privadas de segurança. A pesquisa apurou que há cerca de 30 milhões de brasileiros – 18% dos entrevistados – com mais de 16 anos residindo em bairros onde policiais realizam serviço de segurança de modo privado. Trata-se de um trabalho velado, por fora da lei.

   Assim escreveu o professor: “Os policiais são um ativo valorizado por muitos no mercado de proteção. Podem ser empregados informalmente para prestar serviços de segurança em seu horário de folga sem grandes riscos trabalhistas, afinal, a ilegalidade do bico inibe a busca por direitos trabalhistas. Além disso, os policiais podem oferecer recursos que não estão disponíveis às suas contrapartes privadas (os vigilantes) da mesma forma: o porte de arma (mesmo fora de serviço), o treinamento investido neles, o contato privilegiado com outros policiais e o poder legal para impor a lei. Em conjunto, esses recursos também contribuem para dotar os policiais de poder simbólico, ou seja, a capacidade de serem vistos como portadores de soluções ‘mágicas’ para problemas de segurança”.

   Os policiais que fazem bico como segurança particular portam uma autorização tácita das instituições públicas a que pertencem – mais fácil fazer vista grossa à ilegalidade do que aumentar o salário do policial.

   Cléber Lopes afirma que o bico policial compromete a qualidade da segurança pública. Cria conflitos de interesse, aumenta o estresse e o risco de vitimização do profissional: “No bico, os policias costumam trabalhar sem a retaguarda de outros policiais, sem uniforme e equipamento de proteção adequado, tornando-se assim mais vulneráveis a confrontos letais com criminosos. Esse é um dos motivos pelos quais os policiais brasileiros são mais vítimas de violência letal intencional fora de serviço do que no serviço”.

   Em 2023, 60% dos policiais civis e 57% dos policiais militares assassinados o foram em horário de folga, segundo o Anuário de Segurança Pública 2024.

   Como esclareceu o professor, a atuação de policiais na segurança privada, pela característica do sua função pública, viola os preceitos que deveriam nortear o trabalho particular de segurança – este, uma atividade essencialmente preventiva, sem poder coercitivo para imposição da lei. Um segurança privado não busca prender criminosos em nome da lei, mas gerencia riscos. “Ocorre que a penetração de policiais no universo da segurança privada pode fazer com que esse estilo de policiamento característico da segurança privada ceda espaço a um policiamento mais repressivo”, observa Lopes.

   O tema abriga um nó de desatamento complicado. Parte da sociedade – a mais endinheirada – quer segurança privada e paga por ela; essa atividade supre parte da dificuldade financeira do policial, que ganha mal; a manutenção dessa situação é conveniente para as autoridades públicas de segurança.

Não ria antes de sábado

André Ribeiro / Futura Press

Por Paulo Henrique Arantes

Como se sabe, haverá uma manifestação da direita na Avenida Paulista no dia 7 de setembro. Mais uma. Bolsonaristas, marçalistas, malafaistas, olavistas e assemelhados pregarão, subliminarmente ou não, contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que apreciará um pacote de inquéritos que os atemoriza. O palanque reunirá as natas do reacionarismo, do golpismo e do negacionismo brasileiros.

No asfalto, manifestantes amarelados louvarão figuras abjetas como Elon Musk, defenderão “liberdade de expressão” sem nem sequer saberem o que isso significa, denunciarão bobagens como “ditadura do Judiciário”. Não será surpresa se virmos cartazes como os dizeres “quero meu X de volta”.

Alguns exaltarão Donald Trump, o agente laranja pluricondenado. Muitos enaltecerão Benjamin Natanyahu, genocida, criminoso de guerra.  Uns tantos atacarão Janja por ser mulher não omissa, tampouco submissa.  Claro, Lula será reiteradamente enxovalhado.  Muitos pedirão a soltura daqueles que tentaram um golpe de Estado.

Sobrará também para o ministro do STF Flávio Dino, por ser gordo e “comunista”.

Essa gente toda que irá babar ódio na Avenida Paulista possui extensa capivara. Lá por 2015, então bem mais excitada do que hoje, pediu o impeachment sem crime de uma presidenta da República. Depois, propôs uma tal de “intervenção militar constitucional”, num átimo de criatividade.

Em inacreditável demonstração de incompreensão sobre o quem é quem na mídia brasileira, eles repudiarão no 7 de setembro a Rede Globo. Não se surpreendam se alguém for visto exigindo a permanência de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central (não ria antes de sábado, caro leitor).

O ridículo não tem limite. Voltarão às ruas no sábado, 7 de setembro, pessoas que, durante a pandemia de Covid-19, aglomeraram-se, descartaram máscara de proteção, tomaram e receitaram cloroquina. Desafetos da vida, inimigos do conhecimento, paladinos da desigualdade, destruidores da democracia também clamaram por um ridículo “voto impresso auditável” nas últimas eleições.

Está marcado o próximo show de horrores na Avenida Paulista.

Um pouco do pensamento econômico de Gabriel Galípolo, futuro presidente do Banco Central

Foto: Washington Costa / MF

Por Paulo Henrique Arantes

Já se sabia, mas agora é oficial: o indicado de Lula para ser o próximo presidente do Banco Central é o economista Gabriel Galípolo, que escreveu o parágrafo a seguir, a quatro mãos com Luiz Gonzaga Belluzzo, constante do livro “Manda quem pode, obedece quem tem prejuízo”, de 2017:

“O Japão, um dos países mais endividados do mundo, sustenta uma dívida pública equivalente a 250% do seu PIB, mas suas taxas de juros são iguais ou menores que 0%. Os EUA detêm uma dívida de mais de 105% do seu PIB e o FED pratica taxas de juros inferiores a 0,75%. Os países da Zona do Euro apresentam endividamento de aproximadamente 92% do seu PIB, e o BCE também pratica taxas de juros nulas.”

Outro parágrafo da mesma obra:

“A história recente da evolução da dívida pública no Brasil demonstra o avesso da sabedoria convencional. Dizem os sabichões que a taxa de juro é elevada por causa do estoque da dívida, mas o caso brasileiro parece afirmar que a dinâmica da dívida é perversa por causa da taxa de juro de agiota.”

E um terceiro:

“O fato de uma classe social monopolizar os meios de produção e controlar o crédito lhe confere o poder de determinar a renda desta sociedade. Portanto, para que as necessidades pessoais e coletivas sejam satisfeitas é necessário que os agentes detentores dos meios de produção e crédito gerem mais dinheiro do que o investido inicialmente. O destino desta economia depende da decisão de gastar, investir e se endividar dos capitalistas. A complexidade reside no fato desta decisão nem sempre se dar de forma a gerar a melhor renda e emprego para a sociedade.”

Ainda não dá para comemorar, mas os sinais são de tempos melhores. A não ser que Galípolo inspire-se em Fernando Henrique Cardoso e mande esquecer o que escreveu.