Esquerda precisa de um novo marketing

Por Paulo Henrique Arantes

Christopher Wylie é o nome do jovem que denunciou ao mundo o que faziam no escurinho Cambridge Analytica e Facebook, que resultou no escândalo envolvendo as duas companhias em 2018. Wylie era funcionário da SCL, grupo controlador da Cambridge, e a justificativa para rebelar-se foi uma profunda indignação ética. Eis um breve apanhado de suas declarações: “O Facebook tem tanto poder, que está fazendo um clone digital da nossa sociedade. (…) O que é que vai acontecer quando os sistemas de inteligência artificial começarem a se comunicar entre si? Isto é uma história de colonialismo. (…) Os nossos governos não estão preparados para lidar com isso”. 

Hoje sabe-se que a Cambridge não “roubou” dados de ninguém, as informações estavam lá para quem soubesse utilizá-las – e a companhia britânica sabia, foi o que Wylie tentou explicar. Na prática, a Cambridge Analytica praticava algo denominado “narrativa cultural”.

Quando se leem dados, a priori, não se sabe o que fazer com eles. O que fazer, em termos de marketing, quando se têm em mãos os dados dos torcedores do Corinthians e do São Paulo, para ficarmos em dois exemplos populares?

Os torcedores do Corinthians constituem um arquétipo social diferente daquele dos torcedores do São Paulo – isso é visível, portanto corintianos não podem ser submetidos à mesma forma de abordagem que são-paulinos, não se sensibilizam com os mesmos temas e apelos. Na mesma linha, a Cambridge descobriu que os seguidores de Madona são muito distintos dos seguidores de Lady Gaga, possuem preferências e atitudes diferentes.

Fala-se muito – ao meu ver de modo superficial e cheio de “chutes” – da necessidade de os partidos de esquerda se “reinventarem”. Na verdade, os poucos avanços sociais no Brasil são fruto de ideais da esquerda. Talvez a esfera progressista precise apenas de um impulso tecnológico no marketing que exerce.

A partir dos bancos de dados, hoje, chega-se a interpretações das narrativas culturais de grupos específicos e, então, “conversa-se” com eles. Christopher Wylie ficou assustado com isso. Note-se o potencial de direcionamento específico dos discursos: de posse do banco de dados do Poupatempo, pode-se desenvolver uma narrativa cultural. Com o do Itaú, outra. 

O principal dilema atual do marketing político é justamente a interpretação de dados (os legalmente disponíveis, claro está), para o que ainda não existe consenso científico. Uma novidade chamada microtargeting, criada pelo grande publicitário e figura humana André Torreta, que morreu de Covid, falava de algo semelhante à narrativa cultural, mas com uma diferença seminal: o microtargeting restringe-se a delimitações geográficas, já a narrativa cultural abraça quaisquer aspectos de grupos específicos, sejam eles econômicos, sociais ou comportamentais. 

A complexidade da narrativa cultural reside em tecer uma teia e montar uma radiografia do imaginário de um grupo de pessoas em determinado momento. As campanhas eleitorais no Brasil, em regra, passam longe isso. Ninguém está fazendo nada de novo por aqui. O candidato está empenhado em disparar mensagens de Whatsapp, algo extremamente primário.

Jair não lidera coisa nenhuma

Paulo Henrique Arantes

As eleições municipais mostraram que Jair Bolsonaro não é um bom cabo eleitoral. Candidatos por ele abertamente apoiados nos segundo turno perderam. Aliados que apoiou veladamente já largam para 2026 descompromissados com o capitão que, ademais, deverá sofrer condenações até o fim do ano pelos crimes que cometeu – posse e venda de joias que deveriam ter sido incorporadas ao patrimônio público, falsificação de atestado de vacinação, trama de golpe de Estado -, cujos inquéritos terão seguimento pela Procuradoria Geral da República a partir de agora.

Escrevemos em julho de 2023 que Bolsonaro não lideraria coisa nenhuma no futuro político do Brasil. O quadro resultante das eleições municipais mostra que estávamos certos. Vamos repisar algumas das considerações feitas em meados do ano passado, quando parte da imprensa apontava o ex-presidente como provável líder da oposição.

Jair Bolsonaro, inelegível, não porta o condão de moldar as performances opositoras em desconstrução ao governo Lula. Para tanto, precisaria de uma vocação gregária que nunca possuiu. Como presidente, e antes como deputado, foi um desagregador, afastando aliados dia sim, outro também, levando correligionários a não apenas abandonar seu barco, mas a sair atirando contra ele, por traidor. Só a caneta presidencial sustentou asseclas em torno de seus delírios. 

O acidente histórico que alçou Jair Bolsonaro ao Planalto foi confundido pela mídia com traquejo político do dito cujo. Liderar blocos de oposição sem possuir mandato exige capacidade negociadora, requer habilidade de negociação, diálogo e, mais que tudo, carisma. O suposto carisma de Bolsonaro, mito para meia dúzia de fascistoides, é às avessas: sua deficiência cognitiva e sua precariedade comunicativa influenciam, na verdade, pouca gente além dos espíritos milicianos. Em regra, afasta. 

O “capital político” de Bolsonaro virou poeira ao vento, se é que algum dia existiu.

Bom domingo, velha São Paulo

São Paulo SP 06 12 2020- Domingo na praça da Sé. Fotos Públicas.

Por Paulo Henrique Arantes

No domingo, 27 de novembro, Ricardo Nunes deverá ser apontado pela maioria dos eleitores paulistanos para continuar à frente da Prefeitura de São Paulo, se as pesquisas se confirmarem. Guilherme Boulos é um digno representante da esquerda, inteligente, bom orador, ousado. Possui honestidade de princípios, mas a máquina pública municipal é fortíssima, assim como é fortíssima a onda reacionária que se elevou com Jair Bolsonaro e ainda não retrocedeu, a despeito do ocaso político do capitão.

Salvo advento inusitado de última hora, São Paulo não dará ao Brasil no domingo a surpresa que deu em 1988, quando Luiza Erundina, então quadro do PT, mandou Paulo Maluf (PDS), José Serra (PSDB), João Leiva (PMDB) e João Melão (PL) para casa, surpreendendo a quase todos. Recordemos: aquele fora o ano da promulgação da Constituição Cidadã, as feridas da ditadura não estavam cicatrizadas (de certa forma, ainda não estão), a primeira eleição presidencial depois de 25 anos de escuridão só aconteceria no ano seguinte.

A vitória de Erundina foi um marco histórico, numa época em que o preconceito contra mulheres e nordestinos era um tanto mais saliente do que é hoje. São Paulo elegeu uma mulher nordestina de esquerda contra um candidato favorito que simbolizava o conservadorismo paulistano. Paulo Maluf, “Doutor Paulo” para os aduladores de plantão, carregava a imagem de “realizador”, “tocador de obras”, que até hoje seduz os incautos, além da justíssima pecha de corrupto.

São Paulo elegeu Luiza Erundina, Marta Suplicy e Fernando Haddad, mas nunca deixou de ser conservadora. Sente uma estranha “segurança” na figura insossa de Ricardo Nunes, numa nítida demonstração de que tem medo de mudar, ainda que o presente seja o de uma cidade em que não se consegue chegar em casa quando chove e onde se acostuma com a falta de energia elétrica. Às vezes, parece ecoar as praguejadas de Jânio Quadros.

Por medo e teimosia, São Paulo continuará a ser a cidade do cidadão que conversou com este jornalista anos atrás e descreveu sua caminhada habitual por áreas centrais da cidade. O momento atual merece a rememoração. Ele era morador dos Campos Elísios, ali pela esquina Eduardo Prado – Barão de Limeira. Nosso cidadão ia a pé até a Praça da Sé. Uma boa caminhada de meia hora. Ao colocar a cara na rua, o sujeito sempre deparava com corre-corres na subida em direção à Praça Marechal Deodoro – eram egressos da ex-Cracolândia da Praça Princesa Isabel, saídos em debandada após um “espalha” da Guarda Metropolitana.

Na outrora bucólica Praça Marechal, aproveitando a proteção contra chuvas dada pelo Elevado João Goulart, pessoas acomodavam-se colchões furados, fogões quebrados, cobertores rasgados. Elas estavam se mudando para o local. Como estavam em frente a uma estação do metrô, provavelmente seriam enxotadas dali.

Andando pela sombria Avenida São João, o sujeito cruzava a Rua Helvétia e via bares, pequenos armazéns, chaveiros e salões de cabelereiros com as portas cerradas, enquanto gente – como diz a polícia – de comportamento suspeito ia se instalando por ali mesmo. Eram migrantes da ex-Cracolândia da Princesa Isabel em busca de um novo gueto. Nosso amigo não conseguia comprar cigarros.

O andarilho dobrava para o descaracterizado Largo do Arouche, onde um restaurante especializado em massas, de passado glorioso, adquirira uma fachada horrorosa e passara a servir uma lasanha com overdose de sal. Já na Praça da República, um pouco à frente, ele recebia convites para programas sexuais. Recusava-os. Cruzava a Ipiranga, onde a imponência do Edifício Itália marca o começo da arborizada Avenida São Luís, um curto hiato livre do aspecto degradado do centro da cidade, cujos edifícios de apartamentos gigantescos erguidos na metade do século passado parecem preservados.

Dali a poucos metros, quando ele dobrava à esquerda na Xavier de Toledo em direção ao Teatro Municipal, o cenário depreciava-se novamente. Eram filas duplas de ônibus na via esburacada, semáforos quebrados e muitos adolescentes de olhar vidrado pedindo qualquer coisa insistentemente, em abordagens do tipo quase-assalto. A escadaria do Municipal era um misto de dormitório e banheiro, e o odor de urina já empurraria obrigatoriamente o andarilho para a direita, a cruzar o Viaduto do Chá, ao cabo do qual se situa a sede da Prefeitura, no Edifício Matarazzo, cuja arquitetura de inspiração fascista hoje abriga Ricardo Nunes.

Dali à Praça da Sé era só cruzar o Largo São Francisco e sua fedentina, escapar de uma tentativa de assalto e estacionar os olhos por um minuto na Faculdade de Direito da USP, que parecia – e ainda parece – exalar certo ar democrático. Reto pela Benjamin Constant, o nosso amigo que partira dos Campos Elísios chegava ao seu destino. 

A Praça da Sé ainda retrata a São Paulo legada por João Doria, Bruno Covas e Ricardo Nunes, apesar de uma “limpeza” de aspecto higienista feita ali, onde residia uma populosa comunidade em barracas ou a descoberto, famílias inteiras com panelas e fogareiros, bêbados desacordados, usuários de maconha e crack, trabalhadores desempregos e assaltantes. A Catedral lhes fez vista grossa.

Se no domingo, 27 de novembro, os paulistanos escolherem a continuidade, estarão manifestando seu apreço por esse cenário.  

The Economist descobre que as maravilhas do capitalismo liberal estão no fim

Por Paulo Henrique Arantes

The Economist publicou artigo alarmado e alarmante sobre o “desmoronamento do liberalismo”. Disse a revista que o colapso pode ser “repentino e irreversível”. A bíblia do liberalismo econômico está preocupada com o fim de um modelo que, no seu entender, levou o mundo a um histórico ciclo de prosperidade.

No mundo real, a queda dos dogmas liberais antevista por The Economist pode significar o avanço da humanidade em direção a uma realidade menos cruel.

A revista atribui o risco de colapso do liberalismo às seguintes situações possíveis: o retorno de Donald Trump à Casa Branca, com sua volúpia de destruição institucional; uma segunda onda de importações chinesas baratas; uma guerra aberta entre Estados Unidos e China por causa de Taiwan; uma guerra entre o Ocidente e Rússia. A revista não explica quem é “o Ocidente”, mas supõe-se que sejam os Estados Unidos e seus aliados incondicionais.

The Economist esqueceu a maravilha que a ordem econômica liberal – neta de Hayek, filha de Friedman e afilhada de Reagan e Thatcher – causou à economia mundial em 2008, sua apoteose. E enalteceu o falso êxito do modelo no seguinte parágrafo, pérola de cinismo:

“Está na moda criticar a globalização desenfreada como a causa da desigualdade, da crise financeira global e da negligência em relação ao clima. Mas as conquistas das décadas de 1990 e 2000 – o ponto alto do capitalismo liberal – são incomparáveis na História. Centenas de milhões escaparam da pobreza na China à medida que esta se integrava na economia global. A taxa de mortalidade infantil em todo o mundo é menos da metade do que era em 1990. A porcentagem da população global morta por conflitos travados entre estados atingiu o mínimo do pós-guerra de 0,0002% em 2005; em 1972, era quase 40 vezes maior. Pesquisas mais recentes mostram que a era do ‘Consenso de Washington’, que os líderes de hoje esperam substituir, foi aquela em que os países pobres começaram a desfrutar de um crescimento, de recuperação, diminuindo o abismo em relação ao mundo rico.”

Já se cansou de demonstrar que o capitalismo liberal, com sua ignóbil defesa da austeridade em detrimento de gastos sociais – sempre pelo carreamento dos recursos do Estado para os detentores das dívidas públicas –, aprofunda a desigualdade, nunca a diminui. Se houve uma redução da distância entre países ricos e pobres, foi por filigranas estatísticas; dentro dos países, a desigualdade aumentou, a renda se concentrou. Especialmente nos Estados Unidos, é notório o empobrecimento da classe média desde que o estado de bem-estar social, iniciado no Pós-Guerra, foi substituído pelo capitalismo da Escola de Chicago. A miséria e a fome grassam nos países ditos periféricos, que The Economist enxerga como beneficiados pela ordem econômica ora agonizante.

O capitalismo enaltecido por The Economist é um fiasco socioeconômico, é causador de tragédias humanitárias por concentrar riqueza em nível escandaloso. Dois terços de todas as novas riquezas produzidas no mundo ficam nas mãos de 1% da população, segundo relatório da Oxfan divulgado às vésperas do Fórum Econômico Mundial de 2023. Os repórteres da revista britânica estavam lá?

Já o trecho sobre a população global morta por conflitos entre estados é de arrepiar pelo descolamento da realidade. The Economist, sempre recorrendo à matemática, compara percentuais de 1972, época da Guerra do Vietnã, e 2005. Esquece-se de que hoje os palestinos estão sendo dizimados, numa contenda em que um país, sob a vista grossa e até a ajuda bélica dos Estados Unidos, mata populações civis sem a menor cerimônia. Certamente, trata-se de mais uma consequência espetacular do capitalismo liberal apregoado pela revista britânica. Um capitalismo cego, desumano.

Trump, uma catástrofe que tem milhões de eleitores

Fotos Públicas

Por Paulo Henrique Arantes

Dias atrás, chamei Andrés Oppenheimer de jornalista vira-lata. O colunista do Estadão e apresentador da CNN em Espanhol merecera a denominação pejorativa por considerar “patético” o discurso de Lula na ONU, em artigo no qual deixou clara sua preferência por um Brasil subalterno – vira-lata, portanto, no entendimento rodrigueano.

Na última terça-feira (15), contudo, o colega famoso (apesar do vira-latismo), escritor premiado, mandou bem. Não se sabe se puxou pela memória ou pelo Google, mas trouxe à luz os feitos de Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos, em tese suficientes para desencorajar qualquer pretensão eleitoral.

A lista de Oppenheimer, que certamente votaria em Kamala Harris se fosse eleitor americano, contém lembranças importantes, as quais não costumam ser revisitadas tanto quanto merecem (ou não chegam a este periférico jornalista que vos escreve).  Trata-se de fatos que deveriam servir como bloqueios eleitorais, motivar indignação coletiva, ganhar o repúdio de todos. Só que não: americanos votam em Trump crentes sabe-se lá em quê.

Peço licença a Oppenheimer, que ignorou solenemente minha provocação, para replicar aqui alguns dos feitos de Donald Trump quando morador da Casa Branca (minha meia dúzia de leitores merece saber):

– Registrou-se no governo Trump o maior déficit da História dos Estados Unidos. A dívida nacional aumentou em quase US$ 7,8 trilhões, alcançando US$ 28 trilhões;

– Ao término do governo, os Estados Unidos tinham 3 milhões de trabalhadores empregados a menos;

– Trump enfraqueceu a posição dos Estados Unidos no mundo ao iniciar brigas com aliados europeus e abraçar Vladimir Putin e Kim Jong-um;

– Ao término do governo Trump, China e Rússia estavam mais fortes na geopolítica do que antes;

– Trump exacerbou o ódio racial desde antes de assumir a Presidência, tendo declarado falsamente que a maioria dos mexicanos era de “estupradores”;

– Derrotado em 2021, Donald Trump encorajou, ainda que tacitamente, a invasão do Capitólio por apoiadores seus.

Oppenheimer ainda nos lembra que Trump mente o tempo todo, traiu todas as suas esposas, faz comentários racistas sem parar e é um criminoso condenado. E tem milhões e milhões de eleitores.

Lula tenta acabar com a figura do empreendedor-idiota

pedantic happy man

Paulo Henrique Arantes

Neoliberais muito bem esclarecidos e mal intencionados escondem-se atrás dos boçais de extrema-direita que, com seus bonés e sapatênis, pregam liberdade e empreendedorismo. A liberdade que querem sabe-se o que é: a de pespegar mentiras sobre adversários, disseminar absurdos que lhes favoreçam os negócios, vilanizar a política e o Estado. Mas a segunda palavrinha – “empreendedorismo” – é a que guarda a chave do discurso dessa gente.

Empreender é positivo, remete a ousadia e iniciativa, mas o “empreendedor” estimulado pelos neoliberais, esses defensores do Estado mínimo, são nada mais que idiotas úteis por não entenderem que o Estado deve atuar em prol deles, não para os donos da dívida pública. São escravos de um falso sonho de prosperidade.

O empreendedor é o sujeito que contrai um empréstimo bancário a juros escorchantes para abrir seu pequeno negócio, e que terá de trabalhar diuturnamente durante anos para pagar a dívida? A paulada bancária lhe consumirá a receita, impedindo reinvestimentos e, não raro, tomando-lhe o lucro.

O empreendedor é o motorista de aplicativo, que se orgulha da autonomia que lhe é concedida para trabalhar 12 horas por dia e arcar com todos os custos de manutenção do veículo? Ou o empreendedor é motoqueiro do delivery, que atende a três ou quatro restaurantes simultaneamente, sob sol e chuva, e orgulha-se de dizer que não tem patrão? Ambos imaginam-se empreendedores, todavia são cidadãos explorados.

Não se trata aqui de defender uma sociedade em que todos os trabalhadores estejam amarrados a empregos formais e patrões, mas é necessário compreender que, até para que as iniciativas individuais tenham sucesso, o Estado precisa atuar. O Governo de Lula apresentou em março último uma proposta para, em boa medida, “desescravizar” os motoristas de aplicativos. O Projeto de Lei Complementar 12 / 2024 tramita a passos de tartaruga na Câmara. O tema sumiu do noticiário.

A proposta de Lula é pela criação da categoria de “trabalhador autônomo por plataforma”. O empreendedor contribuiria com o INSS (7,5%), assim como a empresa dona do aplicativo (20%).  O projeto fixa jornada diária máxima de 12 horas e institui um adicional de 24,07 reais por hora trabalhada para pagamento de custos com celular, combustível, manutenção do veículo e outras despesas. Vê-se um regramento que não engessa, mas dá garantias ao cidadão que deseja seguir por esse caminho, e que hoje se encontra numa espécie de limbo trabalhista.

A precarização patrocinada pelos neoliberais e seus papagaios na politica, contudo, mostrou raízes quando o governo anunciou o projeto. Incautos, os próprios trabalhadores torceram o nariz, nos fazendo crer que a informalidade absoluta lhes é bem-vinda. Entre os pontos criticados estava a forma de contribuição previdenciária – como se sabe, para os neoliberais a previdência pública nem deveria existir.

Enquanto os parlamentares brasileiros ouvem lobistas, na França e na Espanha a Justiça decidiu que motorista de aplicativo não é trabalhador autônomo. Lá, esse empreendedor passou contar com proteção legal do emprego, direito a licença médica, plano de saúde e outros benefícios. 

Marçal e a estratégia do tumulto

Antonio Milena / Fotos Públicas

Por Paulo Henrique Arantes

Está cego quem ainda não percebeu que a estratégia de consolidação do seu nome na política é o tumulto. A última manifestação de Pablo Marçal, de que exige retratação por ofensas de Ricardo Nunes, Tarcísio de Freitas, Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Silas Malafaia – e de que Guilherme Boulos expressa o desejo de mudança dos eleitores – comprova o que é nítido: o coach 171 seguirá carreira solo em busca da Presidência da República, algo de que a Justiça precisa nos salvar.

Marçal externar certa simpatia pelo perfil renovador de Boulos – sem hipótese de apoio, lógico – é de falsidade notável, mas enfraquecer outros nomes da direita fortalece-o individualmente. De outra parte, é bem possível, até provável, que metade de seu eleitorado escolha o candidato do Psol no segundo turno da eleição paulistana. Esses cidadãos não possuem régua ideológica, enfeitiçam-se pelo desprendimento e o histrionismo, características encontráveis em Boulos e inexistentes em Nunes.

Até ser impedido pela Justiça, Marçal continuará a chamar os holofotes com falas inusitadas. Não lhe importam a lógica, o sentido e a verdade, mas o rebuliço que suas condutas causam. Assim como Chacrinha, só que vil, ele veio para confundir, não para explicar.

Por razões históricas, marginais de discurso ultraliberal vêm ganhando terreno na política. A pregação da meritocracia é sedutora: sem Estado, sem respeito às leis e à civilidade, pode-se conseguir riqueza, único objetivo a ser buscado pelas gentes que admiram Pablos Marçais. A realidade social que alija não é questionada e não se cogita modificá-la. O que se apregoa é o individualismo absoluto: ascender ao topo social, blindar-se num condomínio de luxo e deixar que o lado externo se lasque, explorando a ignorância e lucrando com ela.

Ao confrontar os direitistas e apontar favoritismo da esquerda, Pablo Marçal tenta se mostrar descolado de tudo e de todos.  Mais uma vez neste espaço, faz-se necessário aludir ao guru da extrema-direita Steve Bannon, cujo princípio básico é a falta de qualquer escrúpulo. O coach 171 segue a linha traçada pelo americano, em que as fake news pontificam.

As fake news subiram ao topo durante a campanha que elegeu Donald Trump presidente dos Estados Unidos, e são repetidas por ele na atual jornada eleitoral americana. No Brasil, Jair Bolsonaro elegeu-se mediante uso e abuso de noticias falsas, elaboradas por gente contratada, cabeças pensantes preparadas para elaborar coisas como a “mamadeira de piroca” que seria distribuída às crianças pelo candidato adversário. Bannon orientou a campanha que elegeu Bolsonaro. Coisas como falsificar documentos, como fez Pablo Marçal, cumprem a mesma cartilha despudorada.  

Não se tem notícia de que Bannon, que está preso, tenha tido contato com Pablo Marçal, mas suas ideias estão presentes nas falas e nos atos do coach.

Prefeito reeleito de Sorocaba convida Marçal para ser secretário de Desenvolvimento Econômico

Por Paulo Henrique Arantes

O prefeito de Sorocaba (SP), Rodrigo Manga (Republicanos), reeleito com mais de 70% dos votos, anunciou em vídeo nas suas redes sociais ter convidado Pablo Marçal para o cargo de secretário municipal de Desenvolvimento Econômico em sua próxima gestão.

Manga, simpático desde sempre a Jair Bolsonaro – alinhou seu discurso ao do bolsonarismo até mesmo durante a pandemia, estimulando a prescrição de cloroquina nas unidades de saúde -, é um case de sucesso do marketing pessoal. Evangélico, posa de empreendedor e defensor da livre iniciativa, mas não abre mão do assistencialismo.

O prefeito Manga estaria magoado com Bolsonaro e com o governador Tarcísio de Freitas, que na eleição municipal não o apoiaram, mas ao candidato Danilo Balas (PL).

No vídeo em questão, postado hoje (7), Manga diz que ainda não falou pessoalmente com Marçal, mas está formalizando o convite. O prefeito sorocabano refere-se ao coach como um “grande empresário, uma referência nacional de sucesso, que conseguiu vencer na vida e tem, inclusive, empreendimentos aqui na região metropolitana (de Sorocaba)”.

Um psicopata nunca desiste

Por Paulo Henrique Arantes

O encantador de incautos Pablo Marçal está fora do segundo turno da eleição paulistana, e ainda será julgado pelo crime de falsificação de documento, podendo ficar inelegível, ser preso ou outra coisa que o Direito Penal mandar. A disputa final será entre um idealista de esquerda e um político de baixa estatura, falso-moralista, adulador envergonhado que conta com a máquina pública. De todo modo, a “estrela” desta eleição municipal até que se conheça o vitorioso, pelo que causou, é Marçal, um psicopata que ainda dará muito trabalho à democracia brasileira.

Tempos atrás, Noticiário Comentado buscou em ótimo texto do médico psiquiatra Guido Palomba a descrição da personalidade de Jair Bolsonaro, enquadrando-o à perfeição entre os “psicopatas de Schneider”. Segundo Palomba, tais pessoas são assim caracterizadas pelo psiquiatra alemão Kurt Schneider, autor de “Personalidades Psicopáticas”: “A inteligência limítrofe ou seletiva leva-os a praticar atos bizarros, por turrice e teimosia. Persistem voluntariosos, desde que seja em benefício próprio. Caso voltem atrás, não é pelo reconhecimento do erro, mas por estratégia momentânea. Em seguida, recidivam, às vezes de forma mais virulenta, por serem rancorosos e vingativos”.

O “psicopata de Schneider” é 100% Bolsonaro e nem tanto Marçal, pois o segundo não apresenta a inteligência limítrofe do primeiro.

O caçador de likes que pretendia administrar a cidade de São Paulo carrega todos os quesitos do psicopata clássico – deixe-se Schneider de lado -, como qualquer manual psiquiátrico para leigos pode demonstrar. A mentira fácil, forjada e sem culpa, abre a lista, seguida do gosto pela adrenalina.

Psicopatas como Pablo Marçal costumam ser articulados, donos de retórica persuasiva, sedutora. Também são impulsivos, como provam atos como postar em redes sociais um laudo médico falso para destruir a reputação do adversário, mesmo cientes de que o desmascaramento pode vir de pronto.

Os manuais de psiquiatria explicam que o psicopata estressa-se e “explode” facilmente, ao passo que nunca se sente culpado de nada, pois os protocolos sociais nada lhe importam. Jamais coloca-se no lugar do outro, por isso pode levar pessoas a situações de perigo iminente sem nem sequer corar, como fez Marçal, o nosso psicopata, ao levar 32 pessoas a correrem risco de vida no Pico dos Marins. Mensurar consequências não é do métier do psicopata.

O psicólogo canadense Robert Hare, informa-nos o ótimo site de saúde mental Eurekka, relatou que o psicopata não conhece empatia, daí suas ações manipuladoras. Seus sentimentos são superficiais: ele ama uma pessoa da mesma forma como ama um carro ou uma piscina. Egoísta, só os próprios interesses o norteiam.

A atração de parte da população por psicopatas precisa ser melhor estudada. O discurso antipolítica que emana dessas mentes doentias talvez explique o apelo popular, afinal, boa parte dos políticos faz por merecer o repúdio dos cidadãos. Mas não é só isso. Integrantes da base da pirâmide social, em regra, almejam ascender individualmente como prometem os coachings, não participam da luta por uma sociedade mais justa e igualitária.

Aguardemos com atenção o próximo passo do influencer e político neófito Pablo Marçal. Psicopatas não desistem.

Stiglitz, um farol contra o absurdo neoliberal

Joel Saget / AFP

Por Paulo Henrique Arantes

Aos 81 anos, Joseph Stiglitz preserva a sabedoria e a verve que lhe renderam um Nobel, em 2001. A entrevista do economista americano a Vivian Oswald, do Valor Econômico, publicada na quarta-feira (2), mostra a lucidez renovada de quem percebeu, há muito tempo, que o neoliberalismo só leva à desigualdade, ou que os donos do dinheiro portam as bandeiras neoliberais para perpetuar essa desigualdade.

E não só de filigranas econômicas compõe-se o pensamento de Stiglitz. Sua ideia de justiça em tempos de Elon Musk, por exemplo, é inquestionável: “As novas tecnologias ampliaram a capacidade de espalhar erros e desinformação, alguns dos quais muito perigosos para a nossa sociedade, de uma forma ou de outra. (…) Então, nenhuma pessoa, seja Elon Musk, a pessoa mais rica do mundo, ou quem quer que seja, deve se considerar acima da lei. E Musk disse basicamente que está acima da lei. Ele diz ‘você não tem o direito de me regular’. E está absolutamente errado”.

Em seu último livro, lançado em abril, “The Road to Freedom: Economics and the Good Society”, Stiglitz escreve com todas as letras que mercados sem restrições nada fazem a não ser gerar crises. Tampouco está, a iniciativa privada, preocupada com as mudanças climáticas, problema global mais urgente. Eis o que ele disse a Vivian Oswald: “O setor privado está interessado em lucros. Quando há lucros, entra. (…) O clima é um investimento a longo prazo. E o setor privado é excessivamente avesso a risco, e não sabe avaliar o risco. (…) O setor privado tem muitos pontos fortes, mas temos também de reconhecer suas limitações quando falamos em alterações climáticas ou de questões como a justiça social, investimentos de longo prazo”.

Na hora em que o BNDES retoma seu papel de indutor do desenvolvimento, encontra-se em Joseph Stigliz a explicação simples, óbvia e precisa para tal conduta: “Passamos por um período em que comprometemos ideologicamente o papel dos bancos de desenvolvimento. Acho que foi errado. O setor privado tende a ter o problema de ser demasiado míope e demasiado avesso ao risco. Os bancos de desenvolvimento podem ter uma visão de longo prazo e assumir riscos maiores, como o associado ao BNDES, que ajudou a desenvolver a Embraer e alguns dos combustíveis à base da cana-de-açúcar, que são muito importantes para evitar as alterações climáticas”.

Por óbvio, Stiglitz é um anti-Trump. Ele diz ver um “populismo perigoso”, ainda não vencido, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil: “Não vemos isso tanto na Suécia, na Dinamarca ou na Noruega. Vemos nos Estados Unidos, em lugares onde as pessoas não têm emprego, a saúde é fraca, não há oportunidades. Então, você tem esse tipo de desespero. E é a partir desse desespero que as pessoas recorrem a gente como Trump ou Bolsonaro”.

A falsa liberdade defendida nos discursos de rematados direitistas – Donald Trump, Jair Bolsonaro, Javier Milei, Pablo Marçal e tantos outros – também está no radar de Joseph Stiglitz, para quem a economia é, definitivamente, uma disciplina humana e, portanto, os economistas não podem fechar os olhos para os movimentos anticivilizatórios: “Quando vivemos de forma integrada (numa pandemia, por exemplo), se eu não me vacinar ou usar máscara, há uma chance você morrer. São ações que você sabe que podem te machucar. Se eu carregar uma AK-47, você pode morrer. Isso pode prejudicar sua liberdade. E é tão óbvio, mas eles simplesmente não reconhecem isso. Se eu poluir o ar e você tiver asma, você morre. A liberdade de uma pessoa é a falta de liberdade de outra”.

Cumprimentos a Vivian Oswald pela ótima entrevista.