Militares golpistas e militares omissos

General Freire Gomes.

Por Paulo Henrique Arantes

Não tardará – roga-se – para que Jair Bolsonaro e a súcia militar que o acercava para levar a cabo um golpe de Estado pelas armas, edulcorado por três assassinatos, sejam condenados.  O Brasil dará exemplo de solidez democrática e judicial. Aos negacionistas da razão, incorrigíveis forjadores de fake news, restará negar em praça pública o relatório de 800 páginas produzido pela Polícia Federal, documento eloquente e repleto de materialidade. Na praça jurídica, o direito amplo de defesa lhes será assegurado, apesar de se avistar por parte dos indiciados apenas o esperneio juridicamente vazio.

Militares desde sempre projetam e realizam golpes no Brasil. Já foram melhores nisso. Ainda hoje, por incrível que pareça, muitos deles empunham a bandeira anticomunista, outros julgam a disciplina fardada modelo para a vida em sociedade e uns tantos buscam mesmo sinecuras – não se sabe em que proporção.

A imprensa insossa, pusilânime, em regra tem tratado os criminosos golpistas como tal, apesar do excesso de “supostos”.  Mas, por insossa e pusilânime, não se furta de louvar os militares que não aderiram à campanha assassino-golpista. A “não adesão da cúpula” teria sido o que impediu que o atentado contra a nação se concretizasse. Há verdade nessa afirmação, mas há uma ponderação igualmente verdadeira: para serem alçados à condição de heróis, os militares não-aderentes deveriam ter cumprido o papel republicano de denunciar e reprimir a ação que se articulava, sobre a qual sabiam e para a qual foram convidados.  Nada fizeram para impedi-la.  Foram omissos, algo bem próximo da cumplicidade.

Alguns desses “heróis” da Pátria já foram devidamente nominados: general Marco Antônio Freire Gomes, tenente-brigadeiro da Aeronáutica Carlos de Almeida Baptista Júnior, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, general André Luís Novaes Miranda e general Guido Amin Naves.

Sobre Freire Gomes escrevemos, em setembro de 2023 (após Maria Cristina Fernandes, do jornal Valor Econômico, informar que em reunião com os então comandantes da Marinha, almirante Almir Garnier Santos, da Aeronáutica, brigadeiro Carlos Batista, e do Exército, quando se burilava um golpe para usurpar de Lula o poder que lhe fora conferido pela eleição) que ele disse ao então presidente da República, Jair Bolsonaro: “Se o senhor for em frente com isso, serei obrigado a prendê-lo”.

À luz do Direito, Freire Gomes poderia já naquele momento ter dado voz de prisão ao presidente golpista, por testemunhar ali ato preparatório para um ataque à Constituição. Não o fez naquela hora nem depois. Trata-se de um militar melhor que seus pares golpistas, mas está longe de ser um herói.

O passivo do Carrefour no campo dos direitos humanos

Por Paulo Henrique Arantes

O Carrefour está prestes a causar um incidente diplomático, ou quase. O anúncio feito pelo seu CEO, Alexandre Bompard, de que as lojas francesas da marca deixariam de vender carne importada do Mercosul, em razão de sua discordância com os termos propostos do acordo dos sul-americanos com a União Europeia, provocou imediato boicote dos frigoríficos às unidades do grupo no Brasil, com apoio do ministro da Agricultura e da Pecuária, Carlos Fávaro. Numa defesa velada da rede varejista, a ministra da Agricultura e da Soberania Alimentar da França, Annie Genevard, disse que o acordo em costura favorece a concorrência desleal.

O acordo Mercosul-UE reveste-se de idiossincrasias e interesses específicos, os quais devem ser analisados cuidadosamente por técnicos setoriais – como, acredita-se, está sendo. Quanto ao Carrefour, este possui no Brasil um vergonhoso passivo no campo dos direitos humanos.

O supermercadão até que tenta revestir-se de um verniz humanizado. Em 2017, passou a incentivar um programa de inclusão de pessoas transexuais pautado pela conscientização dos seus funcionários (chamar empregado de “colaborador” é dose) sobre a importância da cultura de acolhimento e do respeito por pessoas trans, inclusive oferecendo cursos de capacitação pessoal e profissional com turmas de indivíduos transexuais. O Carrefour também firmou parceira com o Portal Transempregos para contratar pessoas trans.

Só que a mesma rede que adota um programa de incentivo à inclusão de pessoas transexuais responde por profissionais terceirizados do seu quadro de seguranças terem agredido um homem negro até a morte em novembro de 2020, numa de suas lojas de Porto Alegre (RS). Há mais casos do tipo envolvendo a megavarejista.

Em 14 de agosto de 2020, Moisés Santos, de 53 anos, passou mal numa unidade do Carrefour em Recife (PE). Foi coberto com guarda-sóis e cercado por caixas até que a loja encerrasse o expediente. Santos morreu de enfarte no local, onde permaneceu das 8h às 12h. À época, a direção da loja desculpou-se  “pela forma inadequada que tratou o triste e inesperado falecimento do Sr. Moisés Santos, vítima de um ataque cardíaco”, e reconheceu ter errado ao não fechar a unidade imediatamente após o ocorrido.

Em 2018, funcionários de uma loja do Carrefour em São Bernardo do Campo (SP) agrediram um cliente por ter aberto uma lata de cerveja dentro da loja. Luís Carlos Gomes  era uma pessoa com deficiência, foi encurralado no banheiro e sofreu múltiplas fraturas.

Um caso americano expôs dados vulneráveis na web

Por Paulo Henrique Arantes

O Supremo Tribunal Federal deve julgar na quarta-feira (27) a responsabilização das redes sociais por conteúdos nelas postados – mais um caso em que a corte obriga-se a agir por causa de omissão do Congresso Nacional, que se recusa a legislar sobre o assunto. Além dos cuidados com o palco de fake news e narrativas de ódio em que se tornaram as redes sociais, atenções maiores deveriam ser destinadas à segurança de dados: talvez o Marco Civil da Internet, aos 10 anos, careça de aperfeiçoamento.

Se nos Estados Unidos aconteceram os fatos relatados a seguir, por que estaríamos livres de algo parecido por aqui?

Em junho de 2017, o pesquisador de segurança cibernética Chris Vickery, da empresa americana UpGuard, fazia uma varredura de rotina na web quando deparou com dados de 198 milhões de eleitores americanos, relatou a este jornalista o saudoso marqueteiro André Torreta, que partiu cedo demais, vítima da Covid.  Os dados estavam livres, soltos, totalmente disponíveis na internet. Eram informações compiladas pela Deep Root Analytics, consultora do Partido Republicano, carinhosamente chamado de GOP (Grand Old Party) por seus simpatizantes. 

Vickery foi à polícia e aos jornais. Sem sofrer maiores consequências legais, a Deep Root atribuiu os 12 dias em que aquela imensidão de dados sensíveis de cidadãos americanos ficou exposta para quem quisesse usá-la a uma falha durante procedimento de atualização de configurações. Novos protocolos adotados pela consultoria conferiram segurança aos dados, garantiu a Deep Root posteriormente.

O caso Deep Root – GOP dá a dimensão do potencial eleitoral do Big Data. Os arquivos continham informações detalhadas de praticamente todo o eleitorado dos Estados Unidos. Conforme noticiou a mídia americana, 9,5 bilhões de pontos de dados permitiam que a empresa avaliasse preferências políticas, posicionamentos sobre questões comportamentais como aborto, pesquisas com células-tronco e gostos de consumo.

Os republicanos comemoraram o fato de os arquivos terem sido encontrados por um profissional como Vickery e não por um hacker russo, chinês ou marciano. O caso é considerado o maior vazamento de informações sobre eleitores da História. “É um catálogo de vidas humanas, com detalhes intrínsecos”, disse Mike Baukes, presidente-executivo da UpGuard.

Nos Estados Unidos, diante do caso Deep Root – GOP, Timothy Sparapani, consultor de privacidade de dados da SPQR Strategies e ex-diretor e Políticas Públicas do Facebook, afirmou que se o responsável em última instância fosse uma empresa privada, e não um partido político, sofreria multas pesadas aplicadas pelos reguladores e ações punitivas movidas por procuradores-gerais. A caracterização de ação política evitou tudo isso.

As explicações do Partido Republicano foram protocolares e insatisfatórias. Seus porta-vozes disseram que os dados em questão, pertencentes à legenda, limitavam-se a informações básicas sobre seus eleitores e não foram expostos – duas mentiras. A repercussão foi péssima, como não poderia deixar de ser.  “Esses dados são usados para manipulação de opinião”, atacou Marc Rotenberg, diretor-executivo do Eletronic Privacy Information Center, fundação de pesquisas sem fins lucrativos. “É preciso haver consequências para as violações. Temos um grande problema neste país com segurança de dados, e está piorando”, advertiu.

O uso de dados é o presente e o futuro das campanhas politicas – quanto ao Brasil, o futuro. Falhas de segurança, contudo, podem caracterizá-lo como prática antiética e mesmo criminosa, a devassar a vida das pessoas e aspergir seus hábitos, costumes e preferências para todo canto, daí o avanço representado no Brasil pela Lei Geral de Proteção de Dados. Não se utilizam dados pessoais sem autorização, nem se deve guardá-los sem a devida proteção – esse é futuro saudável do Big Data.

Fato é que nada acontecerá se os próprios eleitores não cobrarem proteção aos seus dados e não estiverem conscientes das consequências de autorizarem seu uso. Dispositivos que capturam dados e autorizações de uso de forma sorrateira na internet merecem atenção especial.

Kakay: trama golpista foi contra a democracia, não contra Moraes

Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Por Paulo Henrique Arantes

Bolsonaro e seus defensores alegam que Alexandre de Moraes não poderia relatar o inquérito que o acusa, e a 36 asseclas, de tramar golpe de Estado e assassinatos de Lula, de Geraldo Alckmin e do próprio Moraes, entre outros crimes. O ministro do Supremo Tribunal Federal, que à época da urdidura presidia o Tribunal Superior Eleitoral, deveria dar-se por impedido, no entender dos golpistas, uma vez que envolvido pessoal e emocionalmente no caso – ele era um dos alvos dos criminosos.

A alegação dos bolsonaristas não tem base legal. Quem nos dá a letra é o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. “O argumento da suspeição do ministro Alexandre de Moraes, pelo fato de os golpistas terem planejado matá-lo, é absolutamente sem nenhuma sustentação jurídica. Seria permitir que o investigado, quem cometeu o crime, escolhesse o seu julgador”, explica.

Segundo Kakay, no caso concreto a vítima seria a democracia brasileira. “O que foi urdido e tentado foi um golpe de Estado, abolição violenta da democracia. O que esteve em risco foi o Estado de Direito”, enfatiza.

Não poderia estar mais claro. Aceitar a suspeição de Alexandre de Moraes significaria dar ao investigado o controle do caso.

Mais um ponto na estratégia da defesa de Bolsonaro, até aqui, chamou Kakay à atenção: “É interessante notar que, estranhamente, não se viu a negativa dos fatos por parte dos envolvidos. Ao que parece, o trabalho da Polícia Federal foi tão bem feito tecnicamente que está irrespondível”.

Que Jair Bolsonaro e seus aliados tenham ampla defesa e contraditório assegurados, como manda um processo penal democrático. Algo que eles jamais concederiam aos adversários, aos quais reservavam a morte.

Enquanto Lula engaja o mundo no combate à fome, vale lembrar alguns feitos diplomáticos de Bolsonaro

Por Paulo Henrique Arantes

Lula e a diplomacia brasileira merecem aplausos efusivos pelo desempenho no G20 / Rio. Conceber e engajar 82 países numa Aliança Global contra a Fome não é pouca coisa, e coloca definitivamente o presidente brasileiro no rol das lideranças globais – um verdadeiro influencer do mundo real, exterior à dissimulação das redes sociais.

Nunca houve termos de comparação entre Lula e Jair Bolsonaro, diferentemente do que pretendem nos fazer crer os apregoadores de uma tal “polarização”. Não há parâmetros, posto que o segundo sempre esteve fora do espectro democrático.

De fato, é bastante tedioso compará-los. Só que o colunista fraquejou diante da oportunidade de rememorar algumas pérolas do capitão quando nos envergonhava como chefe de Estado, no exato momento em que Lula consegue um raro consenso global.

Ria ou chore, raro leitor, rara leitora. Os fatos a seguir remetem a 2019, primeiro ano de Jair Bolsonaro como Presidente do Brasil (aguarde novas listas de aberrações).

– No Fórum de Davos, na Suíça, Bolsonaro fez um ridículo discurso de oito minutos (seu tempo era de até 45 minutos) em que disparou máximas religioso-reacionárias como “Deus acima de tudo” e mantras extremistas locais como “Não queremos uma América bolivariana”;

– Em abril, a lado de Benjamin Netanyahu, visitou o Muro das Lamentações em Jerusalém Oriental, território considerado em disputa pela comunidade internacional, chocando-se com a posição da ONU e ofendendo os palestinos;

– Tentou emplacar – sem sucesso, para a felicidade geral – o filho Eduardo como embaixador nos Estados Unidos. O 03 não pertence ao Itamarati, não é graduado em Relações Internacionais e nunca exerceu cargos ou funções na área;

– Em setembro, na 74ª Assembleia das Nações Unidas, atacou a Europa por “promover falácias” sobre o meio ambiente no Brasil, entre outras grosserias. O jornal britânico The Guardian referiu-se à fala o mandatário brasileiro como uma “defesa insana e conspiratória”; o francês Le Monde escreveu que Bolsonaro demonstrou “intolerância”.

– Em 23 de agosto, ofendeu a primeira-dama francesa, fazendo referência ao fato de Brigitte Macron ser 24 anos mais velha que o marido, o presidente François Macron. O ministro da Fazenda, Paulo Guedes, fez coro ao presidente no estúpido comportamento;

– Esqueceu dos nossos laços históricos, das relações comerciais, diplomáticas e de boa vizinhança com a Argentina e não cumprimentou o então presidente-eleito Alberto Fernández.

– Sob Bolsonaro, o Brasil votou contra, em novembro de 2019, uma resolução da ONU pelo fim do embargo americano a Cuba (houve 187 votos favoráveis ao fim do embargo; ficamos com Estados Unidos e Israel);

– Entusiasmado bajulador do presidente Donald Trump, Bolsonaro fez com que o Brasil liberasse de visto de entrada no país aos turistas americanos, A contrapartida do Tio Sam? Nenhuma.

O colunista agradece a Carta Capital pelo refresco de memória.

Inércia de Gonet fere a lei processual penal e favorece atos de ódio, afirma Roberto Tardelli

José Cruz / Agência Brasil – Fotos Públicas

Por Paulo Henrique Arantes

A quem serve o procurador-geral da República, Paulo Gonet, quando senta em cima dos inquéritos contra Jair Bolsonaro? Não serve à democracia, tampouco à justiça, pois justiça tardia resvala na ausência de justiça. Favorece, isto sim, atos como aquele visto na Praça dos Três Poderes em 13 de novembro: ódio, bomba, morte.

Noticiário Comentado conversou com o advogado e ex-procurador de Justiça Roberto Tardelli a respeito da inércia do PGR, de quem se espera conduta diferente das do seu pusilânime antecessor, Augusto Aras, um engavetador.

“Se o procurador-geral não age, cria-se um vácuo sem possibilidade de preenchimento, e a crise se instala. É quando se diz que a instituições não funcionam e as soluções ficam o arbítrio e à aventura de grupos políticos descompromissados com qualquer possibilidade democrática”, afirmou-nos Tardelli.

É nesse vácuo que surgem os “lobos solitários”, talvez não tão solitários assim. “Os discursos de ódio ganham força institucional”, frisa o advogado.

Apurou-se que Gonet aguardaria as eleições municipais para denunciar o ex-presidente por articular ação para que fosse descumprido o resultado eleitoral, por falsificar cartão de vacinação e por apossar-se, com intenção de venda, de patrimônio da Presidência da República (joias). Nunca houve justificativa razoável para tal procrastinação.

“O PGR, sem que houvesse qualquer permissão na lei, criou uma espera arbitrária – o período eleitoral. Criou por razões dele, não deveria tê-lo feito, mesmo porque agiu contra a lei processual penal, que não prevê essa demora”, avalia Roberto Tardelli. E prossegue: “As eleições se passaram e desconhecemos, até este momento, qual providência tomou o procurador-geral da República dentre as que deveria tomar – denunciar, determinar novas diligências ou até arquivar. Tudo o que não poderia ter feito era retardar o que somente ele poderia fazer”.

O PGR, lembra Tardelli, não pode se furtar do protagonismo que a Constituição lhe confere – ele é a única autoridade com capacidade postulatória perante o Supremo Tribunal Federal. “Ele é o único arqueiro, e somente ele pode disparar sua flecha, ninguém mais”.

A ordem é cortar direitos sociais e reabilitar Bolsonaro

Reprodução X

Por Paulo Henrique Arantes

Duas frentes na batalha da direita saltam aos olhos neste momento. Uma é antiga, contínua e historicamente vitoriosa. Outra, acaba de ser deflagrada e visa a reverter uma derrota. A primeira consiste em incutir de modo cada vez mais profundo na opinião pública a certeza de que nada é mais importante do que o governo cortar gastos. Esse empenho dos rentistas cumpre os mantras neoliberais que dominaram o Ocidente ao longo de décadas, os quais estão em desuso nos países mais avançados, cientes das desgraças sociais decorrentes do modelo.

O orçamento não deve servir prioritariamente aos detentores da dívida pública, mas ao bem-estar da população, concluíram os lúcidos. Por aqui, tecnocratas, economistas e rentistas, com avassalador apoio da imprensa, vendem ao público a máxima de que nada se revolverá no país se não for promovido um arrocho fiscal. Defendem um banho de água fria numa economia que se aquece, em que o desemprego cai ao menor patamar histórico. O alerta é sobre uma possível explosão inflacionária.

Tristemente, até o governo parece ter comprado esse peixe estragado. A justificativa extraoficial para tanta dedicação do Executivo ao pacote de cortes vindouro é que, sem ele, adeus governabilidade. Resta provado que, no Brasil, ninguém, nenhuma pessoa, nenhuma instituição, detém mais poder que “o mercado”. A conferir a habilidade de Lula e Haddad para preservar direitos sociais e, ao mesmo tempo, mimar esse ente chantagista.

A segunda frente da batalha direitista é a ressuscitação de Jair Bolsonaro. Para tanto, os reacionários, os golpistas, os negacionistas, os milicianos contam com um número significativo de parlamentares e, especialmente, com a mídia tradicional. De forma inacreditável, a Folha de S. Paulo publicou num espaço de três dias uma entrevista e um artigo do ex-presidente. O capitão pôde expor livremente suas canhestras noções de democracia.

Na quinta-feira (13) foi a vez de o portal Metrópoles trazer pingue-pongue com o dito cujo. O golpista teve oportunidade de falar sobre sua candidatura em 2026 (o jornalista pelo menos lembrou-lhe de que está inelegível). Emissoras de TV também têm fornecido microfone ao morto-vivo.

É nítida a tentativa de normalizar a atuação política de um ex-presidente condenado à inelegibilidade pelo Tribunal Superior Eleitoral e em vias de sê-lo pelo Supremo Tribunal Federal por articulação de golpe de Estado, falsificação de documento (cartão de vacinação) e posse, com tentativa de venda, de joias que deveriam ser incorporadas ao acervo da Presidência da República.

Como explicar a simpatia de veículos de imprensa por um ex-governante de notória proximidade com milicianos, admirador de torturadores e ditadores? Como entender o apreço de parte da mídia por uma pessoa que responde diretamente por milhares de mortes durante a pandemia, estimulador que foi de aglomerações e do descarte de máscaras de proteção? Como aceitar que ocupe as páginas de um jornal, de forma acrítica, um político inelegível que, quando no poder, tornou o Brasil pária global? Como ignorar as reiteradas agressões verbais a mulheres e minorias em geral, e também à classe jornalística, quando no exercício do mandato?

De todo modo, a ordem está posta: obedecer a “o mercado” e ressuscitar Jair Bolsonaro.  Lula terá de ser muito mais articulado e criativo para que não vivenciemos o advento Bolsonarismo parte II, a exemplo da tragédia Trump II.

O bico policial e o assassinato de Gritzbach

Por Paulo Henrique Arantes

Quatro dos seguranças que faziam a escolta de Antônio Vinícius Gritzbach, delator do PCC assinado no Aeroporto de Guarulhos na sexta-feira (8), eram policiais militares que na oportunidade faziam bico. A imprensa explica hoje (11) que esse tipo de trabalho é vedado aos PMs, apesar de usual.

Em setembro, publicamos aqui artigo intitulado “O conveniente bico policial”, o qual explicava por que essa prática, corriqueira entre policiais, era contraproducente para a segurança pública. Rememoremos.

A pesquisa “Vitimização e Percepção sobre Violência e Segurança Pública”, obra do sempre importante Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgada em 3 de setembro, trouxe alguns aspectos que mereceriam pautas especiais da imprensa. Os colegas jornalistas não deram muita bola para o que a sondagem constatou sobre o famigerado bico policial, atividade justificada pela necessidade de aumento da renda desse profissional, porém ilegal.

A questão foi analisada com propriedade pelo professor da Universidade Estadual de Londrina Cléber Lopes, coordenador do Legs (Laboratório de Estudos sobre Governança da Segurança), na newsletter Fonte Segura, distribuída pelo FBSP.

A participação de agentes públicos é proibida tanto na prestação direta de serviços de proteção quanto na gestão de empresas privadas de segurança. A pesquisa apurou que há cerca de 30 milhões de brasileiros – 18% dos entrevistados – com mais de 16 anos residindo em bairros onde policiais realizam serviço de segurança de modo privado. Trata-se de um trabalho velado, por fora da lei.

Assim escreveu o professor: “Os policiais são um ativo valorizado por muitos no mercado de proteção. Podem ser empregados informalmente para prestar serviços de segurança em seu horário de folga sem grandes riscos trabalhistas, afinal, a ilegalidade do bico inibe a busca por direitos trabalhistas. Além disso, os policiais podem oferecer recursos que não estão disponíveis às suas contrapartes privadas (os vigilantes) da mesma forma: o porte de arma (mesmo fora de serviço), o treinamento investido neles, o contato privilegiado com outros policiais e o poder legal para impor a lei. Em conjunto, esses recursos também contribuem para dotar os policiais de poder simbólico, ou seja, a capacidade de serem vistos como portadores de soluções ‘mágicas’ para problemas de segurança”.

Os policiais que fazem bico como segurança particular portam uma autorização tácita das instituições públicas a que pertencem – mais fácil fazer vista grossa à ilegalidade do que aumentar o salário do policial.

Cléber Lopes afirma que o bico policial compromete a qualidade da segurança pública. Cria conflitos de interesse, aumenta o estresse e o risco de vitimização do profissional: “No bico, os policiais costumam trabalhar sem a retaguarda de outros policiais, sem uniforme e equipamento de proteção adequado, tornando-se assim mais vulneráveis a confrontos letais com criminosos. Esse é um dos motivos pelos quais os policiais brasileiros são mais vítimas de violência letal intencional fora de serviço do que no serviço”.

Em 2023, 60% dos policiais civis e 57% dos policiais militares assassinados o foram em horário de folga, segundo o Anuário de Segurança Pública 2024.

Como esclareceu o professor, a atuação de policiais na segurança privada, pela característica do sua função pública, viola os preceitos que deveriam nortear o trabalho particular de segurança – este, uma atividade essencialmente preventiva, sem poder coercitivo para imposição da lei. Um segurança privado não busca prender criminosos em nome da lei, mas gerencia riscos. “Ocorre que a penetração de policiais no universo da segurança privada pode fazer com que esse estilo de policiamento característico da segurança privada ceda espaço a um policiamento mais repressivo”, observa Lopes.

O tema abriga um nó de desatamento complicado. Parte da sociedade – a mais endinheirada – quer segurança privada e paga por ela; essa atividade supre parte da dificuldade financeira do policial, que ganha mal; a manutenção dessa situação é conveniente para as autoridades públicas de segurança.

Trump e a distopia patrocinada por Elon Musk

Jim Watson / AFP

Por Paulo Henrique Arantes

Todos os cientistas e analistas políticos, economistas e palpiteiros já escreveram sobre a segunda eleição de Donald Trump. Todas as projeções sobre os prováveis efeitos da catástrofe eleitoral para o mundo – especialmente para o meio ambiente – e os impactos sobre a economia brasileira já foram feitas, sendo boa parte delas pertinente, algumas bastante ingênuas, outras tantas mal-intencionadas. Quanto ao seu potencial de reverter perante o Judiciário brasileiro a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, as análises patéticas predominaram.

A Folha de S. Paulo chegou ao cúmulo de uma entrevista com o capitão débil e golpista, na qual ele externou mais uma vez sua crença na “vira-latice” do Brasil e chegou a apontar o nome do seu candidato a vice-presidente em 2026, o escorregadio Michel Temer (o vampirão, logo em seguida, descartou a hipótese), a quem também incumbiu de providenciar junto ao STF alguma maneira de recuperar seu passaporte para que compareça ao regabofe de Trump.

Tudo que envolve a eleição de um negacionista climático, mentiroso, supervaidoso, misógino, racista, xenófobo e criminoso à Presidência dos Estados Unidos reveste-se de relevância global. Porém, nada é mais grave do que sua proximidade com Elon Musk.

Musk encarna a figura do empresário megalômano que quer dominar o mundo, subjugando os povos à sua corporação, como nas histórias de James Bond, pretensamente patrocinando até a vida humana extraterrestre. Essa figura poderosa e delirante está perfeitamente retratada no filme “Não Olhe para Cima”, de 2021, dirigido por Adam McKay, do qual muito se falou na época do lançamento.  É fácil enxergar o dono da SpaceX no CEO da startup que convence a presidente americana de que a destruição parcial da Terra, a ser abalroada por um cometa, pode ser lucrativa. Como a destruição, na hora H, mostra-se total, leva-a junto com um pequeno grupo para saborear as delícias da fortuna em outro planeta.

Vale rememorar o que dissemos de “Não Olhe para Cima” tempos atrás. O filme é um deboche sobre os negacionismos que infestam o mundo, como o de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Deve muito do seu sucesso ao carisma dos atores e das atrizes escolhidos – Leonardo Di Caprio, Jennifer Lawrence, Meryl Streep, Cate Blanchet, Jonah Hill.

Tão oportuno quanto a crítica ao negacionismo, à política exclusivamente eleiçoeira e ao domínio sobre a vida na Terra exercido pelas gigantes de tecnologia é o ataque de McKay  à mídia, que se revela um antro de debiloides, incapazes de mensurar a gravidade da situação: o iminente fim do mundo.

O cinema engajado merece aplausos, especialmente quando retrata distopias possíveis. Ocorre que, com a eleição de Donald Trump e sua ligação umbilical com Elon Musk, o mundo está diante de uma tragédia mais que possível – uma tragédia provável.

Caiado defendeu confisco de vacinas na pandemia

Secom / Fotos Publicas

Por Paulo Henrique Arantes

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, é nosso velho conhecido. Nada apaga da memória o candidato a presidente que foi em 1989, quando personificava os propósitos da UDR, União de Democrática Ruralista, que nada tinha de democrática, dedicando-se diuturnamente a criminalizar o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, e a impedir qualquer avanço da reforma agrária.

Hoje, governador, despreza a iniciativa do Governo Federal de unir esforços com os Estados para aprimoramento da segurança pública, num momento em que o crime organizado ganha tentáculos empresariais e políticos. A segurança vai muito bem em Goiás, afirma. Um pacto nacional nessa área, portanto, pouco lhe interessa.

Caiado poderia compartilhar a receita goiana anticrime com as demais unidades da Federação, mas prefere as bravatas. Não é um conservador civilizado, como tenta parecer, mas um oportunista de direita.

No ápice da pandemia, o governador e médico (!) Ronaldo Caiado alinhou-se com o general que atravancava o Ministério da Saúde, Eduardo Pazuello, na busca de um fato ou factoide que referendasse a argumentação fajuta de que todos os Estados deveriam ter isonomia na vacinação contra a Covid-19.

Cogitava-se, então, que o governo baixasse uma Medida Provisória determinando o confisco de toda e qualquer vacina disponível em solo brasileiro, em nome de uma suposta imunização territorialmente igualitária – algo que obviamente seria derrubado pelo Judiciário.  A intenção era subtrair do então governador paulista, João Doria, a condição de deflagrador da vacinação no país, com a Coronavac.

Caiado lançou a ideia na mídia. Dias depois, o Governo Federal negou a intenção.

Numa guerra pandêmica, cabe aos governadores, diante da inação federal, usar as armas de que dispõem para preservar a vida de suas respectivas populações, por isso Doria agiu bem. Caiado não honrou essa prerrogativa, ou pior, atuou contra ela.

De todo modo, a ideia que golpeava a ciência e a vida nascera morta. Não por vontade do governador de Goiás, que quer ser presidente do Brasil.