Golpista aposentado, Michel Temer diz que governo Lula não tem credibilidade

Foto: Sérgio Lima/PODER 360

Por Paulo Henrique Arantes

Em evento promovido pela Fundação Ulysses Guimarães, na quinta-feira 20, Michel Temer afirmou que o problema do governo Lula é falta de credibilidade. Eis a fala do ex-presidente que se valeu de um impeachment sem crime ou quebra de decoro para chegar ao Palácio do Planalto: “Eu acho que o que está acontecendo com o atual governo é essa falta de credibilidade. E pelas mais variadas razões. Até  razões internas, daquela disputa entre ministérios ou do partido do governo com o próprio governo. Isso tira a credibilidade”.

Este jornalista entrevistou longamente o então vice-presidente da República Michel Temer, para uma revista dirigida a advogados. Naquela época pré-golpe, ele derretia-se em elogios a Dilma Rousseff: “Ela tem um estilo gerencial muito forte, de muita presença, e muitas vezes esse estilo, muito útil para o governo brasileiro, desmerece um pouco a ideia de sua habilidade política. Mas a presidente Dilma é de uma habilidade extraordinária. Eu tenho acompanhado as articulações políticas, as quais são feitas muitas vezes, evidentemente, com a minha colaboração. A suposta inabilidade política da presidente é desmentida precisamente pelo dia a dia dela com o Congresso Nacional e com os partidos políticos”.

O espírito bajulador de 2014, quando o entrevistei, daria lugar, em dezembro de 2015, à alma magoada. A famigerada carta de Temer a Dilma, praticamente justificando sua adesão ao golpe em curso, mostra que a perda de influência no governo poderia autorizá-lo à deslealdade de trabalhar, nas sombras, pela derrubada da presidente: “Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. A Senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas. 2. Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios, secundários, subsidiários. 3. A senhora, no segundo mandato, à última hora, não renovou o Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez belíssimo trabalho, elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele era uma indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a registrar este fato no dia seguinte, ao telefone. 4. No episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o Ministério em razão de muitas ‘desfeitas’, culminando com o que o governo fez a ele, Ministro, retirando sem nenhum aviso prévio, nome com perfil técnico que ele, Ministro da área, indicara para a Anac.’”

Se Temer reconhecia-se partícipe de articulações políticas em 2014, como disse a este jornalista, e em 2015 sentia-se jogado para escanteio, motivos houve. Perda de confiança por parte da presidente, que o via como um estimulador, ainda que de modo subliminar, do professo de impeachment?

Fato é que Dilma Rousseff caiu e Temer subiu. Qual a credibilidade do presidente da República Michel Temer? Ele foi depositário da esperança do povo brasileiro ou beneficiário do casuísmo-golpismo que tirou uma mulher honesta da Presidência da República? Teve a credibilidade que hoje diz que Lula não tem?

A credibilidade de Michel Temer certamente é bem alta nos saraus jurídico-políticos em que predominam as mesóclises. E no seio da alta finança. Os defensores da austeridade como fim em si estiveram eufóricos quando o governo Temer emplacou o teto de gastos, prova cabal de “credibilidade” para a Faria Lima.

Como já escrevemos neste espaço, o constitucionalista Michel Temer vilipendiou a Constituição ao promover uma reforma trabalhista totalmente descolada da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), apregoando uma “modernização” das relações de trabalho e em nome disso criando uma legião de trabalhadores informais, precarizados.

A reforma da Previdência que Bolsonaro impingiu ao país, com ajuda do Congresso mais canhestro da História da República, foi concebida pelo governo Temer. Só não emplacou naquele mandato porque o ocupante do Planalto perdeu qualquer condição de negociar com os parlamentares, denunciado que fora por corrupção após o vazamento do áudio de sua conversa macabra com Joesley “Friboi” Batista – esse é o Temer credível.

Repetimos o que já escrevemos, por oportuno: Michel Temer encarna a elite que traçou desde a proclamação da República a tragédia social brasileira. A elite do atraso, como bem definida pelo sociólogo e escritor Jessé Souza. Uma elite envernizada por uma oratória conciliadora, um discurso centrista hipócrita que mal disfarça a volúpia por privilégios, com um pé na academia e outro nos regabofes com doleiros e assemelhados.

Jair autoincriminou-se a cada palavra

Foto Nelson Almeida / AFP

Por Paulo Henrique Arantes

Jair não é uma pessoa inteligente. Ele não difere linguagem coloquial de linguagem infantil. Seu raciocínio é binário e seus argumentos, primários, quando não primitivos. É desprovido de senso de humor e suas gargalhadas soam falsas. Tosco e sem educação, incrimina-se por suas próprias palavras. Assim, Jair veio ao longo dos anos fornecendo atestados de que um ataque ao Estado Democrático de Direito comporia, sem qualquer pudor, seus planos.

Idólatra confesso de ditadores e torturadores, foi finalmente denunciado pela Procuradoria Geral da República ao Supremo Tribunal Federal, com base em um inquérito de mais de 800 páginas produzido pela Polícia Federal.

Uma perpassada por algumas das aspas com que nos brindou ao longo dos anos faz indagar: como um ser tão desumano pôde chegar ao mais alto posto da República? Pergunta dois: como um criminoso praticamente confesso manteve-se tanto tempo livre das mãos da Justiça? Pergunta três: como um propagador de mentiras tão descarado amealha tantos admiradores?

A arquitetura do golpe jairista está detalhadamente explicada na denúncia da PGR e deverá levar Jair e meia dúzia de militares à cadeia, além de outros colaboradores. O momento é oportuno para recordar como o próprio Jair construiu sua imagem de inimigo da democracia. A seguir, 11 sinais emitidos pelo capitão pouco inteligente.

“O erro da ditadura foi torturar e não matar.” Em entrevista à TV Folha (2016).

“Não vai ter nunca mais um presidente da República aqui que tenha a coragem de fazer o que foi feito em 1964.” Em live nas redes sociais (2020).

“Não vou respeitar decisões do Supremo que extrapolem suas funções.”
Durante crise institucional com o STF (2021).

“O Congresso Nacional não representa o povo brasileiro.” Frase repetida em diversos momentos, especialmente após derrotas em votações legislativas (2019-2022).

“Se eu for derrotado nas urnas, só há três alternativas: prisão, morte ou vitória.” Declaração em evento com apoiadores (2022).

“As urnas eletrônicas não são auditáveis.” Narrativa recorrente de Bolsonaro (2021-2022), sem provas.

“Se um dia o Exército resolver botar ordem nesse país, eu estarei na rua.”
Em entrevista ao programa Câmera Record (2020).

“Ou o Brasil melhora, ou acabamos indo para uma solução que nunca quis.” Live em agosto de 2021.

“A imprensa suja, golpista, corrupta, não vai calar a verdade.” Em redes sociais (2020), atacando veículos críticos ao seu governo.

“Não tem como ter eleição limpa com o sistema atual.” Durante discurso a apoiadores (2022).

“O povo não faz nada. Só reclama. Não tem poder.” Fala durante transmissão ao vivo (2020), desdenhando da capacidade de mobilização popular legítima.

O Datafolha e as caras do governo Lula

Por Paulo Henrique Arantes

O resultado da pesquisa Datafolha divulgada em 14 de fevereiro, mostrando que a aprovação de Lula caiu de 35% para 24% entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, veio sendo forjado no decurso do tempo. A inflação incômoda e o veneno extremo-direitista inoculado no mundo por Donald Trump (a manada atiça-se por psicopatas empoderados) podem explicar em parte a queda, porém menos que a nítida ação de desconstrução do governo em curso.

Nada se faz para conter as persistentes e a cada dia mais descaradas fake news nas redes sociais, enquanto a “imprensa séria” consolida-se como porta-voz do mercado financeiro. Não há popularidade que resista, não se desprezando, é claro, as deficiências reais do governo.

A estranheza da última Datafolha fica por conta da pesquisa Quaest de 3 de fevereiro, pela qual Lula venceria com tranquilidade todos seus principais oponentes de tivéssemos hoje uma eleição presidencial.

A distopia global que se anuncia pelas palavras e os atos do presidente dos Estados Unidos já foi vivida em terras brasileiras. Antes de depreciar o governo Lula, é preciso lembrar tudo que Jair Bolsonaro infligiu ao Brasil em termos de incivilidade, negacionismo, estupidez e boçalidade.

Analistas insistem em dizer que “o governo Lula não tem cara”. Digamos, em contraponto, que tem muitas caras. É preciso propagandeá-las, ousamos sugerir, adentrando o grupo dos que palpitam em comunicação.

O colega Sérgio Buarque de Gusmão poupou-nos do esforço de garimpagem ao identificar algumas das “caras” do governo Lula. Ei-las:

– em 2023, a renda domiciliar cresceu 11,5% em relação a 2022 (maior percentual em 12 anos);

– o desemprego, em 6%, é o menor já medido;

– o PIB cresceu 3,2% em 29023 e deverá crescer 3,5% em 2024;

– o salário mínimo teve aumento real de 7,5%;

– o Bolsa Família foi recriado com renda mínima de R$ 600 para 21 milhões de famílias;

– foi recriado o programa Farmácia Popular, em benefício de 24 milhões de pessoas que não podem comprar remédios;

– foi criado o programa Desenrola, que renegociou dívidas com até 90% de desconto;

– a verba da Merenda Escolas subiu de R$ 4 bi para R$ 5,5 bi, 30% dos quais comprarão alimentos produzidos pela agricultura familiar;

– foi criado o programa Escola em Tempo Integral, atendendo no primeiro momento a 1 milhão de alunos;

– criação do programa Pé de Meia, beneficiando em 2024 a 4 milhões de estudantes;

– foram investidos R$ 30 bi em projetos culturais;

– foi retomado o projeto Luz para Todos, em prol de 500 mil famílias (investimento de R$ 1,2 bi).

Há quem prefira a austeridade de Javier Milei, o sádico que “pôs nos trilhos” a economia argentina e aprofundou a fome e a miséria no país vizinho.

Armínio, aquele do juro a 45%, dá conselho a Galípolo

Por Paulo Henrique Arantes

Num evento na Casa das Garças, neste 12 de fevereiro, Armínio Fraga disse ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que a autoridade monetária precisa de ajuda da área fiscal para bem realizar seu trabalho. E assinalou: “a coisa não está bem”.

Muitas coisas não estão bem, porém quase tudo está muito melhor do que quando Armínio era o presidente do Banco Central, entre 1999 e 2002. Não se noticiou o que Galípolo respondeu ao seu interlocutor, mas poderia lhe ter lembrado que naquela profícua gestão a Selic chegou a 45% e terminou em 25%, passando de aterradora para assustadora.

Armínio pediu “ajuda à área fiscal” para promover tamanha redução da taxa básica e vender 25% como o resultado exitoso do seu trabalho? Ou nem foi preciso tanto?

Com a mídia insistindo em ouvir sempre e exclusivamente os próceres do mercado financeiro, alguém precisa mostrar teimosia e lembrar dos anos em que essa gente era governo. Costumava-se bater duro em Lula quando, na sua primeira passagem pela Presidência da República, falava de uma tal “herança maldita”.

O crescimento econômico no final dos governos do Príncipe FHC era pouco mais de 2%. O desemprego havia aumentado consideravelmente, alcançando o maior índice da década – 10,5% -, enquanto a renda per capita estagnara. A confiança de consumidores e investidores desabara, refletindo na redução do consumo e dos investimentos privados. Hoje registra-se o menor desemprego da série histórica (6,4%) e um aumento crescente da renda, com o salário mínimo tendo aumentado 7,5% em termos reais.

Apregoava-se o medo de Lula, virtual eleito para substituir Fernando Henrique. Para restaurar a confiança de “os mercados”, o governo firmou nos seus estertores um acordo com o FMI em 2002, no valor de US$ 30 bilhões e condicionado a uma genuflexão perante a ditadura da austeridade.

Ainda hoje atribuem-se os insucessos de FHC, Pedro Malan e Armínio Fraga a intempéries econômicas internacionais. Lula enfrentou em 2008 a maior crise financeira da História desde a Grande Depressão, e saiu do governo com 85% de aprovação.

Sim, a economia mudou, o mundo mudou, tudo mudou e é arriscado fazer comparações entre aquela e esta épocas. Ora, então por que a mídia – os jornalões, especialmente – só ouvem os economistas saudosos da era FHC?

“O Julgamento do Macaco” faz 100 anos

Por Paulo Henrique Arantes

“O Julgamento do Macaco” – The Monkey Trial – é o nome pelo qual ficou popularmente conhecida a momentosa causa ajuizada em 1925 pelo Estado do Tennessee, Estados Unidos, contra John Thomas Scopes, um professor acusado de ensinar a teoria de evolução a seus alunos do colegial, o que violava uma lei estadual editada naquele ano que, por razões religiosas, proibia o ensino do evolucionismo darwiniano nas escolas públicas.

A quadratura atual, em que é protagonista Donald Trump, um negacionista da ciência com milhões de idólatras, parece reviver o surto de imbecilidade de 100 anos atrás.

O fato foi tratado com o merecido sarcasmo na imprensa da época por H. L. Mencken, jornalista iconoclasta mais influente da história dos Estados Unidos, que inspirou profissionais de mídia de todo o mundo por décadas a fio. Os brasileiros Paulo Francis, já falecido, e Diogo Mainardi tentaram ser “Menckens brasileiros”. Não conseguiram.

“O Julgamento do Macaco” foi primeiro grande julgamento midiático dos Estados Unidos, tendo atraído para a cidadezinha de Dayton, com 1.800 habitantes, mais de 200 repórteres. Durante dias, a primeira página de grandes jornais do país, como o The New York Times, deram cobertura ao caso e pela primeira vez as sessões de um tribunal foram transmitidas nacionalmente, ao vivo, via rádio. A grande repercussão do caso e sua importância histórica foram posteriormente ampliadas pelo fato de o episódio ter servido de inspiração para inúmeras reconstruções artísticas: livros, peças teatrais e filmes para TV e cinema.

No cinema, o diretor Stanley Kramer contou a história. O filme “O Vento Será tua Herança” – Inherit the Wind –, de 1960, baseado em peça teatral de mesmo nome, soa um pouco descomprometido com a exatidão do relato histórico, mas reproduz de forma fidedigna o clima e o sentido do episódio.

A questão da culpa ou da inocência do professor é imediatamente abandonada como secundária e desimportante, para dar lugar ao grande embate entre religião e ciência, entre os criacionistas ou antievolucionistas e sua crença no Gênesis conforme literalmente descrito na Bíblia – e os evolucionistas e suas teorias científicas, biológicas, da evolução.

Com exatidão, o escritor Luiz Barros escreveu na Revista da CAASP, anos atrás: “Tratou-se, naturalmente, de embate candente entre posições antagônicas e irreconciliáveis. O julgamento polarizou o país entre correntes do fanatismo religioso e modernistas. Juridicamente considerado, foi um curioso julgamento no qual nenhuma das partes tinha certeza e no qual, em síntese, esteve em pauta a prova da existência de Deus”.

O julgamento estendeu-se por 11 dias. Ao estilo da ocasião e do que o tema demandava, a essência da disputa foi retórica, privilegiando o confronto dos advogados no campo da oratória. A atuação dos jornalistas, por sua vez, privilegiava a propaganda modernista contrária à tradição religiosa. Mencken esteve lá.

Dois dos mais famosos advogados americanos deslocaram-se até a cidadezinha sulina para atuar na causa. O advogado William Jennings Bryan, conhecido político religioso conservador, que por três vezes havia sido candidato à presidência dos Estados Unidos, assumiu o papel de principal acusador ao réu, atuando junto ao promotor local. Pela defesa, atuou o igualmente célebre advogado Clarence Darrow, militante da União Americana pelas Liberdades Civis e um dos mais famosos oradores do país.

Destacando-se em meio a seus colegas de imprensa, foi marcante a atuação de Mencken. De sua pena irreverente teria saído, inclusive, o nome satírico pelo qual o julgamento é conhecido até hoje: The Monkey Trial. O filme resvala no sarcasmo e na irreverência do jornalista, mas é bem menos apimentado que os escritos de Mencken.

O diretor Stanley Kramer – o mesmo de “Julgamento em Nurenberg”, outra pérola jurídico-cinematográfica – reconstitui o clima do julgamento valendo-se de uma trinca de excepcionais atores para os papéis centrais: Fredrick March e Spencer Tracy, como os advogados, e Gene Kelly como o jornalista.

Logo após a promulgação da lei que proibia o ensino da evolução nas escolas e universidades do Tennessee, a influente União Americana pelas Liberdades Civis publicou um anúncio oferecendo apoio a quaisquer professores que se dispusessem a romper a lei e submeter-se a um julgamento “teste” sobre a proibição. O ocorrido não aparece no filme.

Um grupo de cidadãos de Dayton teria visto nisso uma boa oportunidade de publicidade para sua cidadezinha esquecida e tomado a iniciativa de envolver o professor na trama, que, consultado, aceitou sujeitar-se ao papel. Em função disto, ainda hoje, na internet há denúncias de inspiração religiosa fundamentalista visando a desqualificar o “Julgamento do Macaco” como sendo uma farsa publicitária.

Trump propõe genocídio e limpeza étnica em Gaza, afirma professor de Direito Internacional da USP

Foto Mike Stone / Reuters

Por Paulo Henrique Arantes

O anúncio cataclísmico do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que irá atuar ao lado de Israel para remover os palestinos da Faixa de Gaza estarreceu o mundo civilizado. Ainda que por ora limitada a um discurso, a ideia prenuncia um ato que constituirá genocídio e limpeza étnica. No Direito, praticamente não há polêmica quanto a isso.

“A ideia é tão estapafúrdia que eu, como um internacionalista, fico constrangido ao responder qualquer questão atinente a essa proposta, porque é flagrantemente contrária às normas fundamentais do Direito Internacional em vigor, que foram construídas inclusive pelos Estados Unidos”, afirma Wagner Menezes, professor de Direito Internacional Comparado da Faculdade de Direito da USP e recém-nomeado membro do quadro de árbitros da ONU.

Segundo Menezes, a proposição de Trump contém “um caráter gravíssimo de ilicitude”, considerando-se tudo que a sociedade humana construiu ao longo do seu processo civilizacional. “A proposta tem um fundo de barbárie e de desrespeito aos elementos fundamentais que estruturam o Direito Internacional. Esse tipo de deslocamento de pessoas é absolutamente condenável e configura crime de genocídio e limpeza étnica”, avalia o professor.

Do ponto de vista do Direito Internacional, falar besteira, ainda que seja vergonhoso, não é um ilícito, registre-se. Haverá ilícito se as palavras do insano mandatário americano forem levadas adiante. “O que existe, por ora, é um discurso absolutamente indefensável”, salienta Menezes.

O tempo dirá se Trump comete uma bravata – no melhor estilo Steve Bannon, marqueteiro-guru da extrema direita global, de provocar tumulto com fins diversionistas – ou se intenciona de fato praticar uma desumanidade histórica. Em tal cenário, pergunta-se: o que um organismo como a ONU pode fazer para contê-lo?

“Na realidade, todo sistema que é criado dentro de um processo civilizacional, do reconhecimento do Direito, da observância das normas, é limitado justamente pela força. Existe um espaço de tensão entre a força e o Direito. O Direito não pode tudo, e as instituições globais também não”, explica Wagner Menezes. Ou seja, os meios de que dispõe a ONU para coibir arroubos contra a humanidade tornam-se inócuos diante da opção intransigente pela força de um ente global poderoso.

Como explica Menezes, no âmbito das Nações Unidas existem mecanismos jurídicos limitantes da ação dos Estados, porém, “a base do reconhecimento do Direito Internacional é essencialmente a compreensão civilizacional”. Essa é a chave da questão: no caso em tela, não se está lidando com alguém que possua compreensão normal do avanço civilizacional, das conquistas humanas no decorrer dos séculos.

“Não estamos lidando com discursos racionais”, sentencia o professor.

De todo modo, pondera Wagner Menezes, os organismos internacionais não são decorativos, imagem que de uns tempos para cá se tenta pespegar na ONU e na OMS (Organização Mundial da Saúde), por exemplo.  “Eles são fundamentais. Veja: na pandemia, com todas as críticas que nós pudemos perceber, a OMS foi fundamental, no final, para a imunização. A ONU é importantíssima, vital. Imagine se não tivesse a ONU? Qual o tipo de sustentáculo institucional nós teríamos? Apenas a barbárie, a guerra, opressão, o emprego de força”.

Rei do Lixo nas mãos do ministro-biscoito

Foto: Carlos Moura / STF

Por Paulo Henrique Arantes

Luís Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal, manteve nas mãos do ministro Kássio Nunes Marques a relatoria da Operação Overclean, que apura desvios de recursos de emendas parlamentares e tem potencial para incomodar medalhões do Congresso. Diz a imprensa que os congressistas comemoram a decisão de Barroso. Bidu.

A Overclean sob Nunes Marques ameniza eventuais mal-estares entre Parlamento e Judiciário. Ou seja: um juiz condescendente com malfeitos – como supõem os próprios parlamentares – é necessário para que os dois Poderes convivam de modo republicano.

 “Membro do Centrão no STF”, assim é visto Nunes Marques.

Barroso agiu mal, e sua atitude parece reflexo do medo. O presidente da mais alta corte do país não quer melindrar deputados e senadores.

Por que a relatoria da Overclean – ou o caso “Rei do Lixo” – não foi remetida ao ministro Flávio Dino, sob o cuidado de quem já se encontram outros processos relacionados com destinações orçamentárias e emendas parlamentares?

Ouvimos o jurista Lênio Streck há poucos dias. Ele nos disse, com a clareza que o caracteriza: “Se existem destinações orçamentárias, há conexão de crimes. Logo, a competência deve ficar onde tudo começou – com o ministro Dino. É uma questão de regra de processo”.

A própria Polícia Federal afirma haver elementos que conectam a Operação Overclean a outros processos já relatados por Dino, o que exigiria um olhar unificado sobre as investigações.

Feita a gentileza de Barroso ao Congresso, vale rememorar um caso emblemático da magistratura praticada por Kássio Nunes Marques para antever seu voto no caso Overclean-Rei do Lixo.

Em 2022, numa decisão em que devolveu o mandato parlamentar a Fernando Francischini, contumaz disseminador de fake news durante o período eleitoral, Nunes Marques mostrou nada saber sobre plataformas digitais, meios de comunicação tradicionais e a maneira como as fake news repercutem. Para ele, seria desproporcional equiparar WhatsApp, Facebook e Instagram – redes usadas pelo deputado bolsonarista – com jornais, rádios e TVs, daí a fazer vista grossa às fakes de Francischini.

Em primeiro lugar, mentiras e boatos existem desde sempre, bem como sua disseminação – é claro que nunca tiveram o acabamento formal e as estratégias de agora.  Ocorre que a comunicação digital, especialmente nas redes sociais e aplicativos de mensagem, opera mediante um poder de multiplicação inigualável. Assim havia entendido o Tribunal Superior Eleitoral, que cassara o mandato de Francischini. 

Para a sorte de todos, a 2ª Turma do STF derrubaria a liminar de Nunes Marques em favor de Francischini.

À época, chamamos Kássio Nunes Marques de “ministro-biscoito”. A alcunha está dentro do prazo de validade.

Perguntava-se há coisa de 40 anos se um biscoito vendia mais porque estava sempre fresquinho ou estava sempre fresquinho porque vendia mais. A questão encafifou o público da televisão. Como tudo na vida, as grandes indagações evoluem e hoje temos até ministros do Supremo Tribunal Federal a motivá-las, em detrimento da publicidade de alimentos. 

Pergunta-se se Kássio Nunes Marques votará ao arrepio do Direito para servir a parlamentares envolvidos em desvio de verbas ou se servirá a esses parlamentares porque costuma votar ao arrepio do Direito. Claro, na prática, dá no mesmo.

Afinidade ideológica com Trump deverá manter Allan dos Santos a salvo nos Estados Unidos

Por Paulo Henrique Arantes

Foragido da Justiça brasileira e com o passaporte cancelado pelo Itamaraty, o blogueiro e youtuber olavo-bolsonarista Allan dos Santos poderia, sem maior polêmica, ser extraditado pelo governo americano, que deporta milhares de pessoas sem passivo judicial diariamente. O pedido de extradição está formalizado pelo governo brasileiro desde que sua prisão preventiva foi determinada pelo Supremo Tribunal Federal, em outubro de 2021, e Allan não obteve, nos Estados Unidos, a condição de asilado político. Donald Trump continuará a abrigar ilegalmente um dos maiores disseminadores de ódio e golpismo da internet?

“Se a situação de Allan dos Santos está irregular, ele pode sofrer uma detenção por parte das autoridades americanas e ser colocado na fila de deportação. Ou então as autoridades norte-americanas podem receber o pedido de extradição, como já receberam, ponderar sobre o caso, determinar a sua prisão e entregá-lo para as autoridades brasileiras para ser julgado” – essa é a ponderação de Wagner Menezes, professor do Departamento de Direito Internacional Comparado da Faculdade de Direito da USP e recém-nomeado membro do quadro de árbitros da ONU.

Sem vontade política, contudo, nada disso acontecerá, como explica Menezes: “Pode ser que determinado país não queira entregar um indivíduo para outro país por razões ideológicas ou por entender que aquele indivíduo é um injustiçado, um perseguido. Aí, o Estado pode conceder asilo ou refúgio – não parece que seja o caso do Allan dos Santos”.  Ou seja, sem ter obtido asilo político, o medievo youtuber vai ficando por lá numa espécie de limbo migratório. Sua situação não combina com a ânsia por deportações do governo Trump, mas está absolutamente afeita ideologicamente ao reacionarismo do presidente americano.

Allan dos Santos constitui a mais perfeita personificação do ativismo bolsonarista. Junta o negacionismo e a estupidez de Olavo de Carvalho, de quem era baba-ovo, com a truculência dos filhos de Jair Bolsonaro.  Sua mais recente empreitada, a revista eletrônica Timeline, obra conjunta com o ex-global Luís Ernesto Lacombe, teve as contas nas redes sociais bloqueadas pelo STF, que freou o show de horrores.

Rememorar a trajetória de Allan dos Santos é percorrer a linha do tempo do golpismo. Ele participou ativamente do movimento pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Chegou a passar inacreditáveis 30 dias acampado em frente ao Congresso ao lado da deputada Bia Kicis (PL). Seu portal Terça Livre, há tempos devidamente fora do ar, recebia 100 mil reais por mês de doadores bolsonaristas.

No STF, Allan dos Santos é alvo de dois inquéritos: um, por divulgação de fake news e ataques a integrantes da corte, e outro, a pedido da Procuradoria-Geral da República, que apura organização e financiamento de atos contra o Estado Democrático de Direito. O sujeito foi ainda denunciado pelo Ministério Público Federal por ameaças ao então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso.

Em setembro de 2020, foram reveladas conversas entre Allan e o tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens do presidente Jair Bolsonaro, em que o blogueiro dizia que “as Forças Armadas precisam entrar urgentemente”. Em 5 de outubro de 2021, o ministro Alexandre de Moraes determinou a prisão preventiva do blogueiro, atendendo a solicitação da Polícia Federal. Allan dos Santos já estava nos Estados Unidos, e Moraes ordenou ao Ministério da Justiça que deflagrasse de imediato processo de extradição, assim como a inclusão do mandado de prisão na lista da Difusão Vermelha da Interpol.

Era ainda o governo Bolsonaro e o procedimento para inclusão de Allan na lista da Interpol causou exonerações no Ministério da Justiça. A burocracia para tal trâmite foi propositalmente intensificada no âmbito do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, órgão da pasta responsável por extradições. Em 2023, já no governo Lula, o Ministério da Justiça providenciou a documentação que faltava par inclusão de Allan dos Santos na lista da Interpol. Até agora, nada.

Manga, o prefeito-modelo da imbecilidade

Por Paulo Henrique Arantes

O prefeito de Sorocaba (SP), Rodrigo Manga (Republicanos) é mesmo um pândego. E um tanto oportunista, sempre na direção dos ventos moderninhos da nova – e extrema – direita. Seu discurso é o do empreendedorismo individual, mas sua gestão é assistencialista. Quando Pablo Marçal perdeu a eleição para prefeito de São Paulo, o alcaide sorocabano convidou-o a assumir uma pasta do seu secretariado. Marçal não deu bola, mas Manga fez o seu carnaval habitual nas redes sociais.

Em outra explosão de patetice, Manga aproveitou-se da eleição de Donald Trump para ir às redes anunciar um decreto promovendo o intercâmbio entre políticos, empresários e estudantes brasileiros e americanos, oferecendo a “estrutura de Sorocaba” para “troca de experiências”.  Sabe-se lá o que é isso exatamente, mas o que importa, afinal, é a resposta do Instagram.

Afora o circo que promove, Rodrigo Manga tem um sério passivo da pandemia. Ele estimulou a prescrição do kit-cloroquina nos postos de saúde da cidade, até que a Vara da Fazenda Pública daquela Comarca determinasse à Prefeitura interromper as propagandas institucionais do famigerado tratamento precoce da Covid-19.

“Exige-se extrema responsabilidade do gestor público na divulgação de dados, sobretudo diante do estágio crítico atualmente vivenciado, estando o Estado de São Paulo na fase vermelha depois de sair de uma fase emergencial. Nesse panorama, qualquer publicação que veicule a eficácia de um tratamento contra a Covid-19 deve se basear em estudos rigorosos, com todas as pesquisas exigidas, o que não se vê nas publicações municipais, com dados frágeis, sem comprovação científica ou recomendação da agência de saúde”, ensinou então a juíza Karina Jemengovac Perez.

À época, sorocabanos conscientes que somos, conversamos com médicos da rede pública municipal, cuja maioria evitava dar entrevistas. Um deles, ouvido sob condição de anonimato, disse que muita gente chegava ao hospital influenciada pela propaganda enganosa da Prefeitura e pedia a prescrição do kit-cloroquina. Quantas vidas foram perdidas aí?

O evangélico Rodrigo Manga ultrapassa qualquer limite. Recentemente, despejou água benta no Rio Sorocaba como medida preventiva contra inundações. E o sujeito foi reeleito com cerca de 70% dos votos no primeiro turno da última eleição municipal. De fato, dadas certas semelhanças entre eleitores sorocabanos e americanos, o intercâmbio proposto pelo alcaide pode ser um sucesso.

Investimento estrangeiro no Brasil: Folha foi a Davos para confirmar uma mentira

Por Paulo Henrique Arantes

A indescritível Folha de S. Paulo mandou sua reportagem ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, e concluiu, com direito a chamada destacada: ninguém dá bola para o Brasil, país que afugenta os investidores por estar em situação de risco fiscal. A turma da bufunfa só quer saber de Donald Trump.

A coisa funciona da seguinte maneira. O diretor do jornal diz para o editor de Economia, ou de Internacional, que é necessário pintar o Brasil como país alheio ao círculo do dinheiro mundial. O editor manda o repórter ouvir gente que confirme esse isolamento – não importa, é claro, se a premissa é verdadeira ou falsa.

A reportagem da Folha foi a Davos e colheu aspas do CEO do Nubank, do economista-chefe do Itaú Unibanco, do CEO da Be8 e concluiu que “o Brasil está fora do radar internacional”.

Desprezando regra básica do jornalismo, a Folha não se municiou dos dados mais recentes sobre investimento estrangeiro no Brasil antes de embarcar para Davos. Ou esqueceu que em novembro de 2024 a Moody’s elevou a nota de crédito soberano do país, de Ba2 para Ba1. O presidente da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), Jorge Viana, declarou: “O país está voltando a disputar o mundo e a se apresentar como parceiro confiável para quem quer realizar investimentos seguros e inovadores. O Brasil poderá alcançar US$ 1 trilhão no fluxo anual de investimentos até 2026”.

Exatamente em 25 de novembro de 2024, anunciou-se um saldo do IDP (Investimento Direto no País) de US$ 61,3 bilhões acumulados de janeiro a outubro, em alta de 6,2% em relação ao mesmo período de 2023. Dias antes, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) informava que o Brasil fora o segundo país que mais recebera fluxo de investimento estrangeiro direto nos primeiros meses do ano, atrás apenas dos Estados Unidos.

Ao término de 2024, veio a confirmação do cenário positivo. No mês de dezembro, os investimentos diretos no país alcançaram US$ 2,765 bilhões, perfazendo um saldo do IDP no ano US$ 71,070 bilhões, informou o Banco Central na sexta-feira, 24 de janeiro de 2025. A alta é de 13,82% em 2024 em comparação com 2023.

Para sorte do Brasil, o investidor estrangeiro ignora o que publica a Folha de S. Paulo.