Uma entrevista com Milton Hatoum, eleito para a Academia Brasileira de Letras

Foto: Ricardo Bastos.

Por Paulo Henrique Arantes

Milton Hatoum acaba de ser eleito para ocupar a Cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras, que foi de Cícero Sandroni. Bons ares sopram sobre a confraria fundada em 1897. Nada contra compositores e jornalistas tornarem-se imortais, como virou hábito, mas a Casa de Machado de Assis se engrandece toda vez que escolhe um escritor de verdade para compor seus quadros.

Milton Hatoum não é apenas um dos grandes escritores do Brasil. É um intelectual ciente de seu papel político, comprometido com a democracia, preocupado em não deixar morrer na memória o horror da ditadura civil-militar que oprimiu o país por 21 anos.

Era setembro de 2018, às vésperas da eleição de Jair Bolsonaro, quando este jornalista entrevistou Hatoum para uma revista de saudosa lembrança. Reproduzimos aqui um breve trecho da conversa, em que o escritor expõe sua consciência social, confirmando-se como um dos grandes nomes da literatura que não faz vista grossa à política, mas se engrandece compreendendo-a.

Você acaba de receber o Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano. Qual o papel dos intelectuais neste momento por que passa o país?

 Quando a democracia é ameaçada, por exemplo com alusões a fraude nas eleições, com manifestações de alguns militares, com sinais explícitos de autoritarismo e obscurantismo, eu acho que os intelectuais, os escritores, os artistas e a sociedade de modo geral devem se empenhar em garantir o processo democrático. De modo geral, o intelectual deve ter uma visão humanista, de compreensão dos valores, de compreensão da História, das contradições sociais, das injustiças. A perspectiva humanista é aquela de que fala um grande intelectual palestino americano, Edward Said, em um livro brilhante chamado “Humanismo e Crise Democrática” – eu acho que, inclusive, é um livro que interessa aos advogados. Ele tem outro livro, chamado “Representações do Intelectual”, que por sinal eu traduzi. A perspectiva do intelectual humanista é sempre dizer não ao poder, falar a verdade ao poder, sem escamotear a verdade e sem ser fiel aos dogmas.

Sem proselitismo partidário, suponho.

Sem proselitismo partidário e, também, sem ser fiel às religiões. Às vezes você se refugia num dogma ou numa religião ou num partido para escamotear verdades. Eu acho que não é esse o papel do intelectual. Nesse aspecto, eu concordo com Edward Said.

Há uma corrente intelectual no mundo denunciando novas formas de solapar a democracia, mediante conspirações sem uso das armas. Inclusive, o livro mais falado do momento é “Como as Democracias Morrem”, de Steven Levitsky. Você enxerga essa tendência?

Acho que são ondas cíclicas, que vão e voltam, dependendo muito da crise do capitalismo, de uma crise sistêmica do próprio capitalismo. Na Europa, a ascensão da extrema direita se deve muito à questão dos refugiados, do desemprego e da crise econômica de modo geral. Uma das teses mais simplórias da extrema direita francesa, do Le Pen e da filha dele, é a de que se você tirar os cinco milhões de árabes da França, entre argelinos, marroquinos, negros e africanos, você resolve o problema.

Como se a tragédia social nas ex-colônias francesas não fosse responsabilidade dos próprios colonizadores…

… e como se De Gaulle, depois da guerra, não tivesse contemplado essa entrada de imigrantes. A Europa e os Estados Unidos precisam de mão de obra. Os Estados Unidos foram construídos por imigrantes. O Brasil também, em parte, com o trabalho do escravo africano, dos índios e dos imigrantes – São Paulo simboliza isso, é uma cidade de imigrantes estrangeiros e migrantes brasileiros, de todas as regiões do Brasil. São Paulo é este caldeirão enorme de imigrações. No Brasil, eu acho que há uma particularidade. Um dos candidatos a presidente, como não tem argumento nenhum, como ele é raso intelectual e moralmente, ele insiste na violência como arma, para usar uma palavra que ele endeusa. Ele usa argumentos simplórios e perigosíssimos para barrar a violência. Usa o argumento da anticorrupção ao mesmo tempo em que tinha empregados fantasmas em seu gabinete. É uma mentalidade obscurantista e saudosa da ditadura.

A ditadura civil-militar brasileira é bastante presente em sua obra.  O que há de autobiográfico nela?

O meu primeiro romance, “Relato de um Certo Oriente”, não fala nada da ditadura. “Dois Irmãos” tem uma cena violenta de um professor que é preso e assassinado. A ditadura aparece mais em “Cinzas do Norte” e, agora, em “A Noite da Espera”. Eu vivi dos 12 aos 20 anos, quando fui embora do Brasil, sob uma ditadura. Minha juventude foi vivida na ditadura, e isso me marcou muito. Eu morei em Brasília, muito jovem. Saí de Manaus com 15 anos, fui morar sozinho em Brasília para cursar o ensino médio e depois entrar na UNB para estudar arquitetura. Saí de uma cidade relativamente pacata, provinciana, e comecei a morar em uma cidade cujo ambiente era muito repressivo, muito opressivo. Foi na época do A.I. 5, com várias invasões à universidade, com prisões sistemáticas, desaparecimentos. Isso foi muito marcante para mim. Agora, “A Noite da Espera” não é um romance político. O drama do narrador, Martim, é um drama subjetivo, é a perda da mãe, é a separação da mãe que se apaixonou por outro homem, um artista, e deixou o pai, um engenheiro muito conservador, que então sai de São Paulo e vai morar com o filho em Brasília. E aí há uma tensão entre eles também. O pai é um ressentido, um homem que foi traído, e naquela época as separações não eram tão comuns em famílias de classe média do (bairro paulistano do) Paraíso. Eu comecei a pensar neste romance quando ainda morava na França e na Espanha.

Por que a mídia gosta tanto de Armínio Fraga?

Por Paulo Henrique Arantes

Ganha uma coxinha quem responder por que a imprensa brasileira gosta tanto de Armínio Fraga, ouve-o sobre todos os assuntos, trata-o como fonte de sabedoria. Fosse Armínio consultado sobre o vai-e-vem do mercado financeiro, vá lá, pois esse é seu campo de atuação. Mas o ex-presidente do Banco Central é chamado a dar pitacos sobre tudo.

Claro, Armínio não poderia deixar de ser convocado a falar sobre o ataque trumpista ao Judiciário brasileiro e o tarifaço.

Em O Globo, o guia intelectual respondeu assim a uma pergunta sobre o impacto do tarifaço sobre o PIB brasileiro: “Acho que o impacto sobre o PIB brasileiro vem muito mais de questões internas do que externas. Algum impacto é provável, não está muito claro que vai ter um enorme impacto, pode ser setorialmente. Nossos problemas enormes estão aqui dentro. É a situação fiscal, o Banco Central abandonado, sem apoio fiscal, com esses juros altíssimos. É a situação da segurança, é a situação da corrupção. Isso é tudo coisa nossa”.

Com pouca sutileza, disse o que ele e sua turma da Faria Lima dizem sempre. Que o país gasta muito, e esse é o nosso grande problema, maior ainda que a draconiana imposição de Donald Trump.

Armínio Fraga não deveria ser convidado a falar sobre temas inerentes ao setor produtivo, pois nunca fez parte dele. O iluminado guru da mídia neoliberal trabalhou como economista-chefe e gerente de operações no Banco de Investimentos Garantia; foi vice-presidente do Salomon Brothers em Nova York, diretor-gerente do Soros Fund Management. Fundou a Gávea Investimentos, uma gestora de recursos focada em fundos multimercados e private equity. Jamais fabricou um parafuso ou plantou um pé de café.

Acerca de seu papel como presidente do Banco Central, nos anos FHC, reproduzimos a seguir artigo publicado recentemente neste espaço. Vale rememorar.

Num evento na Casa das Garças, neste 12 de fevereiro, Armínio Fraga disse ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que a autoridade monetária precisa de ajuda da área fiscal para bem realizar seu trabalho. E assinalou: “a coisa não está bem”.

Muitas coisas não estão bem, porém quase tudo está muito melhor do que quando Armínio era o presidente do Banco Central, entre 1999 e 2002. Não se noticiou o que Galípolo respondeu ao seu interlocutor, mas poderia lhe ter lembrado que naquela profícua gestão a Selic chegou a 45% e terminou em 25%, passando de aterradora para assustadora.

Armínio pediu “ajuda à área fiscal” para promover tamanha redução da taxa básica e vender 25% como resultado exitoso do seu trabalho? Ou nem foi preciso tanto?

Com a mídia insistindo em ouvir sempre e exclusivamente os próceres do mercado financeiro, alguém precisa mostrar teimosia e lembrar dos anos em que essa gente era governo. Costumava-se bater duro em Lula quando, na sua primeira passagem pela Presidência da República, falava de uma tal “herança maldita”.

O crescimento econômico no final dos governos do Príncipe FHC era pouco mais de 2%. O desemprego havia aumentado consideravelmente, alcançando o maior índice da década – 10,5% -, enquanto a renda per capita estagnou. A confiança de consumidores e investidores desabara, refletindo na redução do consumo e dos investimentos privados. Hoje registra-se o menor desemprego da série histórica (6,4%) e um aumento crescente da renda, com o salário mínimo tendo aumentado 7,5% em termos reais.

Apregoava-se o medo de Lula, virtual eleito para substituir Fernando Henrique. Para restaurar a confiança de “os mercados”, o governo firmou nos seus estertores um acordo com o FMI em 2002, no valor de US$30 bilhões e condicionado a uma genuflexão perante a ditadura da austeridade.

Ainda hoje atribuem-se os insucessos de FHC, Pedro Malan e Armínio Fraga a intempéries econômicas internacionais. Lula enfrentou em 2008 a maior crise financeira da História desde a Grande Depressão, e saiu do governo com 85% de aprovação.

Sim, a economia mudou, o mundo mudou, tudo mudou e é arriscado fazer comparações entre aquela e esta época. Ora, então por que a mídia – os jornalões, especialmente – só ouvem os economistas saudosos da era FHC?

A volta do pato golpista à Fiesp

Alan Santos / PR

Por Paulo Henrique Arantes

Paulo Skaf estará de volta ao comando da Fiesp a partir de 1º de janeiro de 2026. É pena que o setor industrial paulista, quando mais precisa de modernidade e comprometimento com o novo industrialismo proposto pelo governo Lula, caia de novo nas mãos de um oportunista alinhado com a pior direita brasileira.

As manifestações de afeição a Jair Bolsonaro proferidas por Paulo Skaf sempre foram eloquentes. Em 4 de outubro de 2018, então candidato ao governo de São Paulo pelo MDB, Skaf afirmou que “não ficaria neutro em hipótese nenhuma “ e que “meu apoio será para Jair Bolsonaro”, destacando que uma vitória do capitão no primeiro turno “seria boa para o Brasil” e representaria “seriedade absoluta, sem corrupção”.

Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial de 2022, Skaf declarou: “Bolsonaro pode falar o que não deve, mas faz o que deve ser feito”.  Fiel aos mantras liberaloides, ressaltou a importância de menos Estado, menos impostos e menos burocracia — princípios que ele afirmava serem defendidos por Bolsonaro, demonstrando desconhecer a notória ausência de qualquer conhecimento econômico pelo golpista.

Mas a figura de Paulo Skaf está indelevelmente ligada àquela ridícula imagem do pato amarelo de 22 metros que, disfarçado de opositor à recriação da CPMF, em 2015, queria mesmo era derrubar a presidenta Dilma Rousseff. Além de golpista, o patão era plágio.

O artista holandês Florentijn Hofman acusou a Fiesp de copiar descaradamente “The Rubber Duck”, que percorreu diversas cidades do mundo a partir de 2007, entre as quais São Paulo, Osaka, Sydney, Los Angeles e outras, levantando uma bandeira que nada tinha a ver com a de Skaf. Isso fez com que, a além da acusação de cópia, o autor alegasse deturpação do sentido de sua obra pela Fiesp.

O pato de Hofman, segundo ele próprio, pretendia “fazer as pessoas sorrirem e lembrarem que, apesar das diferenças culturais, todos compartilham lembranças de infância”.

Aquelas manifestações amareladas na Avenida Paulista são de triste memória, tanto pelo grau de enganação a que eram submetidos os manifestantes incautos quanto pelo alto teor de fascismo / golpismo dos demais. Tais eventos foram brilhantemente descritos pela escola de samba carioca Paraíso do Tuiuti no carnaval de 2018, que desfilou com uma das alas intitulada “Manifestoches”, sob o belo enredo que perguntava se a escravidão fora de fato extinta no Brasil.

A face parlamentar do golpismo e o futuro de Hugo Motta

Foto Marina Ramos / Câmara dos Deputados

Por Paulo Henrique Arantes

O Congresso Nacional, hoje, é uma piada de mau gosto que achincalha a democracia brasileira. A desfaçatez com que deputados e senadores – a maioria deles – avançam sobre o orçamento, trabalham pela própria impunidade e pela de Jair Bolsonaro é estarrecedora. Os presidentes da Câmara e do Senado oscilam entre a malícia regimental, chantagens e omissões. O Legislativo adquire a face do golpismo bolsonarista.

O Projeto de Lei do deputado Sóstenes Cavancante (PL-RJ) que busca impedir o afastamento cautelar de parlamentares, alterando o artigo 319 do Código Penal para estabelecer que apenas a Casa Legislativa, por maioria absoluta, possa autorizar medidas cautelares — inclusive busca e apreensão – reveste-se de um cinismo corporativo ímpar. Trata-se de proposta flagrantemente inconstitucional por derrubar o princípio republicano da igualdade perante a lei.

Com igual falta de vergonha, a preferência de parlamentares por serem julgados pelo Supremo Tribunal Federal ou por instâncias judiciais inferiores tem variado, no curso da História, conforme os ventos políticos.

A Constituição de 1988 instituiu o foro por prerrogativa de função, conferindo a deputados e senadores, desde a diplomação, julgamento exclusivo no STF, mesmo para crimes comuns, com limitações apenas em casos flagrantes de crime inafiançável. Em 2013, a Proposta de Emenda Constitucional número 10 propôs extinguir o foro especial, mantendo-o apenas para os presidentes dos três Poderes da República. A PEC foi aprovada no Senado e dormitou na Câmara.

Em 2017, a PEC 333, em tramitação, propôs a limitação da prerrogativa de foro a cinco autoridades da República – presidente, vice-presidente, presidente do STF, presidente da Câmara e presidente do Senado.

É vexatória a tentativa atual do Parlamento de impedir afastamentos cautelares de seus membros, como é vexatória a intenção de anistiar os criminosos do 8 de Janeiro, esta com o risível objetivo de livrar Bolsonaro da cadeia. Claríssimo está que crimes contra o Estado Democrático de Direito não podem ser anistiados. Qualquer lei nessa direção será declarada inconstitucional pelo Supremo, à semelhança do caso Daniel Silveira, indultado por Bolsonaro e devolvido à pena pela corte.

Num cenário em que predomina o instinto de autopreservação, destaca-se a tibieza do presidente da Câmara Hugo Motta. Sua resposta à tomada da mesa diretora por amotinados é, no mínimo, canhestra. Mas não surpreende.

Já escrevemos neste espaço que Motta sofre da Síndrome do Conciliador Cativo, patologia que acomete moderados os quais, para sobreviverem politicamente, se submetem à lógica autoritária de seus aliados.

Com os parágrafos abaixo finalizamos texto sobre o tema recentemente publicado:

Um exemplo acabado de conciliador cativo, além de Motta, é o ex-presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos Kevin McCarthy, que se apresentava como moderado e “homem do diálogo” dentro do Partido Republicano, tendo sido eleito com promessas de governabilidade bipartidária.

No exercício da presidência da casa legislativa, entretanto, fez repetidas concessões à extrema-direita trumpista para se manter no cargo, incluindo abertura de processo de impeachment sem provas concretas contra o presidente Joe Biden. McCarthy também permitiu que parlamentares extremistas ditassem a pauta e usassem o Congresso como palco de desinformação. Acabou destituído por seu próprio partido ao perder o controle de sua ala mais radical.

Ameaça da Embaixada americana à soberania brasileira merece resposta contundente

Por Paulo Henrique Arantes

A imprensa brasileira revela-se a cada dia mais acrítica, pelo menos em relação aos ataques dos Estados Unidos à soberania brasileira. Claro, qualquer coisa que venha do Governo Trump, direta ou indiretamente, não causa surpresa, mas a postagem da Embaixada americana em rede social ameaçando o Supremo Tribunal Federal ultrapassa qualquer patamar de tolerância diplomática. A mídia noticiou o fato com certo desdém.

Vejamos a absurda ameaça:

“O ministro Moraes é o principal arquiteto da censura e perseguição contra Bolsonaro e seus apoiadores. Suas flagrantes violações de direitos humanos resultaram em sanções pela Lei Magnitsky, determinadas pelo presidente Trump. Os aliados de Moraes no Judiciário e em outras esferas estão avisados para não apoiar nem facilitar a conduta de Moraes. Estamos monitorando a situação de perto”.

Uma instância diplomática, no caso, uma Embaixada, não deveria aderir tão descaradamente aos gestos imperialistas de um presidente. Trata-se de um comportamento inaceitável sob quaisquer justificativas. Constitui violação de princípios fundamentais do Direito Internacional – os princípios da não-intervenção e da autodeterminação dos povos.

Trata-se de um ato cujo teor ofensivo exige resposta contundente.

Especialistas em Direito Internacional ouvidos por Noticiário Comentado foram unânimes em afirmar que o governo brasileiro deveria chamar o responsável pela Embaixada americana para esclarecimentos. Em seguida, expulsar os diplomatas americanos do país por atentado contra a ordem pública e a soberania nacional.

Numa medida extrema, mas não descabida, o governo do Brasil deveria chamar de volta ao país os seus diplomatas que se encontram nos Estados Unidos, o que seria quase “uma declaração de guerra”. Resta perguntar: mas já não existe uma “guerra” declarada do governo Trump contra o Brasil?

O que não se pode aceitar é que tamanha agressão seja tratada como um mero tuíte descartável.

Bolsonaro e a estratégia psicopática da vitimização

Por Paulo Henrique Arantes

Psicopatas são ágeis em manipular a narrativa emocional, inclusive fingindo-se de vítimas. Aparentam arrependimento ou fragilidade para desviar-se da culpa. Vitimizam-se não apenas para gerar empatia, mas também confusão no interlocutor. Sua estratégia é inverter os papéis, acusando quem os confronta de perseguição ou injustiça. É Jair Bolsonaro esculpido em Carrara.

A coluna buscou os traços do psicopata que se vitimiza quando acuado. Encontramo-los em estudos de Wheeler, Book e Costello, de 2009, sobre percepção de vulnerabilidade; e de Babiak e Hare, de 2006, acerca de bullying e manipulação social.

Quando encurralados, psicopatas não agem como vítimas comuns. Em vez disso, reagem de maneira estratégica: podem, além de se vitimizar, manipular narrativas, usar bullying emocional ou verbal ou alternar entre submissão aparente e intimidação aberta. Essa postura tem base em déficits cognitivo-emocionais e padrões de reforço social que valorizam a dominação e o controle do ambiente.

Em situações de confronto, psicopatas podem recorrer ao chamado bullying estratégico. Intimidam quem os ameaça, como tentam fazer os bolsonaristas com o ministro Alexandre de Moraes, com participação decisiva de Donald Trump. Quando encurralados, a tática frequentemente se intensifica mediante a disseminação do medo – como a aplicação das sanções comerciais americanas e atos persecutórios pessoais, por exemplo, a Lei Magnitsky contra Moraes.

Relatos clínicos de casos extremos mostram que, sob intensa pressão, psicopatas podem oscilar entre a fragilidade emocionalfingida e a agressividade descontrolada. Utilizam linguagem ameaçadora e ações imprevisíveis para manter o inimigo inseguro ou submisso, o que não vem dando resultado quando direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes e à maioria dos seus pares do Supremo Tribunal Federal. Muito menos ao presidente Lula.

Pelas mãos de Sérgio Moro, Estados Unidos já influenciaram a Justiça brasileira

Foto Lula Marques / Fotos Públicas.

Por Paulo Henrique Arantes

Mediante sanções econômicas, judiciais e políticas, os Estados Unidos de Donald Trump pretendem pressionar o Poder Judiciário brasileiro. O objetivo principal, claro está, é o livramento de Jair Bolsonaro da cadeia e sua viabilização como candidato presidencial da extrema direita em 2026. Nada disso acontecerá, pois a democracia brasileira mostra vigor nesta hora.

A ofensiva americana motiva-se ainda pelo temor de que os Brics mostrem ao mundo o caminho alternativo ao dólar, pela cobiça por minérios os quais temos bastante e pela obtenção de beneplácitos a big techs. Tudo isso vem sendo dito e repetido ao cansaço.

Enquanto Trump faz pressão aberta, quase ninguém se recorda de que, há bem pouco tempo, os Estados Unidos atuavam para influenciar esse mesmo Judiciário, aliando-se ilegalmente a um juiz parcial para que Luiz Inácio Lula da Silva fosse condenado e preso.

Em 2022, o Comitê de Direitos Humanos da ONU concluiu que Lula não teve um julgamento imparcial – foi, isto sim, alvo de abuso de poder por parte do Judiciário brasileiro. O CDH não esmiuçou a questão da influência externa, mas considerou o processo contra o líder petista ilustrativo da vulnerabilidade institucional à influência externa e política.

O caso Lula é um modelo acabado de interferência disfarçada de cooperação.

A intromissão externa no processo que levou Lula à prisão, hoje se sabe, deu-se mediante cooperação informal entre Ministério Público Federal, sob os olhos do juiz do caso, Sérgio Moro, o DOJ, departamento de justiça americano, e o FBI. Houve troca informações entre procuradores da Lava Jato e membros do DOJ, por exemplo, de modo alheio aos canais oficiais de cooperação jurídica internacional, como o Itamaraty. O DOJ chegou ao absurdo de emitir comunicados comemorando os resultados da Lava Jato e a perspectiva de compartilhamento de valores recuperados pela Petrobrás nos Estados Unidos.

A Lava Jato destruiu empresas brasileiras e beneficiou empresas americanas, enfraqueceu o setor energético brasileiro e reduziu a influência do Brasil em organismos internacionais. Restou patente que o Judiciário e o Ministério Público brasileiros foram instrumentalizados por interesses geopolíticos externos, direta ou indiretamente. Feriu-se a soberania nacional.

O que ocorre hoje é um tanto mais grotesco, pois protagonizado pela pessoa do presidente da República dos Estados Unidos, que, abertamente e sem corar, pressiona o ministro-relator de um caso que tramita conforme o devido processo legal na corte constitucional brasileira. Um caso de tentativa de golpe de Estado, objeto de um imenso inquérito repleto de provas documentais e testemunhais, denunciado pela Procuradoria Geral da República, não bastassem as inadvertidas confissões dos réus, que se complicam a cada vez que abrem a boca.

Tentativas de um país de exercer influência sobre o Poder Judiciário de outro país são atos ilícitos para o Direito Internacional. E podem gerar protestos diplomáticos, medidas retaliatórias e ações em foros internacionais, como a Corte Internacional de Justiça.

Trump e Netanyahu já merecem estar no rol dos grandes tiranos da História

Foto de Bendon McDermid (Reuters).

Por Paulo Henrique Arantes

A busca via inteligência artificial por nomes de tiranos dos últimos 100 anos não nos leva a Benjamin Netanyahu nem a Donald Trump, mas a História cuidará disso. Netanyahu safa-se da rotulação de tirano por estar no cargo mediante eleição democrática – uma clara bobagem, pois o voto não o alivia da responsabilidade por milhares de mortes de civis em Gaza, especialmente mulheres e crianças, destruição de hospitais e escolas, bloqueio de remessas de alimentos e outras ajudas humanitárias, uma série de crimes de guerra e conduta francamente colonizadora.

Trump, por sua vez, escapa de ser classificado de tirano porque ainda não fechou o Congresso nem o Judiciário. De outra parte, impõe sanções econômicas duras e descabidas a dezenas de países e, no caso do Brasil, com finalidade de pressão contra o Judiciário brasileiro para impedir a prisão de um irmão ideológico, cujo processo caminha conforme o devido processo legal. As sanções econômicas instituídas por Trump desconfiguram o mundo emergido de um longo processo civilizatório nascido no pós-guerra.

As sanções de Trump constituem vinganças geopolíticas, afetando duramente populações civis e governos democraticamente eleitos. Coisa de tirano, termo que, segundo mentes não-humanas, deve ser empregado com “cautela”.

O tirânico presidente americano também usou o poder de indulto presidencial para perdoar aliados pessoais condenados por crimes graves, como Michael Flynn, Roger Stone e Steve Bannon. Buscou intervir, tiranicamente, no sistema judicial, diretamente ou por meio de aliados, em processos que envolviam interesses políticos ou pessoais. Chamou a imprensa crítica de “inimiga do povo”, enfraqueceu normas institucionais e estimulou a desinformação. Como fazem os tiranos.

Como um tirano, tentou reverter o resultado das eleições de 2020, conduta que resultou na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, evento sem precedentes na História americana.

A lista de tiranos dos últimos 100 anos que a inteligência artificial nos fornece inclui, entre outros, Hitler, Stalin, Mussolini, Pol Pot, Pinochet, Franco, Kim il-Sung. Exclui Netanyahu e Trump, talvez porque seus atos sejam recentes demais para que a Histórica os contemple com o título. É uma questão de tempo.

Palavra final sobre extradição de Zambelli será de Mattarella, não de Meloni

Deputados “patriotas”: Eduardo Bolsonaro e Carla Zambelli.

Por Paulo Henrique Arantes

É praticamente unânime a opinião de que a Justiça italiana irá autorizar a extradição da deputada foragida Carla Zambelli (PL-SP). Condenada por crime comum no Brasil, a parlamentar não terá como provar-se perseguida política. Sua dupla cidadania não impede a extradição, pois a cidadania prevalente é a brasileira – ela nunca residiu, estudou ou trabalhou na Itália.

Extradições pela Itália de condenados em outro país dependem de o chefe de Estado – o presidente da República – ordená-las, após autorização da Justiça. Não será, portanto, a primeira-ministra Giorgia Meloni, direitista empedernida, quem vai dar a última palavra sobre Zambelli, mas o presidente Sergio Mattarella.

Claro, Meloni pode influenciar Mattarella, mas as apostas são de que nem ela, que é do MSI, grupo político descendente do fascismo, terá disposição política para trabalhar contra a extradição de Zambelli. A primeira-ministra não se desgastará por uma parlamentar brasileira sem qualquer relevância política internacional.

Menos ainda fará por Zambelli o presidente Mattarella, do histórico PD (Partido Democrático), eleito e reeleito, conhecido por suas posições moderadas e comprometimento com os valores democráticos e o Estado de Direito. E a presidência do jurista Mattarella está longe de ser decorativa.

Vale lembrar que Sergio Mattarella interveio em crises políticas, como a que levou à queda de governos instáveis. Recusou a nomeação de ministros em casos de forte risco à ordem constitucional, como quando rejeitou um nome do eurocético Paolo Savona para o Ministério da Economia. Convocou figuras técnicas, como Mario Draghi, para formar governos de emergência.

Embora discreto, Mattarella costuma exercer autoridade real e relevante nos bastidores, com foco na estabilidade institucional e no cumprimento da Constituição. Não será o homem a garantir liberdade a uma criminosa como Carla Zambelli.

Steve Bannon sopra maldades no ouvido de Donald Trump

Por Paulo Henrique Arantes

 A partir de sua chegada à Presidência da República, Jair Bolsonaro capturou para perto de sua persona pouco aprazível grupos extremistas de direita mundo afora, muito pela atuação de seu filho Eduardo e a despeito do primitivismo argumentativo deste. A elite brasileira fixa-se no topo social via exploração de costumes, regras morais hipócritas e disseminação despudorada de mentiras. Com Bolsonaro, Eduardo e Olavo de Carvalho, essa elite preconceituosa e egoísta agregou-se à cadeia global de extrema direita, cujo guru é americano.

Depois de um século importando geladeiras e comida processada dos Estados Unidos, passamos a importar uma forma criminosa de fazer política, calcada na destruição de consensos globais e de avanços civilizadores. E num sofisticado processo de criação e disseminação de fake news.

Steve Bannon, o guru americano, paira sobre governos e governantes pouco afeitos à democracia. A imprensa agora noticia que ele é homem por trás das sanções de Donald Trump ao Brasil, o sujeito a soprar-lhe maldades nos ouvidos, a lhe descrever fragilidades brasileiras. Não há surpresa.

A proximidade dos Bolsonaros com o estrategista americano sempre foi exibida pela família como um troféu. Em outubro de 2021, Bannon disse publicamente que a eleição presidencial brasileira de 2022 seria “a segunda mais importante do mundo”, fundamental para o reerguimento do bloco global de extrema direita. Como se sabe, eles perderam e tentaram um golpe para permanecer no poder.

O caso Cambridge Analytica-Facebook, durante a primeira campanha eleitoral de Donald Trump, teve Bannon no meio da turbulência. Naquela época já abundavam noticias de que o estrategista da extrema-direita queria aportar no Brasil.

Não há sinais que o método Steve Bannon desaparecerá tão cedo. Não se vai acordar em 2030 e ver que o pesadelo acabou. No caso brasileiro, o método Bannon ancora-se em órgãos de imprensa de direita, os quais respaldam teses descoladas da realidade, nas redes sociais, operadas por megaempresas suscetíveis a qualquer coisa por dinheiro, e em crenças arraigadas na própria família brasileira. Importante salientar que não se trata de um simples movimento conservador, mas de uma ação coordenada de dilapidação das conquistas civilizadoras, que agora conta com apoio da maior força bélica do planeta.