Entre os generais-ditadores, só Figueiredo aproxima-se de Bolsonaro em deficiência intelectual

Por Paulo Henrique Arantes

      A tirania é intrínseca às práticas de Jair Bolsonaro. Mesma gravidade têm sua falta de inteligência e sua incapacidade de compreender as mais corriqueiras tarefas de um presidente da República, das quais resulta o fracasso absoluto do seu governo. Seus modelos, os militares que tocaram o terror de Estado de 1964 a 1985, nem de longe possuíam mentalidade tão rudimentar. Alguns, como Ernesto Geisel, até tinham um projeto de país – no caso, nacionalista – e cercavam-se de quadros técnicos qualificados.  Talvez o único troglodita fardado que se aproxime de Bolsonaro em deficiência intelectual tenha sido João Figueiredo, que encerrou de forma canhestra o ciclo opressivo.

      O governo Figueiredo foi desastroso econômica e socialmente. O general deixou o poder pela porta dos fundos do Palácio do Planalto, isolado até dos cavalos cujo odor ele dizia preferir ao cheiro do povo. “Quanto à ignorância, há alguma similaridade entre Figueiredo e Bolsonaro. Mas, quanto à gestão, acho que o atual governo é insuperavelmente ruim”, disse a este jornalista o ativista dos direitos humanos Maurice Politi.

      O único resquício do período João Figueiredo é o “jornalista” Alexandre Garcia, bolsonarista, defensor da cloroquina, que até outro dia ainda tinha espaço na televisão. Garcia gosta de dizer que Figueiredo, de quem era assessor de imprensa, foi o responsável pela transição da ditadura para a democracia. Mentira grossa. Todos sabem que o fim do regime militar foi urdido e viabilizado pela dupla Ernesto Geisel – Golbery do Couto e Silva. Figueiredo cumpriu tabela.

      Politi, que hoje dirige o Núcleo Memória (Núcleo de Preservação da Memória Política), conhece como poucos a cabeça dos militares que protagonizam aqueles 21 anos de trevas. Aluno da Escola de Comunicações e Artes da USP, participava do movimento estudantil no fim dos anos 60 e acabou por atuar na logística da ALN (Aliança Libertadora Nacional). Capturado pela Oban (Operação Bandeirante) em 1970, aos 21 anos, passou quatro anos preso, tendo conhecido os horrores dos porões do DOI-Codi, do Deops, do Presídio Tiradentes, da Casa de Detenção de São Paulo (Carandiru), da Penitenciária Regional de Presidente Venceslau e do Presídio do Hipódromo. Exilou-se em Israel em 1975 e voltou ao Brasil em 1980, após a promulgação da Lei da Anistia.

      “Em termos gerenciais, nenhum general ditador foi tão mau governante quanto Bolsonaro. Figueiredo, que fez um péssimo governo, se aproxima dele na rudeza – ele não tinha conhecimento do que significava ser presidente da República”, recorda Politi.

      Conversar com Maurice Politi tem sabor de aula de História. Ele confessa que, em determinado momento do governo Bolsonaro, temeu pela volta da ditatura escancarada. “O que aconteceu nos últimos dois anos, certos pronunciamentos, certas bravatas, remeteu a 1964. Naquela época, o Brasil saiu da democracia para o regime militar em poucos meses. Se eu temi pela volta da ditadura? Sim, mas hoje menos do que há seis meses, pois Bolsonaro está sozinho”.

      Jair Bolsonaro diminui as Forças Armadas, como prova sua própria história dentro do Exército. Politi não se conforma com o fato de alguns generais e coronéis comportarem-se de modo subserviente a um capitão de tão baixa estatura moral, contumaz afrontador dos princípios militares. A explicação pode estar na estreita relação do presidente com as polícias: “Ninguém imaginava este nível de subserviência das Forças Armadas. Porém, mais perigosa é a influência que Bolsonaro exerceu durante anos nas polícias, desde o tempo em que era deputado, e que ainda exerce. Talvez isso intimide os militares”.

      Comparações entre os Brasis dos anos 70, quando ele foi preso pela ditadura, e de hoje exigem duas réguas distintas, adverte Politi. “Em 70 éramos um país que começava a se urbanizar, em que a imensa maioria da população vivia no campo. Hoje temos uma concentração de pobreza nas cidades muito maior do que naquele tempo. Hoje, com a inépcia deste governo, e com a inépcia específica durante a pandemia, cresceu absurdamente o número de pessoas em situação de extrema pobreza”, avalia.

     Na ditadura militar mentia-se para o povo tanto quanto hoje, quando imperam as fake news? Para Maurice Politi, a prática naqueles tempos era outra. Não existia internet, robôs e algoritmos a replicar invenções estapafúrdias. O que o governo fazia era mais esconder fatos do que mentir. Censurava-se. “As fake news de hoje substituem a censura de ontem. A censura escondia os fatos, as maquininhas de fake news repetem mentiras”, compara.

Lenio Streck: “Não levo fé no TPI”

Por Paulo Henrique Arantes

A hipótese de que o presidente Jair Bolsonaro venha a ser condenado no Tribunal Penal Internacional, a partir de uma denúncia com base no relatório da CPI da Covid, tem poucas chances de se concretizar. Assim como disse ao Brasil 247 o jurista Pedro Dallari, também o jurista Lenio Streck considera o caminho de Haia fadado ao insucesso.

“Eu, particularmente, não levo fé no TPI. Além de o processo levar um século, a possibilidade de o procurador aceitar denunciar Bolsonaro é baixa”, disse Streck ao Brasil 247.

Para Streck, a máxima “errar o padre, mas acertar a igreja” não vale neste caso. “É preciso mirar no padre e acertar”, enfatizou, sugerindo ações judiciais mais específicas.

Segundo o jurista, processos da modalidade dos que podem emergir da CPI são carregados de alto teor político, fator que não deve ser desprezado. “Vivemos em tempos de relatos, não de fatos. É só perguntar para os mestres sofistas Luís Carlos Heinze e Marcos Rogério”, ironiza Streck.

Heinze (PP-RS) e Rogério (DEM-RO) sãos senadores bolsonaristas e defensores do uso de cloroquina e outros medicamentos comprovadamente ineficazes contra o coronavírus. Sofistas eram filósofos gregos que primavam por disseminar falsas verdades mediante recursos retóricos. Nada mais atual.

Cuidado, Renan: fracasso em Haia pode sugerir absolvição de Bolsonaro

Por Paulo Henrique Arantes

      O torcida dos não-idiotizados quer Jair Bolsonaro fora do governo e dentro da cadeia. A busca de objetivos, contudo, costuma resultar em decepções menores quando ancorada em lucidez. Certos da inação do procurador-geral da República, o engavetador Augusto Aras, e portanto convencidos de que a PGR não denunciará os crimes do presidente, torcedores correm a dar como certa a condenação do capitão no Tribunal Penal Internacional de Haia, para onde o relatório de Renan Calheiros seguirá, segundo ele próprio. 

      Menos.

      Para que Bolsonaro faça companhia a Muammar Gadaffi, Radovan Karadizic, Thomas Lubanga e Dragomir Milosevic, é preciso, antes de tudo, que se comprove o esgotamento dos processos contra ele no Brasil, sem o que Haia não instaura processos.

      Pedro Dallari, professor titular do Instituto de Relações Internacionais da USP e ex-presidente do Tribunal Administrativo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), sabe que a jornada é complicada e demorada, além do que ainda não se sabe como o relatório da CPI caminhará no Judiciário brasileiro.

      “O problema do acionamento do TPI reside no fato de que, por razões políticas, o Congresso Nacional e os órgãos do sistema de Justiça, em especial a PGR, optaram por não desencadear medidas efetivas contra Bolsonaro, sendo difícil que a Corte de Haia aceite suprir essa inação juridicamente válida de autoridades brasileiras”, explica o jurista.

Para Dallari, esses fatores não diminuem a importância política de se apresentar uma denúncia ao TPI – ou mesmo de enviar o relatório da CPI -, “mas é necessário distinguir o movimento político de uma medida processual internacional mais consistente, sob pena de uma eventual rejeição do TPI ao pedido de denúncia contra Bolsonaro soar como vitória – e absolvição – do presidente”.

De todo modo, Dallari acredita que o relatório terá consequências judiciais no Brasil, “pois há elementos muito robustos contra Bolsonaro”.  Por tão evidentes, demonstrados e numerosos, os crimes de Bolsonaro escapariam à sanha omissiva do procurador-geral da República? A ver.

      Dallari, que foi o coordenador da Comissão Nacional da Verdade, afirma que “a reiterada postura de Bolsonaro contra a existência dos indígenas ampararia a imputação de crime de genocídio pela CPI, a ser apurada em processo judicial posterior”, acusação que sumiu do relatório da Comissão por pressão do seu presidente, Osmar Aziz.

      O relatório preparado por Renan Calheiros imputa ao presidente do Brasil os crimes comuns – que exigem denúncia da PGR ao Supremo Tribunal Federal – de epidemia (Artigo 277 do Código Penal), infração a medidas sanitárias preventivas (Artigo 268 do Código Penal), charlatanismo (Artigo 283 do Código Penal), prevaricação (Artigo 319 do Código Penal), emprego irregular de verba pública (Artigo 315 do Código Penal), incitação ao crime (Artigo 286 do Código Penal) e falsificação de documentos (Artigo 298 do Código Penal). A mão de Augusto Aras pode segurar tudo isso.

      Já os crimes de responsabilidade, que podem gerar processo de impeachment, dependem do ensaboado Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados. Enquadram-se nessa categoria criminosa, entre outras monstruosidades, a minimização dos efeitos da pandemia e a estimulação ao uso de medicação ineficaz.

      Sob medida para o Tribunal Penal Internacional é a terceira modalidade criminal praticada escancaradamente pelo presidente do Brasil: os crimes contra humanidade. Nessa seara entram a falta de oxigênio nos hospitais de Manaus,  disseminação de protocolo clínico de uso de mediação para tratamento precoce da Covid (sabidamente ineficaz), a distribuição do famigerado “kit Covid” e ataques a populações indígenas mediante diversas ações e omissões.

Frustração econômica põe elites no debate da desigualdade

Por Paulo Henrique Arantes

Henrique Meirelles, no governo, fruto do golpe que derrubou a presidenta Dilma Rousseff, não escolheu crescimento econômico e geração de empregos como objetivos. Sua clara finalidade foi atender a demandas de setores de alto poder econômico que desejavam, primeiro, reforma trabalhista; segundo, manter uma política de ajuste fiscal de longo prazo que na verdade fosse reduzindo o espaço no orçamento para os direitos estabelecidos pela Constituição de 1988. 

Trago de conversas passadas com a economista Laura Carvalho, professora da FEA-USP, boa parte destas ideias.

O foco das famigeradas reformas – antes por Meirelles, depois por Paulo Guedes – nunca foi a retomada da economia, mas a solução de problemas fiscais, daí uma frustração sucessiva das expectativas, seja de crescimento econômico, seja de resultado primário e endividamento público, tudo agravado pela pandemia de Covid-19.  No mercado de trabalho, desde Meirelles (com breve mas importante contribuição anterior de Joaquim Levy), a realidade é de precarização crescente, o que contribui decisivamente para o aspecto mais deletério da economia: o aumento da pobreza e a concentração da renda cada vez mais no topo da pirâmide social. 

Os trabalhadores mais vulneráveis são os mais impactados, e não há nada no desenho da política econômica que tente alterar isso. Pelo contrario, o teto de gastos limita investimentos públicos, os mesmos que nos anos 2000 comportaram-se como motor da economia brasileira.

A balela de que a ausência do Estado promoveria, num passe de mágica, o investimento privado, é isso mesmo – uma balela. Tanto mais quando se tem Jair Bolsonaro na Presidência da República, minando a confiança de investidores cada vez que abre a boca. Além disso, sem uma política clara de retomada de empregos e renda, não há mercado consumidor. Vai-se investir e produzir para vender o quê para quem?

A forma neoliberal de conduzir a economia torna ainda mais lento o crescimento da produtividade do trabalho, problema que, não solucionado, lançará o país a uma estagnação eterna.  Nesse sentido, ignorar a indústria é um erro decisivo. Uma economia em que haja apenas crescimento dos setores de serviços e de commodities, quando há, convive com problemas estruturais insuperáveis.

As exportações brasileiras constituem hoje parcela pequena da economia nacional, por isso a estratégia de crescimento tem que ser baseada no mercado interno. Quando se fazem investimentos públicos em infraestrutura, saneamento, mobilidade urbana, complexo da saúde, tecnologia verde, enfim, puxa-se o desenvolvimento de setores tanto de serviços de alta tecnologia quando de indústria. Assim, desenha-se uma política de melhoria dos serviços e bens públicos.

No campo tributário, a busca de um país mais igualitário não pode prescindir de uma reforma que crie faixas adicionais no imposto de renda da pessoa física no caso do 0,1% mais rico, que hoje paga menos imposto do que aquele que está no meio da pirâmide de distribuição. É necessário tributar dividendos, aqueles lucros distribuídos pelas empresas às pessoas físicas que desde 1995 são isentas de tributação. É preciso tributar mais as heranças, claro que de forma progressiva, e mais o patrimônio de forma geral. Reduzir o ICMS, como se propõe, é positivo, porém é preciso fazê-lo sem prejudicar o pacto federativo, criando-se mecanismos compensatórios.

O debate macroeconômico é instigante, mesmo para os não-especialistas, como este jornalista. Persiste, em maior ou menor grau, a polarização secular de ideias em torno de Keynes e Hayek, e nesta quadra pandêmica o britânico vem sendo revisitado com mais ênfase, inclusive por organismos como o FMI. O tema da desigualdade domina os debates no mundo inteiro como nunca antes, agregando nas discussões elites que nunca lhe deram bola (no Brasil, até Armínio Fraga passou a portar a bandeira do combate à desigualdade). 

Essas elites tornaram-se mais humanas? Claro que não. Perceberam, isto sim, que a extrema desigualdade prejudica a todos, mesmo os privilegiados, comprometendo-lhes os negócios.

Uma dúzia de Queirogas não vale um Jatene

Adib Jatene (Foto de Ricardo Bastos / 2014)

Por Paulo Henrique Arantes

Adib Domingos Jatene não carregava bandeiras partidárias, nem se posicionava em períodos eleitorais, o que pode ser interpretado como murismo. Mas é fato que o ilustre cardiologista tinha prestígio suprapartidário: foi ministro da Saúde de Collor e Fernando Henrique, e ajudou Lula a lutar pela manutenção da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, a famigerada CPMF. Foram derrotados, como se sabe. 

A última entrevista do ilustre cardiologista foi a este jornalista, em setembro 2014 – ele faleceria dali a dois meses. Interessante imaginar o que teria acontecido ao país se tivéssemos Jatene no comando da Saúde durante a pandemia e comparar seu grau de conhecimento da área e as bandeiras que carregava com tudo que nos legaram homúnculos públicos como Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga.

Na conversa de sete anos atrás, Jatene explicou a este repórter que a Constituição de 1988 dividiu os pacientes em dois grupos – os que possuíam e os que não possuam plano de saúde. Os que tinham convênio passaram a utilizar hospitais que não atendiam os que não tinham, e assim verificou-se um deslocamento qualitativo: a liderança que antes era dos hospitais públicos, dos hospitais universitários, passou para os hospitais privados. Palavras dele: “Hoje, quem comanda a medicina, quem incorpora a alta tecnologia, são os hospitais privados, tanto que as autoridades importantes, quando precisam, vão para hospitais privados”.

Claro, ainda sobrevivem algumas “ilhas” públicas, como o Incor, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, que Jatene ajudou a criar, um dos poucos que, em São Paulo, concorrem em excelência com os particulares Albert Einstein e Sírio Libanês

Voltando à Carta de 88, seu legado alvissareiro foi ter acabado com a figura do indigente – todos passaram a ter direito à saúde. A responsabilidade do Estado foi extraordinariamente ampliada, porém não houve aumento correspondente de recursos, daí a deterioração do SUS e o poder exagerado hoje detido pelas operadoras de saúde e pelos hospitais privados, que cooptaram os melhores quadros profissionais e adquiriram tecnologia de ponta.

Na época do lançamento do programa “Mais Médicos”, Jatene posicionou-se como, digamos, um apoiador crítico. Ele não enxergou o projeto da presidenta Dilma Rousseff como uma solução, mas um paliativo contra a falta de médicos em algumas regiões do país.  “Eu não tenho nada contra médico estrangeiro. O problema é que a Escola Latino-Americana de Medicina, de Cuba, dá conhecimentos para atendimento básico, primário, e muitos deles não têm autorização para exercer medicina plena em Cuba. Mas, de qualquer forma, eles exercem um papel importante em lugares aos quais médicos brasileiros não aceitam ir”, disse-me.

Ontem como hoje, faculdades de medicina são abertas em lugares desprovidos de número de médicos suficiente para atender à demanda da população, o que é louvável. Só que, ao se formarem, os novos médicos vêm buscar trabalho no Sudeste. Jatene sugeria que o recém-formado fosse obrigado a permanecer dois anos em residência na localidade em que estudou, supervisionado pela escola, e prestando atendimento básico à população.

Quando entrevistei Adib Jatene, os planos de saúde de baixa cobertura eram relativamente baratos – ainda o são.  Para possuir atendimento completo, um convênio de qualidade superior, é preciso pagar uma fortuna. Com o SUS operando milagres dado o orçamento canhestro que lhe é atribuído, aprofunda-se a desigualdade. Jatene tinha tal percepção: “Como se promove desigualdade? Você promove desigualdade quando os que geram a renda se apropriam dela. Quando criamos a CPMF, que deveria ser totalmente destinada à saúde, vimos que, dos 100 maiores contribuintes, 62 nunca tinham pago Imposto de Renda. Isso significa que eles se apropriavam dessa renda. Se você conseguir fazer com que os que geram a receita paguem correspondentemente, talvez a situação se resolva”.

O cardiologista e ex-ministro da Saúde gostava de destacar que a maior alíquota do Imposto de Renda no Brasil era 27% – a mesma de hoje. “O sujeito diz que na Suécia tudo funciona, mas a alíquota na Suécia é 60%. Aí dizem: ‘lá o sujeito paga porque o serviço é bom’. Não! Lá o serviço é bom porque as pessoas pagam”, indignou-se.

Encerramos o papo, do qual saí melhor do que entrei.

“Conflito de interesses cuspido e escarrado”, diz Lenio Streck sobre offshore de Guedes

Por Paulo Henrique Arantes

Diante dos Pandora Papers, os jornalões e suas edições digitais correram para explicar que Paulo Guedes não infringiu a lei ao manter recursos milionários nas Ilhas Virgens Britânicas, que apesar do nome não prima exatamente pela pureza. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, não mereceu a mesma atenção, talvez por ser menos histriônico que o ministro da Economia e soar, quando abre a boca, menos cruel com os cidadãos desabonados. O fato é que ambos lucraram com o câmbio apreciado, que, para Guedes , “representa problema nenhum, zero”.

À luz do Direito, contudo, não se deve sair isentando o ministro com tanta afoiteza.

“Trata-se de uma questão chamada Republicanismo (ou a falta de), da relação entre o privado e o público. Nenhuma conduta pública pode beneficiar o âmbito privado de qualquer funcionário. Mas o Brasil parece não dar bola para isso”, explica o jurista Lenio Streck do Brasil 247 “Há uma histórica mistura entre o jardim da casa e a praça, como já disse um antropólogo”, sublinha.

Segundo Streck, ainda que o Paulo Guedes não tenha operado a empresa que possui no Exterior enquanto ocupa o Ministério da Fazenda, a empresa é dele. “Como é uma empresa que trata tudo em moeda estrangeira e o Guedes tem lá uma considerável fortuna em moeda que não é o real, parece óbvio que qualquer movimento aqui, por parte dele, mesmo que sem qualquer intenção, acabe repercutindo nos seus dinheiros lá fora”, constata o professor de Direito.

A função publica deve seguir a teoria da aparência, vale lembrar. Na Europa, por esse princípio atua o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos no tocante à verificação da imparcialidade dos juízes. “É como a mulher de César: tem de parecer séria, além de ser. Guedes deveria ter se afastado. Ética não é estética. Trata-se de conflito de interesses ‘esculpido em carrara’ (ou cuspido e escarrado), porque o ministro da Economia trata diretamente de câmbio, e câmbio afeta seus interesses no Exterior. Simples assim. Ou bem complexo!”, conclui Streck.

Para o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, uma investigação do caso possivelmente revelará sonegação de impostos e evasão de divisas. “O que não dá é para fingir que está tudo bem quando o ministro da Economia e o presidente do Banco Central, que controlam a política cambial, estão lucrando com ela”, observa Aragão.

A ordem é bajular

Por Paulo Henrique Arantes

O que nos incomoda? A lista deste jornalista é grande. Deixemos de lado a ignorância e a truculência, e vamos à pieguice. Bradar platitudes é hábito de muita gente, enaltecer valores óbvios e incontestáveis é a prática preferida de talvez sete entre dez de nossos convivas costumeiros. Certamente, foi o apego à pieguice que levou ao apogeu as palestras motivacionais que têm enriquecido tantos picaretas.

Quando Jair aparece em rédeas de contenção, diz pieguices em vez de belicosidades e burrices. A pieguice é uma das ferramentas retóricas do hipócrita. Tem o poder de acariciar mentes primitivas.

Não importa se uma tempestade perfeita está em vias de desabar sobre nós, mas sim que o amor existe e morreremos abraçados. É dose.

A honra cavalheiresca é filha da arrogância e da tolice, escreveu Arthur Schopenhauer, filósofo alemão que primou pela não-pieguice e por ridicularizar os bajuladores, todos intrinsecamente piegas. Eles são muitos, diria Nélson Rodrigues a exemplo do que disse dos idiotas.

Notem o leitor e a leitora as rodas de bajuladores ao redor de Jair em eventos e aparições públicas. Não são bajuladores requintados – sim, até para bajular é preciso talento e aprendizado. Em tempos outros, os aduladores do poder costumavam demonstrar alguma sofisticação, mostrar conhecimento técnico e até expor divergência pontual para, assim, serem considerados sinceros e autênticos pelo chefe – eis um tipo de bajulação subliminar que costumava dar resultado.

Os puxa-sacos atuais do poder são indiscretos e pouco criativos. Paulo Guedes, por exemplo, para se manter no cargo jogou no lixo todos os seus aprendizados na Escola de Chicago e falou com todas as letras: “O presidente sempre joga dentro das quatro linhas. Há um script escrito para colocá-lo no papel de golpista. Ele é um democrata”.

O bajulador-raiz, como Guedes, não se preocupa em demonstrar autonomia intelectual para o público externo. A adulação ao chefe se concretiza mediante manifestações públicas que certamente podem render um “obrigado” dentro do gabinete no dia seguinte, mas se for por mensagem de WhatsApp já estará ótimo. A permanência no cargo está garantida.

A bajulação – sempre de mãos dadas com a pieguice – por interesse econômico imediato é outra modalidade. Luciano Hang é um bajulador-raiz da categoria “retorno em espécie”, digamos. E se generais chegam a adular capitães, nada mais precisa ser dito a respeito destes tempos.

Quadro de escassez hídrica se agrava a cada dia, alerta meteorologista do Cemaden

Por Paulo Henrique Arantes

O presidente Jair Bolsonaro pede para o brasileiro economizar água e tomar banho frio, atitude em conformidade com a insensatez que o caracteriza. Sobre ações concretas do governo para amenizar os efeitos da crise hídrica e impedir racionamento de energia, nada. Em maio último, matéria do Brasil 247 alertava para os graves riscos provocados por sete anos de pouca chuva. O que mudou desde então?

Segundo o meteorologista Marcelo Henrique Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemadem (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, de maio até hoje o quadro se agravou. “Durante a estação seca, que está acabando, consomem-se os recursos dos reservatórios. A torcida é para que a estação chuvosa comece logo”, diz.

A hipótese positiva de que as chuvas venham em breve é só isso – uma hipótese. O que existe de concreto é a constatação de que o quadro se agrava. 

“Na região sul continua a situação de seca e não há previsão de mudar, porque vamos ter o (fenômeno atmosférico) La Niña, muito provavelmente, voltando, e isso vai diminuir as chuvas na região”, alerta Seluchi.

Em contrapartida, o La Niña pode favorecer as chuvas no norte e no nordeste do país. “Talvez em bacias como a do São Francisco, do Tocantins-Araguaia e do Xingu possa chover acima da média. Mas, de uma forma geral, precisamos ver como será o próximo quadro chuvoso. Nas regiões sudeste e centro-oeste é muito difícil de prever. Até agora, estamos consumindo o que tem na caixa d’água – está restando muito pouco”, adverte Marcelo Seluchi.

“Não me recordo de desempenho tão esdrúxulo”, diz Pedro Dallari sobre Bolsonaro na ONU

Por Paulo Henrique Arantes

“Foi algo vergonhoso”. Assim o jurista Pedro Dallari referiu-se, em conversa com o Brasil 247, à participação de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira (21). “Não me recordo de algum chefe de Estado ou de governo de um país importante ter tido um desempenho tão esdrúxulo nas Nações Unidas. O pronunciamento de Bolsonaro causou perplexidade geral, por menores que fossem as expectativas”, disse Dallari, que é professor titular do Instituto de Relações Internacionais da USP.

Para Dallari, o papel desempenhado pelo presidente do Brasil naquele fórum, diante de chefes de Estado comprometidos em maior ou menor grau com causas comuns, extrapola o fracasso retórico: “Há um evidente impacto negativo para a reputação do país, o que acaba por alijá-lo das negociações internacionais relevantes, a exemplo do que já vem acontecendo”.

Pedro Dallari foi presidente do Tribunal Administrativo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e integrou o Conselho Diretor do Centro de Estudos de Justiça das Américas, órgão da OEA. Conhece como poucos as vicissitudes diplomáticas e suas implicações comerciais. Ele acha que a recuperação do prestígio internacional do Brasil não virá tão cedo.

“Começa a se formar na opinião pública internacional um sentimento de desilusão em relação à sociedade brasileira. O fato de Bolsonaro ter chegado ao poder e o conjunto das forças políticas se manter inertes diante dos descalabros de seu governo depõe contra o país”, avalia.

A última passagem de Bolsonaro e comitiva por Nova York entrará nos anais da vergonha nacional em posição de destaque. Além do duplo negacionismo exibido no discurso na Assembleia Geral da ONU – negacionismo científico quanto à pandemia e também econômico, ao pintar um momento econômico brasileiro fictício –, o presidente levou risco sanitário aos americanos.

“A desfaçatez maior – que causou grande repercussão internacional, e menos aqui do deveria – decorre do fato de Bolsonaro ter ido a Nova York e à ONU sem estar vacinado contra Covid. Ele colocou deliberadamente em risco as pessoas que tiveram que entrar em contato com ele”, indigna-se Dallari.

Joaquim e os reacionários

Por Paulo Henrique Arantes

Em junho último, auge pandêmico, publicamos aqui a palavra de especialistas a explicar, com propriedade, por que não se deve propugnar pelo equilíbrio jornalístico quando um dos lados nega a ciência. “Ao dar amplo espaço aos discursos presidenciais contrários às medidas não-farmacológicas e a favor de drogas sem eficácia, como a cloroquina, na maioria das vezes sem problematizá-los, as mídias contribuíram para a disseminação da tese completamente equivocada e antiética da imunidade natural de rebanho”, destacava Cláudia Malinverni, jornalista, pesquisadora do Instituto de Saúde de São Paulo.

De forma condescendente, a imprensa expunha considerações de Osmar Terra e Nise Yamagushui de uma parte, e de infectologistas e epidemiologistas conceituados de outra. Como legado, parcela dos leitores ficava com os primeiros, para risco de sua vida. Quem comprou negacionismo agora pode comprar, sem receio, a versão oficial sobre a facada que tornou Jair Bolsonaro presidente do Brasil.

Essa ânsia por pluralidade, uma pluralidade acrítica, substitui em certos veículos o ímpeto investigativo. Repórteres amarrados ao “fontismo”, que são presenteados com furos e os publicam sem critério ou checagem, predominam. Possuir o celular de um político, ou de um assessor dele, está valendo mais do que gastar sola de sapato para descobrir a verdade. Colunistas de notas maliciosas de três linhas viram celebridades.

Não se bancam reportagens de fôlego, salvo exceções. As revistas semanais publicam apanhados editorializados do noticiário diário. Preguiça de investigar, medo de afrontar poderosos (principalmente os da finança), receio de afugentar anunciantes e de contribuir para que o poder no Brasil mude, de fato, de mãos – é o jornalismo estabelecido, hoje saudavelmente confrontado pela mídia progressista da internet.

Nesse contexto, é natural que o documentário da TV 247 “Bolsonaro e Adélio: uma fakeada no coração do Brasil” incomode tanta gente, a despeito de ser aplaudido em volume muito maior.

Conheci Joaquim de Carvalho nos anos 80, na redação do jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, numa rápida passagem. Tempos depois, trabalharíamos juntos em outros veículos, um dos quais tendo eu como editor e ele como repórter, outro com ele editor, eu colaborador esporádico.  Em qualquer função, Joaquim é pragmático: desconfiar da versão oficial lhe é espontâneo, caçar a verdade factual é seu oxigênio.

Os pluralistas de fachada jamais se entenderão com Joaquim de Carvalho, mesmo porque muitos deles são na verdade porta-vozes do reacionarismo que legou ao Brasil Jair Bolsonaro. Um reacionarismo ora arrependido pero no mucho.

Reacionários à moda nativa gostam de posar de liberais, de democratas conservadores, mas não enganam ninguém. O bom conservador situa-se entre os limites da régua democrática e não compactua com sua quebra – este aplaudiu “Uma fakeada no coração do Brasil”. O reacionário que diz não compactuar com Bolsonaro mas ataca a megarreportagem da TV 247 recusa-se a abraçar a denúncia contundente, permanecendo apegado às críticas que não dão em nada e, claro, contorcendo-se de inveja por jamais ter produzido algo tão forte.