Encontros de Bolsonaro com Putin e Orbán isolarão ainda mais o Brasil no mundo, diz Rubens Ricupero

Por Paulo Henrique Arantes

O que significam os encontros oficiais de Jair Bolsonaro, em fevereiro, com Vladimir Putin e Viktor Orbán, mandatários russo e húngaro que não mostram o menor apreço pela democracia? Significam que o presidente brasileiro estará frente a frente com dois dos autocratas nos quais se inspira, principalmente no caso do extremista de direita Orbán, e que o Brasil voltará ao tempo do obscurantismo diplomático de Ernesto Araújo, que parecia abandonado desde que Carlos França assumiu o Itamarati.

Em conversa com o Noticiário Comentado, Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na Itália, prevê mais um salto de Bolsonaro na direção do completo isolamento global. “Orbán é num líder de extrema direita isolado no mundo cujo poder está ameaçado em seu próprio país. É uma aposta diplomática errada e pode ser mais um ‘prego no caixão’ de Bolsonaro, a exemplo do que foram as derrotas de Donald Trump e Benjamin Netanyahu”, disse Ricupero.

Já Putin, avalia o diplomata e ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente, personifica hoje a maior ameaça à paz mundial, com a iminência de invasão da Ucrânia. “É um líder de potência armada que tem violado regras internacionais. Para onde irá a imagem do Brasil se Bolsonaro encontrar-se com ele logo antes ou logo depois de uma invasão da Ucrânia?”, indaga Ricupero. E responde: “O encontro será interpretado como apoio”.

Consertar o estrago diplomático que Bolsonaro provoca ao país não será tarefa fácil para o próximo presidente da República. Ex-subsecretário-geral da ONU, Rubens Ricupero diz que enxerga em Lula, líder em todas as pesquisas, alguém que “de fato, tem uma política externa”, como mostrou sua recente viagem à Europa. “Junto com Celso Amorim, Lula tem condições de conduzir bem a política internacional”, observa o ex-ministro, salientando sua discordância quanto a declarações recentes do ex-presidente sobre a Venezuela e a Nicarágua.

Ricupero lamenta que os pré-candidatos a Presidência do Brasil não mantenham temas ambientais em suas agendas prioritárias. Parece que lidam com tais questões por obrigação. “Nossos políticos, quando falam do tema, é mais por pressão do que por convicção. Eles são espertos no jogo do poder, mas atrasados no trato das grandes questões globais”.

Policial civil do Distrito Federal diz que operações policiais podem esconder ações de milícias

AFP PHOTO / CARL DE SOUZA

Por Paulo Henrique Arantes

Em 2020, não menos que 819 pessoas morreram no Rio de Janeiro em decorrência de operações policiais. Em 2021, também na Cidade Maravilhosa, duas ações foram aterrorizantes: uma, da Policia Civil, no Jacarezinho, resultou 28 mortes; outra, da Polícia Militar, no Complexo do Salgueiro, computou 1.500 disparos feitos por policiais e nove mortes. No Brasil, em 2020, 12% das mortes violentas intencionais aconteceram durante intervenções policiais, conforme o Anuário de Segurança Pública.

Em artigo publicado nesta quarta-feira (12) na Fonte Segura, newsletter do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Alexandre Pereira da Rocha, doutor em Ciências Sociais e policial civil no Distrito Federal, faz uma crítica alentada ao modelo das operações policiais no Brasil. “A letalidade policial não é particularidade das corporações do Rio de Janeiro, mas é efeito perverso que perpassa polícias brasileiras orientadas por diretrizes notadamente combativas e bélicas”, escreveu Rocha.

O policial lembra que, em junho de 2020, o Supremo Tribunal Federal restringiu operações policiais nas comunidades cariocas durante a pandemia de Covid-19, em resposta à Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) número 635. Estabeleceu o STF que as polícias devem justificar a necessidade da ação em comunicado ao Ministério Público.

Não adiantou. “Mesmo com a ADPF 635, as intervenções policiais não deixaram de ser realizadas com pretextos obscuros, tampouco se tornaram menos violentas. Assim, falta transparência no planejamento, execução e resultado das incursões policiais, o que abre suposição para motivações escusas, como ações de milícias ou de justiceirismos”, diz Alexandre Pereira da Rocha.

É notório o desvirtuamento das operações policiais no Brasil e, com mais holofotes, no Rio de Janeiro. Tais ações, segundo o cientista social e policial, deveriam constituir “um conjunto de atos coordenados, executados de forma planejada e em caráter sigiloso, desencadeados a partir de um levantamento prévio de informações, com um objetivo definido e específico, conexos a uma investigação em curso”.

Ele explica que o sigilo mencionado, contudo, “não franqueia poderes irrestritos às corporações”. Ou seja, trata-se de um requisito que não deve se sobrepor à transparência e à publicidade dos atos públicos. “As ações policiais não podem ser conduzidas exclusivamente pela discricionariedade, pois devem possuir objetivos e escopos passíveis de avaliação por outras esferas do Poder Público. Caso contrário, em nome da segurança permitem-se arbitrariedades”, escreveu.

Conforme explica Rocha em seu artigo, uma operação policial deve se nortear por sete questionamentos: necessidade (é necessária?), legalidade (está dentro da lei?), ponderação (está devidamente planejada?), proporcionalidade (os meios estão adequados?),  racionalidade (há planejamento?), oportunidade (o momento é adequado?) e responsabilidade (organizadores e executores conhecem suas responsabilidades?).

Rocha finaliza seu artigo com as seguintes palavras: “As polícias brasileiras devem saber que, enquanto agências estatais, são obrigadas a respeitar os direitos fundamentais na sua integralidade e sem discriminações, inclusive nos cenários das operações. Destarte, buscar regramentos para dimensionar o mandado policial – como propôs a ADPF número 635 ou a conceituação sugerida neste texto no tocante às operações policiais – pode ser caminho para firmar que qualquer intervenção policial à margem do Estado de Direito Democrático é ilegal, bem como crime”.

A falsa modernidade de um jornalão

Por Paulo Henrique Arantes

O problema de alguns jornalistas são as bolhas em que vivem. O sujeito isola-se no seu nicho retrógrado e dele não sai, nem sequer olha para fora. Apega-se a meia dúzia de dogmas e deles não desgruda. Contorce-se em palavrórios para fazer o leitor crer em algo que o mundo já demonstrou irreal. Por exemplo, o trabalho desregulado.

O Estadão publicou – me escapa o nome do autor – que um dos “erros” da campanha de Lula à Presidência da República (líder absoluto, com 48% de intenção de voto) é pregar a reversão da reforma trabalhista de Michel Temer, a qual constituiria um largo passo rumo à modernidade trabalhista.

O elogio à precarização do trabalho cumpre o mantra neoliberal de excluir o Estado da vida humana, como se um ente superior – o mercado ou coisa que o valha – fosse capaz de civilizar a cabeça do patrão brasileiro, um explorador por definição (salvo raras exceções).

O IBGE informa hoje um desemprego no país de 13,5 milhões de pessoas – taxa de 12,6%, o dobro da média mundial. A taxa de subutilização do trabalhador é de 26,5%. A subutilização diz muito sobre as novas formas de trabalho e emprego, que, sem retoques, nada mais são do que bicos.

O emprego formal – “carteira assinada”- é apregoado como desestímulo a contratações, pelos “altos custos trabalhistas” que envolve. Trata-se de uma bobagem primária. Patrões demitem ou deixam de contratar quando seus produtos ou serviços não vendem, e seus produtos ou serviços não vendem quando o consumidor ganha mal ou está desempregado. Mais ou menos como a historinha do biscoito Tostines.

A mentira de que a desregulamentação estimula o emprego confirma-se com uma olhadela nos números. Ao término do primeiro governo Dilma Rousseff, em 2014, antes da quase destruição da CLT, o desemprego era de 4,8%. A volúpia por modernizar as relações de trabalho, nos moldes temeristas, não gerou empregos e contribuiu com a paradeira da economia.

Este colunista recorda-se de quando foi entrevistar o ex-ministro Eros Grau, do Supremo Tribunal Federal. Terminada a conversa, o magistrado pergunta se eu estava de carro ou chamaria um táxi. Nenhuma das duas opções – eu me mandaria de Uber. Grau indignou-se, primeiro, por me arriscar a ser conduzido por um motorista não profissional; segundo, por usar os serviços de trabalhador tão precarizado. Confesso ter ficado um pouco envergonhado: a indignação de Eros Grau deveria ser a de todos nós.

O que o Estadão pretende é açular os ânimos dos patrões que ainda leem o jornalão. A campanha de Lula acerta porque se dirige ao trabalhador, que abomina ser explorado. Votará em quem o defende.

Gonzalo Vecina, como Margareth Dalcolmo, acredita que comportamento da Ômicron pode indicar pandemia perto do fim

Por Paulo Henrique Arantes

O médico sanitarista Gonzalo Vecina, ex-presidente da Anvisa, compartilha da opinião da pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz, que em artigo publicado hoje no jornal O Globo afirmou que o comportamento da variante Ômicron pode sinalizar o fim da pandemia de Covid, pelo menos em sua forma grave. “O que ela pensa e deseja é o que eu penso e desejo”, disse Vecina ao NotiCom.

“Tudo nos levaria a crer que o vírus chegou a um ponto da sua escalada evolutiva que alcançou a ‘perfeição’. E qual é a ‘perfeição’ para um vírus? É manter o hospedeiro vivo. Para se reproduzir, ele precisa de um hospedeiro – isso é o máximo que um vírus pode imaginar em termos de evolução”, explica Vecina.

Ele observa que a Ômicron apresenta uma infectividade maior que a do sarampo, uma das doenças conhecidas mais transmissíveis, e ao que tudo indica não mata seu hospedeiro. “Ela produz doença, pode até produzir alguma morte, mas são poucas e geralmente em pessoas que têm outras fragilidades”, nota o médico. E indaga: “Será que está chegando a hora de o coronavírus permanecer apenas como causador de uma entre tantas doenças com as quais o homem convive? Esse é o pensamento que eu entendo do artigo da Dra. Margareth, e é também o que eu penso”.

Mesmo que o cogitado por Vecina e Dalcolmo se confirme, ambos advertem que não é hora de abandonar máscaras e certo distanciamento social. E, mais do que nunca, é preciso vacinar.

“Pode haver o surgimento de uma nova variante? O futuro é desconhecido. Temos de tomar muito cuidado com o que ainda vem frente, embora pareça que estamos num momento interessante, com muitos casos mas poucas mortes e poucos casos graves”, pondera Gonzalo Vecina.

Olhe para baixo: o que torna um filme bom

DON’T LOOK UP (L to R) CATE BLANCHETT as BRIE EVANTEE, TYLER PERRY as JACK BREMMER, LEONARDO DICAPRIO as DR. RANDALL MINDY, JENNIFER LAWRENCE as KATE DIBIASKY, Cr. NIKO TAVERNISE/NETFLIX © 2021

Por Paulo Henrique Arantes

Tem gente desferindo chutes sobre “Não Olhe para Cima”, dirigido por Adam McKay e que estreou nestes dias na Netflix. O que torna um filme bom ou ruim? Alguns consideram um filme ótimo porque conta uma ótima história, outros porque traz atores em interpretações marcantes. Há ainda aquele que diz amar um filme por transmitir posicionamentos políticos idênticos ao dele, expectador.

Não é preciso ser crítico de cinema para saber que um filme é resultado de intenso trabalho técnico, do suor de uma centena ou mais de profissionais. Quando esse grupo de trabalhadores consegue realizar o intento original, a fita, muito provavelmente, será boa. Se esse mesmo filme não tiver como objetivo principal o resultado comercial, poderá ser arte. Notem que um filme não deixa de ser arte por ter alcançado resultado comercial estrondoso.

Não se deve analisar uma obra cinematográfica sem ocupar-se da clareza e da verossimilhança do roteiro, da qualidade (ou da originalidade) fotográfica, da edição das sequências, do movimento das câmeras, do desempenho dos atores e das atrizes. Também não se pode avaliar um filme sem saber que Godard é considerado um gênio dessa arte que despreza roteiros e monta sequências com cortes que parecem defeitos no equipamento de edição.

Pós-introito, digo que sim, “Não Olhe para Cima” é um filme muito bom. É arte? Não. Não é original no manejo da linguagem cinematográfica, não é artesanal, tampouco inovador no uso da tecnologia. Tem fotografia realista, câmeras ágeis (sem aquela horripilante trepidação, aberração tão em moda), excelentes atores. O roteiro, que foi criticado por ser “lento” em certo momento, é perfeito para o objetivo do diretor: irritar-nos. Claro, reproduzindo nossa irritação com a invencível imbecilidade dominante nestes tempos.

O filme é um deboche (no bom sentido) sobre os negacionismos que infestam o mundo. Troque-se a presidente e o cometa em tela por um Bolsonaro qualquer e a pandemia e têm-se a realidade.

“Não Olhe para Cima” deverá muito do seu êxito comercial ao carisma dos atores e das atrizes escolhidos. Faz duas décadas que Leonardo Di Caprio deixou de ser um belo rostinho para cravar interpretações magníficas (talvez as melhores sejam com Scorsese, em “Os Infiltrados” e “O Lobo de Wall Street”). A personagem de Jennifer Lawrence é hilariante (impagável a insistência dela em questionar as razões de um general na Casa Branca lhe ter cobrado por um sanduíche que ali era distribuído gratuitamente). Meryl Streep encarna à perfeição a mandatária preocupada antes de tudo com a reeleição, mesmo que à custa do fim do mundo. Seu filho-assessor, Jonah Hill, é o retrato da boçalidade que caracteriza nove em cada 10 assessores políticos, chefes de gabinete e bajuladores em geral.

Tão oportuno quanto a crítica ao negacionismo e ao domínio sobre a vida na Terra exercido pelas gigantes de tecnologia é o ataque (frontal) de McKay  à mídia, que se revela um antro de debiloides. Um programa de entrevistas “leves” deve ser “leve” e provocar risinhos bobos mesmo que sentado diante dos apresentadores esteja um cientista provando a proximidade do fim do mundo. Cate Blanchett e Tyller Perry, os apresentadores, são donos das duas melhores interpretações de “Não Olhe para Cima”. A repulsa que tais figuras nos provocam quase se assemelha à que sentimos quando diante de um debate na TV Jovem Pan. Quase.

Alckmin repete Mário Covas

Por Paulo Henrique Arantes

O ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin prova que é um conservador sensato, livrando-se em parte da imagem de chefe de uma polícia truculenta e possuidora de esqueletos no armário. Importante lembrar que Alckmin, em 2015, decretou sigilo de até 15 anos para 26 assuntos da PM paulista, entre os quais alguns relacionados a operações, execução orçamentária e agendas do comandante-geral e do subcomandante da instituição.

Se os temas policiais de fato necessitaram ser escondidos em nome da segurança pública, como se justifica, a atitude de Alckmin foi correta e é usual em qualquer lugar.

“Alckmin é um governador meio reaça, mas correto”, disse em 2014 Plínio de Arruda Sampaio, ainda depois de falecido uma referência da esquerda católica brasileira. Digamos que Plínio e Alckmin são católicos que nunca rezaram para os mesmos santos – um, da linhagem progressista, atuante em reformas de base; outro, apegado a dogmas da Opus Dei.

Fora do PSDB, Alckmin será sempre um tucano, no sentido “clássico” do termo. E esta não é a primeira vez que um pássaro de bico grande e voo curto adere a Lula, ainda que nunca antes ocupando cargo de relevo em chapa eleitoral. Em 1989, Mário Covas jogou todo seu prestígio político em apoio ao petista contra Fernando Collor no segundo turno da eleição presidencial. Como agora, foi uma união contra o mal maior.

Quem viveu aqueles dias lembra-se de que o PSDB dividia-se entre os que pretendiam apoiar Collor e os que queriam fechar com Lula. No primeiro grupo estava Fernando Henrique Cardoso, já com cargo prometido num eventual governo do representante da direita. Covas, candidato derrotado no primeiro turno, bateu duro na briga interna, afirmou que deixaria o partido caso fosse formalizado apoio a Collor. Forçou a sigla a abraçar Lula.

No palanque de esquerda, Covas proferiu discursos contundentes nos inesquecíveis comícios da Praça Charles Miller, São Paulo, em 10 de dezembro, com a presença de Luís Carlos Prestes, e em 13 de dezembro, na Candelária, Rio de Janeiro, ao lado de Leonel Brizola. Fernando Henrique e José Serra também estiveram presentes, mas exibindo sorrisos amarelos.

Na época, Geraldo Alckmin era deputado federal. Hoje, mostra que a personalidade do seu padrinho político vive nele, o que pode ajudá-lo a superar a imagem de coroinha e protetor de policiais violentos.

A mediocridade da única pessoa que pode processar o presidente da República

José Cruz / Agência Brasil

Por Paulo Henrique Arantes

O procurador-geral da República é a pessoa mais poderosa do Brasil, pois a única que pode processar o presidente da República. A relevância a priori do cargo poderia transmutar-se em benefício histórico à nação, não fosse Augusto Aras seu atual ocupante. Servo de Jair Bolsonaro, Aras dedica-se a processar professores de Direito que o criticam, como Conrado Hübner Mendes, colunista da Folha de São Paulo. As “investigações preliminares” que costuma abrir contra o governo ou a figura do presidente já integram o anedotário popular: de 78 delas, apenas três resultaram inquérito – interferência na Polícia Federal, manifestação por intervenção militar e responsabilidade pelo colapso da saúde em Manaus, quando cidadãos doentes de Covid-19 morreram por falta de oxigênio.

Na terça-feira (14), ao não recorrer de decisões monocráticas dos ministros do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes – um, tucano; outro, também –, permitiu a anulação de investigações contra José Serra, Michel Temer e Moreira Franco sem que os méritos dos processos fossem julgados de forma colegiada pelo tribunal.

Augusto Aras é uma das faces da personalidade deletéria que hoje domina as instituições do país. A coluna conversou com o advogado Roberto Tardelli, ex-procurador de Justiça e dono de uma lucidez analítica ímpar, para tentar compreender a presença de figura tão canhestra num dos mais elevados postos da República, figura que só perde em mediocridade para o próprio presidente e disputa cabeça a cabeça a segunda posição com nomes como Eduardo Pazuello, Abraham Weintraub , Ernesto Araújo e Damares Alves.

Tardelli acha que o “espírito do tempo” bolsonarista ainda será estudado. “Não é possível que sejamos tão fracos e tão ruins. O Aras é consequência deste nosso momento”, disse à coluna.

É comum comparar Augusto Aras com o primeiro PGR alcunhado engavetador-geral da República, Geraldo Brindeiro, que blindou Fernando Henrique Cardoso contra coisas horríveis. Para Tardelli, contudo, as semelhanças acabam na lealdade ao presidente: “Eu não consigo compará-los, pois não dá para comparar FHC com Bolsonaro. Eu acho que Bolsonaro é incomparável com qualquer ser humano, é um ícone da bestialidade, do anti-humanismo”.

Papel diametralmente oposto exerceram os procuradores-gerais durante os anos em que o PT esteve no governo. Em vez de comaradagem, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff contaram com a volúpia persecutória de Antonio Fernando Souza, Roberto Gurgel e Rodrigo Janot. Depreende-se que o partido de Lula, no governo, agiu republicanamente ao nomear os chefes do Ministério Público, sem se preocupar com eventuais contratempos judiciais . Será?

“O PT só foi entender a importância da Procuradoria Geral da República e do Supremo Tribunal Federal quando virou réu. Acho que o partido pecou pela ingenuidade, numa visão mais amistosa, ou pela própria ignorância do processo político institucional que ocorria fora do âmbito do Congresso e do sindicalismo onde ele se criou. O PT não conhecia o Judiciário e o Ministério Público – quando conheceu, já era tarde”, analisa Roberto Tardelli.

No caso do Supremo, a maneira como votaram na Lava Jato os ministros Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Teori Zavaschi e Rosa Weber, por exemplo, todos nomeados nos governos petistas, confirmam o que diz Tardelli. Sem falar no comportamento do relator do Mensalão, Joaquim Barbosa.

Novo Relatório de Desigualdade Mundial: pandemia aumentou distância entre ricos e pobres

Por Paulo Henrique Arantes

Acaba de ser lançada a última edição do Relatório de Desigualdade Mundial do Word Inequality Lab, que tem o economista francês Thomas Piketty como diretor. Piketty é autor da mais importante obra literária de economia deste século até aqui, “O Capital no Século XXI”.

Segundo escreveu Piketty em suas redes sociais, “observamos um nível extremo de concentração de riqueza em todo o mundo”. De acordo com o estudo, os 10% mais ricos possuem de 60 a 80% da riqueza nas várias regiões do mundo. Os 50% mais pobres possuem menos de 5%. “A desigualdade de riqueza vem aumentando depois da Covid”, destacou o economista.

A alíquota de rendimento do trabalho das mulheres, ainda de acordo com Piketty, “está muito abaixo de 50% em todas as regiões do mundo; a nível global em 2020, a quota de mulheres é de cerca de 35% (versus 65% para os homens)”.

As desigualdades nas emissões de carbono são extremamente altas a nível global e dentro de cada país e regiões mundiais, mostra o estudo. “Os 50% mais baixos emissores têm níveis de emissão relativamente razoáveis; a prioridade principal deve ser reduzir as emissões dos primeiros 10%”, escreveu Thomas Piketty.

Suspeição de Moro enterrou chance de reabertura de processo contra Lula, afirma ex-ministro Eugênio Aragão

Por Paulo Henrique Arantes

Além de retórica eleitoral, o ex-juiz parcial Sérgio Moro mostrou raso conhecimento do Direito ao dizer que “manobras jurídicas enterraram de vez o caso do tríplex de Lula, acusado na Lava Jato”. Moro comentou, numa tuitada, o reconhecimento da prescrição do caso pelo Ministério Público Federal. Usou o chavão falso-moralista de que “crimes de corrupção deveriam ser imprescritíveis, pois o dano causado à sociedade, que morre por falta de saúde adequada, que não avança na educação, jamais poderá ser reparado”.

Segundo o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, que integrou o MPF como procurador da República, a prescrição constitui uma garantia da defesa à medida que estabelece um limite para o Ministério Público.

“Não se trata de afirmar que Lula foi salvo por ‘manobra jurídica’, mas apenas de, reconhecendo-se a suspeição evidente de Moro, não ser mais o caso de recomeçar as investigações ou a acusação”, disse Aragão do Brasil 247. “O Superior Tribunal de Justiça, ao fixar a pena no processo anulado, impôs um teto temporal para qualquer nova iniciativa, já que a pena, em qualquer caso, não poderia ser superior àquela fixada pelo STJ, mesmo anulado o processo”, explicou.

“A questão principal é que Moro agiu por paixão política e não era um juiz imparcial. Com isso, ele contaminou tudo. Mas claro que, como sempre, ele vai apontar a culpa nos outros, já que se acha impoluto”, avaliou o ex-ministro.

Ômicron: se o Brasil se sair bem, não terá sido por obra do governo, afirma especialista da USP

Por Paulo Henrique Arantes

A chegada da variante Ômicron ao Brasil é inevitável, concordam as autoridades sanitárias. A boa cobertura vacinal do país, principalmente em comparação com os países africanos em que a nova cepa parece ter surgido, pode dar aos brasileiros certa tranquilidade, mesmo que ainda não se saiba qual o grau de proteção que as vacinas oferecem em relação à nova modalidade do vírus. De todo modo, quem puxar aplausos para o governo Bolsonaro por conta disso estará redondamente enganado.

      “Nada do que ocorrer daqui para diante será capaz de apagar a irresponsabilidade e os crimes cometidos por várias altas autoridades federais, a começar pelo presidente da República, na condução da pandemia”, afirma Fernando Aith, professor titular da Faculdade de Saúde Pública da USP.

      Diretor do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (Cepedisa) da mesma universidade, Aith é um dos autores de um detalhado estudo sobre a atuação do governo na pandemia, o qual foi fornecido à CPI da Covid e auxiliou na confecção do seu relatório final.

      “O comportamento do governo foi do negacionismo à adoção de políticas públicas totalmente equivocadas e contrárias ao que era recomendado pela ciência e pela lógica. Nunca podemos nos esquecer de que poderíamos ter evitado entre 100 mil e 400 mil mortes no Brasil se o Governo Federal apoiasse as medidas não-farmacológicas que eram recomendadas e disponibilizasse a vacina para a população mais cedo, o que seria possível se o Ministério da Saúde não tivesse fugido dos fabricantes que o procuravam”, recorda Aith.

      De outra parte, avalia Aith, o abandono quase total das regras de contenção da Covid neste momento – basta sair às ruas, ir a um restaurante, a um comércio qualquer ou a um estádio de futebol para verificar – mostra que as autoridades públicas preocupam-se mais com o “esgotamento” da sociedade diante da pandemia e o andamento da economia do que com o potencial ainda grande de aumento dos casos de Covid.

      “O cálculo está sendo político, generalizando a importância de abertura e flexibilização das regras de contenção do coronavírus em nome de uma suposta segurança que teria sido dada pela vacinação já expressiva no Brasil. Isso significa um risco, cujo dano veremos mais à frente”, adverte Aith. “É preciso muito cuidado, porque há muita gente ainda não vacinada, há novas variantes surgindo, especialmente a Ômicron. Além disso, pode aparecer uma nova variante no Brasil entre os não-vacinados. Não se pode arrefecer nos cuidados”, alerta.

      Também não se deve desativar – ainda – toda a estrutura ambulatorial e hospitalar que se desenvolveu no país par combater a Covid no país. “O momento atual não é de desmobilização total das estruturas e esquemas montados para contenção da pandemia no Brasil, sejam os hospitais-referência, seja a grande estrutura de vacinação e de atendimento de UTI e internação”, recomenda o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.

      A orientação dos especialistas é que tais estruturas sejam desmontadas paulatinamente, retomando-se as cirurgias eletivas e os procedimentos para tratamento de doentes crônicos, como diabéticos e hipertensos, sem eliminar completamente a estrutura contra a Covid. “É hora de achar o equilíbrio”, diz Fernando Aith.