A intervenção militar que culminou na morte de Marielle

Por Paulo Henrique Arantes

      O assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes em 2018 foi o legado da intervenção federal via Exército no Rio de Janeiro, obra do governo de Michel Temer. Vale registrar que, de janeiro a março daquele mesmo ano, 12 ativistas sociais foram mortos em aparentes crimes de mando no Brasil. A intervenção no Rio, uma forma de Temer apossar-se da bandeira eleitoral da segurança pública, foi duramente criticada pela ONU e pela Anistia Internacional, com base em experiências anteriores fracassadas.

      “O uso repetido de força letal sugere o fracasso do governo brasileiro em tomar medidas de precaução para impedir a perda de vidas”, dizia um comunicado interno da ONU assinado por Agnes Callamard, relatora especial sobre Execuções Sumárias, Sabelo Gumedze, chefe do Grupo de Trabalho sobre Povos de Descendência Africana, e Dainius Puras, responsável pela relatoria em Direito à Saúde. O comunicado baseava-se na execução de cinco menores no Rio de Janeiro entre março e julho de 2017, e externava o temor de que, com o incremento do uso das Forças Armadas, quadros desse tipo recrudescessem.

      Não só recrudesceram como alcançaram uma personagem política de relevo local como Marielle Franco, com a conivência do delegado-chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, nomeado pelo interventor federal, general Braga Neto.

      Na época da intervenção, até o general Eduardo Villas-Bôas, comandante do Exército, classificou uso banalizado das Forças Armadas como temerário, posto que soldados não são treinados para esse tipo de atividade. Claro, não foram soldados que mataram a vereadora, mas o chefe de Política sintonizado com os mandantes fora escolhido a dedo por um general.

      O coordenador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, deu a letra a este colunista àquela época: “Nós deveríamos privilegiar novas estratégias de funcionamento institucional, de combate à corrupção, o fim das indicações políticas para os batalhões, uma série de medidas que tem a ver com o que eu chamo de uma nova governança do sistema de segurança pública e justiça criminal”.

           A relação corrupta entre as Polícias Militar e Civil do Rio de Janeiro e o crime organizado – seja o tráfico, seja a milícia, seja o jogo do bicho – é notória e antiga. Há fartos estudos, relatórios, reportagens e filmes. O cinema já retratou a criminalidade policial carioca inúmeras vezes. Não existe surpresa, portanto, no envolvimento de um delegado na morte de uma vereadora.

Mudar esse perfil exige, primeiro, uma ação de inteligência policial, operada pelos verdadeiros policiais, e vontade política. Segundo, a médio prazo, é necessária uma profunda mudança institucional.

      A Constituição Federal não define segurança pública nem ordem pública, tanto menos as diferencia. A Carta apenas indica quais instituições podem promover segurança pública e, no artigo 144, cita as polícias e desconecta Ministério Público e Poder Judiciário de um engajamento intensivo. Boa parte das instituições que o artigo 144 arrola como sendo responsáveis pela área funcionam com base em normas e legislações infraconstitucionais anteriores à própria Constituição. A Polícia Militar funciona com uma legislação de 1979. Em nenhum momento foi-se ao Supremo Tribunal Federal para saber se essa legislação infraconstitucional foi recepcionada pela Constituição.

      O fluxo entre o sistema de justiça criminal e a segurança abdica equivocadamente de técnicas de investigação. Não se pode viver de flagrantes: se um policial prender um criminoso hoje, amanhã surge um substituto se não se atacar o ponto da receptação e a distribuição dos produtos roubados e furtados, por exemplo. O fulcro da questão é que as polícias são muito mal estruturadas para fazer frente ao dilema da violência contemporânea, às novas formas de criminalidade, sejam elas organizadas ou não.

      Além disso, a rivalidade e a ausência de cooperação entre as Polícias Civil e Militar constituem outro fator responsável pela ascensão da violência urbana.

César Callegari aponta “homeschooling disfarçado” no PL do Novo Ensino Médio

Deputado Mendonça Filho, o Mendoncinha do Governo Temer.

Por Paulo Henrique Arantes

O Projeto de Lei do Novo Ensino Médio, aprovado ontem (20) na Câmara dos Deputados, está sendo tratado como “vitória do governo”.  Não é bem assim, pois o texto contempla a possibilidade de um “homeschooling disfarçado”, bem ao gosto dos bolsonaristas e do relator Mendonça Filho (União Brasil-PE).

Segundo o educador César Callegari, ex-secretário de Educação de São Paulo (gestão Fernando Haddad) e por 12 anos membro do Conselho Nacional de Educação, o parágrafo 3º do artigo 35-a “admite que, para integralizar o ensino médio, o estudante pode aproveitar vivências extraescolares como, por exemplo, trabalhos voluntários”.

Ou seja, como ilustra Callegari, o garoto realiza um trabalho voluntário para uma igreja ou uma seita qualquer e, em troca, pode deixar de assistir a determinadas aulas. “Certamente, ele será orientado a abater as aulas de Filosofia, Sociologia, História ou Geografia, matérias consideradas ‘comunistas’ por essas seitas”, alerta o educador.

Esse “homeschooling disfarçado” já constava do projeto original do relator Mendonça Filho, o Mendoncinha, ex-ministro da Educação de Michel Temer, um dos responsáveis por excluir da Base Nacional Curricular tudo que fosse repudiado pela direita radical – ou burra? -, aquela que acredita num fictício marxismo cultural.

Para César Callegari, será difícil, no Senado, “tirar essa granada do bolso do Novo Ensino Médio”.

Psicologia da Covardia

Por Paulo Henrique Arantes

Aprende-se nos dicionários que covardia – ou cobardia – significa fraqueza de ânimo para enfrentar circunstâncias perigosas ou arriscadas, falta de coragem, fraqueza moral, pusilanimidade. O substantivo também é referido como ato próprio de quem age de forma desleal ou traiçoeira. Diga-nos, raro leitor e rara leitora, se não temos uma descrição de Jair Bolsonaro.

Lula chamou o antecessor de “covardão” em uma entrevista. Cheios de pundonores, jornalistas da velha mídia apontaram deselegância lulista, pois não se deve adjetivar adversários políticos, ainda mais quando se ocupa a Presidência da República. Toda vez que Lula acerta na mosca desencadeiam-se reações desse tipo.

Identificar nuances psicológicas de determinadas gentes, contudo, não é cometer ataque pessoal. Saiba o leitor, fique sabendo a leitora, que já existe um ramo das ciências da saúde mental denominado Psicologia da Covardia, segundo o qual pessoas covardes tendem a evitar situações de confronto. Elas costumam se esconder ou se afastar, por exemplo, viajando ao Exterior na hora em que o bicho vai pegar.

O covarde, explicam psicólogos ouvidos pela coluna, não admite suas reais intenções e atitudes – por exemplo, quando trama golpes de Estado, ameaça descumprir ordens judiciais e mesmo assim afirma jogar “dentro das quatro linhas da Constituição”. O medo excessivo que caracteriza o covarde leva-o não raro ao desespero, fazendo-o usar sua influência para prejudicar terceiros, atribuindo-lhes culpa por atos dele próprio, o covarde.

Conforme nos ensina a Psicologia da Covardia, o covarde não assume responsabilidades nem desafios. Um exemplo perfeito é quando o presidente da República covarde diz não ser coveiro diante de milhares de mortes numa pandemia. Além disso, a covardia reflete-se em falta de assertividade e incapacidade de expressar ideias com clareza.

Enquanto o covarde não se aceitar como tal, não se curará, advertem os especialistas. Vencer o problema requer ajuda profissional, no caso, de um psicólogo da covardia. O tratamento inclui procedimentos que buscam desenvolver empatia no covarde, tarefa que parece bem difícil, entendendo-se empatia como a capacidade de se colocar no lugar do outro – aquele que é diferente de nós -, compreender seus sentimentos, perspectivas e necessidades. O empático no Poder atende aos vulneráveis, às minorias. O covarde nem olha para eles.

Marco Aurélio Mello mostra sua verdadeira face política

Por Paulo Henrique Arantes

Quem é, afinal, Marco Aurélio Mello? O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal notabilizou-se por ser, nos julgamentos da corte, voto vencido. Tal característica conferiu-lhe uma aura de independência: enquanto os outros 10 ministros promoviam “arranjos” para que determinados posicionamentos prevalecessem, ele votava debruçado sobre o texto frio da lei.

Não foram poucos os votos de Marco Aurélio que irritaram seus pares. Ele costumava recheá-los com ironias à visão jurídica dos colegas. No “mensalão”, defendeu o advogado de José Genoíno, Luiz Fernando Pacheco, que teve a fala cassada pelo então presidente do tribunal, Joaquim Barbosa. A este jornalista, disse à época sobre o ocorrido: “Eu vi uma violação a uma prerrogativa do advogado. O advogado não tinha outro meio para escancarar o quadro a não ser ir à tribuna, porque ele tinha interposto, com o réu preso, agravos regimentais e o relator, ministro Joaquim Barbosa, não levava a julgamento esses agravos. É que, infelizmente – eu sou voto vencido – entende-se que não cabe contra a decisão proferida por integrante do Tribunal, mesmo no que alcançando a liberdade de ir e vir, a impetração de habeas corpus. O advogado protestou, protestou da tribuna. E quando foi à tribuna, o advogado o fez de forma ponderada, com urbanidade, como convém”.

Esse mesmo Marco Aurélio, antes aparentemente garantista, é agora entrevistado pelo Estadão (17/03) e tece os mais efusivos elogios à Lava Jato, chegando ao absurdo de afirmar não ver qualquer ilegalidade na relação Moro-Dallagnol – juiz e promotor – no decorrer da operação. Estas foram suas palavras ao jornalão: “Se fala em conluio entre a magistratura e o Ministério Público, julgador e acusador. Que conluio? O diálogo é saudável, o diálogo sempre existiu. O juiz sempre esteve aberto a ouvir o Ministério Público, fazendo a ponderação cabível. Colocar cada qual em uma redoma, em um isolamento de não poderem conversar é um passo demasiadamente largo e não é democrático. Na vida em sociedade, nós temos que presumir a postura digna, principalmente por aqueles que ocupam cargos públicos, e não que sejam salafrários até que provem o contrário”.

Cinicamente, Marco Aurélio classifica uma ação orquestrada entre aquele a quem cabe julgar e aqueles aos quais cabe investigar como “diálogo saudável”. Teria a aposentadoria obnubilado o garantismo do ex-magistrado? Ou só agora, livre dos formalismos impostos pela toga, ele mostra sua verdadeira face política?

Moralista e piegas, Marco Aurélio brada contra a corrupção no Estadão lamentando o fim da ilegal Operação Lava Jato: “Para mim, dar-se a Lava Jato como algo sepultado é ruim até mesmo em termos de ausência de imposição de uma seriedade. A decepção é incrível. E repito que não avançamos dessa forma. Nós retrocedemos. (…) Eu espero viver tempos em que se tenha realmente uma percepção, pelo homem público, de que o cargo é para servir aos semelhantes e não para o ocupante se servir do próprio cargo em benefício dele e da família”. Esse paladino anticorrupção, quando ministro do Supremo Tribunal Federal, concedeu habeas corpus ao banqueiro Salvatore Cacciola, aquele do banco Marka, cuja carreira foi marcada por crimes financeiros e fuga internacional.

Este colunista entrevistou Marco Aurélio Mello em seu gabinete um ano e nove meses antes de sua aposentadoria. Indagamos ao magistrado o que faria da vida quando deixasse a toga. A resposta foi: “Não vou morrer de tédio. Tenho muito o que fazer”. Está-se vendo agora que tipo de atividade ele programava para seu futuro de aposentado.

Samuel Wainer, Getúlio e o nascimento da Petrobras

Getúlio Vargas e Samuel Wainer

Por Paulo Henrique Arantes

A imprensa, ou parte dela, usa todos os seus subterfúgios para atender aos anseios dos rentistas. É sempre assim, tanto mais quando se trata da Petrobras: mais valem os dividendos pagos aos acionistas do que o investimento e o crescimento da empresa. Nenhuma “intervenção” de objetivo social é aceitável, porém aplaude-se qualquer medida em benefício dos donos do capital.

      As contendas em torno da petrolífera brasileira são históricas, anteriores à sua própria existência. Há um estudo bastante interessante do professor Luis Carlos dos Passos Martins, coordenador do curso de História da PUC do Rio Grande do Sul, que em sua tese de mestrado dissertou sobre “O Processo de Criação da Petrobras: Imprensa e Política no Segundo Governo Vargas”.

      Num texto de 2008, Martins analisa o papel do jornal “Última Hora”, de Samuel Wainer, durante o processo de criação da Petrobras, que durou de 1951 a 1953. Varguista raiz, Wainer adaptou seu diário às idiossincrasias políticas, mantendo-se fiel ao presidente da República, mesmo quando este mudou seu roteiro de criação da estatal.

      Os brasileiros, em particular a classe política, dividiam-se entre os “nacionalistas”, que defendiam o monopólio estatal do petróleo, e os “entreguistas”, que queriam o minério explorado mediante atração de capital estrangeiro. O leitor sabe qual era a proposta inicial de Getúlio?

      O projeto do presidente, apresentado em 6 de dezembro de 1951, não propunha o monopólio estatal do petróleo, mas a criação de uma empresa de economia mista, com a participação de acionistas privados e controle da União. A despeito de seu perfil nacionalista, Getúlio não queria semear uma discussão ideológica no Congresso.

      Estava armada a polêmica. Os nacionalistas, inclusive os do PTB, partido de Getúlio, classificaram o projeto como entreguista. Num primor de falsidade política, a ultraliberal e sempre golpista UDN, para se firmar na oposição, apresentou um substitutivo propondo a criação de outra empresa estatal, a Enape (Empresa Nacional de Petróleo), que deteria o monopólio integral no setor petrolífero.

      O debate foi acirrado. Mediante um acordo partidário, contemplou-se o monopólio estatal do petróleo nas mãos da Petrobras. Getúlio cedera, mas logrou manter sua imagem atrelada ao nacionalismo.

      E a “Última Hora” nessa história? Segundo o professor Luis Carlos dos Passos Martins, o jornal, inicialmente, apoiara a empresa de economia mista do projeto getulista original. Com a mudança de postura do governo, a UH de Wainer passou a apoiar o monopólio como saída política para o impasse.

      Fiel à sua linha editorial de defender as causas populares, a “Última Hora”, ao longo do processo de criação da Petrobras, apregoava o aumento de impostos sobre artigos de luxo para bancar a construção da nova empresa, com manchetes como “Champanhe, whisky e luxo pagarão pelo petróleo”. Assim, Wainer associava Getúlio aos interesses das classes desprivilegiadas. Ele estava do lado certo.

O novo presidente da Comissão de Educação da Câmara não apareceu na Conferência Nacional de Educação

Nikolas Ferreira, exibindo seu bolsonarismo diante de uma urna eletrônica (Reprodução / X)

Por Paulo Henrique Arantes

  Realizou-se em janeiro a Conferência Nacional de Educação, da qual resultou uma série de propostas sérias para o Projeto de Lei do Plano Nacional de Educação (PNE) 2024-2034. Agora nomeado para presidir a Comissão de Educação da Câmara, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) não deu as caras por lá. E não surpreendeu.

      Negar o inegável e apregoar o inexistente são práticas fundamentais da extrema-direita, portanto participar de discussões que visem a construir um futuro calcado no conhecimento não consta da agenda dessa gente. Interessa saber quais princípios movem um Parlamento que aprova o nome desse sujeito para um cargo destinado a lidar com a educação.

      Para o educador César Callegari, que por 12 anos integrou o Conselho Nacional de Educação, “a escolha do deputado Nikolas Ferreira para a Comissão de Educação revela o pouco caso que a extrema direita tem pelos reais problemas educacionais do país”.

      Interesses ideológicos miúdos não deveriam se sobrepor ao debate educacional. Neoliberais extremistas como Ferreira sabem muito bem que propor aberrações como o homeschooling só serve para tumultuar o ambiente, incensando a velho e fajuto argumento de que um imaginário “marxismo cultural” infesta o ensino.

      “Homeschooling, uma das bandeiras atrasadas defendidas pelo deputado, só é prioridade para aqueles que pretendem autorização legal para formar quadros ‘puros’ doutrinados para servir às seitas ultraconservadoras. É o que acontece nos Estados Unidos, um dos poucos países em que isso é admitido”, observou Callegari à coluna.

      O ex-secretário municipal da Educação de São Paulo (administração Fernando Haddad) afirma caber aos setores responsáveis da sociedade manter presença vigilante sobre os trabalhos da Comissão nas mãos de Nikolas Ferreira, forçando o debate em torno das pautas definidas no projeto do PNE, todas opostas à visão bolsonarista, como ficou claro nas palavras do ministro da Educação, Camilo Santana: “Nós queremos um PNE da equidade no Brasil, para acabar com as diferenças entre pobres e ricos, negros e brancos, para dar oportunidade a todos”.

Freire Gomes deveria ter denunciado Bolsonaro ao procurador-geral da República

Por Paulo Henrique Arantes

O depoimento do general Marco Antônio Freire Gomes chacoalhou ainda mais o bambuzal bolsonarista. As apurações de bastidores na imprensa apontam mais ou menos na mesma direção: o ex-comandante do Exército foi contundente à Polícia Federal ao colocar Jair Bolsonaro à testa das articulações golpistas, atribuindo ao próprio presidente a apresentação de uma das famigeradas minutas golpistas, a qual teria sido rechaçada pelo militar.

A recusa em participar de um golpe de Estado, contudo, não torna Freire Gomes um herói.  Herói seria se, concitado a solapar a Constituição, tomasse providências para coibir a conjuração.

Maria Cristina Fernandes, do Valor, informou em setembro último – e reproduzimos aqui – que, em reunião delatada por Mauro Cid com os então comandantes da Marinha, almirante Almir Garnier Santos, da Aeronáutica, brigadeiro Carlos Batista, e do Exército, Marco Antônio Freire Gomes, quando tentava viabilizar o golpe, Bolsonaro ouviu de Freire Gomes: “Se o senhor for em frente com isso, serei obrigado a prendê-lo”. Não se sabe se o general confirmou o dito à PF no depoimento de agora.

À luz do Direito, como escrevemos em setembro, Freire Gomes não poderia dar voz de prisão a Bolsonaro, mas deveria denunciar a intentona ao procurador-geral da República – essa seria a conduta verdadeiramente patriótica.  Em defesa do general exalte-se postura contrária ao colaboracionismo do almirante Garnier.

Já recordamos aqui um caso passado que merece nova menção. Em 1954, após o suicídio de Getúlio Vargas e a posse na Presidência do vice Café Filho, o marechal Henrique Batista Duffles Teixeira Lott assumiu o Ministério da Guerra. No momento em que Carlos Luz passou a ocupar interinamente a Presidência da República e mostrou ímpetos inconstitucionais, Lott deixou o cargo.

Eleitos Juscelino Kubitscheck e João Goulart presidente e vice, as forças udenistas, sempre golpistas, tramaram junto com setores militares contra a posse de ambos. Lott comandou uma campanha – e liderou tropas – para que JK e Jango tomassem posse conforme a Constituição. Em 1961, a postura legalista de Lott também foi decisiva para garantir a posse de João Goulart no Palácio do Planalto, após a renúncia de Jânio Quadros.

Há militares e militares. Convidasse um marechal Mott a deflagrar um golpe contra as eleições, o que aconteceria a Bolsonaro?

Alguém precisa dizer a Georgieva que meta de déficit zero atrapalha o crescimento

Kristalina Georgieva. Foto: Reuters / Ahmed Yosri.

Por Paulo Henrique Arantes

Em entrevista ao Valor Econômico, a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, rasgou elogios à economia brasileira. Desde a crise de 2008, organismos multilaterais abandonaram a cartilha neoliberal mais rasteira, aquela que hoje tem meia dúzia de seguidores no mundo, boa parte dos quais é doida de pedra como Javier Milei. Georgieva caminha na linha desenvolvimentista cautelosa, mantendo algumas amarras ortodoxas.

Em São Paulo, ela disse que o Brasil tem sido “uma boa notícia para a economia mundial”, mas um crescimento de 3% em 2023 e de 2% em 2024 “não é suficiente para a ambição e o potencial do país”. Exibindo sua face ortodoxa, afirmou que estivemos “à frente no combate à inflação por meio do aumento dos juros”, e à frente permanecemos ao demonstrarmos “capacidade de ver a inflação baixar a ponto de se poder reduzir as taxas”.

Georgieva elogiou o “arcabouço” de Fernando Haddad, que está longe de ser apreciado pelos economistas mais à esquerda, e a reforma tributária.

“Ela deu destaque para a melhoria do gasto público ao invés de ficar martelando, como os representantes do financismo fazem, que tem que cortar, cortar, cortar”, avaliou o economista Paulo Kliass a pedido da coluna. Doutor em Economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do Governo Federal, Kliass, contudo, não passa pano para Geoergieva. Nem para Haddad.

Na avaliação de Kliass, Georgieva faz, indiretamente, uma crítica ao antigo teto de gastos Temer-Meirelles, mas não critica “o subteto do Haddad”, o tal arcabouço fiscal. De outra parte, elogia a diretora do FMI por reconhecer que o Brasil é o único país na América Latina com boa participação das receitas tributárias no PIB, fator que poderia ser bem aproveitado para implementação de políticas públicas e coisas do gênero.

“É óbvio que ela é uma pessoa com perfil conservador, de proximidade muito grande com as visões do sistema financeiro internacional, e em alguns momentos ela confirma isso, como quando enfatiza a importância da participação do setor privado na oferta de serviços públicos”, percebe Paulo Kliass.

Esta foi a fala de Georgieva a que o economista brasileiro se refere: “Eu gostaria de enfatizar que, no front fiscal, as tarefas mais importantes que se tem pela frente são, em primeiro lugar, garantir que a arrecadação seja justa, que as brechas seja fechadas e que a tributação distribua o peso das receitas de forma justa por toda a sociedade. Em segundo lugar, a maneira como o dinheiro público é usado, e isso é realmente fundamental. Ele precisa ser usado mais do que no passado para abrir oportunidades de investimento privado, porque, em última análise, é isso que impulsiona as economias”.

Kristalina Georgieva entende, como nós, ser necessário um esforço para que o país cresça mais e mais rápido, de modo a alcançar o protagonismo que lhe caberia no mundo. Tudo certo, então? Não para Paulo Kliass: “Para crescer, há necessidade de aumentar a presença do Estado por meio de empresas, por meio de programas, de projetos e principalmente de investimentos públicos. Mas isso significa eliminar essa coisa da meta 0% de déficit para 2024, e refazer com maior flexibilidade as regras draconianas presentes no novo arcabouço fiscal”.

Michel Temer, sempre de plantão

Foto: Alan Santos

Por Paulo Henrique Arantes

Lemos agora no G1, pela pena de Daniela Lima, que Michel Temer acalmou antecipadamente o Supremo Tribunal Federal quanto ao caráter pacífico da manifestação convocada por Jair Bolsonaro. Poxa, ainda bem! Não fosse Temer, os ministros teriam ficado a tremer de medo das palavras a serem proferidas pelo capitão golpista.

Michel Temer desde sempre presta-se a esse tipo de serviço. Atribuem-lhe talentos diplomáticos, incomparáveis habilidades conciliadoras. Este colunista, contudo, enxerga-o como um vaselina, aquele sujeito que escorrega de um lado para outro sem se machucar.

Temer não vai para a mesma lata de lixo de Bolsonaro, escrevemos não faz muito tempo. Terá outra, só sua. Velha raposa política, articulou a derrubada da presidenta da República e surrupiou-lhe o cargo. No Planalto, foi o instrumento ideal da elite brasileira, conservadora e exploradora. Seu legado ainda perdurará, destacando-se o retrocesso social provocado pelo teto de gastos e os horrores da reforma trabalhista, responsável por notável precarização do trabalho.

Com sua reforma trabalhista, o constitucionalista Michel Temer ameaçou destroçar a CLT – não o fez por completo, mas quase. Agradou, como sempre, a elite que considera os custos da contratação formal um entrave à produção e à ampliação dos negócios.

A reforma da Previdência que Bolsonaro impingiu ao país, com ajuda do Congresso mais obtuso da História da República, foi concebida pelo governo Temer, como se sabe. Só não emplacou naquele mandato porque o mandatário perdeu qualquer condição de negociar com os parlamentares, denunciado que fora por corrupção após o vazamento da famigerada conversa com Joesley “Friboi” Batista.

Políticos como Michel Temer são polidos, usam mesóclises e pregam consensos. Exibem algum lustro jurídico, e estão sempre de plantão para socorrer golpistas em dificuldade. 

Ronaldo Caiado, o oportunista de sempre

Foto: Facebook Ronaldo Caiado

Por Paulo Henrique Arantes

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, é dado a bravatas. Sua presença no ato desesperado de Jair Bolsonaro – um falatório ao gado no qual o capitão covardemente travestir-se-á de vítima de perseguição – é natural. Caiado não é um conservador civilizado, como tenta parecer, mas um oportunista de direita.

Recordar é viver. No ápice da pandemia, o governador e médico (!) Ronaldo Caiado alinhou-se com o general que atravancava o Ministério da Saúde, Eduardo Pazuello, na busca de um fato ou factoide que referendasse a argumentação fajuta de que todos os Estados deveriam ter isonomia na vacinação contra a Covid-19.

Cogitava-se, então, que o governo baixasse uma Medida Provisória determinando o confisco de toda e qualquer vacina disponível em solo brasileiro, em nome de uma suposta imunização territorialmente igualitária – algo que obviamente seria derrubado pelo Judiciário.  A intenção era subtrair do governador paulista, João Doria, a condição de deflagrador da vacinação no país, com a Coronavac.

Numa guerra pandêmica, cabe aos governadores, diante da inação federal, usar as armas de que dispõem para preservar a vida de suas respectivas populações. Caiado não honrou essa prerrogativa, ou pior, atuou contra ela.

De todo modo, a ideia que golpeava a ciência e a vida era natimorta. Não por vontade do governador de Goiás.