
Por Paulo Henrique Arantes
Este colunista trabalhou durante oito anos num palácio de governo, produzindo releases para a imprensa sobre gestões de dois governadores. O palácio era o dos Bandeirantes, e os governadores eram Orestes Quércia e Luiz Antônio Fleury Filho. Não me queiram mal por isso.
Era como frequentar uma escola ver os colegas credenciados no Comitê de Imprensa – os setoristas – darem longos expedientes até que o governador se dispusesse a lhes conceder entrevista, ou mesmo ter com eles uma conversa informal, na qual certamente lhes seria dada alguma informação em primeira mão. Eram todos profissionais experimentados, alguns cobriam o Palácio desde os tempos de Adhemar de Barros.
Fleury não tinha nenhum tostão de carisma, mas Quércia era espirituoso e inteligente – um “peixe ensaboado”, como o Interior batiza os espertos. Ocorre que a intimidade que fingia manter com os setoristas encorajava-os a atitudes no mínimo engraçadas. Alguns tinham por hábito dar conselhos políticos e administrativos ao governador, que fingia levá-los em consideração.
“O senhor deveria cuidar primeiro disto, depois daquilo”, “Se eu fosse o senhor, não acreditaria nesse sujeito”, “Por que o senhor não convida fulano para aquela vaga no secretariado?”, “O senhor deveria trocar X por Y”. Quércia fazia cara de interessado e agradecia “muito” pelas dicas. Jamais se teve notícia de ter acatado qualquer uma delas.
Colunistas, comentaristas e congêneres de hoje parecem ser descendentes intelectuais dos setoristas do Palácio dos Bandeirantes dos anos 80. Não resistem a dizer o que Lula deve fazer ou falar. Em vez de analisar as reais razões e as verdadeiras intenções de um ato ou fala do presidente da República, bem como suas consequências, comportam-se na mídia como se dissessem: “Se eu estivesse no lugar de Lula, faria aquilo, não isso”.
Por ter duas ou três fontes no Poder, essa turma julga-se conhecedora da mente do presidente e acredita ter meios de induzi-lo a esta ou aquela atitude. Dizer que Lula “derrapou” num discurso é uma interpretação, afirmar que Lula deveria ter dito “assim, e não assado” é muita pretensão, a menos que se esteja pleiteando o posto de conselheiro ou assessor presidencial – e Lula já os tem de sobra.









