Trump, uma catástrofe que tem milhões de eleitores

Fotos Públicas

Por Paulo Henrique Arantes

Dias atrás, chamei Andrés Oppenheimer de jornalista vira-lata. O colunista do Estadão e apresentador da CNN em Espanhol merecera a denominação pejorativa por considerar “patético” o discurso de Lula na ONU, em artigo no qual deixou clara sua preferência por um Brasil subalterno – vira-lata, portanto, no entendimento rodrigueano.

Na última terça-feira (15), contudo, o colega famoso (apesar do vira-latismo), escritor premiado, mandou bem. Não se sabe se puxou pela memória ou pelo Google, mas trouxe à luz os feitos de Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos, em tese suficientes para desencorajar qualquer pretensão eleitoral.

A lista de Oppenheimer, que certamente votaria em Kamala Harris se fosse eleitor americano, contém lembranças importantes, as quais não costumam ser revisitadas tanto quanto merecem (ou não chegam a este periférico jornalista que vos escreve).  Trata-se de fatos que deveriam servir como bloqueios eleitorais, motivar indignação coletiva, ganhar o repúdio de todos. Só que não: americanos votam em Trump crentes sabe-se lá em quê.

Peço licença a Oppenheimer, que ignorou solenemente minha provocação, para replicar aqui alguns dos feitos de Donald Trump quando morador da Casa Branca (minha meia dúzia de leitores merece saber):

– Registrou-se no governo Trump o maior déficit da História dos Estados Unidos. A dívida nacional aumentou em quase US$ 7,8 trilhões, alcançando US$ 28 trilhões;

– Ao término do governo, os Estados Unidos tinham 3 milhões de trabalhadores empregados a menos;

– Trump enfraqueceu a posição dos Estados Unidos no mundo ao iniciar brigas com aliados europeus e abraçar Vladimir Putin e Kim Jong-um;

– Ao término do governo Trump, China e Rússia estavam mais fortes na geopolítica do que antes;

– Trump exacerbou o ódio racial desde antes de assumir a Presidência, tendo declarado falsamente que a maioria dos mexicanos era de “estupradores”;

– Derrotado em 2021, Donald Trump encorajou, ainda que tacitamente, a invasão do Capitólio por apoiadores seus.

Oppenheimer ainda nos lembra que Trump mente o tempo todo, traiu todas as suas esposas, faz comentários racistas sem parar e é um criminoso condenado. E tem milhões e milhões de eleitores.

Lula tenta acabar com a figura do empreendedor-idiota

pedantic happy man

Paulo Henrique Arantes

Neoliberais muito bem esclarecidos e mal intencionados escondem-se atrás dos boçais de extrema-direita que, com seus bonés e sapatênis, pregam liberdade e empreendedorismo. A liberdade que querem sabe-se o que é: a de pespegar mentiras sobre adversários, disseminar absurdos que lhes favoreçam os negócios, vilanizar a política e o Estado. Mas a segunda palavrinha – “empreendedorismo” – é a que guarda a chave do discurso dessa gente.

Empreender é positivo, remete a ousadia e iniciativa, mas o “empreendedor” estimulado pelos neoliberais, esses defensores do Estado mínimo, são nada mais que idiotas úteis por não entenderem que o Estado deve atuar em prol deles, não para os donos da dívida pública. São escravos de um falso sonho de prosperidade.

O empreendedor é o sujeito que contrai um empréstimo bancário a juros escorchantes para abrir seu pequeno negócio, e que terá de trabalhar diuturnamente durante anos para pagar a dívida? A paulada bancária lhe consumirá a receita, impedindo reinvestimentos e, não raro, tomando-lhe o lucro.

O empreendedor é o motorista de aplicativo, que se orgulha da autonomia que lhe é concedida para trabalhar 12 horas por dia e arcar com todos os custos de manutenção do veículo? Ou o empreendedor é motoqueiro do delivery, que atende a três ou quatro restaurantes simultaneamente, sob sol e chuva, e orgulha-se de dizer que não tem patrão? Ambos imaginam-se empreendedores, todavia são cidadãos explorados.

Não se trata aqui de defender uma sociedade em que todos os trabalhadores estejam amarrados a empregos formais e patrões, mas é necessário compreender que, até para que as iniciativas individuais tenham sucesso, o Estado precisa atuar. O Governo de Lula apresentou em março último uma proposta para, em boa medida, “desescravizar” os motoristas de aplicativos. O Projeto de Lei Complementar 12 / 2024 tramita a passos de tartaruga na Câmara. O tema sumiu do noticiário.

A proposta de Lula é pela criação da categoria de “trabalhador autônomo por plataforma”. O empreendedor contribuiria com o INSS (7,5%), assim como a empresa dona do aplicativo (20%).  O projeto fixa jornada diária máxima de 12 horas e institui um adicional de 24,07 reais por hora trabalhada para pagamento de custos com celular, combustível, manutenção do veículo e outras despesas. Vê-se um regramento que não engessa, mas dá garantias ao cidadão que deseja seguir por esse caminho, e que hoje se encontra numa espécie de limbo trabalhista.

A precarização patrocinada pelos neoliberais e seus papagaios na politica, contudo, mostrou raízes quando o governo anunciou o projeto. Incautos, os próprios trabalhadores torceram o nariz, nos fazendo crer que a informalidade absoluta lhes é bem-vinda. Entre os pontos criticados estava a forma de contribuição previdenciária – como se sabe, para os neoliberais a previdência pública nem deveria existir.

Enquanto os parlamentares brasileiros ouvem lobistas, na França e na Espanha a Justiça decidiu que motorista de aplicativo não é trabalhador autônomo. Lá, esse empreendedor passou contar com proteção legal do emprego, direito a licença médica, plano de saúde e outros benefícios. 

Marçal e a estratégia do tumulto

Antonio Milena / Fotos Públicas

Por Paulo Henrique Arantes

Está cego quem ainda não percebeu que a estratégia de consolidação do seu nome na política é o tumulto. A última manifestação de Pablo Marçal, de que exige retratação por ofensas de Ricardo Nunes, Tarcísio de Freitas, Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Silas Malafaia – e de que Guilherme Boulos expressa o desejo de mudança dos eleitores – comprova o que é nítido: o coach 171 seguirá carreira solo em busca da Presidência da República, algo de que a Justiça precisa nos salvar.

Marçal externar certa simpatia pelo perfil renovador de Boulos – sem hipótese de apoio, lógico – é de falsidade notável, mas enfraquecer outros nomes da direita fortalece-o individualmente. De outra parte, é bem possível, até provável, que metade de seu eleitorado escolha o candidato do Psol no segundo turno da eleição paulistana. Esses cidadãos não possuem régua ideológica, enfeitiçam-se pelo desprendimento e o histrionismo, características encontráveis em Boulos e inexistentes em Nunes.

Até ser impedido pela Justiça, Marçal continuará a chamar os holofotes com falas inusitadas. Não lhe importam a lógica, o sentido e a verdade, mas o rebuliço que suas condutas causam. Assim como Chacrinha, só que vil, ele veio para confundir, não para explicar.

Por razões históricas, marginais de discurso ultraliberal vêm ganhando terreno na política. A pregação da meritocracia é sedutora: sem Estado, sem respeito às leis e à civilidade, pode-se conseguir riqueza, único objetivo a ser buscado pelas gentes que admiram Pablos Marçais. A realidade social que alija não é questionada e não se cogita modificá-la. O que se apregoa é o individualismo absoluto: ascender ao topo social, blindar-se num condomínio de luxo e deixar que o lado externo se lasque, explorando a ignorância e lucrando com ela.

Ao confrontar os direitistas e apontar favoritismo da esquerda, Pablo Marçal tenta se mostrar descolado de tudo e de todos.  Mais uma vez neste espaço, faz-se necessário aludir ao guru da extrema-direita Steve Bannon, cujo princípio básico é a falta de qualquer escrúpulo. O coach 171 segue a linha traçada pelo americano, em que as fake news pontificam.

As fake news subiram ao topo durante a campanha que elegeu Donald Trump presidente dos Estados Unidos, e são repetidas por ele na atual jornada eleitoral americana. No Brasil, Jair Bolsonaro elegeu-se mediante uso e abuso de noticias falsas, elaboradas por gente contratada, cabeças pensantes preparadas para elaborar coisas como a “mamadeira de piroca” que seria distribuída às crianças pelo candidato adversário. Bannon orientou a campanha que elegeu Bolsonaro. Coisas como falsificar documentos, como fez Pablo Marçal, cumprem a mesma cartilha despudorada.  

Não se tem notícia de que Bannon, que está preso, tenha tido contato com Pablo Marçal, mas suas ideias estão presentes nas falas e nos atos do coach.

Prefeito reeleito de Sorocaba convida Marçal para ser secretário de Desenvolvimento Econômico

Por Paulo Henrique Arantes

O prefeito de Sorocaba (SP), Rodrigo Manga (Republicanos), reeleito com mais de 70% dos votos, anunciou em vídeo nas suas redes sociais ter convidado Pablo Marçal para o cargo de secretário municipal de Desenvolvimento Econômico em sua próxima gestão.

Manga, simpático desde sempre a Jair Bolsonaro – alinhou seu discurso ao do bolsonarismo até mesmo durante a pandemia, estimulando a prescrição de cloroquina nas unidades de saúde -, é um case de sucesso do marketing pessoal. Evangélico, posa de empreendedor e defensor da livre iniciativa, mas não abre mão do assistencialismo.

O prefeito Manga estaria magoado com Bolsonaro e com o governador Tarcísio de Freitas, que na eleição municipal não o apoiaram, mas ao candidato Danilo Balas (PL).

No vídeo em questão, postado hoje (7), Manga diz que ainda não falou pessoalmente com Marçal, mas está formalizando o convite. O prefeito sorocabano refere-se ao coach como um “grande empresário, uma referência nacional de sucesso, que conseguiu vencer na vida e tem, inclusive, empreendimentos aqui na região metropolitana (de Sorocaba)”.

Um psicopata nunca desiste

Por Paulo Henrique Arantes

O encantador de incautos Pablo Marçal está fora do segundo turno da eleição paulistana, e ainda será julgado pelo crime de falsificação de documento, podendo ficar inelegível, ser preso ou outra coisa que o Direito Penal mandar. A disputa final será entre um idealista de esquerda e um político de baixa estatura, falso-moralista, adulador envergonhado que conta com a máquina pública. De todo modo, a “estrela” desta eleição municipal até que se conheça o vitorioso, pelo que causou, é Marçal, um psicopata que ainda dará muito trabalho à democracia brasileira.

Tempos atrás, Noticiário Comentado buscou em ótimo texto do médico psiquiatra Guido Palomba a descrição da personalidade de Jair Bolsonaro, enquadrando-o à perfeição entre os “psicopatas de Schneider”. Segundo Palomba, tais pessoas são assim caracterizadas pelo psiquiatra alemão Kurt Schneider, autor de “Personalidades Psicopáticas”: “A inteligência limítrofe ou seletiva leva-os a praticar atos bizarros, por turrice e teimosia. Persistem voluntariosos, desde que seja em benefício próprio. Caso voltem atrás, não é pelo reconhecimento do erro, mas por estratégia momentânea. Em seguida, recidivam, às vezes de forma mais virulenta, por serem rancorosos e vingativos”.

O “psicopata de Schneider” é 100% Bolsonaro e nem tanto Marçal, pois o segundo não apresenta a inteligência limítrofe do primeiro.

O caçador de likes que pretendia administrar a cidade de São Paulo carrega todos os quesitos do psicopata clássico – deixe-se Schneider de lado -, como qualquer manual psiquiátrico para leigos pode demonstrar. A mentira fácil, forjada e sem culpa, abre a lista, seguida do gosto pela adrenalina.

Psicopatas como Pablo Marçal costumam ser articulados, donos de retórica persuasiva, sedutora. Também são impulsivos, como provam atos como postar em redes sociais um laudo médico falso para destruir a reputação do adversário, mesmo cientes de que o desmascaramento pode vir de pronto.

Os manuais de psiquiatria explicam que o psicopata estressa-se e “explode” facilmente, ao passo que nunca se sente culpado de nada, pois os protocolos sociais nada lhe importam. Jamais coloca-se no lugar do outro, por isso pode levar pessoas a situações de perigo iminente sem nem sequer corar, como fez Marçal, o nosso psicopata, ao levar 32 pessoas a correrem risco de vida no Pico dos Marins. Mensurar consequências não é do métier do psicopata.

O psicólogo canadense Robert Hare, informa-nos o ótimo site de saúde mental Eurekka, relatou que o psicopata não conhece empatia, daí suas ações manipuladoras. Seus sentimentos são superficiais: ele ama uma pessoa da mesma forma como ama um carro ou uma piscina. Egoísta, só os próprios interesses o norteiam.

A atração de parte da população por psicopatas precisa ser melhor estudada. O discurso antipolítica que emana dessas mentes doentias talvez explique o apelo popular, afinal, boa parte dos políticos faz por merecer o repúdio dos cidadãos. Mas não é só isso. Integrantes da base da pirâmide social, em regra, almejam ascender individualmente como prometem os coachings, não participam da luta por uma sociedade mais justa e igualitária.

Aguardemos com atenção o próximo passo do influencer e político neófito Pablo Marçal. Psicopatas não desistem.

Stiglitz, um farol contra o absurdo neoliberal

Joel Saget / AFP

Por Paulo Henrique Arantes

Aos 81 anos, Joseph Stiglitz preserva a sabedoria e a verve que lhe renderam um Nobel, em 2001. A entrevista do economista americano a Vivian Oswald, do Valor Econômico, publicada na quarta-feira (2), mostra a lucidez renovada de quem percebeu, há muito tempo, que o neoliberalismo só leva à desigualdade, ou que os donos do dinheiro portam as bandeiras neoliberais para perpetuar essa desigualdade.

E não só de filigranas econômicas compõe-se o pensamento de Stiglitz. Sua ideia de justiça em tempos de Elon Musk, por exemplo, é inquestionável: “As novas tecnologias ampliaram a capacidade de espalhar erros e desinformação, alguns dos quais muito perigosos para a nossa sociedade, de uma forma ou de outra. (…) Então, nenhuma pessoa, seja Elon Musk, a pessoa mais rica do mundo, ou quem quer que seja, deve se considerar acima da lei. E Musk disse basicamente que está acima da lei. Ele diz ‘você não tem o direito de me regular’. E está absolutamente errado”.

Em seu último livro, lançado em abril, “The Road to Freedom: Economics and the Good Society”, Stiglitz escreve com todas as letras que mercados sem restrições nada fazem a não ser gerar crises. Tampouco está, a iniciativa privada, preocupada com as mudanças climáticas, problema global mais urgente. Eis o que ele disse a Vivian Oswald: “O setor privado está interessado em lucros. Quando há lucros, entra. (…) O clima é um investimento a longo prazo. E o setor privado é excessivamente avesso a risco, e não sabe avaliar o risco. (…) O setor privado tem muitos pontos fortes, mas temos também de reconhecer suas limitações quando falamos em alterações climáticas ou de questões como a justiça social, investimentos de longo prazo”.

Na hora em que o BNDES retoma seu papel de indutor do desenvolvimento, encontra-se em Joseph Stigliz a explicação simples, óbvia e precisa para tal conduta: “Passamos por um período em que comprometemos ideologicamente o papel dos bancos de desenvolvimento. Acho que foi errado. O setor privado tende a ter o problema de ser demasiado míope e demasiado avesso ao risco. Os bancos de desenvolvimento podem ter uma visão de longo prazo e assumir riscos maiores, como o associado ao BNDES, que ajudou a desenvolver a Embraer e alguns dos combustíveis à base da cana-de-açúcar, que são muito importantes para evitar as alterações climáticas”.

Por óbvio, Stiglitz é um anti-Trump. Ele diz ver um “populismo perigoso”, ainda não vencido, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil: “Não vemos isso tanto na Suécia, na Dinamarca ou na Noruega. Vemos nos Estados Unidos, em lugares onde as pessoas não têm emprego, a saúde é fraca, não há oportunidades. Então, você tem esse tipo de desespero. E é a partir desse desespero que as pessoas recorrem a gente como Trump ou Bolsonaro”.

A falsa liberdade defendida nos discursos de rematados direitistas – Donald Trump, Jair Bolsonaro, Javier Milei, Pablo Marçal e tantos outros – também está no radar de Joseph Stiglitz, para quem a economia é, definitivamente, uma disciplina humana e, portanto, os economistas não podem fechar os olhos para os movimentos anticivilizatórios: “Quando vivemos de forma integrada (numa pandemia, por exemplo), se eu não me vacinar ou usar máscara, há uma chance você morrer. São ações que você sabe que podem te machucar. Se eu carregar uma AK-47, você pode morrer. Isso pode prejudicar sua liberdade. E é tão óbvio, mas eles simplesmente não reconhecem isso. Se eu poluir o ar e você tiver asma, você morre. A liberdade de uma pessoa é a falta de liberdade de outra”.

Cumprimentos a Vivian Oswald pela ótima entrevista.

Um jornalista vira-lata

Por Paulo Henrique Arantes

O colunista do Estadão Andrés Oppenheimer porta um currículo glamoroso. Eis o que consta de sua apresentação no jornalão: “Foi considerado pela revista Foreign Policy ‘um dos 50 intelectuais latino-americanos mais influentes’ do mundo. É colunista do The Miami Herald, apresentador do programa ‘Oppenheimer Apresenta’ na CNN em Espanhol, e autor de oito best-sellers. Sua coluna ‘Informe Oppenheimer’ é publicada regularmente em mais de 50 jornais”.

A despeito de toda a pompa curricular, Oppenheimer é inacreditavelmente ruim. Trata-se de um mero repetidor das máximas liberais.  Em seu artigo do último domingo (29), simplesmente chamou os discursos na ONU de Lula e Gustavo Petro, presidente colombiano, de “patéticos”.

Em síntese, Oppenheimer estaria feliz se os dois presidentes voltassem suas armas retóricas contra Venezuela e Cuba. O laureado jornalista-escritor também não gostou de os mandatários terem condenado os ataques genocidas de Israel a Gaza e ao Líbano.  Também se incomodou pelo fato de Lula e Petro mostrarem-se, no seu raso entender, mais pró-Rússia do que pró-Ucrânia.

Para Oppenheimer, Lula e Petro são “ridículos”, pois não enxergariam a própria pequenez, tentando exercer influência global, metendo-se a costurar planos de paz infrutíferos. Tal impressão posiciona o edulcorado colunista como porta-estandarte do vira-latismo latino-americano.

Andrés Oppenheimer vestiria bem um sapatênis. Não surpreenderá ser vier a participar da domingueira de Luciano Huck.

Oppenheimer é a perfeita personificação do latino-americano que gostaria de ser norte-americano. Não se orgulha da sua condição de argentino e deve sofrer com a de cucaracha. É simpático a Javier Milei, embora vista a canhestra fantasia de “isentão”.

O atavismo fomenta o preconceito, daí as tentativas de ridicularizar Lula e Petro. A imprensa complexada, da qual Oppenheimer é expoente, não admite que o Sul tenha voz, a não ser para dizer amém.

Lula e Petro foram ovacionados na ONU – e isso é relevante. Antes, o chanceler alemão e Lula assinaram protocolo de intenções em Berlin. O presidente da França foi recebido por Lula no Palácio do Planalto. O presidente dos Estados Unidos telefonou para Lula para tratar dos temas Venezuela, G20 e geração de empregos. O “ocidente democrático e desenvolvido” enaltecido pela mídia vira-lata brasileira sinaliza diariamente seu apreço pelos anseios de protagonismo internacional da América Latina, Brasil à testa.

Para Andrés Oppenheimer, somos patéticos.

Como pensam os economistas que defendem a Taxa Neutra de Desemprego

Por Paulo Henrique Arantes

O leitor e a leitora certamente ficaram felizes ao saber que o desemprego no Brasil caiu para 6,6% no trimestre de junho a agosto de 2024, segundo a Pnad Contínua divulgada na sexta-feira 27. Afinal, quem não comemoraria o fato de obtermos o menor nível de desemprego desde 2012?

Resposta: economistas neoliberais.

Esse grupo – cada vez menor, mas ainda bastante influente – acredita numa tal Taxa Neutra de Desemprego (TND), abaixo da qual criar-se-ia um ambiente inflacionário insustentável. Claro, para o grupelho não importa se emprego significa sobrevivência para muita gente.

A lógica dessa gente é que emprego gera consumo e pressiona a inflação, pouco ou nada importando se famílias, por exemplo, passam a se alimentar melhor. A observância da TND, a impedir de alguma forma a queda do desemprego a partir de certo nível, manteria a inflação controlada.

Sim, é cruel.

Há algum tempo, os “desempreguistas” calcularam a TND brasileira em torno de 9%, portanto os 6,6% atuais seriam inflacionários. Isso significa, para os neoliberais, que a empregabilidade de hoje deve ser combatida.

Esses economistas desumanos dizem que Taxa Neutra de Desemprego é determinada pela institucionalidade. Explica-se: se considerarmos um país europeu típico e compará-lo com os Estados Unidos, o país tipicamente europeu tem uma TND de 9% e os Estados Unidos, de 4%. Por quê? Porque nos Estados Unidos as instituições e o mercado de trabalho são mais, digamos, flexíveis.

Esse lero-lero vai desaguar na defesa de coisas como reforma trabalhista e maldades decorrentes, como a precarização do trabalho.

O risco de Guerra Mundial é Trump, não Kamala

Win McNamee/Getty Images

Por Paulo Henrique Arantes

A exemplo dos extremistas de direita do Brasil, os americanos superam-se na disseminação do medo. Assim escreveu numa rede social Donald Trump, nesta segunda-feira (23): “O mundo está agora em um lugar muito perigoso. Kamala [Harris] não consegue responder nem às perguntas mais simples. É loucura! Se ela não pode fazer isso, como poderá nos representar para impedir a Terceira Guerra Mundial? A resposta é simples: ela não pode!”

A candidata democrata está longe de constituir uma garantia de paz global, mas o republicano é uma ameaça concreta de ruptura dos princípios de boa convivência entre países. O belicismo compõe sua natureza, o personalismo irresponsável marca-o de modo indelével. Além disso, uma pessoa abertamente vaidosa e sem caráter é capaz de tudo para se manter no poder, a exemplo do que faz Benjamin Netanyahu na Palestina e, agora, no Líbano.

Já citamos aqui, e vale reprisar, o livro “Não basta dizer não”, de 2017, da consagrada jornalista Naomi Klein. A obra desnuda Trump.

Presidente dos Estados Unidos, o laranjão nomeou Patrick Shanahan vice-secretário de Defesa. Shanahan, um alto executivo da Boeing, escreveu Klein, “foi responsável pela venda de equipamentos caros para o Exército americano, incluindo helicópteros Apache e Chinook. Ele também supervisionou o programa de defesa antimísseis balísticos da Boeing – uma parte da operação que lucraria enormemente com o aumento das tensões internacionais.

Klein explicou que oficiais de alta patente reformados costumam assinar contratos com empresas de armamento ou mesmo assumir cargos executivos nessas companhias. A diferença do governo Trump foi “o número de generais com laços lucrativos com prestadores de serviços militares nomeados para cargos em seu gabinete com poder de alocar fundos, incluindo aqueles oriundos de seu plano de aumentar gastos com os militares, com o Pentágono e com o Departamento de Segurança Nacional em mais de 80 bilhões de dólares em apenas um ano”.

Retomamos o alerta que já fizemos neste espaço. Trump presidente teve Rex Tillerson como secretário de Estado, cujas relações umbilicais com a gigante do petróleo Exxon Mobil eram conhecidas. Todo mundo sabe o que acontece com o preço do petróleo quando há guerras envolvendo países produtores. Mais de Naomi Klein: “Há outra razão pela qual o governo pode se apressar em explorar uma crise de segurança a fim de começar uma nova guerra ou acirrar um conflito já existente: não há maneira mais rápida ou mais eficaz de aumentar o preço do petróleo, especialmente se a violência interferir nos suprimentos que vão para o mercado mundial”.

O planeta correrá sérios riscos, agravando-se os que já corre, se Donald Trump voltar à Casa Branca.

Mídia confunde imparcialidade com incensar bandido

RS / Fotos Públicas

Por Paulo Henrique Arantes

Cabe ao jornalista vasculhar o poder, identificar equívocos e irregularidades, questionar os envolvidos e levar a verdade a leitores, ouvintes e telespectadores.  Tomar partido em contendas políticas? Sim, quando um dos lados revela-se claramente antidemocrático, armamentista, misógino,  negacionista, mentiroso. Ficar em cima do muro em situações assim não é ser imparcial, é pactuar com a Idade Média, é deixar de lado o compromisso com a verdade.

Medieval – e absurdamente incompetente – foi o Governo Bolsonaro. Um ser humano medievo, ignorante e preconceituoso, adepto de argumentos primitivos, íntimo de milicianos habitou o Alvorada e assombrou o Planalto de 2019 a 2022. Jair Bolsonaro, hoje, não está muito longe da cadeia, mas ainda exerce certa influência política. Há de ser combatido pelo jornalismo responsável, por todo o mal que causou à sociedade brasileira, sendo seu comportamento na pandemia o exemplo maior.

O Governo Lula deve ser fiscalizado, cobrado e denunciado em eventuais más práticas. Este jornalista, por exemplo, não aplaude certas genuflexões feitas ao “mercado” nem a tolerância com o ministro das Comunicações, Juscelino Filho. Não concorda com a exploração de petróleo na Margem Equatorial e entende que a defesa do meio ambiente deveria ser mais contundente, menos retórica. Também gostaria de ver mais mulheres na composição dos tribunais superiores. Ainda espera uma iniciativa emblemática na área da cultura.

São claras, contudo, as razões para que o tratamento conferido ao Governo Lula seja de respeito, que nada tem a ver com condescendência. O primeiro motivo é que não se perde mais tempo discutindo a eficácia de vacinas, os “maconheiros” das universidades, a cor da roupa de meninos e meninas. Não se perseguem cientistas ou artistas, nem se povoa a administração pública de militares que só sabem – quando sabem – administrar tropas. Não se sequestra a religião para utilização política.

No atual governo, o debate dá-se em torno das nossas idiossincrasias sociais e econômicas reais. A economia começa a girar em prol do cidadão comum, como mostram PIB, inflação e emprego, e a despeito das mencionadas gentilezas ao “mercado”. Nos campos educacional, habitacional e da saúde, é notório o esforço para reverter o atraso imposto pelo governo anterior. Aos olhos internacionais, o Brasil voltou ao Século XXI, tornou a participar dos debates globais importantes – quando fala ao mundo, Lula é ouvido; quando não fala, é chamado a falar.

Os êxitos do Governo Lula significam o desespero da mídia neoliberal, bolsonarista se necessário aos seus interesses. Essa imprensa justifica espaços dados a fascistoides  e imbecis com a palavrinha “pluralismo”. O pluralismo necessário, saudável, é o que concede voz a representantes dos diferentes matizes do espectro democrático, não o que direciona holofotes a quem pouco se lixa para a democracia, quando não a bandidos.

Pablos Marçais agradecem.