“O Julgamento do Macaco” faz 100 anos

Por Paulo Henrique Arantes

“O Julgamento do Macaco” – The Monkey Trial – é o nome pelo qual ficou popularmente conhecida a momentosa causa ajuizada em 1925 pelo Estado do Tennessee, Estados Unidos, contra John Thomas Scopes, um professor acusado de ensinar a teoria de evolução a seus alunos do colegial, o que violava uma lei estadual editada naquele ano que, por razões religiosas, proibia o ensino do evolucionismo darwiniano nas escolas públicas.

A quadratura atual, em que é protagonista Donald Trump, um negacionista da ciência com milhões de idólatras, parece reviver o surto de imbecilidade de 100 anos atrás.

O fato foi tratado com o merecido sarcasmo na imprensa da época por H. L. Mencken, jornalista iconoclasta mais influente da história dos Estados Unidos, que inspirou profissionais de mídia de todo o mundo por décadas a fio. Os brasileiros Paulo Francis, já falecido, e Diogo Mainardi tentaram ser “Menckens brasileiros”. Não conseguiram.

“O Julgamento do Macaco” foi primeiro grande julgamento midiático dos Estados Unidos, tendo atraído para a cidadezinha de Dayton, com 1.800 habitantes, mais de 200 repórteres. Durante dias, a primeira página de grandes jornais do país, como o The New York Times, deram cobertura ao caso e pela primeira vez as sessões de um tribunal foram transmitidas nacionalmente, ao vivo, via rádio. A grande repercussão do caso e sua importância histórica foram posteriormente ampliadas pelo fato de o episódio ter servido de inspiração para inúmeras reconstruções artísticas: livros, peças teatrais e filmes para TV e cinema.

No cinema, o diretor Stanley Kramer contou a história. O filme “O Vento Será tua Herança” – Inherit the Wind –, de 1960, baseado em peça teatral de mesmo nome, soa um pouco descomprometido com a exatidão do relato histórico, mas reproduz de forma fidedigna o clima e o sentido do episódio.

A questão da culpa ou da inocência do professor é imediatamente abandonada como secundária e desimportante, para dar lugar ao grande embate entre religião e ciência, entre os criacionistas ou antievolucionistas e sua crença no Gênesis conforme literalmente descrito na Bíblia – e os evolucionistas e suas teorias científicas, biológicas, da evolução.

Com exatidão, o escritor Luiz Barros escreveu na Revista da CAASP, anos atrás: “Tratou-se, naturalmente, de embate candente entre posições antagônicas e irreconciliáveis. O julgamento polarizou o país entre correntes do fanatismo religioso e modernistas. Juridicamente considerado, foi um curioso julgamento no qual nenhuma das partes tinha certeza e no qual, em síntese, esteve em pauta a prova da existência de Deus”.

O julgamento estendeu-se por 11 dias. Ao estilo da ocasião e do que o tema demandava, a essência da disputa foi retórica, privilegiando o confronto dos advogados no campo da oratória. A atuação dos jornalistas, por sua vez, privilegiava a propaganda modernista contrária à tradição religiosa. Mencken esteve lá.

Dois dos mais famosos advogados americanos deslocaram-se até a cidadezinha sulina para atuar na causa. O advogado William Jennings Bryan, conhecido político religioso conservador, que por três vezes havia sido candidato à presidência dos Estados Unidos, assumiu o papel de principal acusador ao réu, atuando junto ao promotor local. Pela defesa, atuou o igualmente célebre advogado Clarence Darrow, militante da União Americana pelas Liberdades Civis e um dos mais famosos oradores do país.

Destacando-se em meio a seus colegas de imprensa, foi marcante a atuação de Mencken. De sua pena irreverente teria saído, inclusive, o nome satírico pelo qual o julgamento é conhecido até hoje: The Monkey Trial. O filme resvala no sarcasmo e na irreverência do jornalista, mas é bem menos apimentado que os escritos de Mencken.

O diretor Stanley Kramer – o mesmo de “Julgamento em Nurenberg”, outra pérola jurídico-cinematográfica – reconstitui o clima do julgamento valendo-se de uma trinca de excepcionais atores para os papéis centrais: Fredrick March e Spencer Tracy, como os advogados, e Gene Kelly como o jornalista.

Logo após a promulgação da lei que proibia o ensino da evolução nas escolas e universidades do Tennessee, a influente União Americana pelas Liberdades Civis publicou um anúncio oferecendo apoio a quaisquer professores que se dispusessem a romper a lei e submeter-se a um julgamento “teste” sobre a proibição. O ocorrido não aparece no filme.

Um grupo de cidadãos de Dayton teria visto nisso uma boa oportunidade de publicidade para sua cidadezinha esquecida e tomado a iniciativa de envolver o professor na trama, que, consultado, aceitou sujeitar-se ao papel. Em função disto, ainda hoje, na internet há denúncias de inspiração religiosa fundamentalista visando a desqualificar o “Julgamento do Macaco” como sendo uma farsa publicitária.

Trump propõe genocídio e limpeza étnica em Gaza, afirma professor de Direito Internacional da USP

Foto Mike Stone / Reuters

Por Paulo Henrique Arantes

O anúncio cataclísmico do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que irá atuar ao lado de Israel para remover os palestinos da Faixa de Gaza estarreceu o mundo civilizado. Ainda que por ora limitada a um discurso, a ideia prenuncia um ato que constituirá genocídio e limpeza étnica. No Direito, praticamente não há polêmica quanto a isso.

“A ideia é tão estapafúrdia que eu, como um internacionalista, fico constrangido ao responder qualquer questão atinente a essa proposta, porque é flagrantemente contrária às normas fundamentais do Direito Internacional em vigor, que foram construídas inclusive pelos Estados Unidos”, afirma Wagner Menezes, professor de Direito Internacional Comparado da Faculdade de Direito da USP e recém-nomeado membro do quadro de árbitros da ONU.

Segundo Menezes, a proposição de Trump contém “um caráter gravíssimo de ilicitude”, considerando-se tudo que a sociedade humana construiu ao longo do seu processo civilizacional. “A proposta tem um fundo de barbárie e de desrespeito aos elementos fundamentais que estruturam o Direito Internacional. Esse tipo de deslocamento de pessoas é absolutamente condenável e configura crime de genocídio e limpeza étnica”, avalia o professor.

Do ponto de vista do Direito Internacional, falar besteira, ainda que seja vergonhoso, não é um ilícito, registre-se. Haverá ilícito se as palavras do insano mandatário americano forem levadas adiante. “O que existe, por ora, é um discurso absolutamente indefensável”, salienta Menezes.

O tempo dirá se Trump comete uma bravata – no melhor estilo Steve Bannon, marqueteiro-guru da extrema direita global, de provocar tumulto com fins diversionistas – ou se intenciona de fato praticar uma desumanidade histórica. Em tal cenário, pergunta-se: o que um organismo como a ONU pode fazer para contê-lo?

“Na realidade, todo sistema que é criado dentro de um processo civilizacional, do reconhecimento do Direito, da observância das normas, é limitado justamente pela força. Existe um espaço de tensão entre a força e o Direito. O Direito não pode tudo, e as instituições globais também não”, explica Wagner Menezes. Ou seja, os meios de que dispõe a ONU para coibir arroubos contra a humanidade tornam-se inócuos diante da opção intransigente pela força de um ente global poderoso.

Como explica Menezes, no âmbito das Nações Unidas existem mecanismos jurídicos limitantes da ação dos Estados, porém, “a base do reconhecimento do Direito Internacional é essencialmente a compreensão civilizacional”. Essa é a chave da questão: no caso em tela, não se está lidando com alguém que possua compreensão normal do avanço civilizacional, das conquistas humanas no decorrer dos séculos.

“Não estamos lidando com discursos racionais”, sentencia o professor.

De todo modo, pondera Wagner Menezes, os organismos internacionais não são decorativos, imagem que de uns tempos para cá se tenta pespegar na ONU e na OMS (Organização Mundial da Saúde), por exemplo.  “Eles são fundamentais. Veja: na pandemia, com todas as críticas que nós pudemos perceber, a OMS foi fundamental, no final, para a imunização. A ONU é importantíssima, vital. Imagine se não tivesse a ONU? Qual o tipo de sustentáculo institucional nós teríamos? Apenas a barbárie, a guerra, opressão, o emprego de força”.

Rei do Lixo nas mãos do ministro-biscoito

Foto: Carlos Moura / STF

Por Paulo Henrique Arantes

Luís Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal, manteve nas mãos do ministro Kássio Nunes Marques a relatoria da Operação Overclean, que apura desvios de recursos de emendas parlamentares e tem potencial para incomodar medalhões do Congresso. Diz a imprensa que os congressistas comemoram a decisão de Barroso. Bidu.

A Overclean sob Nunes Marques ameniza eventuais mal-estares entre Parlamento e Judiciário. Ou seja: um juiz condescendente com malfeitos – como supõem os próprios parlamentares – é necessário para que os dois Poderes convivam de modo republicano.

 “Membro do Centrão no STF”, assim é visto Nunes Marques.

Barroso agiu mal, e sua atitude parece reflexo do medo. O presidente da mais alta corte do país não quer melindrar deputados e senadores.

Por que a relatoria da Overclean – ou o caso “Rei do Lixo” – não foi remetida ao ministro Flávio Dino, sob o cuidado de quem já se encontram outros processos relacionados com destinações orçamentárias e emendas parlamentares?

Ouvimos o jurista Lênio Streck há poucos dias. Ele nos disse, com a clareza que o caracteriza: “Se existem destinações orçamentárias, há conexão de crimes. Logo, a competência deve ficar onde tudo começou – com o ministro Dino. É uma questão de regra de processo”.

A própria Polícia Federal afirma haver elementos que conectam a Operação Overclean a outros processos já relatados por Dino, o que exigiria um olhar unificado sobre as investigações.

Feita a gentileza de Barroso ao Congresso, vale rememorar um caso emblemático da magistratura praticada por Kássio Nunes Marques para antever seu voto no caso Overclean-Rei do Lixo.

Em 2022, numa decisão em que devolveu o mandato parlamentar a Fernando Francischini, contumaz disseminador de fake news durante o período eleitoral, Nunes Marques mostrou nada saber sobre plataformas digitais, meios de comunicação tradicionais e a maneira como as fake news repercutem. Para ele, seria desproporcional equiparar WhatsApp, Facebook e Instagram – redes usadas pelo deputado bolsonarista – com jornais, rádios e TVs, daí a fazer vista grossa às fakes de Francischini.

Em primeiro lugar, mentiras e boatos existem desde sempre, bem como sua disseminação – é claro que nunca tiveram o acabamento formal e as estratégias de agora.  Ocorre que a comunicação digital, especialmente nas redes sociais e aplicativos de mensagem, opera mediante um poder de multiplicação inigualável. Assim havia entendido o Tribunal Superior Eleitoral, que cassara o mandato de Francischini. 

Para a sorte de todos, a 2ª Turma do STF derrubaria a liminar de Nunes Marques em favor de Francischini.

À época, chamamos Kássio Nunes Marques de “ministro-biscoito”. A alcunha está dentro do prazo de validade.

Perguntava-se há coisa de 40 anos se um biscoito vendia mais porque estava sempre fresquinho ou estava sempre fresquinho porque vendia mais. A questão encafifou o público da televisão. Como tudo na vida, as grandes indagações evoluem e hoje temos até ministros do Supremo Tribunal Federal a motivá-las, em detrimento da publicidade de alimentos. 

Pergunta-se se Kássio Nunes Marques votará ao arrepio do Direito para servir a parlamentares envolvidos em desvio de verbas ou se servirá a esses parlamentares porque costuma votar ao arrepio do Direito. Claro, na prática, dá no mesmo.

Afinidade ideológica com Trump deverá manter Allan dos Santos a salvo nos Estados Unidos

Por Paulo Henrique Arantes

Foragido da Justiça brasileira e com o passaporte cancelado pelo Itamaraty, o blogueiro e youtuber olavo-bolsonarista Allan dos Santos poderia, sem maior polêmica, ser extraditado pelo governo americano, que deporta milhares de pessoas sem passivo judicial diariamente. O pedido de extradição está formalizado pelo governo brasileiro desde que sua prisão preventiva foi determinada pelo Supremo Tribunal Federal, em outubro de 2021, e Allan não obteve, nos Estados Unidos, a condição de asilado político. Donald Trump continuará a abrigar ilegalmente um dos maiores disseminadores de ódio e golpismo da internet?

“Se a situação de Allan dos Santos está irregular, ele pode sofrer uma detenção por parte das autoridades americanas e ser colocado na fila de deportação. Ou então as autoridades norte-americanas podem receber o pedido de extradição, como já receberam, ponderar sobre o caso, determinar a sua prisão e entregá-lo para as autoridades brasileiras para ser julgado” – essa é a ponderação de Wagner Menezes, professor do Departamento de Direito Internacional Comparado da Faculdade de Direito da USP e recém-nomeado membro do quadro de árbitros da ONU.

Sem vontade política, contudo, nada disso acontecerá, como explica Menezes: “Pode ser que determinado país não queira entregar um indivíduo para outro país por razões ideológicas ou por entender que aquele indivíduo é um injustiçado, um perseguido. Aí, o Estado pode conceder asilo ou refúgio – não parece que seja o caso do Allan dos Santos”.  Ou seja, sem ter obtido asilo político, o medievo youtuber vai ficando por lá numa espécie de limbo migratório. Sua situação não combina com a ânsia por deportações do governo Trump, mas está absolutamente afeita ideologicamente ao reacionarismo do presidente americano.

Allan dos Santos constitui a mais perfeita personificação do ativismo bolsonarista. Junta o negacionismo e a estupidez de Olavo de Carvalho, de quem era baba-ovo, com a truculência dos filhos de Jair Bolsonaro.  Sua mais recente empreitada, a revista eletrônica Timeline, obra conjunta com o ex-global Luís Ernesto Lacombe, teve as contas nas redes sociais bloqueadas pelo STF, que freou o show de horrores.

Rememorar a trajetória de Allan dos Santos é percorrer a linha do tempo do golpismo. Ele participou ativamente do movimento pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Chegou a passar inacreditáveis 30 dias acampado em frente ao Congresso ao lado da deputada Bia Kicis (PL). Seu portal Terça Livre, há tempos devidamente fora do ar, recebia 100 mil reais por mês de doadores bolsonaristas.

No STF, Allan dos Santos é alvo de dois inquéritos: um, por divulgação de fake news e ataques a integrantes da corte, e outro, a pedido da Procuradoria-Geral da República, que apura organização e financiamento de atos contra o Estado Democrático de Direito. O sujeito foi ainda denunciado pelo Ministério Público Federal por ameaças ao então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso.

Em setembro de 2020, foram reveladas conversas entre Allan e o tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens do presidente Jair Bolsonaro, em que o blogueiro dizia que “as Forças Armadas precisam entrar urgentemente”. Em 5 de outubro de 2021, o ministro Alexandre de Moraes determinou a prisão preventiva do blogueiro, atendendo a solicitação da Polícia Federal. Allan dos Santos já estava nos Estados Unidos, e Moraes ordenou ao Ministério da Justiça que deflagrasse de imediato processo de extradição, assim como a inclusão do mandado de prisão na lista da Difusão Vermelha da Interpol.

Era ainda o governo Bolsonaro e o procedimento para inclusão de Allan na lista da Interpol causou exonerações no Ministério da Justiça. A burocracia para tal trâmite foi propositalmente intensificada no âmbito do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, órgão da pasta responsável por extradições. Em 2023, já no governo Lula, o Ministério da Justiça providenciou a documentação que faltava par inclusão de Allan dos Santos na lista da Interpol. Até agora, nada.

Manga, o prefeito-modelo da imbecilidade

Por Paulo Henrique Arantes

O prefeito de Sorocaba (SP), Rodrigo Manga (Republicanos) é mesmo um pândego. E um tanto oportunista, sempre na direção dos ventos moderninhos da nova – e extrema – direita. Seu discurso é o do empreendedorismo individual, mas sua gestão é assistencialista. Quando Pablo Marçal perdeu a eleição para prefeito de São Paulo, o alcaide sorocabano convidou-o a assumir uma pasta do seu secretariado. Marçal não deu bola, mas Manga fez o seu carnaval habitual nas redes sociais.

Em outra explosão de patetice, Manga aproveitou-se da eleição de Donald Trump para ir às redes anunciar um decreto promovendo o intercâmbio entre políticos, empresários e estudantes brasileiros e americanos, oferecendo a “estrutura de Sorocaba” para “troca de experiências”.  Sabe-se lá o que é isso exatamente, mas o que importa, afinal, é a resposta do Instagram.

Afora o circo que promove, Rodrigo Manga tem um sério passivo da pandemia. Ele estimulou a prescrição do kit-cloroquina nos postos de saúde da cidade, até que a Vara da Fazenda Pública daquela Comarca determinasse à Prefeitura interromper as propagandas institucionais do famigerado tratamento precoce da Covid-19.

“Exige-se extrema responsabilidade do gestor público na divulgação de dados, sobretudo diante do estágio crítico atualmente vivenciado, estando o Estado de São Paulo na fase vermelha depois de sair de uma fase emergencial. Nesse panorama, qualquer publicação que veicule a eficácia de um tratamento contra a Covid-19 deve se basear em estudos rigorosos, com todas as pesquisas exigidas, o que não se vê nas publicações municipais, com dados frágeis, sem comprovação científica ou recomendação da agência de saúde”, ensinou então a juíza Karina Jemengovac Perez.

À época, sorocabanos conscientes que somos, conversamos com médicos da rede pública municipal, cuja maioria evitava dar entrevistas. Um deles, ouvido sob condição de anonimato, disse que muita gente chegava ao hospital influenciada pela propaganda enganosa da Prefeitura e pedia a prescrição do kit-cloroquina. Quantas vidas foram perdidas aí?

O evangélico Rodrigo Manga ultrapassa qualquer limite. Recentemente, despejou água benta no Rio Sorocaba como medida preventiva contra inundações. E o sujeito foi reeleito com cerca de 70% dos votos no primeiro turno da última eleição municipal. De fato, dadas certas semelhanças entre eleitores sorocabanos e americanos, o intercâmbio proposto pelo alcaide pode ser um sucesso.

Investimento estrangeiro no Brasil: Folha foi a Davos para confirmar uma mentira

Por Paulo Henrique Arantes

A indescritível Folha de S. Paulo mandou sua reportagem ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, e concluiu, com direito a chamada destacada: ninguém dá bola para o Brasil, país que afugenta os investidores por estar em situação de risco fiscal. A turma da bufunfa só quer saber de Donald Trump.

A coisa funciona da seguinte maneira. O diretor do jornal diz para o editor de Economia, ou de Internacional, que é necessário pintar o Brasil como país alheio ao círculo do dinheiro mundial. O editor manda o repórter ouvir gente que confirme esse isolamento – não importa, é claro, se a premissa é verdadeira ou falsa.

A reportagem da Folha foi a Davos e colheu aspas do CEO do Nubank, do economista-chefe do Itaú Unibanco, do CEO da Be8 e concluiu que “o Brasil está fora do radar internacional”.

Desprezando regra básica do jornalismo, a Folha não se municiou dos dados mais recentes sobre investimento estrangeiro no Brasil antes de embarcar para Davos. Ou esqueceu que em novembro de 2024 a Moody’s elevou a nota de crédito soberano do país, de Ba2 para Ba1. O presidente da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), Jorge Viana, declarou: “O país está voltando a disputar o mundo e a se apresentar como parceiro confiável para quem quer realizar investimentos seguros e inovadores. O Brasil poderá alcançar US$ 1 trilhão no fluxo anual de investimentos até 2026”.

Exatamente em 25 de novembro de 2024, anunciou-se um saldo do IDP (Investimento Direto no País) de US$ 61,3 bilhões acumulados de janeiro a outubro, em alta de 6,2% em relação ao mesmo período de 2023. Dias antes, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) informava que o Brasil fora o segundo país que mais recebera fluxo de investimento estrangeiro direto nos primeiros meses do ano, atrás apenas dos Estados Unidos.

Ao término de 2024, veio a confirmação do cenário positivo. No mês de dezembro, os investimentos diretos no país alcançaram US$ 2,765 bilhões, perfazendo um saldo do IDP no ano US$ 71,070 bilhões, informou o Banco Central na sexta-feira, 24 de janeiro de 2025. A alta é de 13,82% em 2024 em comparação com 2023.

Para sorte do Brasil, o investidor estrangeiro ignora o que publica a Folha de S. Paulo.

Lênio Streck: “Rei do Lixo” é assunto para Flávio Dino

Lênio Streck, jurista e professor de Direito. Foto: PHA.

Por Paulo Henrique Arantes

O Supremo Tribunal Federal irá decidir se a relatoria da Operação Overclean ficará mesmo com o ministro Kássio Nunes Marques, como indicado em sorteio, ou será entregue ao ministro Flávio Dino por envolver desvio de destinações orçamentárias e aplicação de emendas parlamentares, questões inerentes a processos já relatados por Dino.

Para o jurista Lênio Streck (foto), não deveria haver polêmica. “Se existem destinações orçamentárias, há conexão de crimes. Logo, a competência deve ficar onde tudo começou – com o ministro Dino. É uma questão de regra de processo”, disse Streck a este jornalista.

De acordo com a própria Polícia Federal, há elementos que conectam a Operação Overclean a outros processos já relatados por Dino, o que exigiria um olhar unificado sobre as investigações.

O presidente do STF, Luís Roberto Barroso, determinou que a secretaria do tribunal apresente as informações técnicas que subsidiaram a decisão que distribuiu por sorteio a relatoria da Operação Overclean. O caso é conhecido por mirar um alvo graúdo, o “Rei do Lixo” – o empresário baiano do ramo de coleta de lixo Marcos Moura, dirigente do União Brasil.

.

O mundo à mercê de um psicopata

RS / Fotos Públicas.

Por Paulo Henrique Arantes

O mundo viveu a Idade das Trevas e a Era das Luzes. O exercício do poder ao longo do tempo foi deixando de se basear em vontades pessoais. Na civilização moderna, as nações regem-se por conjuntos de normas – as constituições – que garantem um curso à sociedade livre de retrocessos civilizatórios, baseado no respeito humano e focado no desenvolvimento socioeconômico. O governante pode elencar suas prioridades e trabalhar para executá-las, desde que não viole certos princípios humanísticos consagrados.  

Claro, governos autoritários vilipendiam tais princípios, mas mesmo esses acabam se sujeitando, em maior ou menor grau, a certas normais civilizatórias consensuais. Até quem promove a guerra justifica-a pela necessidade de uso da força para se alcançar a paz. A busca da paz é, portanto e em tese, um consenso insofismável. Até grupamentos terroristas alegam almejar a paz – a paz por eles idealizada -, ainda que mediante atos de violência extrema.

 O mundo poderia estar melhor, pois os governos ultrapersonalistas, calcados na figura de um imperador, foram rechaçados pela História. O predomínio da personalidade sobre os destinos de um povo é algo inaceitável no Século XXI, como já deveria ter sido nos Século XIX e XX. Eis que o país mais poderoso do planeta, por seu aparato bélico antes de tudo, elege um candidato a imperador para comandá-lo, alguém cuja personalidade é, claramente, a de um psicopata.

Já se descreveu a personalidade de Jair Bolsonaro neste espaço, a partir de análise feita por especialistas. Agora é a vez de Donald Trump, uma espécie de Bolsonaro dotado de inteligência, dinheiro e muito, muito mais poder.

Tal como o brasileiro, o americano é um psicopata.

Quem melhor escreveu sobre a psicopatia que acomete Bolsonaro foi o psiquiatra forense Guido Palomba, em artigo publicado na imprensa em março de 2021. A descrição veste em Trump à perfeição. Palomba invocou o psiquiatra alemão Kurt Schneider, autor do livro “Personalidades Psicopáticas”, para ir fundo na mente doentia.

Para o “pai dos psicopatas”, como Schneider é chamado, o psicopata caracteriza-se pela falta de compaixão (com imigrantes, por exemplo), por ser tosco (belo adjetivo) e anestesiado de senso moral. Que moral possui Donald Trump, condenado por fraudar pagamentos a uma atriz pornô?

O psicopata não tolera ser contrariado, é quase sempre mal-educado. Eis um trecho do texto primoroso de Palomba: “A inteligência limítrofe ou seletiva (no caso de Bolsonaro, limítrofe: no caso de Trump, seletiva) leva-os (os psicopatas) a praticar atos bizarros, por turrice e teimosia. Persistem voluntariosos, desde que seja em benefício próprio. Caso voltem atrás , não será pelo reconhecimento do erro, mas por estratégia momentânea. Em seguida, recidivam, às vezes de forma mais virulenta, por serem rancorosos e vingativos”.

Os psicopatas de Schneider representam elevada periculosidade social: “Nada os detêm, salvo a reprimenda enérgica, judicial e legal, única forma eficaz de pará-los”. No caso de Trump, a via judicial não foi suficiente. 

Resta a pergunta: o mundo civilizado dispõe de meios para evitar o subjugo ao psicopata Donald Trump?

Má comunicação persegue Haddad desde que foi prefeito de São Paulo

Foto Fábio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil.

Por Paulo Henrique Arantes

Não é fácil comunicar-se quando no lado oposto estão pessoas descompromissadas com a verdade. Claro, mais importante que versões são os fatos em si, portanto medidas governamentais acertadas não deveriam ser revogadas por causa de bombardeio fake – mas o são, como prova o caso PIX. Outro mundo seria muito bom, mas, neste mundo, é preciso guerrear no campo da comunicação.  

Fernando Haddad é um quadro qualificado, embora desagrade às alas mais à esquerda do PT. Deverá ser o nome a substituir Lula nos embates eleitorais futuros, quando o líder máximo da legenda decidir descansar? Se positivo, o ministro terá de se entender com a comunicação.

Recorde-se de Haddad ao ser derrotado quando tentou reeleger-se prefeito de São Paulo, em 2016. A que ele atribuiu a responsabilidade pelo fiasco? O leitor acertou: à comunicação.

Abatido por João Doria no primeiro turno, Haddad disse que poderia ter apresentado melhor as ações de seu governo à população. Reconheceu que muitas das iniciativas de sua gestão — como a expansão das ciclovias, os corredores de ônibus e outras mudanças no sistema viário — enfrentaram resistência porque não foram devidamente explicadas ou não tiveram o tempo de assimilação. É exatamente o que se vê agora em relação aos atos do Ministério da Fazenda.

Enquanto perdia de lavada para Doria, um almofadinha léguas distante da realidade da população das periferias paulistanas, Haddad explicava o longo prazo de suas políticas de gestão, algo que não fora comunicado aos cidadãos de modo eficiente. Quando deixar a Fazenda, terá de repetir esse discurso?

Fernando Haddad foi o escolhido de Lula, então preso, para disputar a eleição presidencial de 2018 – perdeu. Foi candidato a governador de São Paulo em 2022 – perdeu. Se um quadro tão bom – e sua atuação passada, no Ministério da Educação, comprova essa qualidade – sofre tanto com os assuntos da comunicação, tem-se uma barreira às suas próximas pretensões eleitorais. O remédio seria aprender a se comunicar, ou cercar-se de gente que saiba.

Depois do PIX, mais e piores fakes virão

Getty Images

Por Paulo Henrique Arantes

Fidelizam-se à estratégia global de destruição da democracia, calcada em fake news, personas pouco aprazíveis. Gente como o deputado Nikolas Ferreira (PL), ponta-de-lança da onda deturpadora acerca do PIX, que, se não mentiu, semeou medo com a famigerada postagem viralizada. Trata-se de um aperitivo no grande cardápio de factoides a ser servido pelos próximos dois anos, até a eleição de 2026.

      O Brasil compõe uma fatia do cenário internacional em que prepondera uma estratégia política baseada na exploração de costumes, em regras morais hipócritas e na disseminação despudorada de mentiras. Essa forma de fazer política – portanto, de fazer marketing político – sempre foi corriqueira nos Estados Unidos. Depois de um século importando geladeiras e comida processada, agora importamos dos americanos esse péssimo hábito. 

      Não é segredo que essa escolapossui um mestre global, de quem figuras como Eduardo Bolsonaro são próximas. Steve Bannon (foto) paira sobre políticos, marqueteiros e influencers pouco afeitos à democracia. A onda fake sobre o PIX é Bannon puro, com pitadas de Duda Lima, aquele que foi socado por um assessor de Pablo Marçal na campanha para prefeito de São Paulo (ele trabalhava para Ricardo Nunes).

      No caso brasileiro, o método Bannon ancora-se em órgãos de imprensa de direita, que respaldam teses descoladas da realidade, redes sociais e crenças arraigadas na própria família brasileira. Importante salientar que não se trata de um simples movimento conservador, mas anticivilizatório.

      Há tempos circulam boatos de que Steve Bannon quer aportar no Brasil. De certa forma, já aportou. O sujeito e seus métodos comprometem a imagem dos marqueteiros em geral, entre os quais há muita gente boa, profissionais que se recusam a comandar campanhas baseadas em fake news.

     Sabe-se que Lula e Sidônio Palmeira ouvirão o prefeito de Recife, João Campos, tido como dono de estratégia de comunicação saudável e eficiente. Pode ser, mas seguir modelos de marketing propositivos e honestos não vencerá as campanhas destrutivas da extrema-direita. Não se deve jogar o mesmo jogo sujo dessa turma, mas sim buscar punição exemplar para os criminosos da comunicação. Nunca foi tão urgente a criação de uma lei específica contra as fake news.