
Por Paulo Henrique Arantes
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, precisa provar que não é mais o troglodita líder da UDR – a União Democrática Ruralista – que obteve menos de 1% dos votos na eleição presidencial de 1989. No trono do Palácio das Esmeraldas, Caiado posa de gestor que equacionou as contas públicas no médio prazo e investiu em segurança, tendo avançado nesse campo de enorme apelo eleitoral, ao menos numericamente – indicadores de roubos e homicídios caíram no Estado. Prestes a se tornar o candidato a presidente pelo PSD, partido cujo proprietário é Gilberto Kassab, terá, contudo, de reafirmar ou arrepender-se de discursos pretéritos.
A campanha presidencial de 1989 foi a primeira pós-ditadura. Confrontavam-se todos os perfis políticos relevantes na época – Collor (o vencedor), Lula, Brizola, Maluf, Covas, Ulysses, Roberto Freire, Gabeira, Afif, Enéas e mais uma dúzia coadjuvantes, entre os quais Ronaldo Caiado, representando a direta ruralista, que não incomodou eleitoralmente os verdadeiros competidores, mas emprestou uma voz estridente ao pior movimento reacionário de então: aquele que pautou sua existência por criminalizar as ações dos trabalhadores rurais sem-terra e impedir a reforma agrária.
Caiado era do PSD, sigla homônima à que pertence hoje, mas sua base política era o movimento reacionário denominado UDR, União Democrática Ruralista, que não teve um fim datado e formal, mas foi definhando ao longo do tempo até desaparecer. É pena que algumas aberrações que defendia permaneçam vivas junto com o bolsonarismo e o coronelismo do campo.
A UDR, em plena quadra de confecção e consolidação da Constituição Cidadã, fazia forte lobby em Brasília contra propostas de reforma agrária, organizando caravanas de produtores rurais para pressionar parlamentares. Sob a liderança de Ronaldo Caiado, defendia que fazendeiros se organizassem para resistir a ocupações, incentivando a formação de redes de “autodefesa” no campo. O discurso frequentemente ultrapassava o plano jurídico e entrava no terreno da força direta.
Na eleição de 1989, Caiado defendia justamente que proprietários rurais se armassem para resistir a ocupações de terras, o que podia ser interpretado como flerte com milícias privadas. Nos debates na televisão, interrompia os adversários com frequência, fazia acusações sem prova contra os candidatos da esquerda. Personificou, mais ainda que Paulo Maluf, a reação conservadora à redemocratização. Sua linguagem era muito próxima da praticada hoje pela orquestração da extrema-direita global, calcada na lógica da Guerra Fria: risco de convulsão social em caso de vitória da esquerda e generalização dos adversários como inimigos da propriedade privada.
O Ronaldo Caiado que hoje posa de conservador moderado, respeitador das instituições democráticas, não hesita diante de oportunidades, mesmo que montar no cavalo encilhado requeira desprezo pela ética e pelo bom-senso. No ápice da pandemia, o governador de Goiás, que é médico, alinhou-se com o general que atravancava o Ministério da Saúde, Eduardo Pazuello, na busca de um fato ou factoide que referendasse a argumentação fajuta de que todos os estados deveriam ter isonomia na vacinação contra a Covid-19.
Cogitava-se, então, que o Governo Federal baixasse uma Medida Provisória determinando o confisco de toda e qualquer vacina disponível em solo brasileiro, em nome de uma suposta imunização territorialmente igualitária – algo que obviamente seria derrubado pelo Judiciário. A intenção era subtrair do governador paulista, João Doria, a condição de deflagrador da vacinação no país, com a Coronavac. Numa guerra pandêmica, cabe aos governadores, diante da inação federal, usar as armas de que dispõem para preservar a vida de suas respectivas populações. Caiado não honrou essa prerrogativa, ou pior, atuou contra ela.
De todo modo, a ideia que golpeava a ciência e a vida era natimorta. Não por vontade do governador de Goiás, o ex-líder da UDR Ronaldo Caiado.
