Caso Master e Operação Satiagraha: Andrei Rodrigues pode se tornar o novo Paulo Lacerda

Por Paulo Henrique Arantes

Tornou-se rotineira a comparação entre a Operação Lava Jato e o atual inquérito que investiga as estripulias de Daniel Vorcaro à frente do Banco Master. O temor é de que o processo repita as ilegalidades protagonizadas pelo juiz Sérgio Moro, abraçado ao procurador Deltan Dallagnol. A prática de vazamentos seletivos e a orquestração da mídia mainstream para envolver Lula já estão bastante claras. Mas as divisões internas da Polícia Federal, com aparente perda de força do diretor-geral Andrei Rodrigues, remetem à outra operação, mais antiga e hoje esquecida: a Satiagraha.

Vale lembrar como o então diretor-geral da PF, Paulo Lacerda, foi enredado numa teia de grampos nunca tornados públicos, em especial aquele sobre o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. À frente da Satiagraha estava o delegado Protógenes Queiróz, que entrou na política. Os principais vilões da época eram o banqueiro Daniel Dantas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o especulador Naji Nahas.

Em síntese, o desfecho da Satiagraha foi o encerramento da maioria das ações penais devido à anulação de provas pelo uso indevido de grampos e participação irregular de agentes da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin. Paulo Lacerda foi afastado do cargo e “premiado” com o posto de adido policial em Lisboa – uma forma de o governo mostrar reação contra a ilegalidade dos grampos que teriam atingido o STF. Nunca se provou que Lacerda ordenara ou autorizara o grampeamento de membros do tribunal.

Delegado que chefiava a operação, Protógenes também não foi formalmente responsabilizado pelos grampos, mas acabou condenado por violação de sigilo funcional – vazamentos, enfim.

A semelhança mais nítida entre os dois momentos da Polícia Federal – a Operação Satiagraha e o caso Master ­– é sua disputa interna de forças. O legalismo presente nos pronunciamentos de Andrei Rodrigues mostra mais um compromisso pessoal dele do que um princípio cumprido pelos demais diretores da instituição, pelos delegados e os agentes de campo. Tanto à época de Paulo Lacerda quanto agora, o diretor-geral da PF não controla cada ato operacional da instituição, mas responde pela cadeia de comando, daí posicionado como para-raios.

Hoje como ontem, há tensões internas reais na PF que influenciam a condução da operação Master-Vorcaro, ainda que não se possa falar em ruptura. Crises externas potencializam essas tensões, e a responsabilidade institucional recai fatalmente sobre o diretor-geral. Andrei Rodrigues pode se tornar o novo Paulo Lacerda se naufragar diante das disputas de métodos, das diferentes visões sobre limites legais e dos conflitos por protagonismo.

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