
Por Paulo Henrique Arantes
O caso Master ascendeu da seara dos fraudadores financeiros para a das máfias pluricriminosas. Daniel Vorcaro e sua organização não apenas vendiam fantasias de mercado, mas operavam uma rede de favores, cooptações, propinas e benesses várias a funcionários públicos, tudo isso mediante métodos de intimidação à moda dos “padrinhos” sicilianos, com direito a suicídio de sicário.
As propinas a funcionários públicos, até aqui, estão parcialmente desvendadas no nível do segundo escalão, uma vez identificados os nomes dos funcionários corruptos do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza , ex-diretor de Fiscalização, e Belline Santana – ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, ambos presos pela Polícia Federal junto com Vorcaro.
Entre as altas personalidades de convívio íntimo ou quase íntimo com o gângster está plenamente identificado o senador Ciro Nogueira (PP-PI), para surpresa de ninguém. Outros nomes de semelhante peso político estão no radar e não tardarão a vir à luz. Há que se aprofundar a investigação sobre a relação do criminoso-sócio Fabiano Zettel com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que recebeu doação de 2 milhões de reais da sinistra figura em sua campanha eleitoral. No Judiciário, impossível não incluir Dias Toffoli e, sim, Alexandre de Moraes entre os potenciais “amigos” do mafioso. Claro, amizade e desfrute de intimidade não significam cumplicidade em crimes, mas sugerem.
A pergunta da hora é se Daniel Vorcaro decidirá colaborar com a Justiça, formalizando acordo de delação premiada. Sabe-se que esse tipo de acerto é válido quando o denunciado compromete-se a entregar à Justiça membros da organização que estejam acima dele na hierarquia mafiosa. Há alguém acima de Vorcaro? É claro que sim, pois está-se em vias de demonstrar que altas figuras do Poder Público eram as beneficiárias finais de suas fraudes financeiras. O gângster-mauricinho restará como operador do megaesquema, aquele que põe a mão na massa.
Se o silêncio tem preço, fato que afastaria Vorcaro de um acordo de colaboração, o sofrimento físico e mental cobra valor ainda maior. O gângster do Master provavelmente firmará acordo de delação porque não suportará viver na prisão. Não se trata de conjectura gratuita, vulgo chute, mas de constatação baseada na natureza humana e no perfil do dito-cujo – é também a aposta de operadores do Direito renomados ouvidos pelo articulista, um deles bastante acostumado a mandar bandido famoso para a cadeia.
Se Daniel Vorcaro firmará acordo de colaboração, só o tempo dirá. As condições carcerárias tendem a ser determinantes em casos desse tipo. As cadeias brasileiras são palcos de horror até para os que estão habituados a elas, imagine-se para um ser que vivia em outro sistema solar. O mafioso janota não dormirá na cama em que dormem os playboys flagrados em orgias em Trancoso ou Monte Carlo.
A experiência de quem conhece o sistema prisional e a natureza humana avisa que os primeiros dias de Vorcado na cadeia serão decisivos para a decisão de delatar ou não. . Ele não terá contato com a família nem com qualquer pessoa conhecida, a não ser seus advogados, dos quais ainda não se conhece a estratégia defesa.
As apostas são na delação, para pavor de graúdos da cena política brasileira.
