Jornalões passam um pano inacreditável em Flávio Bolsonaro

Jeferson Rudy / Agência Senado.

Por Paulo Henrique Arantes

A prisão preventiva de Daniel Vorcaro foi determinada, entre outros motivos, pelo fato de a Polícia Federal ter encontrado em seu celular troca de mensagens articulando a intimidação de um jornalista. Não surpreende. Ameaçar e mesmo agir – mediante processos judiciais que só visam a lhes tomar tempo e dar dor de cabeça – para que profissionais da imprensa retraiam-se em seu papel são condutas rotineiras. Já xingamentos de baixo calão e grosserias várias são especialidades dos Bolsonaros.

Os jornalões – Folha, Estadão, O Globo  –  já sinalizam apoio tácito a Flávio Bolsonaro contra Lula nas eleições presidenciais de outubro. Essa mídia apaga cedo demais da memória tudo que o clã golpista causou ao Brasil, sua inaptidão para a administração pública, sua corrupção descarada, seu racismo, seu apreço pela violência das armas, seu negacionismo, seu obscurantismo até. E esquece que essa corja considera jornalistas seus inimigos, ao menos os verdadeiros.

Um prócer dessa turba, bastante próxima das milícias cariocas, começa a ser tratado com notável condescendência pela mídia hegemônica. Se levarmos em conta achaques a jornalistas, o candidato Flávio mereceria todo o repúdio dos veículos de imprensa, sem hesitação. O 01 já se referiu a jornalistas genericamente como “vocês que odeiam o Brasil”. Em resposta a perguntas incômodas, atacou o questionador como sendo parte da “mídia podre”. Diante de questionamentos inconvenientes, limitou-se a dizer que o entrevistador segue “interesses políticos, não jornalísticos”.

Flávio é tido como menos arruaceiro dos Bolsonaros. O pai e o irmão Eduardo brigam para ver qual é campeão de incivilidades contra jornalistas.

A União de Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo moveu ação civil contra Jair por declarações ofensivas a jornalistas, de caráter hostil e desqualificador, incluindo menções que deslegitimavam o trabalho profissional.  Em 2023, a Justiça confirmou que ele havia ofendido jornalistas de forma que extrapolou a liberdade de expressão e condenou-o por danos morais coletivos, determinando o pagamento de R$ 50 000 ao Fundo Estadual de Defesa de Direitos Difusos. A decisão transitou em julgado após esgotados os recursos.O caso é um dos raros em que uma autoridade de alto escalão foi responsabilizada civilmente por atitudes ofensivas direcionadas à categoria jornalística, com sentença confirmada em instância revisora.

O caso mais emblemático da boçalidade antijornalismo de Jair Bolsonaro, contudo, aconteceu em 2020, quando ele fez insinuações de caráter sexual contra Patrícia Campos Mello, insinuando que ela ofereceu favor sexual a uma fonte para obter informação exclusiva.  A Justiça entendeu que tais afirmações violaram a honra e a dignidade da jornalista e condenou o estúpido a pagar indenização por danos morais. A decisão foi referida por fontes acadêmicas e de jurisprudência sobre o limite da liberdade de expressão no Brasil.

Os insultos de Jair Bolsonaro a jornalistas, ao longo do seu governo, viraram parte do dia a dia do relacionamento entre presidente da República e imprensa. Já a tarefa de desacreditar jornalistas brasileiros no Exterior foi – e é – cumprida com brilho por Eduardo, desde antes de acomodar-se nos Estados Unidos como fujão.

Em 2019, durante agendas em Washington, D.C., onde participou de eventos ligados a círculos conservadores, incluindo encontros no âmbito da Heritage Foundation, Eduardo Bolsonaro concedeu entrevistas e fez declarações nas quais acusou a imprensa brasileira de agir com “viés ideológico”, o que seria comprovado pelo fato de fazer “oposição sistemática” ao governo do seu pai. Bananinha costuma acusar jornalistas de praticarem “narrativas” e “fake news”, justamente as especialidades de sua própria turba.

Hoje, diante da complacência com que são tratados pela imprensa que tanto os incomodou, os Bolsonaros haverão de se reconhecer ingratos.

Deixe um comentário