
Por Paulo Henrique Arantes
Os estádios de futebol – ou arenas, como se chamam hoje – são palcos do velho, porém muito vivo, preconceito contra negros, justamente eles, entre os quais está Pelé. A idolatria e a discriminação andam de mãos dadas, paradoxalmente, acrescidas do fanatismo que caracteriza boa parte dos torcedores. A temporada 2026 de ofensas racistas a atletas está aberta.
O racismo faz parte da história do esporte, assim como faz parte da História. Quando se manifesta no futebol torna-se ainda mais alarmante, pois o negro predomina não apenas nos campinhos de areia em favelas e subúrbios, mas nos grandes estádios onde brilharam, Pelé à frente, Domingos da Guia, Leônidas, Zizinho, Didi, Garrincha, Jairzinho, Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e centenas de outros craques de pele escura. Igualmente a raça negra sobressai-se no futebol feminino, antes com craques como Marta e Formiga, hoje com Ludmila, mas o futebol de mulheres é relativamente recente e só agora começa a ganhar espaço no imaginário popular.
O que acontece com Vinícius Jr. na Europa – como num jogo da Copa do Rei, em janeiro – ocorre todo dia em gramados brasileiros e com jogadores brasileiros no Exterior, onde torcedores fanáticos não hesitam a exibir todo seu preconceito. Há quem relacione o racismo no futebol com o poder econômico, já que o preço dos ingressos atualmente é impeditivo para os mais pobres. Seriam racistas nossas elites econômicas? Bidu.
Um inestimável serviço ao país e à luta contra o racismo presta o projeto Observatório da Discriminação Racial no Futebol, trabalho coletivo pormenorizado que apura e divulga casos de preconceito no futebol e em outros esportes. Seus relatórios anuais são ricos em números e detalhes. O de 2023, último editado até aqui, nos dá conta de 250 casos de racismo no esporte brasileiro, predominantemente no futebol.
A dor de suportar ataques racistas não é tudo que acomete o atleta. Uma inaceitável inércia das autoridades legais nos casos de racismo os aflige igualmente. Praticamente não há punição. Mas a História tem seus personagens de luta vitoriosos, a despeito do descaso oficial.
A vida de Melânia Luz dos Santos é emblemática da resistência dos atletas negros brasileiros, ainda mais virtuosa quando protagonizada por uma mulher negra. Trata-se de vencer o duplo preconceito – raça e gênero. Os feitos de Melânia estão ricamente descritos na tese acadêmica denominada “Olimpismo negro: uma antologia das resistências ao racismo no esporte por atletas olímpicos brasileiros” (2021), de Neilton de Sousa Ferreira Júnior, da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo.
Melânia nasceu em São Paulo em 1928 e foi expoente do esporte nas décadas de 1940 e 1950. Atleta do São Paulo Futebol Clube, do Clube Tietê e da seleção nacional, ela foi uma das melhores velocistas e saltadoras da sua geração, tendo representado o Brasil nos Jogos Olímpicos de Verão de Londres, em 1948.
Assim escreveu Ferreira Júnior em seu trabalho: biografias como a de Melânia “demonstram que o esporte, enquanto domínio da exceção e da celebração da sociedade concorrencial, estabelece barreiras ideológicas que fazem da discriminação um processo normal e quase natural à sua sociabilidade, obrigando as atletas a desenvolverem estratégias distintas de inserção e cultivo da presença nesse contexto. O mérito, por exemplo, acaba por se apresentar como um valor importante dentro da ambiguidade que lhe é peculiar. Embora a igualdade de concorrência e o mérito sejam as mais caras das ilusões a sustentar o esporte moderno, funcionam como um princípio moral capaz de suspender, ainda que provisoriamente, os juízos de valor que não estão imediatamente relacionados à performance física”.
As considerações do acadêmico significam que, quando a atleta negra sai do espaço privado para ser protagonista em grandes eventos públicos, um imaginário mobiliza-se para preservar o status quo, tentando interditá-la.
No São Paulo Futebol Clube, por exemplo, Melânia estava entre os chamados “atletas militantes” ou “atletas associados”, cuja presença era aceita por seu talento. Mesmo carregando no peito o brasão do clube, ela não podia frequentar suas dependências sociais fora dos treinamentos e das competições. Tudo em conformidade com os estatutos da instituição.
Indagada sobre as condições em que atuava, Melânia dizia perceber o racismo, mas sentia-se protegida por seu desempenho nas pistas de atletismo. São palavras dela: “Esse preconceito ao negro, você sabe, sempre teve, mas para ir pra lá, treinar bastante, e em outros estados que a gente também ia, ficava tudo assim englobado (sic)… e não fica tanto assim…”.
Melânia Luz foi uma desportista de destaque internacional. Antes de ir aos Jogos de Verão em Londres, em 1948, foi vice-campeã sul-americana, no Rio de Janeiro, do revezamento 4×100 e dos 200 metros rasos. Em 1950, sagrou-se campeã sul-americana do revezamento 4×100, vice-campeã dos 200 metros rasos e terceira colocada dos 100 metros rasos em Lima, no Peru.
Ela deixou o esporte de alto rendimento antes dos 25 anos, seguindo como competidora veterana e ganhando títulos e recordes nacionais e internacionais. Em 1998, despediu-se definitivamente do esporte, aos 70 anos. Antes de falecer, em 2016, declarou: “O negro hoje eu acho que é mais atrevido, porque se ele quiser ir fazer, ele vai lá e faz. Pode o branquinho estar ao lado dele, ele vai e faz”.
