Golpista aposentado, Michel Temer diz que governo Lula não tem credibilidade

Foto: Sérgio Lima/PODER 360

Por Paulo Henrique Arantes

Em evento promovido pela Fundação Ulysses Guimarães, na quinta-feira 20, Michel Temer afirmou que o problema do governo Lula é falta de credibilidade. Eis a fala do ex-presidente que se valeu de um impeachment sem crime ou quebra de decoro para chegar ao Palácio do Planalto: “Eu acho que o que está acontecendo com o atual governo é essa falta de credibilidade. E pelas mais variadas razões. Até  razões internas, daquela disputa entre ministérios ou do partido do governo com o próprio governo. Isso tira a credibilidade”.

Este jornalista entrevistou longamente o então vice-presidente da República Michel Temer, para uma revista dirigida a advogados. Naquela época pré-golpe, ele derretia-se em elogios a Dilma Rousseff: “Ela tem um estilo gerencial muito forte, de muita presença, e muitas vezes esse estilo, muito útil para o governo brasileiro, desmerece um pouco a ideia de sua habilidade política. Mas a presidente Dilma é de uma habilidade extraordinária. Eu tenho acompanhado as articulações políticas, as quais são feitas muitas vezes, evidentemente, com a minha colaboração. A suposta inabilidade política da presidente é desmentida precisamente pelo dia a dia dela com o Congresso Nacional e com os partidos políticos”.

O espírito bajulador de 2014, quando o entrevistei, daria lugar, em dezembro de 2015, à alma magoada. A famigerada carta de Temer a Dilma, praticamente justificando sua adesão ao golpe em curso, mostra que a perda de influência no governo poderia autorizá-lo à deslealdade de trabalhar, nas sombras, pela derrubada da presidente: “Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. A Senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas. 2. Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios, secundários, subsidiários. 3. A senhora, no segundo mandato, à última hora, não renovou o Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez belíssimo trabalho, elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele era uma indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a registrar este fato no dia seguinte, ao telefone. 4. No episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o Ministério em razão de muitas ‘desfeitas’, culminando com o que o governo fez a ele, Ministro, retirando sem nenhum aviso prévio, nome com perfil técnico que ele, Ministro da área, indicara para a Anac.’”

Se Temer reconhecia-se partícipe de articulações políticas em 2014, como disse a este jornalista, e em 2015 sentia-se jogado para escanteio, motivos houve. Perda de confiança por parte da presidente, que o via como um estimulador, ainda que de modo subliminar, do professo de impeachment?

Fato é que Dilma Rousseff caiu e Temer subiu. Qual a credibilidade do presidente da República Michel Temer? Ele foi depositário da esperança do povo brasileiro ou beneficiário do casuísmo-golpismo que tirou uma mulher honesta da Presidência da República? Teve a credibilidade que hoje diz que Lula não tem?

A credibilidade de Michel Temer certamente é bem alta nos saraus jurídico-políticos em que predominam as mesóclises. E no seio da alta finança. Os defensores da austeridade como fim em si estiveram eufóricos quando o governo Temer emplacou o teto de gastos, prova cabal de “credibilidade” para a Faria Lima.

Como já escrevemos neste espaço, o constitucionalista Michel Temer vilipendiou a Constituição ao promover uma reforma trabalhista totalmente descolada da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), apregoando uma “modernização” das relações de trabalho e em nome disso criando uma legião de trabalhadores informais, precarizados.

A reforma da Previdência que Bolsonaro impingiu ao país, com ajuda do Congresso mais canhestro da História da República, foi concebida pelo governo Temer. Só não emplacou naquele mandato porque o ocupante do Planalto perdeu qualquer condição de negociar com os parlamentares, denunciado que fora por corrupção após o vazamento do áudio de sua conversa macabra com Joesley “Friboi” Batista – esse é o Temer credível.

Repetimos o que já escrevemos, por oportuno: Michel Temer encarna a elite que traçou desde a proclamação da República a tragédia social brasileira. A elite do atraso, como bem definida pelo sociólogo e escritor Jessé Souza. Uma elite envernizada por uma oratória conciliadora, um discurso centrista hipócrita que mal disfarça a volúpia por privilégios, com um pé na academia e outro nos regabofes com doleiros e assemelhados.

Deixe um comentário