
Por Paulo Henrique Arantes
“O Julgamento do Macaco” – The Monkey Trial – é o nome pelo qual ficou popularmente conhecida a momentosa causa ajuizada em 1925 pelo Estado do Tennessee, Estados Unidos, contra John Thomas Scopes, um professor acusado de ensinar a teoria de evolução a seus alunos do colegial, o que violava uma lei estadual editada naquele ano que, por razões religiosas, proibia o ensino do evolucionismo darwiniano nas escolas públicas.
A quadratura atual, em que é protagonista Donald Trump, um negacionista da ciência com milhões de idólatras, parece reviver o surto de imbecilidade de 100 anos atrás.
O fato foi tratado com o merecido sarcasmo na imprensa da época por H. L. Mencken, jornalista iconoclasta mais influente da história dos Estados Unidos, que inspirou profissionais de mídia de todo o mundo por décadas a fio. Os brasileiros Paulo Francis, já falecido, e Diogo Mainardi tentaram ser “Menckens brasileiros”. Não conseguiram.
“O Julgamento do Macaco” foi primeiro grande julgamento midiático dos Estados Unidos, tendo atraído para a cidadezinha de Dayton, com 1.800 habitantes, mais de 200 repórteres. Durante dias, a primeira página de grandes jornais do país, como o The New York Times, deram cobertura ao caso e pela primeira vez as sessões de um tribunal foram transmitidas nacionalmente, ao vivo, via rádio. A grande repercussão do caso e sua importância histórica foram posteriormente ampliadas pelo fato de o episódio ter servido de inspiração para inúmeras reconstruções artísticas: livros, peças teatrais e filmes para TV e cinema.
No cinema, o diretor Stanley Kramer contou a história. O filme “O Vento Será tua Herança” – Inherit the Wind –, de 1960, baseado em peça teatral de mesmo nome, soa um pouco descomprometido com a exatidão do relato histórico, mas reproduz de forma fidedigna o clima e o sentido do episódio.
A questão da culpa ou da inocência do professor é imediatamente abandonada como secundária e desimportante, para dar lugar ao grande embate entre religião e ciência, entre os criacionistas ou antievolucionistas e sua crença no Gênesis conforme literalmente descrito na Bíblia – e os evolucionistas e suas teorias científicas, biológicas, da evolução.
Com exatidão, o escritor Luiz Barros escreveu na Revista da CAASP, anos atrás: “Tratou-se, naturalmente, de embate candente entre posições antagônicas e irreconciliáveis. O julgamento polarizou o país entre correntes do fanatismo religioso e modernistas. Juridicamente considerado, foi um curioso julgamento no qual nenhuma das partes tinha certeza e no qual, em síntese, esteve em pauta a prova da existência de Deus”.
O julgamento estendeu-se por 11 dias. Ao estilo da ocasião e do que o tema demandava, a essência da disputa foi retórica, privilegiando o confronto dos advogados no campo da oratória. A atuação dos jornalistas, por sua vez, privilegiava a propaganda modernista contrária à tradição religiosa. Mencken esteve lá.
Dois dos mais famosos advogados americanos deslocaram-se até a cidadezinha sulina para atuar na causa. O advogado William Jennings Bryan, conhecido político religioso conservador, que por três vezes havia sido candidato à presidência dos Estados Unidos, assumiu o papel de principal acusador ao réu, atuando junto ao promotor local. Pela defesa, atuou o igualmente célebre advogado Clarence Darrow, militante da União Americana pelas Liberdades Civis e um dos mais famosos oradores do país.
Destacando-se em meio a seus colegas de imprensa, foi marcante a atuação de Mencken. De sua pena irreverente teria saído, inclusive, o nome satírico pelo qual o julgamento é conhecido até hoje: The Monkey Trial. O filme resvala no sarcasmo e na irreverência do jornalista, mas é bem menos apimentado que os escritos de Mencken.
O diretor Stanley Kramer – o mesmo de “Julgamento em Nurenberg”, outra pérola jurídico-cinematográfica – reconstitui o clima do julgamento valendo-se de uma trinca de excepcionais atores para os papéis centrais: Fredrick March e Spencer Tracy, como os advogados, e Gene Kelly como o jornalista.
Logo após a promulgação da lei que proibia o ensino da evolução nas escolas e universidades do Tennessee, a influente União Americana pelas Liberdades Civis publicou um anúncio oferecendo apoio a quaisquer professores que se dispusessem a romper a lei e submeter-se a um julgamento “teste” sobre a proibição. O ocorrido não aparece no filme.
Um grupo de cidadãos de Dayton teria visto nisso uma boa oportunidade de publicidade para sua cidadezinha esquecida e tomado a iniciativa de envolver o professor na trama, que, consultado, aceitou sujeitar-se ao papel. Em função disto, ainda hoje, na internet há denúncias de inspiração religiosa fundamentalista visando a desqualificar o “Julgamento do Macaco” como sendo uma farsa publicitária.
