
Por Paulo Henrique Arantes
O Carrefour está prestes a causar um incidente diplomático, ou quase. O anúncio feito pelo seu CEO, Alexandre Bompard, de que as lojas francesas da marca deixariam de vender carne importada do Mercosul, em razão de sua discordância com os termos propostos do acordo dos sul-americanos com a União Europeia, provocou imediato boicote dos frigoríficos às unidades do grupo no Brasil, com apoio do ministro da Agricultura e da Pecuária, Carlos Fávaro. Numa defesa velada da rede varejista, a ministra da Agricultura e da Soberania Alimentar da França, Annie Genevard, disse que o acordo em costura favorece a concorrência desleal.
O acordo Mercosul-UE reveste-se de idiossincrasias e interesses específicos, os quais devem ser analisados cuidadosamente por técnicos setoriais – como, acredita-se, está sendo. Quanto ao Carrefour, este possui no Brasil um vergonhoso passivo no campo dos direitos humanos.
O supermercadão até que tenta revestir-se de um verniz humanizado. Em 2017, passou a incentivar um programa de inclusão de pessoas transexuais pautado pela conscientização dos seus funcionários (chamar empregado de “colaborador” é dose) sobre a importância da cultura de acolhimento e do respeito por pessoas trans, inclusive oferecendo cursos de capacitação pessoal e profissional com turmas de indivíduos transexuais. O Carrefour também firmou parceira com o Portal Transempregos para contratar pessoas trans.
Só que a mesma rede que adota um programa de incentivo à inclusão de pessoas transexuais responde por profissionais terceirizados do seu quadro de seguranças terem agredido um homem negro até a morte em novembro de 2020, numa de suas lojas de Porto Alegre (RS). Há mais casos do tipo envolvendo a megavarejista.
Em 14 de agosto de 2020, Moisés Santos, de 53 anos, passou mal numa unidade do Carrefour em Recife (PE). Foi coberto com guarda-sóis e cercado por caixas até que a loja encerrasse o expediente. Santos morreu de enfarte no local, onde permaneceu das 8h às 12h. À época, a direção da loja desculpou-se “pela forma inadequada que tratou o triste e inesperado falecimento do Sr. Moisés Santos, vítima de um ataque cardíaco”, e reconheceu ter errado ao não fechar a unidade imediatamente após o ocorrido.
Em 2018, funcionários de uma loja do Carrefour em São Bernardo do Campo (SP) agrediram um cliente por ter aberto uma lata de cerveja dentro da loja. Luís Carlos Gomes era uma pessoa com deficiência, foi encurralado no banheiro e sofreu múltiplas fraturas.
