
Por Paulo Henrique Arantes
Nem tudo que parece complexo, para ser compreendido, exige explicações complexas. O caso – ou não-caso – levantado pela Folha de S. Paulo acerca de condutas do ministro Alexandre de Moraes encontra numa frase dele próprio a mais perfeita justificativa: oficiar-se a si mesmo seria esquizofrenia.
Pode-se questionar a formatação do Judiciário, que possibilita o acúmulo de cargos em tribunais superiores, mas não se pode imaginar que o ocupante de dois cargos comporte-se como se não fosse a mesma pessoa.
Na mesma Folha, o advogado Thiago Amparo foi simples e direto: “O jornal afirmou que a atuação de Moraes estaria fora do rito. O rito era Moraes (STF) oficiar o Moraes (TSE). Qualquer análise precisa partir do fato de que as instituições estavam lidando com um campo político que queria implodir a democracia e literalmente o fez no fatídico 8 de janeiro. Sem essa clareza histórica, o que é análise vira inocência”.
Para ser contraposta, a “denúncia” de Fabio Serapião e Glenn Greenwald não requer contorcionismos, subterfúgios ou escamoteios. Jornalistas, políticos, juristas e cidadãos em geral que não se encontrem na banda ignóbil da sociedade já compreenderam que o jornal que considerou o regime torturador uma “ditabranda” escancara sua preferência pelo que Jair Bolsonaro e os bolsonaristas representam.
O “pluralismo” que a Folha de S. Paulo apregoa revelou-se piada de mau gosto há muito tempo. É o velho truque de salpicar colunistas progressistas para mascarar a verdadeira régua pela qual o jornal se baliza: o neoliberalismo, mesmo que a custo da democracia.
Já tivermos oportunidades, nesta coluna, de explicar como o neoliberalismo, cuja principal arma é a austeridade fiscal, abraça e patrocina regimes fascistas. A coisa começou no Reino Unido e na Itália no pós-Primeira Guerra Mundial, como relatou primorosamente Clara Mattei no livro “A ordem do Capital”, e ultrapassou o século XX para aterrorizar o XXI.
A obra de Mattei detalha como a austeridade impôs-se contra os levantes de trabalhadores explorados e consagrou-se como argumento impeditivo de avanços sociais. A semelhança com o Brasil de hoje é impressionante, onde a Faria Lima e seus serviçais na imprensa tentam fazer pespegar no governo a imagem de perdulário, semeando uma sensação de caos econômico. Trata-se de óbvia mentira, mas que serve a um jornal neoliberal como justificativa para aliar-se até a um Bolsonaro.
Os fascistas, exímios produtores de fake news, podem agora servir-se do factoide da Folha contra Alexandre de Moraes, atiçando-se mais uma vez, prontos para um novo bote sobre a democracia.
