A vaidade de Joe Biden

Fotos Públicas (Adam Shultz/Casa Branca)

Por Paulo Henrique Arantes

Só não fica velho quem morre cedo, e os defeitos cognitivos acometem a maioria dos idosos. Sim, há nonagenários de impressionante vigor intelectual, mas são exceções diante da crueldade do tempo. Entre os octogenários cada vez mais vê-se o brilho edulcorado pela experiência, como provam quatro dos maiores artistas brasileiros: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Paulinho da Viola, ainda hoje ativos e geniais

Política também é arte, desde que praticada como tal. Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, infelizmente, não integra a lista das personalidades cuja idade não atrapalha o exercício da arte da política. O tempo corroeu sua desenvoltura verbal. Teria lhe corroído a capacidade de raciocínio, obrigatória para quem toma decisões que afetam o mundo inteiro? Não vale a pena arriscar.

A vaidade dos políticos, especialmente aqueles que alcançam o cume do poder, é bem conhecida. Julgam-se pessoas ungidas, cultivam a imagem a qualquer preço, não largam o osso. Biden cumpriu de modo honroso seu mandato presidencial. Deveria, a bem do seu país – e do mundo -, passar o bastão. Só a vaidade justifica sua insistência numa candidatura que elegerá Donald Trump. É pena, mas a vaidade não porta o condão eliminador da senilidade.

Há quem veja etarismo nas críticas à teimosia do presidente americano. Não se trata disso. Etarismo é um tipo de preconceito, o qual fecha as portas a pessoas idosas independentemente de suas capacidades físicas e mentais.  Apontar, diante das evidências, a incapacidade de uma pessoa governar um país é zelar por esse país, ainda mais quando do outro lado um mentiroso insano, ensandecido, arma o bote.

Vaidade é coisa séria, que não poupa os senis.  

Por extremo respeito, analistas americanos alinhados ao Partido Democrata pedem a Biden que abdique da candidatura sem lhe cobrar pela absurda vaidade, palavra que nem sequer é usada em seus artigos. Este é Paulo Krugman: “Dada a situação em que nos encontramos, devo, com muita relutância, me juntar ao coro que pede que Biden se afaste voluntariamente, com ênfase no aspecto ‘voluntário’. Talvez alguns leais a Biden considerem isso uma traição, dado o quanto apoiei suas políticas, mas temo que precisemos reconhecer a realidade”.

Aqui vai um trecho de Thomas Friedman: “Se há um momento em que o mundo precisa de uma América em sua melhor forma, liderada por seus melhores, esse momento é agora – pois grandes perigos e oportunidades estão sobre nós. Um Joe Biden mais jovem poderia ter sido esse líder, mas o tempo finalmente o alcançou. E isso ficou dolorosa e inevitavelmente óbvio na quinta-feira (dia do trágico debate com Trump)”.

Os dois colunistas do New York Times, craques inquestionáveis e de notável influência, são educados e elegantes. Mas Joe Biden é um homem público, como tal deve ser cobrado. O futuro da humanidade pode ser vítima da sua vaidade.

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