
Por Paulo Henrique Arantes
Agora as palavras clima e medo andam juntas. A tragédia gaúcha deflagrou a sensação geral de impotência diante da possibilidade – ou da alta probabilidade? – de se acordar no meio da noite e ter de deixar a casa e os pertences para trás em nome da salvação da vida. Importante lembrar que a cidade de São Paulo, recentemente, nem chegou perto de uma inundação como a de Porto Alegre, mas boa parte da população ficou dias sem energia elétrica por causa de uma tempestade. Nossas metrópoles não suportam grandes intempéries climáticas (nem se fale de cidades litorâneas, ribeirinhas e das comunidades instaladas em encostas de morros).
A coluna perguntou a Marcelo Seluchi, coordenador de Operações do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Desastres Naturais, órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) se o medo de um desastre iminente se justifica. A resposta não poderia ser mais clara:
“Medo? Podemos dizer que sim, estamos condenados ao medo porque sabemos que esses desastres vão continuar ocorrendo”.
Desde 2011, ano do desastre na região serrana do Estado do Rio de Janeiro, as catástrofes causadas pela revolta da natureza diante do desrespeito ao meio ambiente têm sido frequentes. E a revolta não vem apenas por meio de chuvas: de 2012 a 2020 sofreu-se uma seca histórica. Quem não se lembra da situação em que ficou o Sistema Cantareira, em São Paulo?
“As pessoas esquecem um pouco das secas, por serem silenciosas e não provocarem tantas mortes nos dias de hoje, mas seus impactos são grandes. Se a seca paulista ocorresse nos séculos passado ou retrasado, as consequências seriam muito mais graves, como foi na década de 1870, quando uma longa estiagem praticamente dizimou a população do Ceará”, adverte Seluchi.
Quanto ao horror provocado pela fúria das águas, o Brasil viveu-o num curto espaço de tempo recente em Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro (Petrópolis e Angra dos Reis) São Paulo (São Sebastião) e, agora, Rio Grande do Sul – este último já protagonista da pior tragédia de motivação climática da História.
O medo do horror climático pode ser diminuído se os sistemas de prevenção tornarem-se mais resilientes. Muito mais resilientes. É nesse ponto que entra a vontade política
“A maioria das metrópoles estão despreparadas. Porto Alegre estava um pouco melhor preparada porque tem um sistema de diques, um sistema de comportas, um sistema de bombas, mas que não funcionaram adequadamente. Outras cidades, como Canoas, também têm diques, e esses diques não foram preparados para uma cheia do tamanho desta”, observa Seluchi. É necessário ser mais claro para que se identifique, então, a responsabilidade das autoridades públicas gaúchas?
Marcelo Seluchi participou na quarta-feira (19) de uma reunião na Câmara dos Deputados em que se discutiu um novo de sistema de alerta sobre risco de catástrofe por celular. A ver. O que existe hoje em algumas regiões baseia as mensagens no endereço cadastrado pelo usuário. Ou seja, se minha residência estiver em área de risco iminente, eu serei avisado. Se eu estiver numa área de risco longe da minha casa, ficarei à deriva.
No segundo semestre de 2024, como já se informou, estaremos livres das consequências de El Niño, mas teremos que enfrentar as idiossincrasias de La Niña. “Normalmente, durante anos de La Niña chove menos na região Sul”, diz Seluchi. E prossegue: “La Niña consiste no resfriamento das águas do Pacífico Equatorial, só que o restante do Oceano Pacífico e praticamente todo o Oceano Atlântico estão mais quentes do que o normal, então vai ser uma La Niña muito particular. Eu diria que sem precedentes”.
Isso significa que choverá pouco no Sul (o Paraná já está em estado de seca), mas muito no Norte e no Nordeste. E o Pantanal, especialmente, deverá ser bastante afetado. “Ainda estamos no início da estação seca e o Pantanal já está tendo muitos incêndios”, alerta Seluchi. Também a Amazônia não sairá ilesa de La Niña: “Tivemos uma situação chuvosa muito deficiente na Amazônia. Então, num período seco após um período de chuva fraco, é muito provável que os meses de baixa do Amazonas sejam abaixo do normal”.
