
Galípolo e Belluzzo (foto publicada em Carta Capital).
Por Paulo Henrique Arantes
Se há um brasileiro, hoje, detentor de poder e que o usa contra os interesses dos brasileiros, seu nome é Roberto Campos Neto. O presidente do Banco Central reveste-se de um verniz técnico que mal lhe disfarça o compromisso único com o “mercado” (mercado financeiro, entenda-se), aquele espectro que assombra a economia real. O compromisso do BC deveria ser com o Brasil.
Nem Miriam Leitão enxerga risco de descontrole da inflação, mas a “expectativa inflacionária” leva Campos Neto a uma preocupação doentia, pois decorrente de uma ortodoxia cega. Por sua cartilha, o atingimento do centro da meta inflacionária garantirá o paraíso, nem que a custo de juros teratológicos. Emprego, renda, consumo das famílias, aquecimento da indústria e do comércio – nada disso consta do dicionário neoliberal do atual presidente do Banco Central do Brasil.
A nos sorrir a sorte, e a se confirmar o prognóstico de um tal “bastidor” (não sei quem é esse sujeito que faz a fama de tantos jornalistas), o próximo presidente do Banco Central será Gabriel Galípolo, atual diretor de Política Monetária e ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda de Fernando Haddad. Professor da PUC de São Paulo, Galípolo foi CEO do banco Fator sem dobrar-se ao financismo rasteiro. Sua ligação com o professor Luiz Gonzaga Belluzzo é um farol de lucidez apontando para o futuro.
Belluzzo e Galípolo escreveram juntos muita coisa boa. O livro “Manda Quem Pode, Obedece Quem Tem Prejuízo”, por exemplo, é saboroso. A obra é de 2017 e, apesar de alguns indicadores terem mudado, permanece conceitualmente atual. Eis um trecho, que deveria ser lido por Roberto Campos Neto:
“O Japão, um dos países mais endividados do mundo, sustenta uma dívida pública equivalente a 250% do seu PIB, mas suas taxas de juros são iguais ou menores que 0%. Os EUA detêm uma dívida de mais de 105% do seu PIB e o FED pratica taxa de juros inferiores a 0,75%. Os países da Zona do Euro apresentam endividamento de aproximadamente 92% do seu PIB, e o BCE também pratica taxas de juros nulas.”
Outro parágrafo que vai na ferida:
“A história recente da evolução da dívida pública no Brasil demonstra o avesso da sabedoria convencional. Dizem os sabichões que a taxa de juro é elevada por causa do estoque da dívida, mas o caso brasileiro parece afirmar que a dinâmica da dívida é perversa por causa da taxa de juro de agiota.”
“Taxa de juro de agiota” – não poderia haver descrição mais perfeita da Selic atual, nem se fale dos juros cobrados na praça pelos bancos. Mas Galípolo e Belluzzo têm muito, muito mais a dizer. É gratificante ler economistas que tratam a economia como disciplina humana, não como compilação de regras matemáticas. A conferir:
“O fato de uma classe social monopolizar os meios de produção e controlar o crédito lhe confere o poder de determinar a renda desta sociedade. Portanto, para que as necessidades pessoais e coletivas sejam satisfeitas é necessário que os agentes detentores dos meios de produção e crédito gerem mais dinheiro do que o investido inicialmente. O destino desta economia depende da decisão de gastar, investir e se endividar dos capitalistas. A complexidade reside no fato desta decisão nem sempre se dar de forma a gerar a melhor renda e emprego para a sociedade.”
Um dos autores das palavras acima pode vir a ser presidente do Banco Central do Brasil. A pô-las em prática, subverterá a ordem neoliberal em vigor.
