
Foto Edilson Rodrigues / Agência Senado
Por Paulo Henrique Arantes
“É um governo de inspiração social-democrata, como nós [do PSDB] fomos, um pouco mais à esquerda. A ideia de que existem dois radicalismos me afasta definitivamente desse grupo [do PSDB]. O PSDB tem que se alinhar com campos democráticos, contra a extrema direita, que está aí atuante, ameaçadora, e não só no Brasil. Essa é a posição correta de um partido democrático. Será que pediram que o líder do PSDB no Senado, Izalci Lucas, se licenciasse após visitar os bolsonaristas presos do 8 de Janeiro na Papuda?”.
Aplausos pela fala acima ao seu autor, o ex-chanceler Aloysio Nunes Ferreira, que chefiará a Apex em Bruxelas. O tucano também é ex-senador, ex-deputado federal, ex-ministro da Justiça, ex-vice-governador de São Paulo, ex-ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, ex-ministro das Relações Exteriores e ex-guerrilheiro. Na ALN de Marighella, era Mateus.
Aloysio já esteve no lado certo da História, e parece que ora retorna. Naqueles momentos em que o oportunismo falou mais alto, apoiou o impeachment de Dilma Rousseff, integrou o governo do golpista Michel Temer e foi voz forte a exaltar o “combate à corrupção” durante os famigerados “mensalão” e “petrolão”, até ser enredado por receber recursos não-contabilizados da Odebrecht.
É bom de gogó, e as aspas que abrem este artigo são corretíssimas. Aloysio toca no ponto fulcral do debate político brasileiro atual: a falsa ideia de que existem dois radicalismos em voga no Brasil.
A insistência de jornalistas, “analistas” e políticos em mostrarem-se imparciais perante uma “polarização” entre Lula e Bolsonaro é ridícula. O esforço de colunistas dos jornalões para encontrar similaridades entre os dois governos é patética. Não há termo de comparação entre um governo militarista, armamentista e negacionista e outro que busca, antes de tudo, trazer o país de volta à civilização.
Ao jornalista, por óbvio, não cabem partidarismos que lhe obnubilem a visão, mas tratar com equilíbrio os governos Bolsonaro e Lula 3 significa dizer a verdade sobre cada um, não ficar à cata de pecadilhos do segundo para equipará-lo ao primeiro. O primeiro posiciona-se abertamente fora do campo democrático.
O que a “imprensa” – especialmente os jornalões – fez durante a pandemia foi de arrepiar. Trata-se de um modelo de mau jornalismo, em que o princípio de “ouvir os dois lados” desvirtuou-se ao ponto de colocar no mesmo patamar cientistas e charlatães, verdades provadas e mentiras forjadas, vacina e cloroquina. Em nome da imparcialidade, a “grande imprensa” repercutia falas do medieval Osmar Terra “explicando” a imunidade de rebanho, conceito rechaçado pela totalidade dos epidemiologistas, entre outras barbaridades.
O papel do jornalismo é desmascarar os picaretas, não lhes dar voz, seja na ciência, na política, na economia ou onde for. Quando se apontam duas searas radicais a compor o cenário político brasileiro, comete-se uma picaretagem tremenda.
