
Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF
Por Paulo Henrique Arantes
Ricardo Lewandowski protagonizou com Joaquim Barbosa um acalorado bate-boca no plenário do Supremo Tribunal Federal. Era 2013, o STF era presidido por Barbosa e julgavam-se recursos no processo do “mensalão”. Lewandowski pediu o adiamento da discussão sobre um recurso apresentado pelo ex-deputado Bispo Rodrigues. O destemperado, apressado e mal-educado Barbosa acusou-o fazer chicana. Rememorando: Barbosa era o relator do “mensalão; Lewandowski, o revisor.
Segue reprodução do entrevero:
Lewandowski: Presidente, nós estamos com pressa do quê? Nós queremos fazer justiça.
Barbosa: Nós queremos fazer nosso trabalho, e não chicana, ministro.
Lewandowski: Vossa excelência está dizendo que estou fazendo chicana? Eu peço que vossa excelência se retrate imediatamente.
Barbosa: Eu não vou me retratar, ministro.
Lewandowski: Vossa excelência tem a obrigação como presidente da Casa. Está acusando um ministro, um par de vossa excelência de fazer chicana, eu não admito isso.
Barbosa: Foi uma votação unânime.
Lewandowski: Eu estou trazendo um argumento.
Barbosa: Um argumento, ministro?
Lewandowski: Apoiado em fatos, em doutrina. Eu não estou brincando presidente, vossa excelência está dizendo que estou brincando? Eu não admito isso.
Barbosa: Faça a leitura que vossa excelência quiser.
Lewandowski: Vossa excelência preside uma Casa de tradição multicentenária.
Barbosa: Que vossa excelência não respeita. […] Está encerrada a sessão. Tem vista em mesa, portanto.
A intervenção do então decano Celso de Mello foi decisiva: “São importantes as razões que o eminente ministro Lewandowski suscita e expõe. Tem sido tradição nesta corte, quando um ministro está em dúvida e prefere não pedir vista, ao invés disso, porque, talvez, nós pudéssemos encerrar a sessão. […] Na quarta-feira, podemos partir deste ponto apenas.”
O Direito, em essência, deve ser garantista, como Ricardo Lewandowski sempre foi. Outros juízes, como Joaquim Barbosa mostrava-se à época em que esteve no STF, adotam postura persecutória, punitivista, tal qual justiceiros, atropelando direitos de réus e defensores.
Joaquim Barbosa também cultivou a fama de tratar mal advogados. Fama plenamente justificada, diga-o o criminalista Luiz Fernando Pacheco, que defendia José Genoíno no “mensalão”. Ele viveu um caso emblemático de violação de suas prerrogativas de advogado, em 2014.
Pacheco manifestava-se pela ordem ao microfone no plenário do STF. Então presidente da corte, Joaquim Barbosa ordenou o desligamento do seu microfone. O advogado continuou a falar mesmo com o microfone desligado. Barbosa então ordenou sua retirada do plenário por seguranças.
“Eu estava exercendo o direito de defesa do meu constituinte, utilizando-me das prerrogativas profissionais escritas em lei perante a casa maior da Justiça brasileira. Somente sob a presidência de uma pessoa autoritária uma situação como aquela poderia ocorrer”, recordou Pacheco à coluna.
Ao contrário de um Joaquim Barbosa e de muitos outros juízes, Lewandowski jamais demonstrou desconhecer o papel do advogado no sistema da Justiça. Papel bem descrito a este colunista por Celso de Mello, em 2013: “As prerrogativas do advogado, são, na verdade, direitos que competem muito menos ao advogado e muito mais às pessoas a quem o advogado dá assistência técnica. Isso é fundamental. Nota-se, muitas vezes, incompreensão por parte de alguns órgãos do Estado – do Poder Judiciário e também dos Poderes Executivo e Legislativo – das prerrogativas desses profissionais ou criando obstáculos ilegítimos ao normal desempenho pelo advogado de suas relevantes atribuições profissionais”.
É bom ter um garantista no Ministério da Justiça.
