Quadrilha verde-oliva

Por Paulo Henrique Arantes

A geração deste colunista, nascida no limiar dos anos 60, passou a infância e a adolescência a ver militares como encarnações do poder. Nas bolhas pouco informadas da classe média nada se sabia sobre os porões e as torturas. O que se via era Chico Buarque e Caetano Veloso irem embora do país, por “subversivos”. Dom e Ravel dominavam as mentes infanto-juvenis com “Eu te amo, meu Brasil”, a TV Globo dava uma força extra aos mandatários e nas ruas viam-se Fuscas com o adesivo “Brasil: ame-o ou deixe-o”.

No ginásio ministrava-se uma disciplina chamada “Educação Moral e Cívica”, pela qual se tentava pespegar nas mentes jovens os valores do regime. Às sextas-feiras cantava-se o Hino Nacional, hora solene, com a mão no peito em louvor ao hasteamento da bandeira.

A classe média despolitizada, mesmo quando não morria de amores por coronéis e generais, via-os numa espécie de pedestal inalcançável. Os que os consideravam duros demais com artistas e intelectuais nunca chegaram a imaginá-los como afeitos a peculatos e congêneres. Eram vistos como ditatoriais, mas honestos com a coisa pública – essa era a obnubilada paisagem política visualizada pelos incautos naqueles tristes anos.

A redemocratização foi celebrada pela classe média e até hoje, mesmo elegendo Jair Bolsonaro, a maioria dos brasileiros diz preferir a democracia à ditadura. Sobrara o retrato das Forças Armadas, em termos de participação política, como uma espécie de instituição opressora mas incorruptível, a despeito de terem vindo à luz casos escabrosos ocorridos durante o regime militar, entre os quais a participação de sargentos em contrabando no Rio de Janeiro (1970), as comissões à General Eletric (1976), o caso Coroa-Brastel (1981) e muitos outros.

Foi preciso o advento Bolsonaro para a face corrupta da classe militar brasileira ser definitivamente desnudada. Só o fato de integrar maciçamente o governo de um capitão de conduta desairosa no âmbito do Exército, enaltecedor da atuação de milícias e íntimo delas, já seria suficiente para derrubar o discurso moralista que caracteriza o militar típico brasileiro. Porém houve mais, muito mais.

Os militares no governo Bolsonaro, durante a pandemia, trabalharam em favor do negacionismo científico e estiveram envolvidos na compra superfaturada de vacinas, representando-se pelo indescritível general Pazuello. Bons para comandar tropas, em tese, preencheram milhares de cargos em estatais e institutos de pesquisa sem qualquer conhecimento técnico para as funções às quais foram designados. Trabalharam para a destruição do Estado, salvo exceções que pularam do barco logo cedo.

Hoje desvendou-se o protagonismo militar, nas figuras de Cid pai e Cid filho, em negociações internacionais de objetos valiosos que deveriam ser incorporados ao patrimônio da União. A quadrilha das joias é verde-oliva.

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