Chico Buarque de Holanda

Por Paulo Henrique Arantes

Chico Buarque de Holanda povoa nossa vida com seu talento e seu engajamento. É aquele compositor e cantor que explodiu nos festivais dos anos 60 e que, desde então, jamais foi seduzido pela arte comercial. Influenciado por João Gilberto, Tom Jobim e outros craques da Bossa Nova, também bebeu em Noel Rosa, Wilson Batista, Nelson Cavaquinho e tantos sambistas geniais. A Tropicália bateu nele de frente, mas Chico soube defender seu “conservadorismo” musical.

A jornada de Chico envolve algumas bobagens que dele disseram. Por exemplo, quando referiam-se a ele como “um grande letrista”, na tentativa de diminuir a qualidade de suas melodias. Letra e música em Chico são igualmente brilhantes, concordam aqueles que entendem um pouco do cancioneiro popular. “Construção”, de 1973, talvez seja o melhor disco de música brasileira já produzido.

Hoje, suas qualidades literárias também são reconhecidas. Ganhar o Prêmio Camões não é para qualquer um.

Chico Buarque de Holanda teve o berço intelectual necessário para alçar voos artísticos tão altos, sempre portando o diferencial de harmonizar profundidade e simplicidade. Não se é filho de Sérgio Buarque de Holanda impunemente.

O historiador pai de Chico foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. É possível vê-lo naquela histórica foto no Colégio Sion, em 1980, ao lado de Lula, Olívio Dutra, Apolônio de Carvalho e tanta gente, e em outros momentos da redemocratização do Brasil, sempre no lado certo. O autor de “Raízes do Brasil” emprestou um pouco de sua bagagem para que fosse construído o arcabouço (perdão) ideológico do PT.

A identificação de Chico com princípios socialistas não decorre de apego a dogmas marxistas ou coisa que o valha – ele herdou do pai um senso crítico sem vieses.  Deve-se, totalmente, a uma visão de mundo em que predominam a civilidade, o amor ao próximo sem ver raça, o entendimento da arte – especialmente da música – como instrumento de enlevação da alma e, ao mesmo tempo, de posicionamento político. Tais coisas não se dissociam na democracia.

Se fôssemos classificar a obra musical de Chico Buarque de Holanda, o adjetivo “coerente” viria à testa. Na época da redemocratização, compôs “Vai Passar”, cujo recado era claríssimo nestes versos:

Num tempo, página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

Agora, quem passou foi Jair Bolsonaro e Chico nos brinda com “Que tal um samba”. É de lavar a alma:

Que tal uma beleza pura no fim da borrasca?
Já depois de criar casca e perder a ternura
Depois de muita bola fora da meta

De novo com a coluna ereta, que tal?
Juntar os cacos, ir à luta
Manter o rumo e a cadência
Desconjurar a ignorância, que tal?

Deixe um comentário