Zola contra os falsos patriotas

Por Paulo Henrique Arantes

Émile Zola é sinônimo de engajamento literário. Expoente da corrente naturalista, intelectual indignado com as injustiças do mundo e com a hipocrisia da burguesia do fim do Século XIX, especialmente a francesa, já seria imortal tivesse escrito apenas “Nana” e “Germinal”. Reverenciado após 40 anos de labuta literária, saboreava a zona de conforto proporcionada pela fama e o reconhecimento, até que uma das maiores aberrações jurídicas da História o fez despertar de novo para o embate – o caso Dreyfus, emblemático do antissemitismo florescente na Europa.

Quem estudou Direito conhece de cor o caso Dreyfus e o teor de J’Accuse, a contundente carta aberta ao presidente da França, Felix Faure, publicada por Zola na imprensa parisiense em 1898 e que levou o escritor a ser condenado por difamação. Zola fugiu para Londres para não ser preso e de lá continuou sua campanha pela revisão da condenação do capitão Dreyfus, desde 1894 isolado na Ilha do Diabo por traição à pátria – um vazamento de documentos sigilosos das Forças Armadas, na verdade executado por outro militar.

A história de Dreyfus e sua escolha como bode expiatório para “manter a honra” do Estado-Maior francês encontra-se devidamente esmiuçada. Vida e obra de Émile Zola, idem. O cinema também prestou sua homenagem ao escritor que, aos 60 anos, rico e famoso, comprou briga com o governo, os militares, os juízes e boa parte da opinião pública franceses.

“A Vida de Émile Zola” é um filme americano de 1937, ganhador do Oscar, dirigido pelo alemão Wilheim Dieterle. Também ator, Dieterle deixou uma Alemanha arrasada pela Primeira Guerra Mundial, onde o nazismo emergia, para trabalhar nos Estados Unidos. Nas primeiras cenas da fita em tela, notam-se claramente elementos estéticos do expressionismo cinematográfico alemão, corrente artística genial que tem como ícones Fritz Lang, Robert Wiene e F.W. Murnau.

Dieterle atuara em “Fausto”, obra-prima de Murnau, de quem deve ter sofrido influências. O expressionismo dá as caras na primeira sequência de “A Vida de Émile Zola” – é possível identificar um cenário de casario desenhado sobre superfície plana pela janela do cômodo em que um jovem e pobre Zola confabula com seu melhor amigo, o pintor Paul Cezanne. Depois disso, o filme de Dieterle segue com competência formal em uma Paris cenográfica perfeita, quase sempre chuvosa, ambientes internos detalhistas e cenas de comoção popular realistas.

O roteiro é acelerado, a descrição das transições temporais é superficial. Zola salta de autor marginal para intelectual-escritor consagrado num piscar de olhos. O ritmo parece ser opção narrativa de Dieterle, não erro.

“Pare de escrever coisas desagradáveis”, escuta do publisher o romancista novato. “Nana” explode de vendas de Zola começa a chamar a atenção do Poder, já que o confronta com dureza. “A Derrocada” ataca abertamente a conduta francesa da Guerra Franco-Prussiana e “Germinal”, de 1885, para muitos sua obra maior, abala o regime.

O espirituoso Émile Zola interpretado por Paulo Muni é magnífico. O personagem envelhece sem exageros caricaturais. Torna-se aos poucos mais gordo e contemplativo. Seu senso crítico refina-se. O orgulho e a vaidade ganham espaço no “velho” Zola, que é convidado a integrar a Academia de Letras. Até que o caso Dreyfus lhe bate à porta.

O “renascimento” de Émile Zola, aos 60 anos, para as grandes causas lhe custaria a liberdade não tivesse fugido para o Reino Unido. As melhores sequências do filme de Wilheim Dieterle são as do julgamento do escritor por difamação – o preço de J’Accuse. No teatro de parcialidade judicial encenado para condená-lo e adular os militares, destacam-se o cinismo do juiz, o ódio popular gerado pela manipulação da informação e a coragem do seu advogado, que esbraveja ao ter suas prerrogativas pela enésima vez violadas: “Eu não vou tolerar a parcialidade desta corte!”.

O recado pessoal do escritor que engrandece a cultura e a sociedade francesas é dado em pronunciamento perante a corte que irá condená-lo. Sóbrio, calmo, lúcido, ele descreve a crueldade humana de que Alfred Dreyfus (no filme, interpretado por Joseph Schildkraut) é vítima em nome de um falso patriotismo. Chamado de traidor por um oficial, Zola responde com irritante tranquilidade: “Uns servem à pátria com a espada, outros com a pena. Veremos como a História se referirá a cada um de nós”.

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