Costa-Gavras e três ditaduras que ainda assombram

Por Paulo Henrique Arantes

“Qualquer semelhança com fatos ou pessoas vivas ou mortas não será coincidência, mas intencional”. Um letreiro com essas palavras abre “Z”, filme de 1968 que dá a dimensão da obra de Constantin Costa-Gavras.  O diretor grego-francês, hoje com 89 anos, é um ícone do chamado cinema político. Ele não esconde sua ideologia, claramente à esquerda, mas denunciar horrores de ditaduras não deveria ser exclusividade de militantes deste ou daquele matiz ideológico. De todo modo, tão importante quanto o teor político dos filmes de Costa-Gavras é a qualidade cinematográfica deles.

“Z” baseia-se em fatos que agitaram a Grécia em 1963, quando o deputado democrata Grigoris Lambrakis foi assassinado diante dos olhos das forças policiais com a conivência, ou por ordem, do regime. O roteiro é de Jorge Semprún e Vasilis Vasilikos. Os nomes dos personagens são fictícios e nem mesmo o país é identificado, o que seria desnecessário e pouco sutil.

Costa-Gavras é um diretor realista e sua câmera trabalha em ritmo documental em vários momentos de “Z”, carregando nos close-ups que desnudam aflições e intenções dos personagens e em travellings agudos. Não há efeitos especiais, mas o uso magistral dos instrumentos do cinema puro: luz, câmera e atores – Yves Montand, Irene Papas, Jean-Louis Trintignant e Renato Salvatore estão perfeitos.

A ditadura de “Z” sintetiza todos os demais regimes autoritários como conhecidos. Nela estão presentes a falsa defesa da liberdade como justificativa da repressão, o uso de cidadãos incautos em atos pró-governo, a conivência policial com o terror de Estado, o subjugo do Poder Judiciário, a colaboração do grande capital e, a pairar sobre tudo, a violência.

A indignação e o protesto contra o Estado opressor, razões do cinema de Costa-Gavras, inevitavelmente levaram-no às ditaduras sul-americanas que perduraram dos anos 60 aos 80. A Guerra Fria comandava corações e mentes e o diretor não teve medo de mostrar como os Estados Unidos deram suporte aos regimes de exceção na América Latina. Assim denuncia o diretor em “Estado de Sítio” (1972) e “Desaparecido” (1982).

“Estado de Sítio” mostra, sempre em nomes fictícios, o sequestro e a morte do agente americano Dan Mitrione pelos Tupamaros em 1970, em Montevidéu, quando o Uruguai era presidido por Jorge Pacheco Areco. Ao mesmo tempo que Mitrione, foi também sequestrado pelo movimento subversivo o cônsul brasileiro Aloysio Dias Gomide, mas este acabou sendo libertado.

Dan Mitrione, denominado no filme Philip Michael Santore e interpretado por Yves Montand, era uma espécie de professor de tortura que os Estados Unidos cediam aos ditadores latino-americanos como parte da estratégia de quebrar a espinha dorsal das organizações de esquerda. O termo não aparece na fita, mas era o auge da Operação Condor, ação colaborativa entre as ditaduras sul-americanas respaldada pelos Estados Unidos.

Nunca a câmera de Costa-Gavras foi tão decisiva quanto em “Estado de Sítio”, explorando close-ups, planos longos, cortes abruptos, enquadramentos inusitados. A montagem das cenas que compõem a sequência do rapto de Mitrione é primorosa. A narrativa dá-se por imagens acima de tudo, porém sem prejuízo dos diálogos: o interrogatório do agente americano pelo ativista tupamaro é um confronto retórico entre duas inteligências superiores.  O roteiro, de Franco Solinas e do próprio Costa-Gavras, recorre bastante aos flash backs, cumprindo função didática.

“Não há crimes políticos no nosso país, só criminosos comuns que sequestram e roubam bancos”. Assim brada o chefe de polícia uruguaio (Renato Salvatore) em “Estado de Sítio”, como tantas vezes bradou-se no transcorrer da ditadura civil-militar brasileira.

Costa-Gavras não apenas descreveu a truculência das ditaduras latino-americanas. Tocou no ponto que talvez seja o mais relevante para compreender como e por que regimes de extrema direita instalaram-se na região. A Guerra Fria e o alinhamento ideológico aos Estados Unidos explicam 50% das razões, as outras 50% são explicadas pelo empenho do capital em perpetuar-se como dono do poder: no Uruguai retratado em “Estado de Sítio”, quase todos os ministros de Estado eram banqueiros.

Com “Desaparecido”, filme de 1982 que se passa na Santiago do Chile de 1973, nos dias exatos em que a ditadura do general Augusto Pinochet instalava-se pela derrubada a balas e bombas do governo socialista de Salvador Allende, Costa-Gavras relata mais uma vez um caso real de horror político. A fita se abre exibindo o letreiro: “Este filme é baseado em uma história real. Alguns nomes foram modificados”.

Vale uma curtíssima sinopse. Jovem escritor e designer de animação americano (interpretado por John Shea), que reside com a mulher (a ótima Sissi Spacek) em Santiago, é simpático à militância de esquerda e descobre, por acaso, o envolvimento de oficiais americanos no golpe de Estado em curso. Ao que tudo indica preso pelo regime, desaparece. Seu pai (encarnado pelo inigualável Jack Lemmon), um empresário nova-iorquino, viaja ao Chile para tentar encontrá-lo, mas depara-se com a negligência, a burocracia e o desinteresse da embaixada americana, se não com seu envolvimento no caso.

O horror da ditadura chilena é retratado com fidelidade em “Desaparecido”. O expectador sente calafrios ao percorrer, pela câmera de Costa-Gavras, as dependências do Estádio Nacional, onde centenas de pessoas, “subversivas” ou não, foram torturadas e assassinadas, algumas das quais cimentadas e ocultadas dentro das paredes.

Em “Desaparecido” Costa-Gavras, autor também do roteiro junto com Donald Stewart, trafega entre os dramas político e humano. Se o Chile vivia um terror de Estado como poucos vistos na História, a figura do pai à procura do filho guardava uma dor íntima imensurável. O personagem de Jack Lemmon é um americano conservador, que preferia ver o filho longe de amigos dispostos a mudar o mundo. Suas discussões com a nora progressista são espirituosas. Só que não há conservadorismo que sobreviva diante da desgraça de um filho.

O caso real rendeu processo judicial contra 11 funcionários da Embaixada dos Estados Unidos no Chile e contra o secretário de Estado Henry Kissinger. Depois de 17 anos sem desfecho, a ação foi arquivada e os autos foram classificados como segredo de Estado.

(Artigo publicado originalmente na Revista da CAASP, edição de julho de 2022)

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